19.12.05

Virtudes. Caritas romana, ainda mais

Rubens. Caritas romana. 1635

Já li que Cimon acabou por ser poupado, expandindo-se assim o efeito redentor do amor filial. Mas aqui, suculenta, Pero, Rubens usando o mesmo rosa improvável que sabíamos já dos mamilos de Helena, sua mulher. Cimon foi um homem belo e da sua volúpia passada sabemos ainda pela concentração muscular, gesto firme em equilíbrio instável.

Virtudes. Caritas romana, ainda


Pasinell. Caritas romana. 1670
Pero salva o pai. Cimon escapa à morte por dádiva da filha.

Virtudes. Caritas romana

Zoffany, Johan. Caritas romana. 1769
Cimon, condenado a morrer à fome, é furtivamente alimentado por Pero, sua filha, num gesto outrora maximamente expressivo da dedicação e comovente materialização do amor, na versão filial. Exemplar filha, à época, cerca do ano 30, fazendo fé nos Facta et dicta memorabilia de Valerius Maximus, repercutindo-se, diz-se, em Pompeia. Durante os séculos XVII e XVIII, este tema foi diversas vezes abordado na pintura europeia, sobretudo a norte. Depois o silêncio ou talvez pudores. Será mais extraordinário considerar este tema um tema de elevada beleza moral ou não o considerar assim? Aqui, não em Marte.

18.12.05

Post dominical

Deus não tem unidade,
Como a terei eu?


[Fernando Pessoa, Poesias Inéditas]

Herculano

Meias e outras coisas pequenas de um homem grande.

Nota breve da eleitora em delírio

Tirando os olhos do chão, da matrícula do carro da frente ou simplesmente do além, é agora certo e sabido: os cartazes das presidenciais continuam a surpreender-me. Hurray! Cavaco Silva irrompe agora pelas ruas produzido até à caricatura com malícias de galã em fitas "luso-ibero-americanas" dos anos 60. Lábios brilhantes ("sedutores"?), sedosos cabelos adestradinhos, olhar delicodoce e húmido. Tudo isto banhado em textura de espessa camada de make-up sunkissed. É uma sorte não me ter ainda estampado nas proximidades desta visão que, a continuar ou a proliferar, acabaria, receio, por me lançar em crise sobre orientação em matéria de desejo.
Refeita da experiência, prossigo. Eis senão quando surge a fantasmagórica andrógino-wharholiana visão do Mp3 Soares ante-pré-cotas a que só falta pendurar legenda: "istu ker dizer k'o Soares dá pausa". Outra vez os lábios, mas agora lambuzados como quem acabou de atacar a pá dita "salazar" em cenário culinário de preparação de mousse de chocolate. Soares foi aos biscoitos, Soares foi aos bombons, Soares lambeu a taça. Olé.
Piscam-me então revérberos da humanidade crescente de Louçã e Jerónimo. Se ainda não são o suficiente para levarem o meu voto, são já mais que definitivos para uma ponderação mais encorpada e apreciativa, a pender mesmo para a vénia, a eles indivíduos.
E o homem do leme tremeu e disse: ... "a pááátriaaa". Mas sobre esta já outro, mais poeta, me teria em tenra idade instruído: pátria amada, mas de boca, que não tenho coração.

16.12.05

Corpo nervoso

- e não

- e porque

- sabes bem que

- antes também

- mas

- arre, talvez

- ...

- pente fino

- por que é que

- já disse

- antes

[Egon Schiele, Nu masculino com braço levantado]

13.12.05

Repugnante

O homicídio a frio, servido em nome de...?

Cheirinho de Camões

Sempre a Razão vencida foi de Amor;
mas, porque assi o pedia o coração,
quis Amor ser vencido da Razão.
Ora que caso pode haver maior!

Novo modo de morte, e nova dor!
Estranheza de grande admiração,
que perde suas forças a afeição,
porque não perca a pena o seu rigor.

Pois nunca houve fraqueza no querer,
mas antes muito mais se esforça assim
um contrário com outro por vencer.

Mas a Razão, que a luta vence, enfim,
não creio que é razão; mas há de ser
inclinação que eu tenho contra mim.

11.12.05

Ainda outro olhar

Os sentidos do abecedário

Boas contas

Hoje é domingo

Hoje é domingo,
Pé de cachimbo.
O cachimbo é de ouro,
Bate no touro.
O touro é valente,
Bate na gente.
A gente é fraco,
Cai no buraco.
O buraco é fundo,
Acabou-se o mundo.



Desejavelmente apenas depois de se ter memorizado a letra, ir-se-ia ouvir e acompanhar no tom viçoso aqui.

Este post vai dedicado ao Abencerragem, o blogue das palavras vintage. Que acredito serem aquelas que nunca perdem o viço.

8.12.05

Identidades que apagam

Além de serem as estrelas mais brilhantes no actual blogo-firmamento, para além, pois, de melhor post produzido sobre o assunto, estas palavras de estremecido senhor ajudaram-me a compreender melhor a razão pela qual ser mulher e ser maricas constituem situações tão geradoras de afinidades. Toda a minha vida fugi como o diabo da cruz desta coisa que agora sei que se chama hiper-remissibilidade da condição sexual, ou de género. Finta-se, pinta-se e baralha-se, enfim, dá uma trabalheira descolar da condenação de se ser em todas as circunstâncias aquilo que se "é", sem nunca se chegar verdadeiramente a ser. O verbo ser, já me tinha parecido, pode ser impróprio para falar do existir.

