10.11.05

Porquês pelas ruas de Lisboa

Porque é que o Mário Soares tirou as fotos para a campanha num dia em que estava constipado e com conjuntivite?
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Porque é que o Louçã estava tão zangado que até ia batendo com o nariz na objectiva quando lhe tiraram o retrato para o cartaz da campanha?
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Porque é que ainda não vi o Manuel Alegre ou nenhum cartaz dele me furou a absorção?
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Porque é que o Cavaco Silva não aparece nos cartazes? E quem é/o que é "Si" com letra grande, de que se necesSita? Somos nós, ...é Ele??

Amar o amor, esperar a espera, segurar insegura

Oh Bobby, darling, you didn't!


Lida: Bobby, darling, como te sentes depois daquele terrível concurso?
Bobby: hummm....

Lida: Sssimm...?
Bobby: Estes sofás são confortáveis...

Lida: ... Espaçosos...
Bobby: hummm...

Lida: Ficaste contente com a menção honrosa da categoria "voz"?
Bobby: humm...

9.11.05

Divinamente flamboyante

O Timshel, em resposta a pergunta minha sobre se o inferno teria acabado, deixou-me esta manhã uma defesa tão deliciosa da utilidade do inferno que vou republicá-la aqui à vista, não vá ficar submersa na escuridão dos tempos lá onde foi deixada, sob este post.

Tomando o texto como comentário ou resposta à minha pergunta, creio que ele pode ser interpretado nestes termos: "Mas porque raio haveria o inferno de acabar se ele é tão útil?".
Na experiência do autor do texto, um bom inferno, tal como o que lhe foi intensamente pintado em Vermont, trouxe de volta uma frescura na face que dificilmente encontraria noutros lados. Óptimo! É esse sempre o valor dos desportos radicais, das experiências extremas, até mesmo da sauna, suspeito eu.
Eu própria me senti refrescada depois de ler o texto. É de Steinbeck? Cá vai, com os meus agradecimentos:
"No domingo de manhã, numa cidade do Vermont, no meu último dia na Nova Inglaterra, fiz a barba, vesti um fato, engraxei os sapatos, penteei-me e procurei uma igreja aonde ir. Eliminei várias por razões de que já não me lembro, mas ao ver uma igreja de John Knox conduzi o Rocinante para uma rua lateral e estacionei-o fora da vista, dei ao Charley as minhas instruções quanto à guarda do veículo e encaminhei-me com dignidade para uma igreja de paredes de tábua pintadas de uma brancura ofuscante. Sentei-me ao fundo do imaculado e polido lugar de adoração. As orações foram objectivas, chamando a atenção do Todo-Poderoso para certas fraquezas e tendências não divinas que sei serem as minhas e podia apenas supor que fossem compartilhadas pelos outros ali reunidos.
O oficio divino fez bastante bem ao meu coração e espero que à minha alma. Já havia muito que não ouvia uma tal abordagem. É nosso hábito agora, pelo menos nas grandes cidades, descobrir por intermédio do nosso clero psiquiátrico que os nossos pecados não são realmente nada pecados mas acidentes postos em acção por forças fora do nosso domínio. Não havia tal tolice nesta igreja. O padre, um homem de ferro com olhos de aço temperado e uma elocução semelhante a uma broca pneumática, esclareceu a oração e assegurou-nos que éramos um grupo muito lamentável. E tinha razão. Não éramos grande coisa para começar, e graças aos nossos próprios esforços espalhafatosos vínhamos a escorregar desde sempre. Depois, tendo-nos amaciado, lançou-se num sermão glorioso, um sermão de fogo e enxofre. Tendo provado que nós, ou só eu talvez, não tínhamos nada de bons, pintou com uma certeza fria o que era provável que nos acontecesse se não fizéssemos algumas reorganizações básicas, no que ele não punha muita esperança. Falou do inferno como um perito, não do inferno piegas dos nossos dias moles, mas de um inferno de fogo bem atiçado, aquecido ao rubro-branco, servido por técnicos de primeira ordem. Este reverendo levou-o a um ponto em que podíamos compreendê-lo — um bom fogo de carvão, com muito boa tiragem, e um grupo de diabos de fornalha que põem o coração no seu trabalho, e o seu trabalho era eu. Comecei a sentir-me completamente bem. Há já alguns anos que Deus vem sendo um camarada para nós, praticando o companheirismo, e isso produz o mesmo vácuo que um pai produz ao jogar ao softball com os filhos. Mas este Deus do Vermont importava-se o bastante comigo para se dar a um ror de incómodos, correndo o inferno a pontapé para fora de mim. Deu aos meus pecados uma nova perspectiva. Ao passo que haviam sido pequenos e mesquinhos, sórdidos e preferíveis de esquecer, aquele ministro deu-lhes algum volume, peso e dignidade. Não vinha pensando muito bem de mim mesmo há alguns anos, mas se os meus pecados tinham aquela dimensão, salvava-se algum orgulho. Não era uma criança desobediente mas um pecador de primeira categoria, e ia apanhar essa classificação.
Senti-me tão revivido em espírito que pus cinco dólares na bandeja, e depois, à porta da igreja, apertei calorosamente a mão ao padre e a tantos fiéis da congregação quantos pude. Deu-me uma bela sensação de malfeitoria que durou bem viva até terça-feira. Cheguei a considerar a hipótese de bater no Charley para lhe dar também alguma satisfação, já que o Charley é só um pouco menos pecador do que eu. Fui à igreja todos os domingos, através de todo o país, com uma denominação diferente em cada semana, mas não encontrei em parte nenhuma a qualidade daquele pregador do Vermont. Esse forjou uma religião destinada a durar e não um fóssil pré-cozinhado.”
Continua de pé, no entanto, a questão: uns ardem, outros não. Porque uns pecam e outros não.
Foram-lhes traçadas ou permitidas diferentes trajectórias com estes resultados cujas diferenças estão longe de ser indiferentes.
São estes iguais entre si? Como a resposta afirmativa requer um bom exercício retórico, a resposta "natural" é ... não. Um bom túnel de penetração para a direita... Era este o ponto.
O que, de maneira nenhuma, constitui refutação da extrema valia do inferno tal como no sermão de Vermont.
Por mim, cá me vou fazendo ao dia grata ao Timshel, impante e de frescura na face, depois de avistar tal inferno...

8.11.05

Raiva e má-criação

Anyone can become angry - that is easy, but to be angry with the right person, to the right degree, at the right time, for the right purpose, and in the right way - that is not easy [ Aristotle, wikicitado]
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Um dos objectivos principais da educação é o de aprender isto.
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Digo "educação" não no sentido da "boa educação" que, com excessiva frequência, vejo ser um programa oco de maneirismos sociais, transmitido por pais desorientados e esmagados por responsabilidades moralistas a filhos em-treino ortopédico, ou invocado como trave em geometrias de desprezo pelo próximo.
Dessa "boa educação" só tenho a dizer que a considero um dos modos de cegueira mais perniciosos que conheço.
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Digo "educação", sim, no sentido de nutrir o desenvolvimento de um ser humano harmonioso individual e socialmente.
É, claro, uma responsabilidade de cada um tomar conta deste seu próprio assunto mas é também ancestralmente, para não dizer biologicamente, a principal responsabilidade da geração adulta relativamente à geração mais nova.
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Numa sociedade complexa essa responsabilidade requer também - para além dos grupos naturais e informais - a intervenção de modos institucionalizados de acção. No mundo que conhecemos isso é o objecto da política de educação.
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Se a nova geração sente raiva e isso tem expressão disseminada, isso não é bom. É , concerteza, um sinal de que há ajustamentos relevantes a fazer.
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Mas se a nova geração é mal-criada, neste sentido que aqui interessa, que é afinal o sentido próprio, e, além disso, sente raiva e isso tem expressão disseminada, então a coisa é séria, é má, é muito má...

