Do tropel de paixões, que me arrastava;
Ah!, cego eu cria, ah!, mísero eu sonhava
Em mim quase imortal a essência humana.
De que inúmeros sóis a mente ufana
Existência falaz me não doirava!
Mas eis sucumbe a Natureza escrava
Ao mal que a vida em sua origem dana.
Prazeres, sócios meus e meus tiranos!
Esta alma, que sedenta em si não coube,
No abismo vos sumiu dos desenganos.
Deus, ó Deus!... Quando a morte à luz me roube,
Ganhe um momento o que perderam anos.
Saiba morrer o que viver não soube.
[Manuel Maria Barbosa du Bocage]
Não sou versada em literaturas, e a bem dizer, em nada, a não ser em modo diletante. Mas ando por aqui e isso habilita a falar sobre a vida. Sobre a minha e até sobre a do Bocage, na parte em que ele parece reflectir sobre a sua. A minha ternura por Bocage neste soneto não tem fim. Gostava de lhe poder ter dito que o admiro e sigo, que acho válido comovermo-nos com a infinitude e imortalidade da essência humana. Dizer-lhe assim: "a mim, parece-me que tens razão, sempre tiveste razão; é na alma sedenta que a redenção consegue acontecer e os prazeres tiranos, todos os abismos e desenganos são as sombras dos sóis que nos resgatam".
Por mais amargamente que digam que ele fecha o soneto, gosto de pensar que, chamando-lhe graça divina ou que quiser, ele chega ao fim ainda no viço de crer que, afinal, saberá. Que é possível lá chegar. Que é indo, que se chega. À luz dos fins acode assim.
5 comentários:
Sabe bem ler isto.
saber a origem do teu nome.
saber deste poema, que não conhecia, porque não conheço Bocage, hélas!...
No século XX resolvemos práticamente um dos grandes tabús: a sexualidade.
Falta-nos resolver o outro grande tabú: a morte.
De alguma forma Bocage mostra como a vida e a morte são duas faces da mesma realidade. E como, sem niilismos, nem sendo suicidário, se pode amar o Fim e a sua Luz revelada.
Penso eu de que :)
Pelo menos Bocage aprendeu a viver a vida, embora aspirasse a mais ainda da sua alma.
Há outros que nunca aprendem,- presos à vida, - a alma vai como veio.
"À vista dos fins?" Mau, mau, Maria, que anda tudo a falar do mesmo. Você não me acabe com o blog, Bês!
Nem seria preciso. A ternura que aqui vai com o Soneto e com Bocage são mais do que isso.
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