11.10.05

A força dos hábitos

O batôn não está perfeito, embora a adstringência dos taninos cerrados, com um final de frutos silvestres, me pareça adequada à situação. O contraste com o leitoso pastel do semblante lê-se assim: "não tenho medo; oiçam o que digo".
O azul da íris foi pariensemente envolto em metalizados reflexos de liturgia financeira, de modo tal que o olhar ficou límpido e mais celestial ainda, soprando como quem não quer a coisa: "vejam como sou digna de confiança".
E o lóbulo da orelha mostra-se incólume; não lhe traçaram desígnios de brincos e arrecadas nem ela tomou tais votos para si. Está intacta.
Eu acho que me habituo, mesmo assim.
Tu habituas-te?
Nós habituamo-nos...
Eles habituam-se...

10.10.05

A autárquica trindade

A reeleição de Felgueiras, Isaltino e Loureiro tem, a meu ver, vários aspectos positivos dos quais registo três: lembra aos partidos que as questões internas são secundárias, sublinhando a importância do país vivo, define as condições em que decorrerão os julgamentos dos respectivos processos em termos tais que fica traçado um cenário particularmente límpido, quase laboratorial, para apreciar, finalmente e de uma vez por todas, a adesão, ou não, por parte das populações e dos próprios autarcas às instituições da democracia e, por fim, incentiva todos os outros autarcas à melhor prestação possível, tanto no plano formal, realçando a importância de maior atenção à legalidade, de que, apostaria, esta trindade será doravante a frente exemplar, como no plano do ânimo, mostrando a todos esses futuros reelegíveis, que a dedicação à causa autárquica compensa.
Não vale a pena vir com lamúrias moralistas de que isto é uma pouca vergonha. É o que está para se ver, precisamente.
Em qualquer caso, há um subproduto desta situação que seria uma pena desperdiçar neste país tão bisonho: não obstante o penteado de FFelgueiras já tenha conhecido melhores dias, pelo que se sugere prestes reciclagem ao coiffeur local e, apesar de, em boa verdade, o Major me parecer intermitentemente trespassado numa fina dor aflitiva, todos três limaram sinais possidónios, encardidos, sombrios, e ei-los tonificados e de melhorada apresentação, fazendo subir o índice nacional de boa apresentação, compensando, nessa medida, o estranhíssimo fenómeno Jardim, com o qual se verificam algumas coincidências quanto ao mais.

9.10.05

Bosch austero

Eleições dacoli


Já quase não vinha a tempo de dizer isto.
O que me agrada muito nas recentes eleições alemãs e na questão da grande coligação é estar a vê-las a partir daqui e com isso ficar segura de que os outros ao meu lado também assistem à acomodação dos partidos sob a pressão do interesse nacional.
Não me interessa nada se os que se acomodam são completamente sinceros (o que é isso?!); delicio-me com o simples facto de se submeterem publicamente a essa prioridade.

Eleições daqui

Sentindo necessidade de puxar pelo optimismo, consigo produzir esta perspectiva:
E se, afinal, a incomodidade do voto fosse só porque estou mais velha, ou porque estou rezingona ou mesmo hipercrítica?
A TêPêéMe não conta, por impossibilidade biológica, considerando a duração da campanha.

Devo ter desleixado os meus deveres cívicos de alguma maneira porque este acabrunhamento não é coisa aceitável em dia de eleições.

7.10.05

Dizem-me que a vida é dura


É, pois.

Mark Edward Harris - USA
"Majuro, Marshal Islands (Children Playing)"

A foice passeia-se ladina

Contrastes assim, como este que liquidifica a ribombância emproada em torno do discurso do Presidente e seu preconício anti-corrupção, fazem a minha manhã e adoçam-me a olorosa torrada com hipocalórico, e contudo plural, amor pela humanidade.

(E assim dizendo, reequilibro a ordem universal das palavras, que o dia me mostrou suspensa, prescindida a esfinge, por amor - direi, também! - à luz. Voluntária suplência noviça em dia de folga estilística do bicho-da-seda. Alguém tem de estar de serviço!)

(Addenda: afinal não havia folga; à causa seguiu-se lídima condição substantiva! Precipitei-me.)

6.10.05

Toque a rebate

A discussão foi aberta pelo CA. Alvíssaras por bons pontos de vista.

Observância

For a cake, you cannot say, "I feel like putting three eggs into this cake rather than two." Don't feel constrained by this. Instead be grateful that you need only obey the rules, and gratification will come.

A docilidade ocasionalmente até sabe bem.

