1.11.05

Pão-por-Deus #2

Esta casa cheira a broa
Aqui mora gente boa.
Esta casa cheira a vinho
Aqui mora algum santinho

Pão-por-Deus


O Truca Truca

Já que o coito
- diz Morgado-
Tem como fim cristalino,
Preciso e imaculado
Fazer menina ou menino;
E cada vez que o varão
Sexual petisco manduca,
Temos na procriação
Prova de que houve truca- truca.
Sendo pai de um só rebento,
Lógica é a conclusão
De que viril instrumento
Só usou – parca ração!-
Uma vez.
E se a função
Faz o órgão – diz o ditado –
Consumada essa excepção,
Ficou capado o Morgado.


Memória da Natália Correia

Flor dos terramotos

Há esta flor em Lisboa: uma leitaria chamada "Flor dos Terramotos". O 118 acrescenta: "Lda". E dá as restantes coordenadas.

31.10.05

Desmemoriados


É como às vezes me parecem andar os portugueses, esquecidos de si mesmos, peitinho todo feito à Europa de que, aliás, me sinto - também - cidadã.
O problema com a falta de memória é que deixamos de saber quem somos e se não soubermos quem somos, não somos, perdemo-nos, goramo-nos. Do colonialismo pindérico para as cicatrizes da descolonização, passando pelos vapores da aproximação à passada europeia e rematando nas macro ou micro arrastonices, nunca se conseguiu ainda fazer espaço para deixar medrar e espraiar-se a imprescindível consciência de que partilhamos uma condição existencialmente relevante com o espaço dito da lusofonia - partilha essa que é culminante no caso dos países lusófonos africanos. Não são os espanhóis que são "nossos irmãos", não são os primos brasileiros; são os africanos da matriz cultural portuguesa (com a devida licencinha às ilhas de Cabo Verde, ainda à procura da sua plataforma continental, pelo epíteto africano, e com a perfeita consciência de que a expressão "matriz cultural portuguesa" presta-se a ser sovada pelo primeiro especiesismo semântico que irrompa de um qualquer desassossego).


A mensagem do dia é que a lusofonia, seja ela o que for, existe.
Ela não é, seguramente, cativa de Portugal, apesar de inúmeras gaffes bacocas por parte das organizações.
Ela existe apesar da extraordinária invisibilidade aos olhos dos portugueses - que a não vêem ou porque simplesmente nem sonham com as grandezas do mundo, ou porque o preconceito, à direita ou à esquerda, os impede de surpreender a identidade.
Isto tudo veio ao de cima por ter começado o dia a ler esta oposição; como espectadora, para além da satisfação de ver o assunto bem disputado, não posso deixar de reparar, com uma nitidez cortante, que a verdadeira oposição é entre os que têm e os que não têm consciência de que esta é uma das bases da nossa identidade, qualquer que seja a maneira como a representamos.
Recordo um provérbio secular que diz: "quem nunca viu Lisboa é como um pinto que morreu dentro do ovo". Cabo-verdiano. Também nos vemos pelos olhos dos outros, não é?

29.10.05

Não vejo assim

... isto, dito por Vicente Jorge Silva, em opinião expressa hoje no DN:
Sem pôr em causa a boa-fé de Cavaco, há em tudo isto algo de excessivo e anormal num quadro democrático, mesmo tendo em conta a gravidade da crise portuguesa. Ao rasurar aquilo que é diferente e diverso e apostando numa "união nacional" de gregos e troianos, a candidatura de Cavaco torna excedentário o pluralismo político e ideológico. Finalmente, a hipótese de um triunfo retumbante, logo na primeira volta, acentua o pendor plebiscitário da eleição e obriga o candidato vitorioso - quer ele queira quer não - a assumir o papel de "salvador".
A principal acentuação que vejo é, antes pelo contrário, a do branqueamento do último contacto de Cavaco Silva com o eleitorado - perdeu, lembram-se?
Logo à primeira volta... não foi?
E, assim, o que também creio ver no texto de VJS é um sinal de que foi inteiramente engolida a ideia, favorável a Cavaco Silva, de que o homem vem em graça (por oposição ao burlesco fácil de respigar nas candidaturas da esquerda).
Ora, não vem. Isso é um trompe l'oeil mediático mas parece que pegou.

Não acho, para além disso, que a efectiva adequação de Cavaco Silva para captar votos no bloco central possa, em boa verdade, ser retorcida ao ponto de transformar-se em algo que "torna excedentário o pluralismo político e ideológico".

