30.11.05

Não!


Não às metamorfoses letais.

Sim não não sim

SIM:O primeiro dos catorze éditos do Grande Rei Asoka
NÃO:
O MUNDO FICA MUITO MAIS SEGURO III: Porque Paul McCartney se recusa a ir cantarolar à China enquanto eles maltratarem os animais ( os humanos pode sem ser chacinados à vontade).

NÃO porque:
Cantarolar na China não vale como protesto contra a chacina de seres humanos.
Censura ou protesto por serem maltratados animais não é um acto pós-modernaço destituído de valor ético.


SIM:
Censura ou protesto por serem maltratados animais é um acto com valor ético autónomo porque é relativo à acção humana.

29.11.05

Só pra lembrar que...

... um privilégio não é uma situação de preferência. É um estatuto privativo. É exactamente isso o que, na maioria das vezes, está mal.

Tresleitura olfactiva



Nesta Nossa Senhora do cravo de Dürer sinto sobretudo os cheiros. Cravo e pêra. Tudo rescende a cravo: a cor que se evade do cravo e se espalha e replica até mesmo no sombreado da pêra, até mesmo, mescladas as cores da pêra e do cravo, na própria tonalidade da íris, passando aos anéis de cabelo. Cheira a cravo intensamente, um cheiro adoçado pelo aroma maduro da pêra. Uma combinação doce e picante, acre e aérea. Dürer era um "nez".

Antes pelo contrário...

Impensável? Nem pensar! Muito, muitíssimo pensável. Pensante!

28.11.05

Traditio

Concordo quase ilimitadamente com o que li no Canhoto sobre tradição, dica do Lutz (e assim sucessivamente).
Não é tecnicamente possível romper com a tradição; o máximo que se pode fazer é vesti-la do avesso quando se quer negar a tradição. Mas o nosso espírito não terá descanso nessa luta e a nossa criatividade ficará todo esse tempo amordaçada enquanto durar uma luta face a face com a tradição.
A tradição não se rompe, supera-se. Da mesma maneira que se rectifica uma trajectória ou corrige um desvio.
Os jovens não devem ser incentivados a seguir a tradição mas sim a não partir do princípio de que ela está errada ou obsoleta.
A afirmação de que a tradição está errada ou obsoleta só é válida como conclusão, nunca como pressuposto. Deve ser, creio, uma conclusão a que uma vida vivida com reflexão conduzirá inúmeras vezes, a passo crescente à medida que os anos passam.
Não é adequado opor a decisão racional à decisão segundo a tradição. A decisão segundo a tradição é ainda uma decisão racional, que se apoia na racionalidade do conteúdo da tradição, ou melhor, na convicção dessa racionalidade. Ou mais exactamente ainda, numa presunção de racionalidade quanto ao critério tradicional de decisão.
A maior parte das vezes, em todos os assuntos que não foram objecto de um escrutínio que tivesse conduzido à apreciação crítica de uma tradição, o momento decisivo para o fim de uma tradição é precisamente aquele em que conseguimos identificar, de entre todas as neutras naturalidades do mundo, que neste ou naquele ponto temos (vivemos) uma tradição. Casca que estamos sempre dispostos a largar.

27.11.05

O músculo do discernimento talvez se chame cultura

O que há de importante em ter lido ou não ter lido os Lusíadas - ou em ter tido contacto com as artes ou com as ciências moles ou com o que se costuma chamar " a cultura" - não é a consequente capacidade ou incapacidade de fazer bonitas piruetas pelos salões; não é uma questão de ter ou não ter adquirido "savoir faire" segundo as sinalefas das elites económico-sociais.
Por isso não creio que seja uma arrogância desclassificar alguém para funções de máxima responsabilidade e representação com base na deficiente exposição cultural dessa pessoa. E orgulho na minguada atenção às coisas da cultura pode, sim, ser um sinal de populismo.
Para lá disso, um orgulho orientado dessa maneira é um forte indício de que por tal pessoa não passa ou não passou a experiência de amadurecimento e refinação analítica e emocional que constitui o principal motivo por que a cultura faz falta. Um sinal a não ignorar de que essa pessoa não estará provavelmente em boa forma para enfrentar situações complexas. Disto se fala aqui.