7.11.05

Stabat mater dolorosa


O quam tristis et afflícta

Não se pode, não, exterminá-los

Se tivesse de escolher o traço mais relevante do que está a acontecer em França, eu sublinharia o carácter espontâneo e disseminado do vandalismo.
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Isto é o que o torna muito difícil de controlar e, principalmente, isto é o que me parece dar um sinal claro de que alguma coisa, que talvez não possamos simplesmente apagar da realidade, tem andado a correr muito mal (aos erros nas políticas de imigração e de urbanismo, sumariados pelo Lutz, eu acrescentaria o fracasso da política da educação).
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Mas uma coisa de que eu tenho bem a certeza é de que os pais e as mães dessa rapaziada que anda a incendiar a França bem gostariam de ter mão neles.

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Rectifico: é claro que não tenho a certeza, não tenho certeza nenhuma, de que os pais e as mães dessa rapaziada que anda a incendiar a França bem gostariam de ter mão neles.

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Não tenho a certeza, nem deixo de ter. Conjecturo. Isso sim, conjecturo baseada na experiência da vida. Conjecturar o contrário só seria razoável se algum outro elemento me trouxesse uma indicação forte nesse sentido porque os dados da vida mostram que os pais se interessam em geral pelos filhos e que, por egoísmo ou altruísmo, os pais gostam é que os filhos andem por aí bem integrados, atinados, a fazer pela sua vida.

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Não deve ser carga fácil a frustração e a angústia de quem, depois de ter cortado as suas raízes, o que não pode deixar de ter tido o seu quê de doloroso, vê que a prole não passa da cepa torta e se põe em desacatos desta monta - embora eu acredite que esta tempestade terá sido antecedida de inúmeros aguaceiros e tudo isso acaba por servir de treino...
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É de coisas assim concretas que a vida é feita, é por causa de coisas assim que a política é feita.

Causa


Apoio a causa lançada pela Vitriolica.

6.11.05

Barbaridades para todos os gostos


Pois, se calhar o problema é que os outros são reles! E ímpios.

Há que proteger as nossas cidades, flores da civilização, desses bárbaros impenitentes.

Abre-se a porta generosa da hospitalidade aos estrangeiros e é o que é...

Uma coisa assim, inesperada, sei-lá..., ninguém podia imaginar... já não há respeito... essa gente...

A bola, o vinho e a fé

Um exigente exercício espiritual: ler um artigo numa revista estrangeira, motivado pela rebelião (sub) urbana francesa, que narra um caso de sucesso na integração de imigrantes.
*

Tudo começou há quarenta anos quando um jovem aventureiro em busca de vida melhor terá dado à costa, digamos assim com liberdades expressivas, àquelas paragens.
*
Como não desgostou do que por lá encontrou, chamou a sua gente. Da terra natal até lá, à cidade de acolhimento, acabariam por ir chegando cerca de 8 mil pessoas; a presença destes imigrantes e seus descendentes, hoje em dia, exprime-se em 15% dos habitantes daquela cidade.

*

O gosto por festas bem regadas, a partilha da fé católica e o entusiasmo por uma boa futebolada, ora agora jogo eu, ora agora jogas tu, ajudaram a dissipar as fronteiras. A mistura de quotidianos que assim se foi fazendo, acrescia aos do mundo do trabalho, onde os imigrantes iam dando provas de natureza trabalhadeira.

*

Passadas quatro décadas de - isto agora sou eu a fazer contas - festas, missas, participação em procissões, partidas de futebol, cumprimentos olá como está passou bem, visitas de uns a outros, crescimento em conjunto, namoricos, compadrios e esforços conjuntos, passadas estas décadas e milhares de episódios de ping pong cultural, o evento da integração consumou-se, coroado de êxito.
*
A prova e a medida da integração, regressando eu ao artigo: tão integrados se sentem os jovens que entretanto lá nasceram que, indagados sobre as preocupações relativas aos imigrantes, respondem "não temos problemas com turcos ou com árabes", não se identificando pois enquanto tais, como sublinha enfaticamente a autora do artigo que venho referindo.
*
Eles são "os nossos portugueses" de uma pequena cidade alemã. A expressão entre aspas é uma citação.
*
Sortudos, eles; um pouco baralhada, eu.

5.11.05

Se eu ao menos soubesse


Se eu ao menos soubesse
Sobre que é que pousou o teu último olhar.
Foi uma pedra, que já muitos últimos olhares
Tinha bebido, até que eles em cegueira
Caíram sobre a cega?

Ou foi terra,
Bastante para encher um sapato,
E já negra
De tanta despedida
E de preparar tanta morte?

Ou foi o teu último caminho,
Que te trouxe o adeus de todos os caminhos
Que tu tinhas andado?

Uma poça de água, um pedaço de metal luzente,
Talvez a fivela do cinto do teu inimigo,
Ou qualquer outro, pequeno adivinho
Do céu?

Ou mandou-te esta terra,
Que não deixa partir ninguém sem ser amado,
Um sinal de pássaro pelo ar,
Acordando lembranças na tua alma, e ela estremeceu
No seu corpo queimado de martírio?


Nelly Sachs, em Oração para o noivo morto, traduzida por Paulo Quintela (1967, Portugália).


Ou a magnificência do amor e o superiormente belo desconhecimento do ódio.

3.11.05

Incubo cavaquista 0 - Soares 1

Lépido, ágil, simples, sage, um espectáculo. Quero ser assim quando tiver oitenta anos!
Ontem, na TVi.

Tenho um problema com o mérito



O primeiro motivo do meu problema com o mérito é que o mérito não se agarra ao DNA e, que eu saiba, a engenharia genética não anda a investigar na área, o que faz com que o meu problema esteja para durar, não conseguindo eu encontrar a chave de leitura racional de uma frase, de resto bonita, como esta que diz que "o privilégio é o mérito dos antepassados" (encontrada em melómana fuga à Arte da dita).

Como o mérito não se agarra ao DNA, ínclitos indivíduos geram com frequência verdadeiros trambolhos. Se esses ínclitos indivíduos conseguiram privilégios duradouros para a prole, teremos, pois, privilégios totalmente imerecidos por parte daqueles que os detêm no presente. Se a prole for de realmente boa cepa – ou mesmo empa – então terá renovado as condições de merecimento do privilégio, logo não haverá que falar em privilégio.

Mas com ou sem transmissão via DNA, um mérito de antepassado é, para o presente, um mérito-mais-que-passado e não constitui justificação de privilégios para a prole, de boa e má cepa e empa, nem mesmo se se pretendesse simplesmente, num jeito de simbolismo cultural, tomar a geração presente como ícone do valoroso antepassado. Numa cartilha de amor total ao indivíduo isso seria ainda insustentável pelo que envolve de limitação grave da sorte de cada novo indivíduo de tal geração; e não vale a pena vir dizer que o privilégio valeria mais que a liberdade assim perdida, pois a essa nunca aderirei eu, que subscrevo a tal cartilha.
***

O segundo motivo do meu problema com o mérito é que o mérito como critério de distribuição das vantagens só me parece digno de incenso se for acompanhado de uma rigorosamente-equitativa-distribuição-natural-dos-talentos-socialmente-tidos-por- excelentes.

Por isso, como aqui disse, ou o liberalismo de direita arranja artes de nos garantir uma eficácia eugénica marginal ou então estamos tramados nalguma futura eventual vida a acontecer na Utopia liberal, cabendo-nos aí triste sorte, minguada fatia, se não (re)nascermos belos, inteligentes, atléticos, enfim, virtuosos.
***

O motivo terceiro e principal do meu problema com o mérito é que é uma palavra oca. Completamente oca, madrinha de todos os pleonasmos.
Merecimento segundo o mérito?! Ahh, pois, falamos de excelência. Mas excelência não é fazer muito bem feitinho tudo o que nos pomos a fazer. É fazer muito bem feitinho aquilo que é meritório fazer.
E assim temos a volta dada, do rabinho à boca da pescada. Não se chega lá - à ciência, em todos os sentidos, do que é meritório - sem sair da insistência na prioridade do mérito. É preciso primeiro obter o boneco do que é valoroso, formulá-lo substantivamente, ter um rascunho, um projecto, uma visão do indivíduo pleno na sua incrustação social.
E só depois se pode falar do que – assim, meritoriamente – para lá conduz. Mérito é, por si mesmo, palavra desmeritosa.
***

Como qualquer problema que se tem com qualquer coisa, o meu problema com o mérito existe porque, como tantos outros, sucumbo ao encanto da palavra.

