Ponho um beijo
demorado
no topo do teu joelho.
Desço-te a perna
arrastando
a saliva pelo meio
Onde a língua
segue o trilho
até onde vai o beijo
Não há nada
que disfarce
de ti aquilo que vejo
Em torno um mar
tão revolto
no cume o cimo do tempo
E os lençóis desalinhados
como se fosse
de vento
Volto então ao teu
joelho
entreabindo-te as pernas
Deixando a boca
faminta
seguir o desejo nelas
[Maria Teresa Horta]
27.11.05
24.11.05
23.11.05
Ratzinger, mais uma vez
Continua a agradar-me a actuação deste Papa.
Ao excluir a ordenação de gays *(devo presumir que os restantes são ... heterossexuais?!, mas adiante...) actua, mais uma vez, segundo os princípios que declarou.
Desta vez consegue um verdadeiro all-in-one. Afastando os gays, diminui o número de padres, o que em si só já seria positivo, segundo o meu ponto de vista; mas mais relevantemente ainda, esta exclusão da ordenação de gays aumenta o número de pessoas que, inconsoláveis com o conservadorismo social (ou teológico?) de tal medida, se apercebem que a Igreja (católica) já não satisfaz, o que, por sua vez, liberta estas pessoas para uma procura de outros modos, mais inspiradores e satisfatórios, de se pensarem a si e ao mundo.
E assim, Raztinger contribui indirectamente para o progresso e para a superação da irracionalidade pelo teor tão cruamente consequente das suas posições. O que acumula com o facto de também contribuir directamente para a prevalência da racionalidade pela simples circunstância de a praticar tão cristalinamente.
* link acrescentado depois de visita ao Pontos de vista
Descubra as diferenças
Segundo dados estatísticos da PSP (...) em 2004, um total de 7152 mulheres e 1229 homens foram vítimas de violência doméstica praticada por 7331 agressores do sexo masculino e 984 do sexo feminino.Relativamente ao grau de parentesco entre o agressor e a vítima, os mesmos dados revelam que 69 por cento destes crimes são praticados pelo cônjuge, 11 por cento por ex-cônjuges, seis por cento por filhos ou filhas, seis por cento por pais, mães, padrastos ou madrastas e quatro por cento por irmãos.
Os dados da GNR revelam também que são maioritariamente os homens que cometem os crimes de violência doméstica e grande parte tem mais de 25 anos de idade. Em 2004, um total de 6452 mulheres e 1015 homens foram vítimas de maus-tratos praticados por 5897 agressores do sexo masculino e 579 do sexo feminino.
Os dados da GNR revelam também que são maioritariamente os homens que cometem os crimes de violência doméstica e grande parte tem mais de 25 anos de idade. Em 2004, um total de 6452 mulheres e 1015 homens foram vítimas de maus-tratos praticados por 5897 agressores do sexo masculino e 579 do sexo feminino.
22.11.05
Palavras com cães
Podiam ter escolhido os gatos ou os caracóis - eu acho que a escolha dos caracóis seria uma das mais interessantes -, mas são os cães, sempre os cães.
A minha estimada Hipparchia e o seu Crates eram adeptos do dogging (linkado aqui a título de serviço público). Por essa e por outras ficaram para a história como cínicos, pois portavam-se como cães, embora não tenham sido eles a inventar nem a designação nem o plano de uma vida simples e essencial.
A volta que a palavra deu é quase tão perversa como a volta que deu a palavra que hoje denomina essa quarentena ortopediátrica que é a escola, que de actividade liberta das servilidades da sobrevivência, de tempo de expansão do que de melhor houvesse em nós, passou ao seu contrário, com pais e professores desorientados a xingar gente pequena cada vez mais estarrecida... (há aí no fundo do baú, repetindo-a aqui, uma cronologia dessa perversa cambalhota narrada em língua exótica mas suficientemente decifrável para diligentes agnósticos-on-line).
