Dou sempre as moedas possíveis - ou os cigarros que costumava ter - a quem se dirigir a mim, pedindo, junto ao Júlio de Matos. A razão principal é estar convencida de que os doentes do Júlio de Matos que andam ali pela Avenida do Brasil não têm nada ou quase nada de seu, apesar de (é também a minha convicção) nada de essencial lhes faltar em matéria de alimentação, higiene, vestuário, condições de repouso. E confesso que me quedo sempre um instantinho a apreciar o momento da aquisição, pontuado geralmente por uma expressão satisfeita e grave. Se o gesto distributivo a que aludo é bonito ou feio ou antes pelo contrário não é o que aqui interessa. O que interessa é que essas pessoas, mais que os sem-abrigo, suscitam a questão da importância da propriedade.
Falta-lhes, para além, ou independentemente, da saúde, a propriedade. Na sua dimensão simbólica (se eu tenho algum valor que é meu, eu tenho algum valor; eu possuo, logo existo) e também na sua dimensão libertadora (se eu tenho este recurso, posso obter aquele ou aquele resultado, posso chegar onde não chegaria ou obter o que não obteria sem este recurso, posso fazer, posso agir).
A defesa da propriedade faz-se, penso, em razão destas duas dimensões. Vendo-as de mais perto, porém, fico com a impressão de que nas discussões sobre liberalismo e propriedade estes aspectos que justificam a defesa da propriedade são ultrapassados ou esquecidos e já não é disso, portanto, o que se trataria de acautelar ou defender nas apologias liberais da propriedade, mas sim qualquer outra ideia, insuficientemente identificada, por alguma dificuldade que eu não creio que seja de tipo técnico.
Acredito que quer a quantidade, quer a qualidade da propriedade de que é necessário alguém
dispor para ser atingido o patamar mínimo da dimensão simbólica vão muito pouco além da situação dos doentes do Júlio de Matos. Além disso, esta função da propriedade não é incremental; é a apropriação, ou não, de algo o que faz a diferença. Basta a situação base da representação simbólica para o processo se completar. A título de exemplo negativo, o despojamento material como experiência de humildade e de negação do eu, pelo menos da Índia até ao cristianismo.
Por outro lado, na sua dimensão libertadora, de capacitação para fazer, agir, obter, a propriedade apenas tem interesse como modo de organizar o acesso às utilidades dos objectos sobre que recai. E é complacente com inúmeras fórmulas, envolvendo maior ou menor domínio do indivíduo sobre o objecto da propriedade, numa gradação de tal ordem que idealmente podemos imaginar uma continuidade gradativa entre a mais liberal propriedade oitocentista e a mais comunitária forma de apropriação dos Tupi. Nessa imaginária linha gradativa, a propriedade que os liberais de hoje conhecem e defendem deveria apresentar-se como um distorcido pesadelo de constrições aos seus trisavós liberais. Basta pensar que já ninguém pode abater livremente uma árvore que seja do seu próprio quintal, nem dar à fachada da casa onde vive a forma da sua fantasia, para já não falar da corrida de obstáculos e esoterismos que é o lançamento e o desenvolvimento de uma actividade empresarial, entre licenças e directivas.
Os liberais acrescentam outra dimensão: a propriedade é instrumental para o mercado que é instrumental para a utopia em que todos finalmente viveremos felizes de acordo com os nossos méritos.
Para além de ser claro que essa propriedade não é a propriedade "nua" (hoc sensu) que estive insanamente a tentar justificar, é forçoso concluir que para compreender e avistar satisfatoriamente todo esse programa e, principalmente, para me sossegar, precisarei ainda de encontrar algures a demonstração da eficácia eugénica marginal do mercado - ou então, envio a especulação às malvas e fico simplesmente a fazer figas para nascer cheia de méritos na vida que me couber na utopia.