Ainda os joelhos e as diferenças

Um joelho segundo Maria Teresa Horta é um joelho esculpido em palavras, que se beija com as palavras porque é um joelho que se beija também, ou melhor, sobretudo, fora das palavras.
Um joelho que se beija, segundo as palavras de Maria Teresa Horta, é um ponto de partida ou uma paragem num circuito intermédio de um percurso mais vasto, em que se dilui o joelho, a palavra, o beijo. Só com paixão se pode falar assim do trajecto de uma boca que beija um joelho.

Um joelho, segundo Rubens, é apenas mais um ponto qualquer de um circuito mais longo na exploração de um corpo, embora se trate de um apeadeiro certo. Os joelhos de Helena Fourment não são extraordinariamente bonitos; mas os joelhos de Helena Fourment são minuciosamente ponderados, são uma paragem no trajecto reflexivo sobre a carnação branca, luminosa, fresca - e elástica? e macia? e morna? e cheirosa? - de Helena Forment. Só com paixão o branco opalino e alguns tons de rosa quase improváveis de um corpo podem ser pintados assim.
Tacteados antes com a minúcia que causa o amor, patentemente marcados todos estes joelhos por semelhantes antecedentes, chegam a mim por via de sentidos diferentes: um joelho, oiço-o e situo-o, por palavras; os outros joelhos, vejo-os moldados na harmonia clara de uma imagem.
E fico estupefacta por não perceber bem a razão pela qual o joelho de Maria Teresa Horta tem carga erótica aparentemente mais intensa. É a tal diferença entre homens e mulheres que define preferencialmente de modo diferente os sentidos de ignição erótica, a visão para eles e a audição (de palavras!) para nós? É o olhar longamente fustigado pelas convenções do olhar que se habituou definitivamente ao faz-de-conta-que-não-está-lá ao cruzar-se com a amada de Rubens, apesar de ser tão explícita a razão primeira de um corpo ter assim uma textura? Não sei encontrar a diferença.

Naturalidade inteligente

Eu não li o livro da Maria Filomena Mónica, folheei-o apenas numa livraria. Não sei se o lerei porque o meu rol de paixões é tumultuoso, embora não necessariamente de elevado estatuto, e já me traz à beira da insanidade; penso oferecê-lo brevemente a uma pessoa muito mais velha do que eu, mais velha que a Maria Filomena Mónica, que se agrada com uma naturalidade inteligente - cito - que encontra nos escritos dela. Depois de ler esta crónica sinto-me impaciente para que chegue o momento em que vou oferecer o livro. E sinto-me um pouco mais confortável no mundo porque já me agastava a colecção de emproadas vociferações que castigam sempre no mesmo estilo acaciano esta outra que ousa inovações ao figurino aprovado.

Descubra as diferenças #2

Estes joelhos são contados por Rubens.

Joelho

Ponho um beijo
demorado
no topo do teu joelho.

Desço-te a perna
arrastando
a saliva pelo meio

Onde a língua
segue o trilho
até onde vai o beijo

Não há nada
que disfarce
de ti aquilo que vejo

Em torno um mar
tão revolto
no cume o cimo do tempo

E os lençóis desalinhados
como se fosse
de vento

Volto então ao teu
joelho
entreabindo-te as pernas

Deixando a boca
faminta
seguir o desejo nelas

[Maria Teresa Horta]

23.11.05

Ratzinger, mais uma vez

Continua a agradar-me a actuação deste Papa.
Ao excluir a ordenação de gays *(devo presumir que os restantes são ... heterossexuais?!, mas adiante...) actua, mais uma vez, segundo os princípios que declarou.
Desta vez consegue um verdadeiro all-in-one. Afastando os gays, diminui o número de padres, o que em si só já seria positivo, segundo o meu ponto de vista; mas mais relevantemente ainda, esta exclusão da ordenação de gays aumenta o número de pessoas que, inconsoláveis com o conservadorismo social (ou teológico?) de tal medida, se apercebem que a Igreja (católica) já não satisfaz, o que, por sua vez, liberta estas pessoas para uma procura de outros modos, mais inspiradores e satisfatórios, de se pensarem a si e ao mundo.
E assim, Raztinger contribui indirectamente para o progresso e para a superação da irracionalidade pelo teor tão cruamente consequente das suas posições. O que acumula com o facto de também contribuir directamente para a prevalência da racionalidade pela simples circunstância de a praticar tão cristalinamente.
* link acrescentado depois de visita ao Pontos de vista

Descubra as diferenças

Segundo dados estatísticos da PSP (...) em 2004, um total de 7152 mulheres e 1229 homens foram vítimas de violência doméstica praticada por 7331 agressores do sexo masculino e 984 do sexo feminino.Relativamente ao grau de parentesco entre o agressor e a vítima, os mesmos dados revelam que 69 por cento destes crimes são praticados pelo cônjuge, 11 por cento por ex-cônjuges, seis por cento por filhos ou filhas, seis por cento por pais, mães, padrastos ou madrastas e quatro por cento por irmãos.