Agora, como há vinte e cinco séculos, pode dizer-se a alguém: você é um cão, você não tem respeito por nada; você é uma cadela, você desqualificou-se socialmente por demonstrar afastamento do comportamento morigerado. Isto é o mesmo que dizer, por exemplo: você é um punk, você é um rasca (disse rasca e não rasta, mas talvez servisse também), você é um animal.
E com isto chama-se a alguém, com propriedade, cínico. Quando se chama cão ou cadela a alguém adopta-se o ponto de vista da vizinha da Hipparchia que, imagino, consideraria desconcertante e inaceitável a cadelice da filósofa.
Línguas mais analíticas que a nossa tentaram resolver a aparente confusão distinguindo o cinismo "bom" (respeitável como escola filosófica, desde que não praticada demasiado perto de nós e sobretudo sem a nossa adesão) do cinismo "mau" (a perda de aderência a bons costumes), o que é uma prática linguística que nós poderíamos também tentar, fazendo um jogo qualquer de consoantes. Do género "zinismo" e "cinismo" ou "tchinismo" e "cinismo". Ou replicar saltitando entre o grego e o latim, para distinguir "cinismo" de "canidade" (de "cão", já se sabe).
Sinceramente, acho que isto não serviria de nada. A "canidade" é sempre a qualidade que o desconcerto legitimamente encontra quando topa alguém (eu ou o outro) que sacudiu, juntamente ou em vez do que é supérfluo, qualquer orientação íntima muito importante que fica em falta para dar cimento aos episódios do mundo.
Nesses casos a questão relevante não é a da confirmação ou negação do cinismo; é a questão da qualificação da canidade.
Acredito que o plano de acção (ética, pois claro) é este, a adoptar logo a seguir ao desconcerto: há que indagar se quem assim se desfaz de regulação age desse modo por causa de uma visão optimista da vida ou por causa de uma visão pessimista. Quem assim se desfaz de padrões acha que "vale a pena" alguma coisa?
Se sim, é um cínico bom, porventura um filósofo, ainda que não o saiba (esses são dos melhores para a estrada). Haverá que verificar ainda se se enganou, ou não. E se não, é seguir com ele. Com fidelidade, caninamente, como se fosse o nosso melhor amigo.
Mas se o nosso protagonista de "canidade" vem a revelar que anda por aí na vadiação das pautas só porque nada vale nada, apenas porque isto tudo é igual, nada vale realmente a pena, as pessoas são todas uns cães, etc, etc, então, podemos concluir com segurança que estamos perante um cínico mau. Haverá que considerar que esta pessoa necessita profundamente que a amem. Não conheço outro tratamento. É que este é um caso, precisamente, em que não se trata a doença com o pelo de cão. É que, venho concluindo, estes cínicos apenas são pessoas que soçobraram nalguma esquina de uma vida de cão.
21.11.05
Girl talk*
Anda por aí pela blogosfera uma coisa séria de homo e heterofonias sobre a homofobia... eles são muitos e animados os posts, por todos os cantos, para todos os gostos (este aqui é a meu gosto).
Eu estou pela paz das miúdas de Gaia mas não gosto da palavra "homofobia". Preferia talvez dizer menos economicamente "preconceito contra actos homossexuais". Eu não sei o que "é" um homossexual. Eu não sei se as miúdas, além do mais, "são" homossexuais. Isso não é na generalidade dos casos como o QI que sobe e desce e varia ao longo da vida?! O verbo "ser" é tão parado nestas coisas...
Numa onda assaz heterófila, minha e delas, mas ainda nas fímbrias do grande assunto da identidade, encontrei a Zazie, lançando outro concurso, desta vez para descobrirmos a voz mais bela (isto sou eu a falar assim...à esdrúxula...e acho que a voz que se ouve lá no sítio da Zazie é a lúbrica voz de James Mason*, que nos faz sentir anjos prestes a cair) e encontro depois a Rita, proferindo uma aguda máxima, segundo a qual uma função relevante de um ex-namorado é lembrar-nos de vez em quando o que faz dele um ex-namorado (o que, estando bem visto, talvez só se aplique aos ex-namorados semi-frescos pois, se forem completamente frescos, não há que "lembrar" porque não houve esquecimento ainda, e se já passou há muito a frescura, então a função é a de fazer-nos lembrar de vez em quando quem nós costumávamos ser ... e já não somos).