Palavra assim, tão esdrúxula, tão luxuriante... Curvas e contracurvas de sonoridades vocalizáveis - mÉrItuUu. Tão plasticamente sensual numa convocação sucessiva de lábios - mmmééé -, doce requebro longo na língua oferta - rii -, um beijo ritual a fechá-la - tooo... – de ricto a rito final do prazer. Dito em voz masculina é todo um universo sinestésico...
E tudo isto sem perder a compostura, pois pode prevaricar-se neste venal vocábulo com toda a discrição e a mais esplendorosamente assistida seriedade. As pessoas que o dizem muito, geralmente colocam bem a voz, são respeitáveis, cheiram bem com frequência e dizem-no com circunstância... mmmm ééé riii tttuuuu... que arrepio! que perdição.

Chove mas não suavemente

1.11.05

Pão-por-Deus #2

Esta casa cheira a broa
Aqui mora gente boa.
Esta casa cheira a vinho
Aqui mora algum santinho

Pão-por-Deus


O Truca Truca

Já que o coito
- diz Morgado-
Tem como fim cristalino,
Preciso e imaculado
Fazer menina ou menino;
E cada vez que o varão
Sexual petisco manduca,
Temos na procriação
Prova de que houve truca- truca.
Sendo pai de um só rebento,
Lógica é a conclusão
De que viril instrumento
Só usou – parca ração!-
Uma vez.
E se a função
Faz o órgão – diz o ditado –
Consumada essa excepção,
Ficou capado o Morgado.


Memória da Natália Correia

Flor dos terramotos

Há esta flor em Lisboa: uma leitaria chamada "Flor dos Terramotos". O 118 acrescenta: "Lda". E dá as restantes coordenadas.

31.10.05

Desmemoriados


É como às vezes me parecem andar os portugueses, esquecidos de si mesmos, peitinho todo feito à Europa de que, aliás, me sinto - também - cidadã.
O problema com a falta de memória é que deixamos de saber quem somos e se não soubermos quem somos, não somos, perdemo-nos, goramo-nos. Do colonialismo pindérico para as cicatrizes da descolonização, passando pelos vapores da aproximação à passada europeia e rematando nas macro ou micro arrastonices, nunca se conseguiu ainda fazer espaço para deixar medrar e espraiar-se a imprescindível consciência de que partilhamos uma condição existencialmente relevante com o espaço dito da lusofonia - partilha essa que é culminante no caso dos países lusófonos africanos. Não são os espanhóis que são "nossos irmãos", não são os primos brasileiros; são os africanos da matriz cultural portuguesa (com a devida licencinha às ilhas de Cabo Verde, ainda à procura da sua plataforma continental, pelo epíteto africano, e com a perfeita consciência de que a expressão "matriz cultural portuguesa" presta-se a ser sovada pelo primeiro especiesismo semântico que irrompa de um qualquer desassossego).


A mensagem do dia é que a lusofonia, seja ela o que for, existe.
Ela não é, seguramente, cativa de Portugal, apesar de inúmeras gaffes bacocas por parte das organizações.
Ela existe apesar da extraordinária invisibilidade aos olhos dos portugueses - que a não vêem ou porque simplesmente nem sonham com as grandezas do mundo, ou porque o preconceito, à direita ou à esquerda, os impede de surpreender a identidade.
Isto tudo veio ao de cima por ter começado o dia a ler esta oposição; como espectadora, para além da satisfação de ver o assunto bem disputado, não posso deixar de reparar, com uma nitidez cortante, que a verdadeira oposição é entre os que têm e os que não têm consciência de que esta é uma das bases da nossa identidade, qualquer que seja a maneira como a representamos.
Recordo um provérbio secular que diz: "quem nunca viu Lisboa é como um pinto que morreu dentro do ovo". Cabo-verdiano. Também nos vemos pelos olhos dos outros, não é?

29.10.05

Não vejo assim

... isto, dito por Vicente Jorge Silva, em opinião expressa hoje no DN:
Sem pôr em causa a boa-fé de Cavaco, há em tudo isto algo de excessivo e anormal num quadro democrático, mesmo tendo em conta a gravidade da crise portuguesa. Ao rasurar aquilo que é diferente e diverso e apostando numa "união nacional" de gregos e troianos, a candidatura de Cavaco torna excedentário o pluralismo político e ideológico. Finalmente, a hipótese de um triunfo retumbante, logo na primeira volta, acentua o pendor plebiscitário da eleição e obriga o candidato vitorioso - quer ele queira quer não - a assumir o papel de "salvador".
A principal acentuação que vejo é, antes pelo contrário, a do branqueamento do último contacto de Cavaco Silva com o eleitorado - perdeu, lembram-se?
Logo à primeira volta... não foi?
E, assim, o que também creio ver no texto de VJS é um sinal de que foi inteiramente engolida a ideia, favorável a Cavaco Silva, de que o homem vem em graça (por oposição ao burlesco fácil de respigar nas candidaturas da esquerda).
Ora, não vem. Isso é um trompe l'oeil mediático mas parece que pegou.

Não acho, para além disso, que a efectiva adequação de Cavaco Silva para captar votos no bloco central possa, em boa verdade, ser retorcida ao ponto de transformar-se em algo que "torna excedentário o pluralismo político e ideológico".

Não torna, é bloco mediano, apenas.

Insisto na objecção à presidencialidade de Cavaco Silva: aquilo a que alguns já têm chamado "falta de cultura humanista", mas que não refiro dessa maneira porque assim parece que se trata de um supérfluo adereço, de um elemento histriónico dispensável.

Trata-se da falta de bússola, da deficiente perspectivação política, mas de uma política baseada na compreensão da existência individual, da política como instrumento das condições sociais do que um dia por aí chamei o viço do indivíduo.

Está lançado, já se viu, o campeonato das presidenciais. Ora lá vem chegando a camisola, a clube, a competição, o aconchego da manada ... a náusea.

E agora, José?

Vamos esperar mais um ano e picos pelo novo referendo sobre a despenalização do aborto ou vamos assistir a mais uma "adaptação aos factos", rectificando o que foi dito em campanha eleitoral, e avançar para a acção legislativa do parlamento, dando precedência ao fundo (despenalização) sobre a forma (referendo)?

Entretanto, apraz-me a incomodidade gerada pelo Tribunal Constitucional. Querem referendos quando têm competência legislativa? Querem diluição da responsabilidade política perante o eleitorado? Pois então, tomem lá o túnel espinhoso da referendação, não contem connosco para dar jeitinhos.

A sexosfera, darling, não é lisa

É só pra dizer que gosto de ser bem-amada, mesmo nos intervalos.
E que mantenho que os rapazes são mesmo os nossos melhores amigos, mesmo quando são infiéis, a nós, às outras, tanto faz; e que acho uma infâmia causar o mínimo tremor de medo, de dúvida, de insegurança, na difícil condição masculina.

28.10.05

Que saudades do Verão!

O beco-sistema do cavaquismo e a deriva cega


E ainda:

Claro que achamos (também) que não. Como poderia, se lhe falta a bússola? Como pode, até mesmo, o país perdoar a oportunidade perdida? A Irlanda e a Finlândia, para não ficar por mais perto, mostram, por contraste, quão larga foi a nossa deriva; e a deriva está para durar porque nem sequer vem já a caminho uma geração capaz de forjar a saída do beco que é este sistema desorientado.

É que o cavaquismo como orientação política (coisa que, aliás, fazendo jus à verdade, o próprio tem o cuidado de refutar) é uma deriva.
Uma deriva industriosa mas improdutiva, honesta mas eticamente vaga, laboriosa mas não criativa, empertigada mais que digna, que nos condena sem redenção a vaguear eternamente como cegos, perdidos num estreito beco. Eternamente, não. Só no nosso tempo de vida, concerteza. Apenas durante esse tempo.

27.10.05

Deus aceitável

O que for inútil, sim. E impotente. Infiel - às suas criaturas, condenadas ao sofrimento - é que não.

