21.11.05
Girl talk*
20.11.05
O sol que ilumina os rostos

É o sol poente o que ilumina e talha o rosto da Mulher da Cidade, riscando a giz a pungência da vontade do Homem. Na penumbra, já as mãos e o ângulo do colo o cingem, iniciam a deglutição. O Homem e a Mulher da Cidade sofrem e isso é bom.
19.11.05
Fenecido
18.11.05
200 milhões de nós
Representar o mundo, pensá-lo, sem marcar clara presença desses 200 milhões deverá, cogito, dar um resultado tão distorcido dos dados da realidade como eliminar do mapa Portugal, Espanha, França, Itália e uma boa fatia da Alemanha.
Gostei de encontrar uma mais que plácida, optimista consideração do impacto económico desta Grande Migração: "Migration Can Deliver Welfare Gains, Reduce Poverty", assim começa o título de um artigo no sítio do Banco Mundial, a que cheguei por indicação do Timshel.
17.11.05
Cavaco Silva e Magritte
Tectos de vidro
Presidenciais. A retórica
A planitude imperturbável com que as duas frases se sucederam demonstra porque é que Cavaco Silva não deve constar da galeria dos nossos Presidentes: ou Cavaco Silva pensa que pode fazer-nos passar por parvos, dizendo-nos que não estamos a vê-lo fazer o que ele nega fazer, enquanto o faz, (não sou dada a acreditar neste tipo de explicações e creio que não é esse o caso), ou Cavaco Silva não percebe mesmo a incongruência do seu discurso. Acredito que seja esta a situação. Mas neste caso, é ele que não consegue ver-se a si próprio. E se não se vê a si próprio, se se apercebe apenas por via de uma construção narcísica e normativa da sua identidade, mesmo que seja apenas da sua identidade enquanto homem público, não dá garantias de estar seriamente comprometido com a realidade e, por isso, anda profundamente à deriva.
Para as minhas visitas brasileiras via "Google"
Se V. chegou em busca de "causinha", lamento o engano. Queira, pf, dirigir-se para ali. Boas festas.
16.11.05
A girls' best friend
13.11.05
Presidenciais
O martelo não existe fora da palavra martelo
...se a ciência é, ou não, a única forma de SCIENTIA e como se relaciona com a verdade.
... se há ciência confinada a enunciados analíticos.
... se '1+1=2' pode ser 'explicado' ou se é uma norma, lá por ser uma convenção neste apenas possível mundo.
Cavaco, o aborto, a bela e os bácoros
12.11.05
Fragmento LXV
11.11.05
10.11.05
Porquês pelas ruas de Lisboa
Porque é que o Mário Soares tirou as fotos para a campanha num dia em que estava constipado e com conjuntivite? Oh Bobby, darling, you didn't!

Lida: Bobby, darling, como te sentes depois daquele terrível concurso?
Bobby: hummm....
Lida: Sssimm...?
Bobby: Estes sofás são confortáveis...
Lida: ... Espaçosos...
Bobby: hummm...
Lida: Ficaste contente com a menção honrosa da categoria "voz"?
Bobby: humm...
9.11.05
Divinamente flamboyante
8.11.05
Raiva e má-criação
7.11.05
Não se pode, não, exterminá-los
.
.
.
6.11.05
Barbaridades para todos os gostos

Pois, se calhar o problema é que os outros são reles! E ímpios.
Há que proteger as nossas cidades, flores da civilização, desses bárbaros impenitentes.
Abre-se a porta generosa da hospitalidade aos estrangeiros e é o que é...
Uma coisa assim, inesperada, sei-lá..., ninguém podia imaginar... já não há respeito... essa gente...
A bola, o vinho e a fé
*
O gosto por festas bem regadas, a partilha da fé católica e o entusiasmo por uma boa futebolada, ora agora jogo eu, ora agora jogas tu, ajudaram a dissipar as fronteiras. A mistura de quotidianos que assim se foi fazendo, acrescia aos do mundo do trabalho, onde os imigrantes iam dando provas de natureza trabalhadeira.
*
5.11.05
Se eu ao menos soubesse