Mas... e se eu tivesse um ex-namorado que falasse como o Anthony Quinn**?... Eu acho que, nesse caso, ia a correr para Gaia e punha-me aos beijos na primeira directora do conselho directivo que me aparecesse...
*Corrigido. Como é que fui capaz de confundir a voz de Anthony Quinn com a de James Mason?!
** Não corrigido. Apercebo-me de que em circunstância nenhuma, pelo menos em circunstância capaz de ser alcançada pela minha imaginação, eu poderia ter um ex-namorado com a voz de James Mason.
20.11.05
O sol que ilumina os rostos

É o sol poente o que ilumina e talha o rosto da Mulher da Cidade, riscando a giz a pungência da vontade do Homem. Na penumbra, já as mãos e o ângulo do colo o cingem, iniciam a deglutição. O Homem e a Mulher da Cidade sofrem e isso é bom.
No sol da aurora, mais tarde ou nem isso, a vertigem é a da alegria inebriante, não haverá ângulos de luz. O olhar será imenso e cristalino, a luz do sol será só e muito justamente a dócil matéria dos sorrisos. Dos sorrisos irreprimíveis próprios dos grandes amores, desses sorrisos que ninguém percebe como se formam e como acontecem. O Homem e a Mulher estarão felizes e isso é muito bom.
No céu obscurecido de uma tarde sábado de Outono, um dia obviamente sem sol, outro homem e outra mulher estiolam. Não é improvável que estiolem na ausência um do outro. Ela tem quarenta anos e está suspensa de tudo, dispensada até de deveres de geração, e sufoca em solidão. Ele tem quarenta anos e sufoca também, perdido de si, à procura de meias, no desconforto dos afins, na submissão das compras e dos objectos. Não sabem quanto tempo lhes resta. Não sabem o que há afinal para colher ainda, ou em geral. O homem e a mulher sofrem. Segunda-feira trocarão um olhar dilacerado, sabemos que sim. Trocarão. Que sol iluminará esse olhar?
19.11.05
Fenecido
MST tem de fazer melhor que o jogo claro-escuro, quente-frio, cravo-ferradura, atira ao ar e onde cair, cai, para segurar o que sobra (muito pouco) do seu interesse como cronista.
A fórmula está gasta e a caturrice começa a dar sinais: a verdade não é uma coisa que vá a votos (bom... eu sei, eu sei que até nem é assim...) mas a convergência lúcida de vozes provenientes de áreas tão distintas devia dar-lhe que pensar.
A fórmula está gasta e nem sequer as suas outrora fãs, já no climatério, permitem relevar que continue a servir-se, a título histriónico-argumentativo, de tiques e tacles de "Lindinho", sinaléctica apenas tolerável em tenros mancebos, exalando ainda morno leitinho e baunilha.
18.11.05
200 milhões de nós
Há 200 milhões de migrantes. Já imaginava que seriam muitos mas um número dessa ordem tremelica-me a cartografia mental.
Representar o mundo, pensá-lo, sem marcar clara presença desses 200 milhões deverá, cogito, dar um resultado tão distorcido dos dados da realidade como eliminar do mapa Portugal, Espanha, França, Itália e uma boa fatia da Alemanha.
Gostei de encontrar uma mais que plácida, optimista consideração do impacto económico desta Grande Migração: "Migration Can Deliver Welfare Gains, Reduce Poverty", assim começa o título de um artigo no sítio do Banco Mundial, a que cheguei por indicação do Timshel.
Representar o mundo, pensá-lo, sem marcar clara presença desses 200 milhões deverá, cogito, dar um resultado tão distorcido dos dados da realidade como eliminar do mapa Portugal, Espanha, França, Itália e uma boa fatia da Alemanha.