Mulherio meu

Teodora.
Teodora imperatriz.
Teodora corajosa.
Teodora hetera, isso, inesposável.
Teodora dos ursos.
Teodora, cancro.
Teodora magnífica.
Teodora exacta.
Teodora, amada.
Teodora apesar das núpcias.
Teodora estratega.
Teodora odiada.
Teodora, África, Líbia, Alexandria.
Teodora, ninguém?
Teodora ali.
Teodora.

25.10.05

... and back again!

Temos um C(Px) que se diz ~Pn porque isso o torna, segundo pensa, mais credível como C(Px).*

Não sei se me espante mais pela bonomia ou ingenuidade de tal acto de negação ou pelo understatement sobre a porca da política.




*[Seja C= candidato e P= detentor de cargo político]

Do laborismo à insanidade

Quando oiço dizer que "nunca fez nada na vida" aquele que deixou acumular tempo na permanência em cargos partidários ou no exercício de cargos políticos estilhaça-se-me a paciência.

24.10.05

Segunda-feira, afivelando a "persona"

Naquele tempo as partes pudendas ainda eram orladas de veludo e toda a pele era de cetim. O velcro e os têxteis viriam muito mais tarde.
Os cães ainda não tinham sido inventados, pelo que o timshel vivia sossegado.
As cobras eram mansas e alimentavam-se de pêssegos macios , enfim, um frete indescritível.
Não fazia frio, não nevava, não doía a nostalgia.
Toda a bicharada era, na verdade, pachorrenta e sedentária, com sinais de obesidade epidémica; a mulher era também paciente e bem nutrida. O homem lá se ia mexendo um pouco mais e mantinha-se tonificado, bem definido.
Mesmo sem cama, dormia-se reparadoramente. Talvez por isso mesmo, por então terem excelente higiene de sono, os bichos-da-seda não andassem ensandecidos por aí (coisas da metamorfose, pela certa).
Até que um dia chegou o papagaio que "dão ze zênetia béme", ele eram dores de cabeça, o bico seco, um arrepio nos verdores das asas. O homem primeiro riu-se, pensando que se tratava de um pato sueco, mas depois do jantar reconsiderou "isto se calhar não tem piada" e sonhou que o cheiro doce das formigas-cadáver restolhava nas asas da passarada.
Cedo na manhã seguinte, era uma segunda-feira cinzenta, o homem arranjou um raminho de cameleira no qual pendurou uma tabuleta: "este papagaio fala inglês e parece estar engripado" e disse à mulher "vou ali e já venho". Mais tarde fiz do homem meu amante e do papagaio meu pisa-papéis.

23.10.05

Navegar ainda

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JOY! shipmate—joy!

(Pleas’d to my Soul at death I cry;)

Our life is closed—our life begins;

The long, long anchorage we leave,

The ship is clear at last—she leaps!

She swiftly courses from the shore;

Joy! shipmate—joy!


[Walt Whitman (1819–1892). Leaves of Grass. 1900. 293]

Navegar


22.10.05

Poder de síntese

A cartilha reaccionária consente ser resumida em apenas dois artigos de fé:

1. Este mundo é um vale de lágrimas feio, porco e mau, mas, no essencial, é impossível mudá-lo para melhor.

2. Quando se procura mudá-lo para melhor, o resultado final é ainda pior que a situação de partida.

Give me the Splendid, Silent Sun

GIVE me the splendid silent sun, with all his beams full-dazzling;

Give me juicy autumnal fruit, ripe and red from the orchard;

Give me a field where the unmow’d grass grows;

Give me an arbor, give me the trellis’d grape;

Give me fresh corn and wheat—give me serene-moving animals, teaching content;

Give me nights perfectly quiet, as on high plateaus west of the Mississippi, and I looking up at the stars;

Give me odorous at sunrise a garden of beautiful flowers, where I can walk undisturb’d;

Give me for marriage a sweet-breath’d woman, of whom I should never tire;

Give me a perfect child—give me, away, aside from the noise of the world, a rural, domestic life;

Give me to warble spontaneous songs, reliev’d, recluse by myself, for my own ears only;

Give me solitude—give me Nature—give me again, O Nature, your primal sanities!

—These, demanding to have them, (tired with ceaseless excitement, and rack’d by the war-strife;)

These to procure, incessantly asking, rising in cries from my heart,

While yet incessantly asking, still I adhere to my city;

Day upon day, and year upon year, O city, walking your streets,

Where you hold me enchain’d a certain time, refusing to give me up;

Yet giving to make me glutted, enrich’d of soul—you give me forever faces;

(O I see what I sought to escape, confronting, reversing my cries;

I see my own soul trampling down what it ask’d for.)


Keep your splendid, silent sun;

Keep your woods, O Nature, and the quiet places by the woods;

Keep your fields of clover and timothy, and your corn-fields and orchards;

Keep the blossoming buckwheat fields, where the Ninth-month bees hum;

Give me faces and streets! give me these phantoms incessant and endless along the trottoirs!

Give me interminable eyes! give me women! give me comrades and lovers by the thousand!

Let me see new ones every day! let me hold new ones by the hand every day!

Give me such shows! give me the streets of Manhattan!

Give me Broadway, with the soldiers marching—give me the sound of the trumpets and drums!

(The soldiers in companies or regiments—some, starting away, flush’d and reckless;

Some, their time up, returning, with thinn’d ranks—young, yet very old, worn, marching, noticing nothing;)

—Give me the shores and the wharves heavy-fringed with the black ships!

O such for me! O an intense life! O full to repletion, and varied!

The life of the theatre, bar-room, huge hotel, for me!

The saloon of the steamer! the crowded excursion for me! the torch-light procession!

The dense brigade, bound for the war, with high piled military wagons following;

People, endless, streaming, with strong voices, passions, pageants;

Manhattan streets, with their powerful throbs, with the beating drums, as now;

The endless and noisy chorus, the rustle and clank of muskets, (even the sight of the wounded;)

Manhattan crowds, with their turbulent musical chorus—with varied chorus, and light of the sparkling eyes;

Manhattan faces and eyes forever for me.



[Walt Whitman (1819–1892). Leaves of Grass. 1900. 130]

20.10.05

Oito

Minutos, oito. Rápido?
Não, é exacto.
É a duração própria do anticlímax.

Acho a pena de morte uma grande maçada


Se a fonte falar verdade, este é Saddam com dez anos.

Não é o Saddam que está a ser julgado.

Não é o ditador nos seus tempos de poder sangrento e excessos narcisistas.

Não é o bicho que foi encontrado na toca e exibido ao mundo.

Não é, já disse, o da barba aparada que se senta no banco dos réus à frente de um juiz cuja expressão risonha não compreendi nem me caiu muito bem.

A fotografia tem um rasgão, representa um rapaz bonito e com uma expressão firme. Há uma caligrafia estranha ao lado e um símbolo do amor livre na legenda, seguido de uma menção aos U2, só que ao contrário. É desconcertante. O rapaz parece ruivo. Teve de se deixar fotografar, talvez fosse uma peste. Cresceu e provocou um sofrimento indescritível.

Saddam será possivelmente condenado à morte.

19.10.05

A chamada vergonha na cara que nos anda a faltar

Oxalá o assunto tenha vindo para ficar, depois de passada - e assinalada - a efeméride do dia da luta contra a pobreza e a exclusão social. Gostei de ver este post no Causa Nossa.

18.10.05

(A Girl's) Best Friends #2

Uma mulher intelectualmente admirada por um homem parece-me sempre uma criatura diminuída. Alguém a quem se dá cobertor e sopa quente.

Alguém suficiente apesar de invulgarmente identificado (acredite-se ou não, não fui eu mas é certo que podia ter sido) propôs que o Lutz desse destaque a este excerto das confissões ontem feitas às paredes do deserto, já que resolvera fazer um post sobre o assunto.

Como o conselho não foi seguido, faço-o aqui.

Prevaleço-me da oportunidade para participar que se aceitam cobertores e sopinhas reconstituintes. Requere-se apenas boa condição física e prova simples de vida neuronal. Brandura garantida. Inscrições, por favor, na fila do lado.