Se eu ao menos soubesse
Sobre que é que pousou o teu último olhar.
Foi uma pedra, que já muitos últimos olhares
Tinha bebido, até que eles em cegueira
Caíram sobre a cega?
Ou foi terra,
Bastante para encher um sapato,
E já negra
De tanta despedida
E de preparar tanta morte?
Ou foi o teu último caminho,
Que te trouxe o adeus de todos os caminhos
Que tu tinhas andado?
Uma poça de água, um pedaço de metal luzente,
Talvez a fivela do cinto do teu inimigo,
Ou qualquer outro, pequeno adivinho
Do céu?
Ou mandou-te esta terra,
Que não deixa partir ninguém sem ser amado,
Um sinal de pássaro pelo ar,
Acordando lembranças na tua alma, e ela estremeceu
No seu corpo queimado de martírio?
Nelly Sachs, em Oração para o noivo morto, traduzida por Paulo Quintela (1967, Portugália).
Ou a magnificência do amor e o superiormente belo desconhecimento do ódio.
3.11.05
Incubo cavaquista 0 - Soares 1
Ontem, na TVi.
Tenho um problema com o mérito

Como o mérito não se agarra ao DNA, ínclitos indivíduos geram com frequência verdadeiros trambolhos. Se esses ínclitos indivíduos conseguiram privilégios duradouros para a prole, teremos, pois, privilégios totalmente imerecidos por parte daqueles que os detêm no presente. Se a prole for de realmente boa cepa – ou mesmo empa – então terá renovado as condições de merecimento do privilégio, logo não haverá que falar em privilégio.
Mas com ou sem transmissão via DNA, um mérito de antepassado é, para o presente, um mérito-mais-que-passado e não constitui justificação de privilégios para a prole, de boa e má cepa e empa, nem mesmo se se pretendesse simplesmente, num jeito de simbolismo cultural, tomar a geração presente como ícone do valoroso antepassado. Numa cartilha de amor total ao indivíduo isso seria ainda insustentável pelo que envolve de limitação grave da sorte de cada novo indivíduo de tal geração; e não vale a pena vir dizer que o privilégio valeria mais que a liberdade assim perdida, pois a essa nunca aderirei eu, que subscrevo a tal cartilha.
O segundo motivo do meu problema com o mérito é que o mérito como critério de distribuição das vantagens só me parece digno de incenso se for acompanhado de uma rigorosamente-equitativa-distribuição-natural-dos-talentos-socialmente-tidos-por- excelentes.
Por isso, como já aqui disse, ou o liberalismo de direita arranja artes de nos garantir uma eficácia eugénica marginal ou então estamos tramados nalguma futura eventual vida a acontecer na Utopia liberal, cabendo-nos aí triste sorte, minguada fatia, se não (re)nascermos belos, inteligentes, atléticos, enfim, virtuosos.
O motivo terceiro e principal do meu problema com o mérito é que é uma palavra oca. Completamente oca, madrinha de todos os pleonasmos.
Como qualquer problema que se tem com qualquer coisa, o meu problema com o mérito existe porque, como tantos outros, sucumbo ao encanto da palavra.
Palavra assim, tão esdrúxula, tão luxuriante... Curvas e contracurvas de sonoridades vocalizáveis - mÉrItuUu. Tão plasticamente sensual numa convocação sucessiva de lábios - mmmééé -, doce requebro longo na língua oferta - rii -, um beijo ritual a fechá-la - tooo... – de ricto a rito final do prazer. Dito em voz masculina é todo um universo sinestésico...
1.11.05
Pão-por-Deus #2
Aqui mora gente boa.
Esta casa cheira a vinho
Aqui mora algum santinho
Pão-por-Deus