Não torna, é bloco mediano, apenas.

Insisto na objecção à presidencialidade de Cavaco Silva: aquilo a que alguns já têm chamado "falta de cultura humanista", mas que não refiro dessa maneira porque assim parece que se trata de um supérfluo adereço, de um elemento histriónico dispensável.

Trata-se da falta de bússola, da deficiente perspectivação política, mas de uma política baseada na compreensão da existência individual, da política como instrumento das condições sociais do que um dia por aí chamei o viço do indivíduo.

Está lançado, já se viu, o campeonato das presidenciais. Ora lá vem chegando a camisola, a clube, a competição, o aconchego da manada ... a náusea.

E agora, José?

Vamos esperar mais um ano e picos pelo novo referendo sobre a despenalização do aborto ou vamos assistir a mais uma "adaptação aos factos", rectificando o que foi dito em campanha eleitoral, e avançar para a acção legislativa do parlamento, dando precedência ao fundo (despenalização) sobre a forma (referendo)?

Entretanto, apraz-me a incomodidade gerada pelo Tribunal Constitucional. Querem referendos quando têm competência legislativa? Querem diluição da responsabilidade política perante o eleitorado? Pois então, tomem lá o túnel espinhoso da referendação, não contem connosco para dar jeitinhos.

A sexosfera, darling, não é lisa

É só pra dizer que gosto de ser bem-amada, mesmo nos intervalos.
E que mantenho que os rapazes são mesmo os nossos melhores amigos, mesmo quando são infiéis, a nós, às outras, tanto faz; e que acho uma infâmia causar o mínimo tremor de medo, de dúvida, de insegurança, na difícil condição masculina.

28.10.05

Que saudades do Verão!

O beco-sistema do cavaquismo e a deriva cega


E ainda:

Claro que achamos (também) que não. Como poderia, se lhe falta a bússola? Como pode, até mesmo, o país perdoar a oportunidade perdida? A Irlanda e a Finlândia, para não ficar por mais perto, mostram, por contraste, quão larga foi a nossa deriva; e a deriva está para durar porque nem sequer vem já a caminho uma geração capaz de forjar a saída do beco que é este sistema desorientado.

É que o cavaquismo como orientação política (coisa que, aliás, fazendo jus à verdade, o próprio tem o cuidado de refutar) é uma deriva.
Uma deriva industriosa mas improdutiva, honesta mas eticamente vaga, laboriosa mas não criativa, empertigada mais que digna, que nos condena sem redenção a vaguear eternamente como cegos, perdidos num estreito beco. Eternamente, não. Só no nosso tempo de vida, concerteza. Apenas durante esse tempo.

27.10.05

Deus aceitável

O que for inútil, sim. E impotente. Infiel - às suas criaturas, condenadas ao sofrimento - é que não.

Mulherio meu

Teodora.
Teodora imperatriz.
Teodora corajosa.
Teodora hetera, isso, inesposável.
Teodora dos ursos.
Teodora, cancro.
Teodora magnífica.
Teodora exacta.
Teodora, amada.
Teodora apesar das núpcias.
Teodora estratega.
Teodora odiada.
Teodora, África, Líbia, Alexandria.
Teodora, ninguém?
Teodora ali.
Teodora.

25.10.05

... and back again!

Temos um C(Px) que se diz ~Pn porque isso o torna, segundo pensa, mais credível como C(Px).*

Não sei se me espante mais pela bonomia ou ingenuidade de tal acto de negação ou pelo understatement sobre a porca da política.




*[Seja C= candidato e P= detentor de cargo político]

Do laborismo à insanidade

Quando oiço dizer que "nunca fez nada na vida" aquele que deixou acumular tempo na permanência em cargos partidários ou no exercício de cargos políticos estilhaça-se-me a paciência.

24.10.05

Segunda-feira, afivelando a "persona"