Ortocoisas e prazeres


Recordo-me de ter lido há uns tempos um artigo de divulgação que dava conta de que há uma sensação de prazer associada à censura pela quebra de regras.
Fazendo vista aos meus próprios caminhos interiores, englobei sem custo a ideia: retira-se uma sensação de bem-estar da emissão de um juízo de censura.
Junte-se a isto a disponibilidade para, como o próprio nome sugere, considerar que qualquer regularidade é uma regra (saneando aqui algumas toneladas de tinta corrida sobre a questão) e ... voilà, temos sumariada toda a história da prontidão para dar com o pauzinho a quem se afasta da manada.
Eu acho que para além do sinistro simbolismo classista que empapa a crítica aos pontapés na gramática - que originou a enxurrada de palavras do último post - replica-se atavicamente essa aflição de tresmalho nos ímpetos correctores da ortografia, da pronúncia, da propriedade na utilização das palavras.
E, por tudo isso, eis-me em prazer sublime, ajuizando que é grotesco o escândalo achado na crítica ao pontapé na gramática.

17.10.05

Da importância da ortografia

A ortografia é o elemento subtil de vigia à gramática, sabendo-se que o pontapé na gramática é a prova irrefutável que desmascara os arrivistas ou parvenus ou novos-ricos quando pretendem infiltrar-se entre os que se encontram naturalmente noutro patamar, onde as pessoas são menos desprezíveis.

Há alguns, é certo, que dão erros por causa de dislexia mas esses casos devem ser tratados à parte; aliás, no contacto com essas pessoas devemos procurar manter presente a ideia de que essas pessoas têm uma deficiência que não lhes deve ser censurada, havendo que tratá-los com a maior humanidade possível, tal e qual como se fossem cegos ou surdos ou mesmo de outra raça mais desfavorecida.

Ainda que seja verdade que "arrivistas", "parvenus" e "novos-ricos" sejam expressões de origem francesa, excepcionalmente não se considera que o seu uso constitua um pontapé na gramática. Tais expressões são tão úteis quanto necessárias para referir quem quer arrogar-se, em sentido ascendente, lugar que verdadeiramente não lhe cabe na escala social.
Trata-se de gente sem diferenciação cultural, sem o menor sentido de cosmopolitismo, muitas vezes ainda cheia de vestígios rurais ou portadores de uma cultura massificada, alimentada por fardos de informação colocados à disposição de todos. As pessoas que mostram semelhante falta de cultura são desprezíveis, como já referi, mas nunca é demais recordá-lo.

A ortografia é um sinal que distingue os cidadãos respeitáveis dos labregos com a mesma clareza com que a utilização de meias brancas distingue o possidónio da pessoa com bom gosto.

Os pais deveriam empenhar-se mais vigorosamente na educação gramatical dos filhos por uma questão de coerência. Pois se têm cuidado em transmitir as regras básicas da boa educação ou em velar pela sua apresentação e vestuário em termos tais que permitirão perceber que eles não foram propriamente criados na Musgueira ou em qualquer bairro de lata, ou mesmo social, seguir-se-ia naturalmente a isso cuidar desses sinais igualmente definidores do nível merecido de consideração social, que são dados pela observância ou violação das boas regras gramaticais.

Portugal é, como se sabe, um país cheio de pobres e encharcado pela classe média-baixa mais tosca e pindérica da Europa.
Ora, este desnível socio-cultural coloca realmente um grande problema. Viver numa sociedade assim é uma luta diária, uma prova de obstáculos entre labregos e possidónios. A luta pelo reconhecimento daquele patamar de diferenciação social em que se baseia verdadeiramente a dignidade social é, sabemo-lo, um tropel de canseiras.
Até nesse contexto nos ajuda a ortografia, na sua vertente de teste de diferenciação, e mesmo de distinção, pronto-a-usar. E assim, lá vamos confirmando que sempre somos merecedores de alguma consideração social, ao contrário dos pobres, dos ignorantes, da gentalha desprezível em geral.
A ortografia é, enfim, o elemento subtil do pontapé na gramática na sua função diferenciadora, com base na qual é medida a consideração social a prestar aos indivíduos. Acho eu de que.

16.10.05

Ao psiché, com premência, à vista do pundonoroso "sim"


À medida que se sente com crescente nitidez o rugido da eclosão final da revelação do tabu do Professor, à medida que esse anticlímax vai ganhando corpo pelos ares, ameaçando-nos de asfixia parda...
... vejo chegarem os corifeus do presiden-cialismo compreen-dido como um aconchego, sucedâneo da mão que nos prende o cachaço paternalmente, enquanto nos conduz com firmeza pelo caminho, o bom.

Só de pensar que, em simultâneo, vamos ter a ofensiva natalícia..., o frio, o inverno...

Ahh, o aconchego do psiché nestes momentos...!

15.10.05

Chega sempre o momento

Chega sempre o momento em que uma dama, mesmo uma lidadora ensandecente, tem de dar aqui ou ali um jeitinho, ponderar a distribuição das contas dos pesos e dos volumes, rever o seu portfolio. Mesmo se a peleja não for contra a lei da gravidade mas sim contra a lei da gravidade [pigarro pigarro], qual delas a mais letal...!
Dá-se início à possibilidade de arranjos e retoques e agradece-se ao Padrinho as pacientes e generosas dicas de alfabetização em html.

Boa malha!

Na causa deles, pergunta-se com muita agudeza pela essência das mordomias...

(A Girl's) Best Friends


qual diamantes, qual carapuça!
exercício onírico-verbal e sobretudo aleivoso, cru e implacável de um belo momento avistado a oriente.

13.10.05

Causinha minha

Alguém sff explica de uma vez por todas aos senhores e às senhoras da televisão que é uma argolada iníqua basear o esvoaçante, e contudo tosco, juízo sobre a culpabilidade da mãe da Joana na ideia de que "alguma coisa há-de querer dizer" ter sido deduzida acusação?!

Alguém sff tem a fineza de convencer as mentes narcisicamente moralistas que por aí pululam que não há na prisão preventiva uma ideia de "petite peine", ora toma lá, pelo sim, pelo não?! Que isto seria intolerável?! E absurdo a todos os títulos?! E transformaria tudo o mais, a começar pela resultante redundância do processo e julgamento judicial, numa farsa inútil à custa dos nossos impostos?! (... e os tansos nem parecem incomodados com isso!)

Ou será que este modo nacional de fantasiar a esperteza, como o olho que pisca enquanto o outro olha, com a mão que dá, enquanto a outra tira, não permite que se acredite - ou sequer mesmo que se consiga imaginar - que esta coisa do sistema penal de um Estado constitucionalmente baseado na dignidade dos indivíduos é mais como uma alfaia do que como um bibelô?!

Para fazer o retrato de um pássaro

Pintar primeiro uma gaiola
com a porta aberta
pinta-se a seguir
qualquer coisa bonita
qualquer coisa simples
qualquer coisa bela
qualquer coisa útil
para o pássaro
colocar de seguida a tela contra uma árvore
num jardim
num bosque
ou numa floresta
esconder-se atrás da árvore
sem dizer nada
sem mexer...
Às vezes o pássaro chega depressa
mas pode também tomar longos anos
para se decidir
Não esmorecer
Esperar
esperar durante anos se necessário
a rapidez ou a lentidão da chegada do pássaro
não têm nenhuma relação
com o bom sucesso do quadro
Quando o pássaro chegar
se é que ele chega
observar o mais profundo silêncio
esperar que o pássaro entre na gaiola
e quando ele tiver entrado
fechar suavemente a porta com o pincel
depois
apagar uma a uma todas as grades da gaiola
tendo cuidado para não tocar em nenhuma das penas do pássaro
Fazer de seguida o retrato da árvore
escolhendo o ramo mais belo
para o pássaro
pintar também a folhagem verde e a frescura do vento
a poeira do sol
e o som dos bichos da erva no calor do verão
e depois esperar que o pássaro se decida a cantar
Se o pássaro não cantar
é mau sinal
sinal de que o quadro não presta
mas se ele cantar é bom sinal
sinal de que podes assinar
Arrancas então muito suavemente
uma das penas do pássaro
e escreves o teu nome num dos cantos do quadro.

Jacques Prévert

[capturado no Columbiana]

12.10.05

Contraponto

Eu vou mais pelo lado da limitação injustificada ao exercício da profissão e, portanto, pela desconformidade com a Constituição, do que pelo lado da defesa do programa liberal. Mas aclamo a Arte da Fuga por ter trazido à baila, em repetidos movimentos, o incompreensível caminho que levam as ordens profissionais.