O Truca Truca
Já que o coito
- diz Morgado-
Tem como fim cristalino,
Preciso e imaculado
Fazer menina ou menino;
E cada vez que o varão
Sexual petisco manduca,
Temos na procriação
Prova de que houve truca- truca.
Sendo pai de um só rebento,
Lógica é a conclusão
De que viril instrumento
Só usou – parca ração!-
Uma vez.
E se a função
Faz o órgão – diz o ditado –
Consumada essa excepção,
Ficou capado o Morgado.
Memória da Natália Correia
Flor dos terramotos
31.10.05
Desmemoriados
29.10.05
Não vejo assim
Sem pôr em causa a boa-fé de Cavaco, há em tudo isto algo de excessivo e anormal num quadro democrático, mesmo tendo em conta a gravidade da crise portuguesa. Ao rasurar aquilo que é diferente e diverso e apostando numa "união nacional" de gregos e troianos, a candidatura de Cavaco torna excedentário o pluralismo político e ideológico. Finalmente, a hipótese de um triunfo retumbante, logo na primeira volta, acentua o pendor plebiscitário da eleição e obriga o candidato vitorioso - quer ele queira quer não - a assumir o papel de "salvador".A principal acentuação que vejo é, antes pelo contrário, a do branqueamento do último contacto de Cavaco Silva com o eleitorado - perdeu, lembram-se?Logo à primeira volta... não foi?E, assim, o que também creio ver no texto de VJS é um sinal de que foi inteiramente engolida a ideia, favorável a Cavaco Silva, de que o homem vem em graça (por oposição ao burlesco fácil de respigar nas candidaturas da esquerda).Ora, não vem. Isso é um trompe l'oeil mediático mas parece que pegou.Não acho, para além disso, que a efectiva adequação de Cavaco Silva para captar votos no bloco central possa, em boa verdade, ser retorcida ao ponto de transformar-se em algo que "torna excedentário o pluralismo político e ideológico".
Não torna, é bloco mediano, apenas.
Insisto na objecção à presidencialidade de Cavaco Silva: aquilo a que alguns já têm chamado "falta de cultura humanista", mas que não refiro dessa maneira porque assim parece que se trata de um supérfluo adereço, de um elemento histriónico dispensável.Trata-se da falta de bússola, da deficiente perspectivação política, mas de uma política baseada na compreensão da existência individual, da política como instrumento das condições sociais do que um dia por aí chamei o viço do indivíduo.
Está lançado, já se viu, o campeonato das presidenciais. Ora lá vem chegando a camisola, a clube, a competição, o aconchego da manada ... a náusea.
E agora, José?
A sexosfera, darling, não é lisa
28.10.05
O beco-sistema do cavaquismo e a deriva cega
"A sua ideia central, podemos hoje entendê-lo melhor à distância, era conseguir fazer entrar o país na modernidade sem pôr em causa a sua ancestral tacanhez. Assim, a tradicional estrutura de poder económico-social, articulando sabiamente os pequenos e médios poderes locais com as grandes empresas encostadas à sombra do Estado, foi ciosamente reconstituída com alguns arranjos mínimos. Seria de esperar que a abertura à concorrência externa, as reprivatizações, a expansão do investimento estrangeiro e o grande aumento da escolaridade tivessem conduzido a um crescimento espectacular da produtividade. Nada disso aconteceu."
E ainda:
27.10.05
Deus aceitável
Mulherio meu
26.10.05
25.10.05
... and back again!
Não sei se me espante mais pela bonomia ou ingenuidade de tal acto de negação ou pelo understatement sobre a porca da política.
*[Seja C= candidato e P= detentor de cargo político]
Do laborismo à insanidade
24.10.05
Segunda-feira, afivelando a "persona"
Naquele tempo as partes pudendas ainda eram orladas de veludo e toda a pele era de cetim. O velcro e os têxteis viriam muito mais tarde.Não fazia frio, não nevava, não doía a nostalgia.
23.10.05
Navegar ainda
JOY! shipmate—joy!
(Pleas’d to my Soul at death I cry;)
Our life is closed—our life begins;
The long, long anchorage we leave,
The ship is clear at last—she leaps!
She swiftly courses from the shore;
Joy! shipmate—joy!
[Walt Whitman (1819–1892). Leaves of Grass. 1900. 293]
22.10.05
Give me the Splendid, Silent Sun
GIVE me the splendid silent sun, with all his beams full-dazzling;
Give me juicy autumnal fruit, ripe and red from the orchard;
Give me a field where the unmow’d grass grows;
Give me an arbor, give me the trellis’d grape;
Give me fresh corn and wheat—give me serene-moving animals, teaching content;
Give me nights perfectly quiet, as on high plateaus west of the Mississippi, and I looking up at the stars;
Give me odorous at sunrise a garden of beautiful flowers, where I can walk undisturb’d;
Give me for marriage a sweet-breath’d woman, of whom I should never tire;
Give me a perfect child—give me, away, aside from the noise of the world, a rural, domestic life;
Give me to warble spontaneous songs, reliev’d, recluse by myself, for my own ears only;
Give me solitude—give me Nature—give me again, O Nature, your primal sanities!
—These, demanding to have them, (tired with ceaseless excitement, and rack’d by the war-strife;)
These to procure, incessantly asking, rising in cries from my heart,
While yet incessantly asking, still I adhere to my city;
Day upon day, and year upon year, O city, walking your streets,
Where you hold me enchain’d a certain time, refusing to give me up;
Yet giving to make me glutted, enrich’d of soul—you give me forever faces;
(O I see what I sought to escape, confronting, reversing my cries;
I see my own soul trampling down what it ask’d for.)
Keep your splendid, silent sun;
Keep your woods, O Nature, and the quiet places by the woods;
Keep your fields of clover and timothy, and your corn-fields and orchards;
Keep the blossoming buckwheat fields, where the Ninth-month bees hum;
Give me faces and streets! give me these phantoms incessant and endless along the trottoirs!
Give me interminable eyes! give me women! give me comrades and lovers by the thousand!
Let me see new ones every day! let me hold new ones by the hand every day!
Give me such shows! give me the streets of Manhattan!
Give me Broadway, with the soldiers marching—give me the sound of the trumpets and drums!
(The soldiers in companies or regiments—some, starting away, flush’d and reckless;
Some, their time up, returning, with thinn’d ranks—young, yet very old, worn, marching, noticing nothing;)
—Give me the shores and the wharves heavy-fringed with the black ships!
O such for me! O an intense life! O full to repletion, and varied!
The life of the theatre, bar-room, huge hotel, for me!
The saloon of the steamer! the crowded excursion for me! the torch-light procession!
The dense brigade, bound for the war, with high piled military wagons following;
People, endless, streaming, with strong voices, passions, pageants;
Manhattan streets, with their powerful throbs, with the beating drums, as now;
The endless and noisy chorus, the rustle and clank of muskets, (even the sight of the wounded;)
Manhattan crowds, with their turbulent musical chorus—with varied chorus, and light of the sparkling eyes;
Manhattan faces and eyes forever for me.
[Walt Whitman (1819–1892). Leaves of Grass. 1900. 130]
21.10.05
20.10.05
Acho a pena de morte uma grande maçada

