14.12.05
13.12.05
Cheirinho de Camões
Sempre a Razão vencida foi de Amor;
mas, porque assi o pedia o coração,
quis Amor ser vencido da Razão.
Ora que caso pode haver maior!
Novo modo de morte, e nova dor!
Estranheza de grande admiração,
que perde suas forças a afeição,
porque não perca a pena o seu rigor.
Pois nunca houve fraqueza no querer,
mas antes muito mais se esforça assim
um contrário com outro por vencer.
Mas a Razão, que a luta vence, enfim,
não creio que é razão; mas há de ser
inclinação que eu tenho contra mim.
mas, porque assi o pedia o coração,
quis Amor ser vencido da Razão.
Ora que caso pode haver maior!
Novo modo de morte, e nova dor!
Estranheza de grande admiração,
que perde suas forças a afeição,
porque não perca a pena o seu rigor.
Pois nunca houve fraqueza no querer,
mas antes muito mais se esforça assim
um contrário com outro por vencer.
Mas a Razão, que a luta vence, enfim,
não creio que é razão; mas há de ser
inclinação que eu tenho contra mim.
12.12.05
11.12.05
Boas contas
Dou graças à boa hora em que the hidden persuader se lembrou de perguntar se desconhecemos o célebre princípio de Pareto ou a regra dos 80\20 e se sabendo que 80% dos resultados se obtêm em média com 20% do esforço e do trabalho, poderemos finalmente conseguir focalizar e gerir melhor o nosso pouco produtivo tempo.
Hoje é domingo
Hoje é domingo,
Pé de cachimbo.
O cachimbo é de ouro,
Bate no touro.
O touro é valente,
Bate na gente.
A gente é fraco,
Cai no buraco.
O buraco é fundo,
Acabou-se o mundo.
Desejavelmente apenas depois de se ter memorizado a letra, ir-se-ia ouvir e acompanhar no tom viçoso aqui.
Este post vai dedicado ao Abencerragem, o blogue das palavras vintage. Que acredito serem aquelas que nunca perdem o viço.
10.12.05
8.12.05
Identidades que apagam
Além de serem as estrelas mais brilhantes no actual blogo-firmamento, para além, pois, de melhor post produzido sobre o assunto, estas palavras de estremecido senhor ajudaram-me a compreender melhor a razão pela qual ser mulher e ser maricas constituem situações tão geradoras de afinidades. Toda a minha vida fugi como o diabo da cruz desta coisa que agora sei que se chama hiper-remissibilidade da condição sexual, ou de género. Finta-se, pinta-se e baralha-se, enfim, dá uma trabalheira descolar da condenação de se ser em todas as circunstâncias aquilo que se "é", sem nunca se chegar verdadeiramente a ser. O verbo ser, já me tinha parecido, pode ser impróprio para falar do existir.
Função na sala de visitas
Um bezerro enfeitado para saudar as visitas insulares. Surripiado à Pintura Portuguesa. É a Festa de António Dacosta. Tem as bolinhas amarelas, creio eu, do outro lado.
Tu quoque, JPP. Paradoxos de uma leitura diagonal à direita observados à esquerda por uma leitora munida de dispositivo de bolso
Sobre a (não) credibilidade da Wikipedia, não leio a história de John Seigenthaler Sr., contada no NYTimes, como confirmação de que tudo isso não passa de mais um caso de " ideias generosas, bem avontadadas e ingénuas, muita demagogia utópica, como se na rede fosse possível construir "comunidades" utópicas em linha, formas igualitárias de Icaria, comunismos primitivos diversos", ao contrário do que encontrei (apenas hoje) no Abrupto.
É certo que o artigo em questão conta a desagradável surpresa do senhor Seigenthaler, que recentemente read about himself on Wikipedia and was shocked to learn that he "was thought to have been directly involved in the Kennedy assassinations of both John and his brother Bobby."
Mas também é certo que o artigo diz logo de seguida "Nothing was ever proven," the biography added.
No entanto, para levar até ao fim a história do senhor Seigenthaler, é mesmo necessário chegar ao fim da segunda página do artigo:
Nada de novo, portanto, quanto às conclusões apresentadas pelo senhor Seigenthaler. Assim, ao contrário do destaque negativista de JPP, esta informação no final do artigo quase permitiria falar em happy end relativamente à susceptibilidade de rectificação de imprecisões na Wikipédia!
