Passei há dias na Praça de Espanha, em Lisboa, e mais uma vez pasmei com a vocação que lhe conheço desde sempre para o disparate.
A Praça de Espanha é assim. Os teatros mudam de sítio, as tendas das feiras que eram de Lisboa, assentam ali arraiais aparentemente prósperos, tanto quanto o estilo comprimido do certame deixa adivinhar, as estações de Metro continuam plantadas sem nexo pedonal, e, sobretudo, aquela parte central, aquele "oh-pra-mim-sou-um-espaço-verde" onde aterra de vez em quando algum pedregulho evocativo de qualquer ideia toscamente concretizada, adoçando já o juízo quanto ao valor da sua concepção, esse espaço vazio de carros que há no meio, estava adornado com vacas, julgo que em publicidade a um arquipélago em que os golfinhos se divertem em ménages à trois, fazendo fé nos cartazes que semearam por alguns postes da cidade.
Não me passou despercebida a minúcia de ter sido mais aguada, ou adubada, a relva destinada aos bovinos, que está "ainda mais verde" que a que corre por fora da cerca.
Não sou entendida em psicologia vacal, nem sequer tenho os direitos dos animais entre os meus primeiros amores, embora perceba que qualquer dia próximo teremos de pensar nisso a sério, desafiando a adequação ética de alguns dos nossos pressupostos na matéria, que começam a parecer-se demais com qualquer coisa pré-coperniciana.
Mas as vacas, que não pareciam ainda loucas, pareceram-me deprimidas e brutalizadas, ou então não eram elas, era eu que me sentia brutalizada de ver um espectáculo tão insensível ao sofrimento apresentado boçalmente como um evento cheio de espírito.
Nunca pensei que um bicho de algumas centenas de quilos pudesse parecer tão frágil, preso entre a agressividade dos automóveis que passam quase rentes, com o seu barulho, as suas emissões, a sua trajectória homicida (vaquicida?), mais do que sustido por uma pindérica cerca.
Ando a pensar se a mente onde germinou semelhante eureka publicitário, ou a mente que aprovou acção tão improvavelmente tosca, consideram sequer a possibilidade de comer bifes daqueles animais.
Ando a pensar por que motivo me parece que fazer-lhes essa pergunta, que suscita as emoções da deglutição e da pança, me parece mais agudo que perguntar-lhes se já se puseram no lugar das vacas, se gostariam de estar ali todo o dia em pijama, a ver televisão, enquanto petiscam biscoitos, que é o que as vacas ao fim e ao cabo sabem fazer, mutatis mutandis.
Ao mesmo tempo, tudo isto leva ao clímax a vocação da praça de Espanha para galeria da nossa desorientação. Como se além do mau casamento e do mau vento, também não viesse de Espanha um bom oriente...