Se a fonte falar verdade, este é Saddam com dez anos.
Não é o Saddam que está a ser julgado.
Não é o ditador nos seus tempos de poder sangrento e excessos narcisistas.
Não é o bicho que foi encontrado na toca e exibido ao mundo.
Não é, já disse, o da barba aparada que se senta no banco dos réus à frente de um juiz cuja expressão risonha não compreendi nem me caiu muito bem.
A fotografia tem um rasgão, representa um rapaz bonito e com uma expressão firme. Há uma caligrafia estranha ao lado e um símbolo do amor livre na legenda, seguido de uma menção aos U2, só que ao contrário. É desconcertante. O rapaz parece ruivo. Teve de se deixar fotografar, talvez fosse uma peste. Cresceu e provocou um sofrimento indescritível.
Saddam será possivelmente condenado à morte.
19.10.05
A chamada vergonha na cara que nos anda a faltar
18.10.05
(A Girl's) Best Friends #2
Alguém suficiente apesar de invulgarmente identificado (acredite-se ou não, não fui eu mas é certo que podia ter sido) propôs que o Lutz desse destaque a este excerto das confissões ontem feitas às paredes do deserto, já que resolvera fazer um post sobre o assunto.
Como o conselho não foi seguido, faço-o aqui.
Prevaleço-me da oportunidade para participar que se aceitam cobertores e sopinhas reconstituintes. Requere-se apenas boa condição física e prova simples de vida neuronal. Brandura garantida. Inscrições, por favor, na fila do lado.
Ortocoisas e prazeres