Os dados da GNR revelam também que são maioritariamente os homens que cometem os crimes de violência doméstica e grande parte tem mais de 25 anos de idade. Em 2004, um total de 6452 mulheres e 1015 homens foram vítimas de maus-tratos praticados por 5897 agressores do sexo masculino e 579 do sexo feminino.

22.11.05

Palavras com cães

Podiam ter escolhido os gatos ou os caracóis - eu acho que a escolha dos caracóis seria uma das mais interessantes -, mas são os cães, sempre os cães.
A minha estimada Hipparchia e o seu Crates eram adeptos do dogging (linkado aqui a título de serviço público). Por essa e por outras ficaram para a história como cínicos, pois portavam-se como cães, embora não tenham sido eles a inventar nem a designação nem o plano de uma vida simples e essencial.
A volta que a palavra deu é quase tão perversa como a volta que deu a palavra que hoje denomina essa quarentena ortopediátrica que é a escola, que de actividade liberta das servilidades da sobrevivência, de tempo de expansão do que de melhor houvesse em nós, passou ao seu contrário, com pais e professores desorientados a xingar gente pequena cada vez mais estarrecida... (há aí no fundo do baú, repetindo-a aqui, uma cronologia dessa perversa cambalhota narrada em língua exótica mas suficientemente decifrável para diligentes agnósticos-on-line).
Agora, como há vinte e cinco séculos, pode dizer-se a alguém: você é um cão, você não tem respeito por nada; você é uma cadela, você desqualificou-se socialmente por demonstrar afastamento do comportamento morigerado. Isto é o mesmo que dizer, por exemplo: você é um punk, você é um rasca (disse rasca e não rasta, mas talvez servisse também), você é um animal.
E com isto chama-se a alguém, com propriedade, cínico. Quando se chama cão ou cadela a alguém adopta-se o ponto de vista da vizinha da Hipparchia que, imagino, consideraria desconcertante e inaceitável a cadelice da filósofa.
Línguas mais analíticas que a nossa tentaram resolver a aparente confusão distinguindo o cinismo "bom" (respeitável como escola filosófica, desde que não praticada demasiado perto de nós e sobretudo sem a nossa adesão) do cinismo "mau" (a perda de aderência a bons costumes), o que é uma prática linguística que nós poderíamos também tentar, fazendo um jogo qualquer de consoantes. Do género "zinismo" e "cinismo" ou "tchinismo" e "cinismo". Ou replicar saltitando entre o grego e o latim, para distinguir "cinismo" de "canidade" (de "cão", já se sabe).
Sinceramente, acho que isto não serviria de nada. A "canidade" é sempre a qualidade que o desconcerto legitimamente encontra quando topa alguém (eu ou o outro) que sacudiu, juntamente ou em vez do que é supérfluo, qualquer orientação íntima muito importante que fica em falta para dar cimento aos episódios do mundo.
Nesses casos a questão relevante não é a da confirmação ou negação do cinismo; é a questão da qualificação da canidade.
Acredito que o plano de acção (ética, pois claro) é este, a adoptar logo a seguir ao desconcerto: há que indagar se quem assim se desfaz de regulação age desse modo por causa de uma visão optimista da vida ou por causa de uma visão pessimista. Quem assim se desfaz de padrões acha que "vale a pena" alguma coisa?
Se sim, é um cínico bom, porventura um filósofo, ainda que não o saiba (esses são dos melhores para a estrada). Haverá que verificar ainda se se enganou, ou não. E se não, é seguir com ele. Com fidelidade, caninamente, como se fosse o nosso melhor amigo.
Mas se o nosso protagonista de "canidade" vem a revelar que anda por aí na vadiação das pautas só porque nada vale nada, apenas porque isto tudo é igual, nada vale realmente a pena, as pessoas são todas uns cães, etc, etc, então, podemos concluir com segurança que estamos perante um cínico mau. Haverá que considerar que esta pessoa necessita profundamente que a amem. Não conheço outro tratamento. É que este é um caso, precisamente, em que não se trata a doença com o pelo de cão. É que, venho concluindo, estes cínicos apenas são pessoas que soçobraram nalguma esquina de uma vida de cão.