3.10.05

Lidando insanamente com a propriedade

Dou sempre as moedas possíveis - ou os cigarros que costumava ter - a quem se dirigir a mim, pedindo, junto ao Júlio de Matos. A razão principal é estar convencida de que os doentes do Júlio de Matos que andam ali pela Avenida do Brasil não têm nada ou quase nada de seu, apesar de (é também a minha convicção) nada de essencial lhes faltar em matéria de alimentação, higiene, vestuário, condições de repouso. E confesso que me quedo sempre um instantinho a apreciar o momento da aquisição, pontuado geralmente por uma expressão satisfeita e grave. Se o gesto distributivo a que aludo é bonito ou feio ou antes pelo contrário não é o que aqui interessa. O que interessa é que essas pessoas, mais que os sem-abrigo, suscitam a questão da importância da propriedade.
Falta-lhes, para além, ou independentemente, da saúde, a propriedade. Na sua dimensão simbólica (se eu tenho algum valor que é meu, eu tenho algum valor; eu possuo, logo existo) e também na sua dimensão libertadora (se eu tenho este recurso, posso obter aquele ou aquele resultado, posso chegar onde não chegaria ou obter o que não obteria sem este recurso, posso fazer, posso agir).
A defesa da propriedade faz-se, penso, em razão destas duas dimensões. Vendo-as de mais perto, porém, fico com a impressão de que nas discussões sobre liberalismo e propriedade estes aspectos que justificam a defesa da propriedade são ultrapassados ou esquecidos e já não é disso, portanto, o que se trataria de acautelar ou defender nas apologias liberais da propriedade, mas sim qualquer outra ideia, insuficientemente identificada, por alguma dificuldade que eu não creio que seja de tipo técnico.
Acredito que quer a quantidade, quer a qualidade da propriedade de que é necessário alguém
dispor para ser atingido o patamar mínimo da dimensão simbólica vão muito pouco além da situação dos doentes do Júlio de Matos. Além disso, esta função da propriedade não é incremental; é a apropriação, ou não, de algo o que faz a diferença. Basta a situação base da representação simbólica para o processo se completar. A título de exemplo negativo, o despojamento material como experiência de humildade e de negação do eu, pelo menos da Índia até ao cristianismo.
Por outro lado, na sua dimensão libertadora, de capacitação para fazer, agir, obter, a propriedade apenas tem interesse como modo de organizar o acesso às utilidades dos objectos sobre que recai. E é complacente com inúmeras fórmulas, envolvendo maior ou menor domínio do indivíduo sobre o objecto da propriedade, numa gradação de tal ordem que idealmente podemos imaginar uma continuidade gradativa entre a mais liberal propriedade oitocentista e a mais comunitária forma de apropriação dos Tupi. Nessa imaginária linha gradativa, a propriedade que os liberais de hoje conhecem e defendem deveria apresentar-se como um distorcido pesadelo de constrições aos seus trisavós liberais. Basta pensar que já ninguém pode abater livremente uma árvore que seja do seu próprio quintal, nem dar à fachada da casa onde vive a forma da sua fantasia, para já não falar da corrida de obstáculos e esoterismos que é o lançamento e o desenvolvimento de uma actividade empresarial, entre licenças e directivas.
Os liberais acrescentam outra dimensão: a propriedade é instrumental para o mercado que é instrumental para a utopia em que todos finalmente viveremos felizes de acordo com os nossos méritos.
Para além de ser claro que essa propriedade não é a propriedade "nua" (hoc sensu) que estive insanamente a tentar justificar, é forçoso concluir que para compreender e avistar satisfatoriamente todo esse programa e, principalmente, para me sossegar, precisarei ainda de encontrar algures a demonstração da eficácia eugénica marginal do mercado - ou então, envio a especulação às malvas e fico simplesmente a fazer figas para nascer cheia de méritos na vida que me couber na utopia.

2.10.05

Um grande salão

Hoje o Lutz partilha connosco como Mozart contava que fazia para fazer o que fazia, logo depois de deixar umas boas questões aos liberais. Será que o Lutz também faz como o Mozart?

Mentir


Nos últimos dias jornais de diversos países dedicam alguma atenção a um artigo publicado no último número do British Journal of Psychiatry relativo a um estudo realizado sobre o cérebro dos mentirosos. Segundo este estudo as pessoas que mentem patologicamente têm uma estrutura cerebral especificamente distinta - pelo que compreendo, com um maior desenvolvimento de uma área prefrontal, aquela mesma que já se sabia desatar em actividade quando se diz uma mentira, e com menor desenvolvimento de uma outra área que parece estar associada à experiência do remorso e da culpa. Entre os que mentem patologicamente e os outros haveria diferenças (agora) claras nessas duas áreas.
Isto leva a recapitular como mentir é uma actividade complexa e sofisticada.
Mentir requer uma capacidade de se colocar no ponto de vista do outro, de avistar o mundo e as suas plausibilidades a partir dessa alheia (id) entidade. Para mentir bem tenho de saber o que é geralmente tido por credível e será ainda melhor se eu souber muito bem o que é caracteristicamente tido por credível por esta pessoa em particular à qual pretendo enganar.