Dúvida



Qual é a orientação sexual de um homem que gosta de mulheres masculinas? E se, em vez disso, esse homem gostar de homens efeminados, mas não de homens de tipo viril?

Masculinidade e feminilidade subentendidas aqui segundo os clichés dominantes.

Teoria da comunicação eliminatória

Perdoem-me as heroínas e, sempre que se perfilem, também os heróis que vão cuidando com tanto estoicismo e dedicação dos nossos bebés e dos nossos meninos por mais este alçapão de dúvidas, angústias e responsabilidades, mas não resisto: parece que tudo correria melhor se, em vez de andar a manter os bebés ensopados em fraldas, ousássemos desenvolver a nossa capacidade de comunicação com os ditos infantes, como fazem os adultos noutras sociedades menos complicadas.
Mais precisamente, haveria que desenvolver a comunicação de eliminação com os bebés, coisa que andaria atrofiada cá pelos nossos lados.
Introdução ao assunto, com link para a inevitável organização americana do movimento fora-com-as-fraldas neste artigo de uma antropóloga convertida aos rabinhos ao léu, publicado ontem no NYTimes.

Ouço nesta madrugada o silêncio de granito da Estação de Nelas

Hoje é dia dos Correios. Aqui na Estação trazemos todos um pin alusivo ao acontecimento e tenho uma pequena surpresa para logo à tarde. Quando fecharmos o atendimento vou abrir uma garrafa de espumante e ler alto, aos outros funcionários, uma pequena história dos Correios. Por esta ordem, para conseguir aquele grau mínimo de adesão que uma acção destas pressupôe. Vou lembrar-me de Lúcia, hoje noutras tarefas em Estrasburgo. Estou, aliás a lembrar-me dela agora. A tentar aquela discursividade interna que os psicólogos cognitivos recomendam para a saúde mental em geral e a prevenção das crises de pânico em particular. Lembro-me de Lúcia, das chamadas ao fim da tarde, do silêncio de granito da Estação de Nelas, de como me sentia bem a falar com ela de trivialidades, o express-mail, a formação em Office 11, o novo sistema de avaliações. E dos silêncios antes de desligar, em que ela esperava que eu dissesse as tolas frases dos sentimentos. Ela esperava, não desligava, podia-se ouvir o granito das ruas de Nelas, as alfaias dos campos das traseiras da Estação. Eu calava-me. Não sou poeta. A poesia é uma doença a que quero fugir. Uma doença das mulheres, e dos homens que as avós enlouqueceram na infância. Não estou a ver que esta discursividade interna me poupe a angústia da tarde. Se ao menos pensar em Lúcia me apagasse de vez a imagem de Lúcia e com ela as estradas, todas as estradas que levam a Estrasburgo.

11.10.05

Eleições acolá


Em Janeiro, também acolá. E, pelo que já vem soando, vê-se que a coisa promete ser animada...

Desabituação do olhar

Focar sff aqui.

A força dos hábitos

O batôn não está perfeito, embora a adstringência dos taninos cerrados, com um final de frutos silvestres, me pareça adequada à situação. O contraste com o leitoso pastel do semblante lê-se assim: "não tenho medo; oiçam o que digo".
O azul da íris foi pariensemente envolto em metalizados reflexos de liturgia financeira, de modo tal que o olhar ficou límpido e mais celestial ainda, soprando como quem não quer a coisa: "vejam como sou digna de confiança".
E o lóbulo da orelha mostra-se incólume; não lhe traçaram desígnios de brincos e arrecadas nem ela tomou tais votos para si. Está intacta.
Eu acho que me habituo, mesmo assim.
Tu habituas-te?
Nós habituamo-nos...
Eles habituam-se...

10.10.05

A autárquica trindade

A reeleição de Felgueiras, Isaltino e Loureiro tem, a meu ver, vários aspectos positivos dos quais registo três: lembra aos partidos que as questões internas são secundárias, sublinhando a importância do país vivo, define as condições em que decorrerão os julgamentos dos respectivos processos em termos tais que fica traçado um cenário particularmente límpido, quase laboratorial, para apreciar, finalmente e de uma vez por todas, a adesão, ou não, por parte das populações e dos próprios autarcas às instituições da democracia e, por fim, incentiva todos os outros autarcas à melhor prestação possível, tanto no plano formal, realçando a importância de maior atenção à legalidade, de que, apostaria, esta trindade será doravante a frente exemplar, como no plano do ânimo, mostrando a todos esses futuros reelegíveis, que a dedicação à causa autárquica compensa.
Não vale a pena vir com lamúrias moralistas de que isto é uma pouca vergonha. É o que está para se ver, precisamente.
Em qualquer caso, há um subproduto desta situação que seria uma pena desperdiçar neste país tão bisonho: não obstante o penteado de FFelgueiras já tenha conhecido melhores dias, pelo que se sugere prestes reciclagem ao coiffeur local e, apesar de, em boa verdade, o Major me parecer intermitentemente trespassado numa fina dor aflitiva, todos três limaram sinais possidónios, encardidos, sombrios, e ei-los tonificados e de melhorada apresentação, fazendo subir o índice nacional de boa apresentação, compensando, nessa medida, o estranhíssimo fenómeno Jardim, com o qual se verificam algumas coincidências quanto ao mais.

9.10.05

Bosch austero

Eleições dacoli


Já quase não vinha a tempo de dizer isto.
O que me agrada muito nas recentes eleições alemãs e na questão da grande coligação é estar a vê-las a partir daqui e com isso ficar segura de que os outros ao meu lado também assistem à acomodação dos partidos sob a pressão do interesse nacional.
Não me interessa nada se os que se acomodam são completamente sinceros (o que é isso?!); delicio-me com o simples facto de se submeterem publicamente a essa prioridade.

Eleições daqui

Sentindo necessidade de puxar pelo optimismo, consigo produzir esta perspectiva:
E se, afinal, a incomodidade do voto fosse só porque estou mais velha, ou porque estou rezingona ou mesmo hipercrítica?
A TêPêéMe não conta, por impossibilidade biológica, considerando a duração da campanha.

Devo ter desleixado os meus deveres cívicos de alguma maneira porque este acabrunhamento não é coisa aceitável em dia de eleições.

7.10.05

Dizem-me que a vida é dura


É, pois.

Mark Edward Harris - USA
"Majuro, Marshal Islands (Children Playing)"

A foice passeia-se ladina

Contrastes assim, como este que liquidifica a ribombância emproada em torno do discurso do Presidente e seu preconício anti-corrupção, fazem a minha manhã e adoçam-me a olorosa torrada com hipocalórico, e contudo plural, amor pela humanidade.

(E assim dizendo, reequilibro a ordem universal das palavras, que o dia me mostrou suspensa, prescindida a esfinge, por amor - direi, também! - à luz. Voluntária suplência noviça em dia de folga estilística do bicho-da-seda. Alguém tem de estar de serviço!)

(Addenda: afinal não havia folga; à causa seguiu-se lídima condição substantiva! Precipitei-me.)

6.10.05

Toque a rebate

A discussão foi aberta pelo CA. Alvíssaras por bons pontos de vista.

Observância

For a cake, you cannot say, "I feel like putting three eggs into this cake rather than two." Don't feel constrained by this. Instead be grateful that you need only obey the rules, and gratification will come.

A docilidade ocasionalmente até sabe bem.