Naquele tempo as partes pudendas ainda eram orladas de veludo e toda a pele era de cetim. O velcro e os têxteis viriam muito mais tarde.
Os cães ainda não tinham sido inventados, pelo que o timshel vivia sossegado.
As cobras eram mansas e alimentavam-se de pêssegos macios , enfim, um frete indescritível.
Não fazia frio, não nevava, não doía a nostalgia.
Toda a bicharada era, na verdade, pachorrenta e sedentária, com sinais de obesidade epidémica; a mulher era também paciente e bem nutrida. O homem lá se ia mexendo um pouco mais e mantinha-se tonificado, bem definido.
Mesmo sem cama, dormia-se reparadoramente. Talvez por isso mesmo, por então terem excelente higiene de sono, os bichos-da-seda não andassem ensandecidos por aí (coisas da metamorfose, pela certa).
Até que um dia chegou o papagaio que "dão ze zênetia béme", ele eram dores de cabeça, o bico seco, um arrepio nos verdores das asas. O homem primeiro riu-se, pensando que se tratava de um pato sueco, mas depois do jantar reconsiderou "isto se calhar não tem piada" e sonhou que o cheiro doce das formigas-cadáver restolhava nas asas da passarada.
Cedo na manhã seguinte, era uma segunda-feira cinzenta, o homem arranjou um raminho de cameleira no qual pendurou uma tabuleta: "este papagaio fala inglês e parece estar engripado" e disse à mulher "vou ali e já venho". Mais tarde fiz do homem meu amante e do papagaio meu pisa-papéis.

23.10.05

Navegar ainda

.

JOY! shipmate—joy!

(Pleas’d to my Soul at death I cry;)

Our life is closed—our life begins;

The long, long anchorage we leave,

The ship is clear at last—she leaps!

She swiftly courses from the shore;

Joy! shipmate—joy!


[Walt Whitman (1819–1892). Leaves of Grass. 1900. 293]

Navegar


22.10.05

Poder de síntese

A cartilha reaccionária consente ser resumida em apenas dois artigos de fé:

1. Este mundo é um vale de lágrimas feio, porco e mau, mas, no essencial, é impossível mudá-lo para melhor.

2. Quando se procura mudá-lo para melhor, o resultado final é ainda pior que a situação de partida.

Give me the Splendid, Silent Sun

GIVE me the splendid silent sun, with all his beams full-dazzling;

Give me juicy autumnal fruit, ripe and red from the orchard;

Give me a field where the unmow’d grass grows;

Give me an arbor, give me the trellis’d grape;

Give me fresh corn and wheat—give me serene-moving animals, teaching content;

Give me nights perfectly quiet, as on high plateaus west of the Mississippi, and I looking up at the stars;

Give me odorous at sunrise a garden of beautiful flowers, where I can walk undisturb’d;

Give me for marriage a sweet-breath’d woman, of whom I should never tire;

Give me a perfect child—give me, away, aside from the noise of the world, a rural, domestic life;

Give me to warble spontaneous songs, reliev’d, recluse by myself, for my own ears only;

Give me solitude—give me Nature—give me again, O Nature, your primal sanities!

—These, demanding to have them, (tired with ceaseless excitement, and rack’d by the war-strife;)

These to procure, incessantly asking, rising in cries from my heart,

While yet incessantly asking, still I adhere to my city;

Day upon day, and year upon year, O city, walking your streets,

Where you hold me enchain’d a certain time, refusing to give me up;

Yet giving to make me glutted, enrich’d of soul—you give me forever faces;

(O I see what I sought to escape, confronting, reversing my cries;

I see my own soul trampling down what it ask’d for.)


Keep your splendid, silent sun;

Keep your woods, O Nature, and the quiet places by the woods;

Keep your fields of clover and timothy, and your corn-fields and orchards;

Keep the blossoming buckwheat fields, where the Ninth-month bees hum;

Give me faces and streets! give me these phantoms incessant and endless along the trottoirs!

Give me interminable eyes! give me women! give me comrades and lovers by the thousand!

Let me see new ones every day! let me hold new ones by the hand every day!

Give me such shows! give me the streets of Manhattan!

Give me Broadway, with the soldiers marching—give me the sound of the trumpets and drums!

(The soldiers in companies or regiments—some, starting away, flush’d and reckless;

Some, their time up, returning, with thinn’d ranks—young, yet very old, worn, marching, noticing nothing;)

—Give me the shores and the wharves heavy-fringed with the black ships!

O such for me! O an intense life! O full to repletion, and varied!

The life of the theatre, bar-room, huge hotel, for me!

The saloon of the steamer! the crowded excursion for me! the torch-light procession!

The dense brigade, bound for the war, with high piled military wagons following;

People, endless, streaming, with strong voices, passions, pageants;

Manhattan streets, with their powerful throbs, with the beating drums, as now;

The endless and noisy chorus, the rustle and clank of muskets, (even the sight of the wounded;)

Manhattan crowds, with their turbulent musical chorus—with varied chorus, and light of the sparkling eyes;

Manhattan faces and eyes forever for me.



[Walt Whitman (1819–1892). Leaves of Grass. 1900. 130]