4.4.06

O mulherio felisminado

Este blogue estará provavelmente quietinho durante os próximos breves dias, enquanto a insensata leva o alfabeto para outras composições. Vem mesmo a calhar: se é certo que nunca se padece de míngua de tempo, apenas se vê reflectida a lista das prioridades na exiguidade, sempre remediada, dos recursos do tempo e do espaço, não menos certo é que o bolo falimentar das disciplinas vitais às vezes atinge tal densidade que só as espumas são autorizadas à luz do sol. E as espumas, as espumas encantam e frustram; são formas tantalizadoras do lúdico, para chóninhas, por hipótese. Adiante, que não é disso que se versa.
Passo às palavras a eito: antes de me interromper, ainda que simbolicamente, uma necessária citação, já atrasada de dias, deste post do bl_g_ _x_st_ , que eu gostaria de ter escrito, de certeiro e bem talhado.
Acresce agora, da mesma estirpe, este, em que vem referida a humilhação, invocada pela Zita Seabra, que a lei das quotas importaria para as mulheres - embora insira também o interessante tópico desse PSD benetton, laranja a bem dizer furta-cores, se quisermos olhar com atenção o bom género dos seus notáveis.
Ora, eu sei exactamente de que é que a Zita Seabra está a falar: não preciso de quota para me medir com os outros; há, felizmente, embora isso não me dê a felicidade na vida, várias disciplinas, artes e habilidades em que não receio, nem por um segundo, defrontar-me com a turba, um a um, sabendo que vou sair vencedora - e, o caso exige que a monstruosa personalidade de quem escreve se revele por um momento, se excepcionalmente não sair vencedora, o que me vencer merece a minha eterna paixão, ou no mínimo a minha fiel admiração e amizade.
Mas, não tendo recebido qualquer espécie de consagração por via masculina (como é próprio das mulheres filhas de, netas de, mulheres de, viúvas de que fazem o protagonismo "feminino" das sociedades intensamente hierarquizadas e masculinamente dominadas), apercebo-me bem de como se vive contra o vento das solidariedades, sinais de respeitabilidade, ritmos e marchas masculinas nestas bravatas com que me entretenho e sei encontrar todos privilégios e golpes de sorte que me assistiram ao longo da vida quando me dispus a juntar o inconciliável (desde logo, a procriação consciente e a credibilidade na praça, ou melhor, na praceta).
Como a Zita Seabra, eu diria: eu não preciso das quotas para nada! Ponho, disponho, lanço e retomo ao nível dos melhores, quando a isso me proponho (pronto, está bem!, escolhendo adequadamente o campo, para voltar à realidade e à sensata modéstia). Eu e muitas outras. Eu e - Gauss, komm hier! - mais de metade das outras.
No entanto, eu, mesmo tão ás-inha, considero que a "humilhação" das quotas é um mal necessário; que a vaidade é o bem menos relevante nesta questão. Que não há hesitação ética ou política (é o mesmo, ok?!) quanto à necessidade das quotas.
Sem ainda saber muito bem porquê (talvez aproveite a pausa dos próximos dias para explorar um pouco a ideia) surge-me no espírito, como uma brincadeira cuja ironia resulta do excesso de realidade, esta ideia alternativa ao estabelecimento de quotas: o concurso, o exame. Conceda-se aqui a ficção e pondere-se este sistema: os senhores candidatos a candidatos a deputados fariam um exame, as melhores seriam as elegíveis nas listas. Não há, tanto quanto conheço, área de actividade que tenha sido submetida a exames que paulatinamente não tivesse ficado enxameada de mulherio: numerus clausus universitários, medicina, magistratura ... Por isso, oh povo felismino de altivo porte!, verdadeiramente mortífera para a hegemonia masculina do poder seria a instituição de um qualquer sistema de provas.
A vaidade ferida do mulherio que se julga superior às quotas bem pode untar-se com esta certeza: o sistema só seria desgostantemente womenfriendly se se passasse ao crivo da prova escrita...! Not joking!
Mas, podemos dizer que os exames de admissão, tomados de assalto pelas mulheres, essas provas todas meritoriamente centradas em ideias de mérito, essa espécie de anti-quotas, são motivo para nos encher de orgulho?
Bom, a mim é que não. Eu nem sequer acredito na excelência desses sistemas de apuramento, considero-os deficientemente construídos, são a medíocre construção do mérito, ou pelo menos assim resultam, postas todas as circunstâncias. ... E aliás, se outras razões não existissem, os meus filhos, que são varões, não são menos capazes do que eu e eu não os quero fora de jogo por causa de umas criaturas felisminas de espírito obediente, que debitam competentemente os missais.
Vamos pelas quotas, que esse ainda é o caminho mais suave.

5 comentários:

sabine disse...

Bem!...

sabine disse...

(o que não é o mesmo que concordar consigo. Apenas estou surpreendida com a sua argumentação)

sabine disse...

Agora, depois de ler de novo: concordo consigo.

Susana Bês disse...

Sabine, agradeco e fico muito contente! O post tambem pretendia ser uma resposta ao comentario que tinha deixado aii para tras - e a que eu nao cheguei a responder. Bem vinda aa causa (este teclado em que me encontro desconhece os acentos...)

Graza disse...

Uffa, vá lá, estava a ver o caso mal parado.