3.10.05

Lidando insanamente com a propriedade

Dou sempre as moedas possíveis - ou os cigarros que costumava ter - a quem se dirigir a mim, pedindo, junto ao Júlio de Matos. A razão principal é estar convencida de que os doentes do Júlio de Matos que andam ali pela Avenida do Brasil não têm nada ou quase nada de seu, apesar de (é também a minha convicção) nada de essencial lhes faltar em matéria de alimentação, higiene, vestuário, condições de repouso. E confesso que me quedo sempre um instantinho a apreciar o momento da aquisição, pontuado geralmente por uma expressão satisfeita e grave. Se o gesto distributivo a que aludo é bonito ou feio ou antes pelo contrário não é o que aqui interessa. O que interessa é que essas pessoas, mais que os sem-abrigo, suscitam a questão da importância da propriedade.
Falta-lhes, para além, ou independentemente, da saúde, a propriedade. Na sua dimensão simbólica (se eu tenho algum valor que é meu, eu tenho algum valor; eu possuo, logo existo) e também na sua dimensão libertadora (se eu tenho este recurso, posso obter aquele ou aquele resultado, posso chegar onde não chegaria ou obter o que não obteria sem este recurso, posso fazer, posso agir).
A defesa da propriedade faz-se, penso, em razão destas duas dimensões. Vendo-as de mais perto, porém, fico com a impressão de que nas discussões sobre liberalismo e propriedade estes aspectos que justificam a defesa da propriedade são ultrapassados ou esquecidos e já não é disso, portanto, o que se trataria de acautelar ou defender nas apologias liberais da propriedade, mas sim qualquer outra ideia, insuficientemente identificada, por alguma dificuldade que eu não creio que seja de tipo técnico.
Acredito que quer a quantidade, quer a qualidade da propriedade de que é necessário alguém
dispor para ser atingido o patamar mínimo da dimensão simbólica vão muito pouco além da situação dos doentes do Júlio de Matos. Além disso, esta função da propriedade não é incremental; é a apropriação, ou não, de algo o que faz a diferença. Basta a situação base da representação simbólica para o processo se completar. A título de exemplo negativo, o despojamento material como experiência de humildade e de negação do eu, pelo menos da Índia até ao cristianismo.
Por outro lado, na sua dimensão libertadora, de capacitação para fazer, agir, obter, a propriedade apenas tem interesse como modo de organizar o acesso às utilidades dos objectos sobre que recai. E é complacente com inúmeras fórmulas, envolvendo maior ou menor domínio do indivíduo sobre o objecto da propriedade, numa gradação de tal ordem que idealmente podemos imaginar uma continuidade gradativa entre a mais liberal propriedade oitocentista e a mais comunitária forma de apropriação dos Tupi. Nessa imaginária linha gradativa, a propriedade que os liberais de hoje conhecem e defendem deveria apresentar-se como um distorcido pesadelo de constrições aos seus trisavós liberais. Basta pensar que já ninguém pode abater livremente uma árvore que seja do seu próprio quintal, nem dar à fachada da casa onde vive a forma da sua fantasia, para já não falar da corrida de obstáculos e esoterismos que é o lançamento e o desenvolvimento de uma actividade empresarial, entre licenças e directivas.
Os liberais acrescentam outra dimensão: a propriedade é instrumental para o mercado que é instrumental para a utopia em que todos finalmente viveremos felizes de acordo com os nossos méritos.
Para além de ser claro que essa propriedade não é a propriedade "nua" (hoc sensu) que estive insanamente a tentar justificar, é forçoso concluir que para compreender e avistar satisfatoriamente todo esse programa e, principalmente, para me sossegar, precisarei ainda de encontrar algures a demonstração da eficácia eugénica marginal do mercado - ou então, envio a especulação às malvas e fico simplesmente a fazer figas para nascer cheia de méritos na vida que me couber na utopia.

2.10.05

Um grande salão

Hoje o Lutz partilha connosco como Mozart contava que fazia para fazer o que fazia, logo depois de deixar umas boas questões aos liberais. Será que o Lutz também faz como o Mozart?

Mentir


Nos últimos dias jornais de diversos países dedicam alguma atenção a um artigo publicado no último número do British Journal of Psychiatry relativo a um estudo realizado sobre o cérebro dos mentirosos. Segundo este estudo as pessoas que mentem patologicamente têm uma estrutura cerebral especificamente distinta - pelo que compreendo, com um maior desenvolvimento de uma área prefrontal, aquela mesma que já se sabia desatar em actividade quando se diz uma mentira, e com menor desenvolvimento de uma outra área que parece estar associada à experiência do remorso e da culpa. Entre os que mentem patologicamente e os outros haveria diferenças (agora) claras nessas duas áreas.
Isto leva a recapitular como mentir é uma actividade complexa e sofisticada.
Mentir requer uma capacidade de se colocar no ponto de vista do outro, de avistar o mundo e as suas plausibilidades a partir dessa alheia (id) entidade. Para mentir bem tenho de saber o que é geralmente tido por credível e será ainda melhor se eu souber muito bem o que é caracteristicamente tido por credível por esta pessoa em particular à qual pretendo enganar.

Como se isso não bastasse, mentir implica também a exigente tarefa de controlar todos os sinais possivelmente emitidos por nós (o que parece que não é exequível por inteiro, mas lá se vai dando um bom jeito) e ainda a espinhosa tentativa de colocar em segundo plano todas as emoções que possamos genuinamente ter sobre o assunto, a começar pela ansiedade da situação de mentira.

É muito trabalho, não é?!

Em conclusões rápidas, duas de sentido contrário:
1- no que respeita aos mentirosos compulsivos, lá vem mais um caso, parece, em que temos de pensar seriamente na questão da exigibilidade/censurabilidade do comportamento, ou não, com todas as consequências que isso possa ter, em matéria moral e jurídica;

2- no que respeita à trabalheira que dá mentir, guardo comigo mais esta achega para uma base "natural" das virtudes ou do bem: para além da inconveniência social da mentira, talvez ela seja também individualmente insustentável como comportamento habitual (e daí a fronteira da patologia). Quem teria energia e recursos mentais e emocionais para gerir em permanência a manipulação de si e do mundo, num malabarismo de emoções e cognições de outro tipo, tendo ainda em conta que a mentira tende a multiplicar-se? Parece mais um caso de que o "nada há mais prático que o bem" corresponde ao melhor ponto de vista...

1.10.05

uma pálida névoa eternamente pairando num universo frio e parado*

In the far, far future, essentially all matter will have returned to energy. But (...) this energy will be spread so thinly that it will hardly ever convert back to even the lightest particles of matter. Instead, a faint mist of light will fall for eternity through an ever colder and quieter cosmos.

The guiding hand of Einstein's E = mc² will have finally come to rest.



*Devia haver um género poético chamado poesia física.

Telenovela, bitte!

Hoje aprendi uma confortável palavra em alemão: Telenovela. Ora bem.

30.9.05

O verniz na comunicação social

Gostei, neste artigo, do DN, assinado por João Miguel Tavares, do modo comedido como a desilusão com a Justiça foi exposta.
Não gostei do último parágrafo: "Mas desconfio que não esteja desacompanhado, porque a começar na Casa Pia e a acabar em Fátima Felgueiras, foram anos tétricos para a Justiça, amplificados por uma comunicação social bem mais agressiva do que antes. Graças a isso, além de lenta, todos ficámos a saber que a Justiça é má. E resta saber se além de má ela não é também corrupta. Daí que, quando os juízes ameaçam o País com uma greve inédita, alguém lhes deveria explicar que neste momento ficar sem dois meses de férias não é o problema mais grave que têm entre mãos. Mas são assim as nossas elites preocupadas com o verniz das unhas mesmo quando o mundo está a ruir à sua volta. "

"Graças" a uma "comunicação social bem mais agressiva do que antes" não ficámos apenas a saber que a Justiça tem muito para melhorar. Ficámos sobretudo a saber que a comunicação social tem muito pouca qualidade no acompanhamento dos assuntos da Justiça e com isso presta com frequência um verdadeiro serviço desinformativo ao país.
Além disso, arrepia-me pensar que é a dita comunicação social que vai apurar se a Justiça "não é também corrupta" pois o texto sugere-me que o critério para essa conclusão será o desfecho dos processos Casa Pia e Fátima Felgueiras: se a Justiça, lá com os seus métodos maus e passivos, concluir o que a comunicação social boa e agressiva já nos comunicou (todos para a choldra, já!), a Justiça passa o teste; se não houver cadeia-para-todos, que é como quem diz, moralidade, a Justiça chumba.

Mais ainda, achei daninha a referência ao verniz nas unhas. Para dar corpo à ideia de futilidade, João Miguel Tavares sugeriu um comportamento feminino. Que banalidade, que cansaço, este tipo perene de graçola cabotina varonil.