17.10.05
Da importância da ortografia
Há alguns, é certo, que dão erros por causa de dislexia mas esses casos devem ser tratados à parte; aliás, no contacto com essas pessoas devemos procurar manter presente a ideia de que essas pessoas têm uma deficiência que não lhes deve ser censurada, havendo que tratá-los com a maior humanidade possível, tal e qual como se fossem cegos ou surdos ou mesmo de outra raça mais desfavorecida.
Ainda que seja verdade que "arrivistas", "parvenus" e "novos-ricos" sejam expressões de origem francesa, excepcionalmente não se considera que o seu uso constitua um pontapé na gramática. Tais expressões são tão úteis quanto necessárias para referir quem quer arrogar-se, em sentido ascendente, lugar que verdadeiramente não lhe cabe na escala social.
16.10.05
Ao psiché, com premência, à vista do pundonoroso "sim"
Só de pensar que, em simultâneo, vamos ter a ofensiva natalícia..., o frio, o inverno...
Ahh, o aconchego do psiché nestes momentos...!
15.10.05
Chega sempre o momento
(A Girl's) Best Friends

qual diamantes, qual carapuça!
exercício onírico-verbal e sobretudo aleivoso, cru e implacável de um belo momento avistado a oriente.
14.10.05
13.10.05
Causinha minha
Alguém sff tem a fineza de convencer as mentes narcisicamente moralistas que por aí pululam que não há na prisão preventiva uma ideia de "petite peine", ora toma lá, pelo sim, pelo não?! Que isto seria intolerável?! E absurdo a todos os títulos?! E transformaria tudo o mais, a começar pela resultante redundância do processo e julgamento judicial, numa farsa inútil à custa dos nossos impostos?! (... e os tansos nem parecem incomodados com isso!)
Ou será que este modo nacional de fantasiar a esperteza, como o olho que pisca enquanto o outro olha, com a mão que dá, enquanto a outra tira, não permite que se acredite - ou sequer mesmo que se consiga imaginar - que esta coisa do sistema penal de um Estado constitucionalmente baseado na dignidade dos indivíduos é mais como uma alfaia do que como um bibelô?!
Para fazer o retrato de um pássaro
com a porta aberta
pinta-se a seguir
qualquer coisa bonita
qualquer coisa simples
qualquer coisa bela
qualquer coisa útil
para o pássaro
colocar de seguida a tela contra uma árvore
num jardim
num bosque
ou numa floresta
esconder-se atrás da árvore
sem dizer nada
sem mexer...
Às vezes o pássaro chega depressa
mas pode também tomar longos anos
para se decidir
Não esmorecer
Esperar
esperar durante anos se necessário
a rapidez ou a lentidão da chegada do pássaro
não têm nenhuma relação
com o bom sucesso do quadro
Quando o pássaro chegar
se é que ele chega
observar o mais profundo silêncio
esperar que o pássaro entre na gaiola
e quando ele tiver entrado
fechar suavemente a porta com o pincel
depois
apagar uma a uma todas as grades da gaiola
tendo cuidado para não tocar em nenhuma das penas do pássaro
Fazer de seguida o retrato da árvore
escolhendo o ramo mais belo
para o pássaro
pintar também a folhagem verde e a frescura do vento
a poeira do sol
e o som dos bichos da erva no calor do verão
e depois esperar que o pássaro se decida a cantar
Se o pássaro não cantar
é mau sinal
sinal de que o quadro não presta
mas se ele cantar é bom sinal
sinal de que podes assinar
Arrancas então muito suavemente
uma das penas do pássaro
e escreves o teu nome num dos cantos do quadro.
Jacques Prévert
[capturado no Columbiana]
12.10.05
Contraponto
Dúvida
Teoria da comunicação eliminatória
11.10.05
A força dos hábitos