Gostei de encontrar uma mais que plácida, optimista consideração do impacto económico desta Grande Migração: "Migration Can Deliver Welfare Gains, Reduce Poverty", assim começa o título de um artigo no sítio do Banco Mundial, a que cheguei por indicação do Timshel.
17.11.05
Cavaco Silva e Magritte
Tectos de vidro
Eu gostava que quem deu o conselho tivesse corado e pedido desculpa mas receio que não.
Presidenciais. A retórica
Um dos mais significativos momentos da recente entrevista de Cavaco Silva na TVi foi aquele em que - como cito de memória, as palavras poderão ter variado um pouco, mas não as essenciais - Cavaco Silva se distanciou da retórica na política. Contudo, logo de seguida, esclarecendo afirmações anteriores, disse que não tinha nada contra os "políticos profissionais", que sublinhou não ser, mas sim contra os "profissionais da política". Ora isto é um passo de puro artifício retórico.
A planitude imperturbável com que as duas frases se sucederam demonstra porque é que Cavaco Silva não deve constar da galeria dos nossos Presidentes: ou Cavaco Silva pensa que pode fazer-nos passar por parvos, dizendo-nos que não estamos a vê-lo fazer o que ele nega fazer, enquanto o faz, (não sou dada a acreditar neste tipo de explicações e creio que não é esse o caso), ou Cavaco Silva não percebe mesmo a incongruência do seu discurso. Acredito que seja esta a situação. Mas neste caso, é ele que não consegue ver-se a si próprio. E se não se vê a si próprio, se se apercebe apenas por via de uma construção narcísica e normativa da sua identidade, mesmo que seja apenas da sua identidade enquanto homem público, não dá garantias de estar seriamente comprometido com a realidade e, por isso, anda profundamente à deriva.
A planitude imperturbável com que as duas frases se sucederam demonstra porque é que Cavaco Silva não deve constar da galeria dos nossos Presidentes: ou Cavaco Silva pensa que pode fazer-nos passar por parvos, dizendo-nos que não estamos a vê-lo fazer o que ele nega fazer, enquanto o faz, (não sou dada a acreditar neste tipo de explicações e creio que não é esse o caso), ou Cavaco Silva não percebe mesmo a incongruência do seu discurso. Acredito que seja esta a situação. Mas neste caso, é ele que não consegue ver-se a si próprio. E se não se vê a si próprio, se se apercebe apenas por via de uma construção narcísica e normativa da sua identidade, mesmo que seja apenas da sua identidade enquanto homem público, não dá garantias de estar seriamente comprometido com a realidade e, por isso, anda profundamente à deriva.
Para as minhas visitas brasileiras via "Google"
Se V. chegou aqui em busca de "ortografia", não vá aqui, e muito menos aqui, - porque aí só vai encontrar refilação contra o (ab)uso sinistro, vulgar e classista das regras gramaticais, degradadas em modos de apoucamento alheio - mas vá sim, por exemplo, ali.
Se V. chegou em busca de "causinha", lamento o engano. Queira, pf, dirigir-se para ali. Boas festas.
Se V. chegou em busca de "causinha", lamento o engano. Queira, pf, dirigir-se para ali. Boas festas.
16.11.05
A girls' best friend
13.11.05
Presidenciais
O martelo não existe fora da palavra martelo
Descoberta via aforismos & afins, esta discussão de grande pinta a quatro [pares de] mãos: João, Tiago Mendes e, not least, O Setúbal e J.A.
...se a ciência é, ou não, a única forma de SCIENTIA e como se relaciona com a verdade.
... se há ciência confinada a enunciados analíticos.
... se '1+1=2' pode ser 'explicado' ou se é uma norma, lá por ser uma convenção neste apenas possível mundo.
...se a ciência é, ou não, a única forma de SCIENTIA e como se relaciona com a verdade.
... se há ciência confinada a enunciados analíticos.
... se '1+1=2' pode ser 'explicado' ou se é uma norma, lá por ser uma convenção neste apenas possível mundo.
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