Deus aceitável

O que é uma metáfora.

21.11.05

Girl talk*

Anda por aí pela blogosfera uma coisa séria de homo e heterofonias sobre a homofobia... eles são muitos e animados os posts, por todos os cantos, para todos os gostos (este aqui é a meu gosto).
Eu estou pela paz das miúdas de Gaia mas não gosto da palavra "homofobia". Preferia talvez dizer menos economicamente "preconceito contra actos homossexuais". Eu não sei o que "é" um homossexual. Eu não sei se as miúdas, além do mais, "são" homossexuais. Isso não é na generalidade dos casos como o QI que sobe e desce e varia ao longo da vida?! O verbo "ser" é tão parado nestas coisas...
Numa onda assaz heterófila, minha e delas, mas ainda nas fímbrias do grande assunto da identidade, encontrei a Zazie, lançando outro concurso, desta vez para descobrirmos a voz mais bela (isto sou eu a falar assim...à esdrúxula...e acho que a voz que se ouve lá no sítio da Zazie é a lúbrica voz de James Mason*, que nos faz sentir anjos prestes a cair) e encontro depois a Rita, proferindo uma aguda máxima, segundo a qual uma função relevante de um ex-namorado é lembrar-nos de vez em quando o que faz dele um ex-namorado (o que, estando bem visto, talvez só se aplique aos ex-namorados semi-frescos pois, se forem completamente frescos, não há que "lembrar" porque não houve esquecimento ainda, e se já passou há muito a frescura, então a função é a de fazer-nos lembrar de vez em quando quem nós costumávamos ser ... e já não somos).
Mas... e se eu tivesse um ex-namorado que falasse como o Anthony Quinn**?... Eu acho que, nesse caso, ia a correr para Gaia e punha-me aos beijos na primeira directora do conselho directivo que me aparecesse...
*Corrigido. Como é que fui capaz de confundir a voz de Anthony Quinn com a de James Mason?!
** Não corrigido. Apercebo-me de que em circunstância nenhuma, pelo menos em circunstância capaz de ser alcançada pela minha imaginação, eu poderia ter um ex-namorado com a voz de James Mason.

20.11.05

O sol que ilumina os rostos


É o sol poente o que ilumina e talha o rosto da Mulher da Cidade, riscando a giz a pungência da vontade do Homem. Na penumbra, já as mãos e o ângulo do colo o cingem, iniciam a deglutição. O Homem e a Mulher da Cidade sofrem e isso é bom.

No sol da aurora, mais tarde ou nem isso, a vertigem é a da alegria inebriante, não haverá ângulos de luz. O olhar será imenso e cristalino, a luz do sol será só e muito justamente a dócil matéria dos sorrisos. Dos sorrisos irreprimíveis próprios dos grandes amores, desses sorrisos que ninguém percebe como se formam e como acontecem. O Homem e a Mulher estarão felizes e isso é muito bom.

No céu obscurecido de uma tarde sábado de Outono, um dia obviamente sem sol, outro homem e outra mulher estiolam. Não é improvável que estiolem na ausência um do outro. Ela tem quarenta anos e está suspensa de tudo, dispensada até de deveres de geração, e sufoca em solidão. Ele tem quarenta anos e sufoca também, perdido de si, à procura de meias, no desconforto dos afins, na submissão das compras e dos objectos. Não sabem quanto tempo lhes resta. Não sabem o que há afinal para colher ainda, ou em geral. O homem e a mulher sofrem. Segunda-feira trocarão um olhar dilacerado, sabemos que sim. Trocarão. Que sol iluminará esse olhar?

19.11.05

Meditação

Muitos planos tem a transcendência.

Fenecido

MST tem de fazer melhor que o jogo claro-escuro, quente-frio, cravo-ferradura, atira ao ar e onde cair, cai, para segurar o que sobra (muito pouco) do seu interesse como cronista.
A fórmula está gasta e a caturrice começa a dar sinais: a verdade não é uma coisa que vá a votos (bom... eu sei, eu sei que até nem é assim...) mas a convergência lúcida de vozes provenientes de áreas tão distintas devia dar-lhe que pensar.
A fórmula está gasta e nem sequer as suas outrora fãs, já no climatério, permitem relevar que continue a servir-se, a título histriónico-argumentativo, de tiques e tacles de "Lindinho", sinaléctica apenas tolerável em tenros mancebos, exalando ainda morno leitinho e baunilha.