Podiam ter escolhido os gatos ou os caracóis - eu acho que a escolha dos caracóis seria uma das mais interessantes -, mas são os cães, sempre os cães.
A minha estimada
Hipparchia e o seu Crates eram adeptos do
dogging (linkado aqui a título de serviço público). Por essa e por outras ficaram para a história como cínicos, pois portavam-se como cães, embora não tenham sido eles a inventar nem a designação nem o plano de uma vida simples e essencial.
A volta que a palavra deu é quase tão perversa como a volta que deu a palavra que hoje denomina essa quarentena ortopediátrica que é a escola, que de actividade liberta das servilidades da sobrevivência, de tempo de expansão do que de melhor houvesse em nós, passou ao seu contrário, com pais e professores desorientados a xingar gente pequena cada vez mais estarrecida... (há aí no fundo do baú, repetindo-a
aqui, uma cronologia dessa perversa cambalhota narrada em língua exótica mas suficientemente decifrável para diligentes agnósticos-on-line).
Agora, como há vinte e cinco séculos, pode dizer-se a alguém: você é um cão, você não tem respeito por nada; você é uma cadela, você desqualificou-se socialmente por demonstrar afastamento do comportamento morigerado. Isto é o mesmo que dizer, por exemplo: você é um punk, você é um rasca (disse rasca e não rasta, mas talvez servisse também), você é um animal.
E com isto chama-se a alguém, com propriedade, cínico. Quando se chama cão ou cadela a alguém adopta-se o ponto de vista da vizinha da Hipparchia que, imagino, consideraria desconcertante e inaceitável a cadelice da filósofa.
Línguas mais analíticas que a nossa tentaram resolver a aparente confusão distinguindo o cinismo "bom" (respeitável como escola filosófica, desde que não praticada demasiado perto de nós e sobretudo sem a nossa adesão) do cinismo "mau" (a perda de aderência a bons costumes), o que é uma prática linguística que nós poderíamos também tentar, fazendo um jogo qualquer de consoantes. Do género "zinismo" e "cinismo" ou "tchinismo" e "cinismo". Ou replicar saltitando entre o grego e o latim, para distinguir "cinismo" de "canidade" (de "cão", já se sabe).
Sinceramente, acho que isto não serviria de nada. A "canidade" é sempre a qualidade que o desconcerto legitimamente encontra quando topa alguém (eu ou o outro) que sacudiu, juntamente ou em vez do que é supérfluo, qualquer orientação íntima muito importante que fica em falta para dar cimento aos episódios do mundo.
Nesses casos a questão relevante não é a da confirmação ou negação do cinismo; é a questão da qualificação da canidade.
Acredito que o plano de acção (ética, pois claro) é este, a adoptar logo a seguir ao desconcerto: há que indagar se quem assim se desfaz de regulação age desse modo por causa de uma visão optimista da vida ou por causa de uma visão pessimista. Quem assim se desfaz de padrões acha que "vale a pena" alguma coisa?
Se sim, é um cínico bom, porventura um filósofo, ainda que não o saiba (esses são dos melhores para a estrada). Haverá que verificar ainda se se enganou, ou não. E se não, é seguir com ele. Com fidelidade, caninamente, como se fosse o nosso melhor amigo.
Mas se o nosso protagonista de "canidade" vem a revelar que anda por aí na vadiação das pautas só porque nada vale nada, apenas porque isto tudo é igual, nada vale realmente a pena, as pessoas são todas uns cães, etc, etc, então, podemos concluir com segurança que estamos perante um cínico mau. Haverá que considerar que esta pessoa necessita profundamente que a amem. Não conheço outro tratamento. É que este é um caso, precisamente, em que não se trata a doença com o pelo de cão. É que, venho concluindo, estes cínicos apenas são pessoas que soçobraram nalguma esquina de uma vida de cão.