Como se isso não bastasse, mentir implica também a exigente tarefa de controlar todos os sinais possivelmente emitidos por nós (o que parece que não é exequível por inteiro, mas lá se vai dando um bom jeito) e ainda a espinhosa tentativa de colocar em segundo plano todas as emoções que possamos genuinamente ter sobre o assunto, a começar pela ansiedade da situação de mentira.

É muito trabalho, não é?!

Em conclusões rápidas, duas de sentido contrário:
1- no que respeita aos mentirosos compulsivos, lá vem mais um caso, parece, em que temos de pensar seriamente na questão da exigibilidade/censurabilidade do comportamento, ou não, com todas as consequências que isso possa ter, em matéria moral e jurídica;

2- no que respeita à trabalheira que dá mentir, guardo comigo mais esta achega para uma base "natural" das virtudes ou do bem: para além da inconveniência social da mentira, talvez ela seja também individualmente insustentável como comportamento habitual (e daí a fronteira da patologia). Quem teria energia e recursos mentais e emocionais para gerir em permanência a manipulação de si e do mundo, num malabarismo de emoções e cognições de outro tipo, tendo ainda em conta que a mentira tende a multiplicar-se? Parece mais um caso de que o "nada há mais prático que o bem" corresponde ao melhor ponto de vista...

1.10.05

uma pálida névoa eternamente pairando num universo frio e parado*

In the far, far future, essentially all matter will have returned to energy. But (...) this energy will be spread so thinly that it will hardly ever convert back to even the lightest particles of matter. Instead, a faint mist of light will fall for eternity through an ever colder and quieter cosmos.

The guiding hand of Einstein's E = mc² will have finally come to rest.



*Devia haver um género poético chamado poesia física.

Telenovela, bitte!

Hoje aprendi uma confortável palavra em alemão: Telenovela. Ora bem.

30.9.05

O verniz na comunicação social

Gostei, neste artigo, do DN, assinado por João Miguel Tavares, do modo comedido como a desilusão com a Justiça foi exposta.
Não gostei do último parágrafo: "Mas desconfio que não esteja desacompanhado, porque a começar na Casa Pia e a acabar em Fátima Felgueiras, foram anos tétricos para a Justiça, amplificados por uma comunicação social bem mais agressiva do que antes. Graças a isso, além de lenta, todos ficámos a saber que a Justiça é má. E resta saber se além de má ela não é também corrupta. Daí que, quando os juízes ameaçam o País com uma greve inédita, alguém lhes deveria explicar que neste momento ficar sem dois meses de férias não é o problema mais grave que têm entre mãos. Mas são assim as nossas elites preocupadas com o verniz das unhas mesmo quando o mundo está a ruir à sua volta. "

"Graças" a uma "comunicação social bem mais agressiva do que antes" não ficámos apenas a saber que a Justiça tem muito para melhorar. Ficámos sobretudo a saber que a comunicação social tem muito pouca qualidade no acompanhamento dos assuntos da Justiça e com isso presta com frequência um verdadeiro serviço desinformativo ao país.
Além disso, arrepia-me pensar que é a dita comunicação social que vai apurar se a Justiça "não é também corrupta" pois o texto sugere-me que o critério para essa conclusão será o desfecho dos processos Casa Pia e Fátima Felgueiras: se a Justiça, lá com os seus métodos maus e passivos, concluir o que a comunicação social boa e agressiva já nos comunicou (todos para a choldra, já!), a Justiça passa o teste; se não houver cadeia-para-todos, que é como quem diz, moralidade, a Justiça chumba.

Mais ainda, achei daninha a referência ao verniz nas unhas. Para dar corpo à ideia de futilidade, João Miguel Tavares sugeriu um comportamento feminino. Que banalidade, que cansaço, este tipo perene de graçola cabotina varonil.

Referendo sobre o aborto à vista; problemas para o sim e dicas para o não

Ou vice-versa.
Este resíduo é sólido demais para eu o deixar ficar lá para trás agora que a discussão parece vir aí de novo.

Miss Anscombe, avistada aqui, que bravura a pensar!

Remédio crioulo para a procrastinação e a molenguice em geral

Se bo crê um coza, bo tem d´garral.

(se queres uma coisa, tens de a agarrar)