Conclusão interlocutória: JPP fez uma leitura rápida e incompleta do artigo do NYTimes que contava a história do senhor Seigenthaler e contou apenas metade desta história, uma vez que a história inteira requereria que se fizesse menção à correcção introduzida, bem como ao facto de também esta estar destinada à multiplicação de destinatários através da Internet.
Posso basear-me nisto para dizer que o Abrupto é uma perigosa fonte de distorção do que vem escrito no NYTimes e, assim, lançar sinais de cautela para que não se leia o que JPP por impulso "generoso, bem avontadado e ingénuo" se dá ao trabalho de partilhar connosco no seu blogue?
Estarei legitimada, por uma vez, a apontar ao Abrupto este "tu quoque"?
A minha nada hesitante resposta é "não". Não posso aplicar ao Abrupto que, à escala, seguramente notável, de um indivíduo faz o mesmo que a Wikipédia faz, o que JPP ali diz a propósito da Wikipédia, dissolvendo assim em cáustico cepticismo o interesse de um e da outra.
Não posso fazê-lo porque, para além da falta de interesse do argumento, concordo com a mensagem que ocupa a segunda parte do artigo do NYT (transcrita também abaixo*) onde encontro vazado um sentido totalmente discrepante com o que resulta da leitura do post do Abrupto.
No artigo, além de se louvarem vantagens da Wikipédia, também se recorda que muito do problema suscitado pela infeliz história do senhor Seigenhalter tem a ver com o discernimento dos próprios utilizadores sobre o valor a dar à informação obtida ali, e eu diria, na Internet em geral. Menciona-se aí mesmo o essencial dispositivo de bolso (rule of thumb) para lidar com a Wikipédia: considerá-la apenas uma possível fonte e reconfirmar tudo. No fundo, trata-se de repetir a ideia inspiradora de pautas de avaliação da qualidade do conhecimento tão banais como a que nos prescreve que não baseemos trabalhos de investigação de neuroimunobiologia no que se lê no Readers' Digest ou a que genericamente adverte que nem tudo o que vem à rede é peixe. Nada de novo.
A conclusão que realmente me interessa é esta: é errada a ideia gratuita, benévola e ciberneticamente transmitida pelo Abrupto de que, segundo o NYTimes, a informação gratuitamente disponibilizada na Internet está condenada a não ter qualquer valor por força mesmo da natureza humana e das coisas em si.
Fosse eu de direita e teria lido o post do Abrupto sem sentir qualquer espécie de dissonância ou sobressalto. Acreditando que os bem avontadados ou são trouxas, por constituição ou deformação, ou são simplesmente mentirosos encartados, veria confirmado apenas que a "natureza humana" é "infelizmente" "assim".
Fosse eu de direita, tivesse ido ler o artigo do NYTimes sobre a desconfortabilíssima experiência do senhor Seigenthaler e essa leitura acontecesse no meio do lufa-lufa quotidiano, provavelmente não iria até ao fim do artigo e aforraria rapidamente mais uns níqueis para o colchão do miserabilismo da condição humana.
A minha terceira e última conclusão do pequeno episódio é esta: a visão céptica da natureza humana (conceito cujo conteúdo, aliás, constitui segredo fechado a sete chaves!) é particularmente conveniente à construção do programa económica e politicamente conservador, que goza, aliás, de excelente optimismo quanto ao mais.
Nota adicional: recomendo, em contrapartida, este post da Linha dos Nodos
5.12.05
Desgosto pelos senhores candidatos Alegre e Silva
Dois aspectos no debate da SIC entre os senhores candidatos Alegre e Silva - que foi molengo, soporífero e sem história quanto ao mais - captaram a minha atenção: as palavras que traziam estudadas e a questão portuguesinha do título. Este último é o que ficou para a memória.