O azul da íris foi pariensemente envolto em metalizados reflexos de liturgia financeira, de modo tal que o olhar ficou límpido e mais celestial ainda, soprando como quem não quer a coisa: "vejam como sou digna de confiança".
E o lóbulo da orelha mostra-se incólume; não lhe traçaram desígnios de brincos e arrecadas nem ela tomou tais votos para si. Está intacta.
Eu acho que me habituo, mesmo assim.
Tu habituas-te?
Nós habituamo-nos...
Eles habituam-se...
10.10.05
A autárquica trindade
9.10.05
Eleições dacoli
Já quase não vinha a tempo de dizer isto.
Eleições daqui
E se, afinal, a incomodidade do voto fosse só porque estou mais velha, ou porque estou rezingona ou mesmo hipercrítica?
A TêPêéMe não conta, por impossibilidade biológica, considerando a duração da campanha.
Devo ter desleixado os meus deveres cívicos de alguma maneira porque este acabrunhamento não é coisa aceitável em dia de eleições.
7.10.05
A foice passeia-se ladina
(E assim dizendo, reequilibro a ordem universal das palavras, que o dia me mostrou suspensa, prescindida a esfinge, por amor - direi, também! - à luz. Voluntária suplência noviça em dia de folga estilística do bicho-da-seda. Alguém tem de estar de serviço!)
(Addenda: afinal não havia folga; à causa seguiu-se lídima condição substantiva! Precipitei-me.)
6.10.05
Observância
A docilidade ocasionalmente até sabe bem.
3.10.05
Lidando insanamente com a propriedade
Por outro lado, na sua dimensão libertadora, de capacitação para fazer, agir, obter, a propriedade apenas tem interesse como modo de organizar o acesso às utilidades dos objectos sobre que recai. E é complacente com inúmeras fórmulas, envolvendo maior ou menor domínio do indivíduo sobre o objecto da propriedade, numa gradação de tal ordem que idealmente podemos imaginar uma continuidade gradativa entre a mais liberal propriedade oitocentista e a mais comunitária forma de apropriação dos Tupi. Nessa imaginária linha gradativa, a propriedade que os liberais de hoje conhecem e defendem deveria apresentar-se como um distorcido pesadelo de constrições aos seus trisavós liberais. Basta pensar que já ninguém pode abater livremente uma árvore que seja do seu próprio quintal, nem dar à fachada da casa onde vive a forma da sua fantasia, para já não falar da corrida de obstáculos e esoterismos que é o lançamento e o desenvolvimento de uma actividade empresarial, entre licenças e directivas.
2.10.05
Um grande salão
Mentir

Como se isso não bastasse, mentir implica também a exigente tarefa de controlar todos os sinais possivelmente emitidos por nós (o que parece que não é exequível por inteiro, mas lá se vai dando um bom jeito) e ainda a espinhosa tentativa de colocar em segundo plano todas as emoções que possamos genuinamente ter sobre o assunto, a começar pela ansiedade da situação de mentira.
É muito trabalho, não é?!
Em conclusões rápidas, duas de sentido contrário:
1- no que respeita aos mentirosos compulsivos, lá vem mais um caso, parece, em que temos de pensar seriamente na questão da exigibilidade/censurabilidade do comportamento, ou não, com todas as consequências que isso possa ter, em matéria moral e jurídica;
1.10.05
uma pálida névoa eternamente pairando num universo frio e parado*
The guiding hand of Einstein's E = mc² will have finally come to rest.
*Devia haver um género poético chamado poesia física.
30.9.05
O verniz na comunicação social
Referendo sobre o aborto à vista; problemas para o sim e dicas para o não
Ou vice-versa.Este resíduo é sólido demais para eu o deixar ficar lá para trás agora que a discussão parece vir aí de novo.
Miss Anscombe, avistada aqui, que bravura a pensar!











Teodora