Referendo sobre o aborto à vista; problemas para o sim e dicas para o não

Ou vice-versa.
Este resíduo é sólido demais para eu o deixar ficar lá para trás agora que a discussão parece vir aí de novo.

Miss Anscombe, avistada aqui, que bravura a pensar!

Remédio crioulo para a procrastinação e a molenguice em geral

Se bo crê um coza, bo tem d´garral.

(se queres uma coisa, tens de a agarrar)

27.7.05

Ainda as virtudes

Às vezes penso como demorei tantos anos a perceber porque é que a velha Rosa Má falava com tanta propriedade quando dizia que o café aquecido "perdia a virtude".
E como isto está próximo do que se aprende com os filhos, por causa dos filhos - e de todas estas coisas tão práticas e tão concretas.

17.7.05

Qual a diferença entre um salão e uma arrecadação?

hummm.... ora bem, uma .... uma arrecadação ... hummm... e um salão ....
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Como terá sido, afinal? John Stuart Mill, ele, Harriet Hardy Taylor Mill. Viridência?

Leio numa página da Amazon* referências a Mill que me parecem fazer todo o sentido. O apuro da sua educação laboratorial, pela mão benthaminana do pai, o colapso do inverno de 1826. Visto daqui, com muitas páginas americanas sobre saúde pelo meio, dá para associar à SAD, a seasonal affective disorder.
Mas, de regresso à crise de Mill, parece-me que, com ou sem "disorder", quando se está sem sol, com frio até aos ossos, desconectado dos seus semelhantes, é mais fácil ainda perceber que as realizações intelectuais só têm valor instrumental na viridência** do indivíduo. O amor com a Harriet promoveu a redenção de Mill? - Não digo nem "da", nem "à", sublinho; digo "com".


*Anthony Appiah (2005) The Ethics of Identity
** Não estava contente com a palavra "florescimento". Gosto da palavra "viço". Ocorre-me a palavra "viriditas" - usada pela Hildegarda de Bingen. Hei-de verificar se isto bate tudo certo.

13.7.05

'Miss' Anscombe

Anscombe em grande esplendor sobre sexualidade. Mais propriamente sobre catolicismo, castidade, contracepção e aborto, digo eu.

Olha Platão, a volta que as palavras deram

Platon (428-348 v. Chr.), Apologie 23 a5 - b10
23 b8: erdrückt von ἀσχολία / a-scholía / rastloser Tätigkeit,
23 b9: bleibt Sokrates keine σχολή / scholáe / ruhige Zeit für Familie und Staatsgemeinschaft
Platon, Nomoi 781 d9-e3
781 e1: es ist ein Genuss, Zeit zur Verfügung zu haben σχολή / scholáe
781 e2: das heißt, nicht gedrängt zu sein, sondern in angemessener Weise wissenschaftlich forschen zu können

Cicero (106-43 v. Chr.), De officiis I, XX 69-XXI 71
XX 69 es gibt zwei Präferenz-Möglichkeiten für die Menschen:
neg-otium: Tätigkeit um des Erwerbs von Macht und Reichtum willen,
otium: Muße/bescheidenes Leben um der tranquillitas willen
— Ziel beider Einstellungen: libertas —
XXI 70 dementsprechend gibt es zwei Lebensweisen:
die otiosi bieten eine geringere Angriffsfläche, da sie kein Problem sind für die anderen
die Politiker erreichen für die Gemeinschaft Vorteile, für sich Ruhm
— die Wahl ist nicht nur ins Belieben des Einzelnen gestellt —
Cicero, De natura deorum I 3,8; 4,7-8
4,7: otium als unfreiwilliger Rückzug aus der Politik
4,8: otium als Verpflichtung für neuen Inhalt, für geistige Arbeit

Sallust (86-34 v. Chr.), Coniuratio Catilinae 10, 1-2
10,2: otium als kriegfreie Zeit ist ambivalent: Sehnsucht und Gefahr

Vergil (70-19 v. Chr.); Bucolica, Ekloge 1, 1-10
v.4, 6-10: otium als kriegfreie Zeit ist ein Geschenk und wird adäquat genutzt durch ein friedvolles Leben in der Natur

Platon, Theaitetos 175 d7-e2
Voraussetzung für die Ausbildung zum Philosophen: σχολή / scholáe / Zeit, die frei ist von Zwängen jeder Art

Seneca (ca. 4-64 n. Chr.), epist. 82, 2-3
2: durch fehlende Herausforderung wird die Seele träge
3: ohne geistige Beschäftigung vegetiert der Mensch nur, wird stumpf und unlebendig
— otium kann der „Tod“ sein —

Plinius (62-ca. 113 n. Chr.)
1-2: in der Großstadt vertut man seine Zeit/dies absumere
4-6: auf dem Land lebt man eine richtig verstandene anspruchslose Muße
6: otium als wissenschaftliches Arbeiten ist das schönste neg-otium
— otiosum esse heißt nicht nihil agere —

Blaise Pascal (1623-1662), Pensées, frg. 127, frg. 131
frg. 127: zur conditio humana gehört die Unbeständigkeit mit ihren Folgen ennui, inquiétude
frg. 131: wenn der Mensch diese Unruhe nicht mit Tätigkeit oder Zerstreuung stillen kann, fällt er in Depression

Immanuel Kant (1724-1804), Anthropologie in pragmatischer Hinsicht I 1 §14, (A 151-152)
Lange Weile: einerseits leidet der Mensch unter dem Ausbleiben von Empfindungen bis zum Lebensüberdruss
Betätigung: andererseits steht einer Anwendung des Gegenmittels die ganz normale Trägheit entgegen.
Ruhe negativ: kein Genuss, da man sie sich nicht verdient hat
Ruhe positiv: die Vernunft erfindet Rechtfertigungsgründe
Zeit-vertreib: einerseits versucht der Mensch, die langweilige Zeit zu nobilitieren (tempus fallere) durch unproduktive, aber nach Kultivierung aussehende Spiele, andererseits bringt er es fertig, die Zeit „totzuschlagen“ durch nichtiges Tun.

Sören Kierkegaard (1813-1855), Entweder-Oder I, Wechselwirtschaft (DTV München 1975)
335: Langeweile:
die Masse, die keine Zeit zur Langeweile hat, langweilt die anderen – die Privilegierten langweilen sich selbst.
die Unermüdlichen, Korrekten langweilen die anderen – die bekannten schillernden Figuren unterhalten mit ihrer Gelangweiltheit die anderen.
336: Müßiggang:
Müßiggang ist ein erstrebenswerter Zustand, die Langeweile ist aller Laster Anfang.
Müßiggang ist ein humanum, Zeit für geistiges Wollen, pausenloses Tätigsein ist ein Automatismus.
337: Zerstreuung:
die schädliche Langeweile kann nur aufgehoben werden durch Zerstreuung.
falsch verstandene Zerstreuung, die Bedeutendes und Unbedeutendes nicht differenziert, ruft Langeweile hervor, da sie ohne Nachhall bleibt, ein Nichts.
338: Veränderung:
die Langeweile wünscht Veränderung, Bewegung.
die Veränderung muss aber wohldurchdacht sein.
339: Wechselwirtschaft:
falsche Wechselwirtschaft bietet Veränderung um jeden Preis, Hektik.
richtig verstandene Wechselwirtschaft bedeutet, sich zu beschränken.

(http://www.humanismus-heute.de/erwartungshorizonte/erw200506.html)

4.7.05

Nem tanto, Manuel Maria!

Meu ser evaporei na lida insana
Do tropel de paixões, que me arrastava;
Ah!, cego eu cria, ah!, mísero eu sonhava
Em mim quase imortal a essência humana.

De que inúmeros sóis a mente ufana
Existência falaz me não doirava!
Mas eis sucumbe a Natureza escrava
Ao mal que a vida em sua origem dana.

Prazeres, sócios meus e meus tiranos!
Esta alma, que sedenta em si não coube,
No abismo vos sumiu dos desenganos.

Deus, ó Deus!... Quando a morte à luz me roube,
Ganhe um momento o que perderam anos.
Saiba morrer o que viver não soube.

(Manuel Maria Barbosa du Bocage)