Quanto ao primeiro aspecto: os senhores candidatos tiveram palavras pouco frescas, direi mesmo serôdias, que surgiram em cruzadas guirlandas, de umas pirracinhas inócuas no campo lexical um do outro. De Alegre ouviu-se sobre "a tecnologia e essas coisas" e de Silva ouviram-se também algumas sílabas em equilíbrio sobre a "cultura e essas coisas". Com esta moderação e ampla generalidade ficou feita a festa da foice em seara alheia. Nenhum desafiou a irritação do outro, cada um deixou o outro dizer as suas palavras-de-casa. Fiquei a saber que ambos podiam alinhavar sobre "essas coisas" cuja falta de conhecimento lhes é criticada. Foi como se concluísse "olha olha ele fala".
E passo à questão do título. Terrível foi o momento em que ouvi o candidato Silva chamar "senhor deputado" ao candidato Alegre. E este sem pestanejar. Ou quando o jornalista lhe chamou, ao mesmo candidato Alegre, "senhor dr". E este sem pestanejar.
Talvez o jornalista não saiba, mas tanto o candidato Alegre como o candidato Silva sabem que o candidato Alegre não é "licenciado" - estudou Direito em Coimbra, mas não concluiu o curso - e, portanto, de acordo com esse uso de doutorizar licenciados, não devia ser assim titulado.
Ora, sabendo isto muito bem, vai o candidato Silva e deputa o candidato Alegre. Arranha o ouvido: um deputado candidato presidencial.
Ficam ali os dois entendidos: um, o nosso candidato Alegre, à boleia de não ter, perante o povo elegante, o mínimo de importância ser ou não ser licenciado em qualquer burrologia aplicada ou fundamental, assim se deixando doutorizar pelo jornalista, sem um tremor na pálpebra que fosse, assim se alindando para o povão que sabe que ser alguém é ser dôtor; o outro, o nosso candidato Silva pagando taxa moderadora de conveniente verdade, usando um título absurdo e quase caricato (senhor deputado... candidato presidencial), sempre em posição educadinha, e quem sabe até que ponto malévola, ou simplesmente timorata, antecipada desistência de lidar com o incidente que pela certa se faria se chamasse "senhor" ao senhor candidato Alegre perante as câmaras e o país.
No fim, achei que nada do que se tinha ali passado entre o senhor deputado candidato, ou senhor dr. Porque Não, e o senhor Professor, nada daquilo podia ser tomado por uma coisa séria. Foi como se estivessem conversados. Não foi honesto. Foi uma falsidade cúmplice em directo.
4.12.05
Também eu me sinto neurasténica por ter de destinar o jantar
Leio no Impensável que talvez venha a iniciar-se uma rubrica no blogue com palavras e expressões em vias de extinção.
Fico esperançosa de que a ideia venha a concretizar-se senão corro o risco de sucumbir à tentação - o que seria via certa para o surménage...
Fico esperançosa de que a ideia venha a concretizar-se senão corro o risco de sucumbir à tentação - o que seria via certa para o surménage...
3.12.05
Amor das palavras
Amo todas as palavras, mesmo as mais difíceis
que só vêm no dicionário.
O dicionário ensinou-me mais um atributo para os teus lábios.
São doces como sericaia.
Faz-me pensar ainda se a tua beleza não será
comparável à das huris prometidas.
No dicionário aprendi que o meu verso é
por vezes fabordão e sesquipedal.
Nele existe o meu retrato moral (que
não confesso) e o dos meus inimigos,
rasteiros como seramelas sepícolas
e intragáveis como hidragogos destinados à comua.
O dicionário, as palavras, irritam muita gente.
Eu gosto das palavras com ternura
e sinto carinho pelo dicionário,
maciço e baixo pelo seu casaco, azul
desbotado, de modesto erudito.
[Rui Knopfli]
que só vêm no dicionário.
O dicionário ensinou-me mais um atributo para os teus lábios.
São doces como sericaia.
Faz-me pensar ainda se a tua beleza não será
comparável à das huris prometidas.
No dicionário aprendi que o meu verso é
por vezes fabordão e sesquipedal.
Nele existe o meu retrato moral (que
não confesso) e o dos meus inimigos,
rasteiros como seramelas sepícolas
e intragáveis como hidragogos destinados à comua.
O dicionário, as palavras, irritam muita gente.
Eu gosto das palavras com ternura
e sinto carinho pelo dicionário,
maciço e baixo pelo seu casaco, azul
desbotado, de modesto erudito.
[Rui Knopfli]
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