Função na sala de visitas

Um bezerro enfeitado para saudar as visitas insulares. Surripiado à Pintura Portuguesa. É a Festa de António Dacosta. Tem as bolinhas amarelas, creio eu, do outro lado.

Tu quoque, JPP. Paradoxos de uma leitura diagonal à direita observados à esquerda por uma leitora munida de dispositivo de bolso



Mas também é certo que o artigo diz logo de seguida "Nothing was ever proven," the biography added.

No entanto, para levar até ao fim a história do senhor Seigenthaler, é mesmo necessário chegar ao fim da segunda página do artigo:

Nada de novo, portanto, quanto às conclusões apresentadas pelo senhor Seigenthaler. Assim, ao contrário do destaque negativista de JPP, esta informação no final do artigo quase permitiria falar em happy end relativamente à susceptibilidade de rectificação de imprecisões na Wikipédia!

Conclusão interlocutória: JPP fez uma leitura rápida e incompleta do artigo do NYTimes que contava a história do senhor Seigenthaler e contou apenas metade desta história, uma vez que a história inteira requereria que se fizesse menção à correcção introduzida, bem como ao facto de também esta estar destinada à multiplicação de destinatários através da Internet.


Posso basear-me nisto para dizer que o Abrupto é uma perigosa fonte de distorção do que vem escrito no NYTimes e, assim, lançar sinais de cautela para que não se leia o que JPP por impulso "generoso, bem avontadado e ingénuo" se dá ao trabalho de partilhar connosco no seu blogue?

Estarei legitimada, por uma vez, a apontar ao Abrupto este "tu quoque"?

A minha nada hesitante resposta é "não". Não posso aplicar ao Abrupto que, à escala, seguramente notável, de um indivíduo faz o mesmo que a Wikipédia faz, o que JPP ali diz a propósito da Wikipédia, dissolvendo assim em cáustico cepticismo o interesse de um e da outra.
Não posso fazê-lo porque, para além da falta de interesse do argumento, concordo com a mensagem que ocupa a segunda parte do artigo do NYT (transcrita também abaixo*) onde encontro vazado um sentido totalmente discrepante com o que resulta da leitura do post do Abrupto.
No artigo, além de se louvarem vantagens da Wikipédia, também se recorda que muito do problema suscitado pela infeliz história do senhor Seigenhalter tem a ver com o discernimento dos próprios utilizadores sobre o valor a dar à informação obtida ali, e eu diria, na Internet em geral. Menciona-se aí mesmo o essencial dispositivo de bolso (rule of thumb) para lidar com a Wikipédia: considerá-la apenas uma possível fonte e reconfirmar tudo. No fundo, trata-se de repetir a ideia inspiradora de pautas de avaliação da qualidade do conhecimento tão banais como a que nos prescreve que não baseemos trabalhos de investigação de neuroimunobiologia no que se lê no Readers' Digest ou a que genericamente adverte que nem tudo o que vem à rede é peixe. Nada de novo.
A conclusão que realmente me interessa é esta: é errada a ideia gratuita, benévola e ciberneticamente transmitida pelo Abrupto de que, segundo o NYTimes, a informação gratuitamente disponibilizada na Internet está condenada a não ter qualquer valor por força mesmo da natureza humana e das coisas em si.
Fosse eu de direita e teria lido o post do Abrupto sem sentir qualquer espécie de dissonância ou sobressalto. Acreditando que os bem avontadados ou são trouxas, por constituição ou deformação, ou são simplesmente mentirosos encartados, veria confirmado apenas que a "natureza humana" é "infelizmente" "assim".
Fosse eu de direita, tivesse ido ler o artigo do NYTimes sobre a desconfortabilíssima experiência do senhor Seigenthaler e essa leitura acontecesse no meio do lufa-lufa quotidiano, provavelmente não iria até ao fim do artigo e aforraria rapidamente mais uns níqueis para o colchão do miserabilismo da condição humana.
A minha terceira e última conclusão do pequeno episódio é esta: a visão céptica da natureza humana (conceito cujo conteúdo, aliás, constitui segredo fechado a sete chaves!) é particularmente conveniente à construção do programa económica e politicamente conservador, que goza, aliás, de excelente optimismo quanto ao mais.
*Jessica Baumgart, a news researcher at Harvard University, wrote that there were librarians voluntarily working behind the scenes to check information on Wikipedia. "But, honestly," she added, "in some ways, we're just as fallible as everyone else in some areas because our own knowledge is limited and we can't possibly fact-check everything."
In an interview, she said that her rule of thumb was to double-check everything and to consider Wikipedia as only one source.
"Instead of figuring out how to 'fix' Wikipedia - something that cannot be done to our satisfaction," wrote Derek Willis, a research database manager at The Washington Post, who was speaking for himself and not The Post, "we should focus our energies on educating the Wikipedia users among our colleagues."
Some cyberexperts said Wikipedia already had a good system of checks and balances. Lawrence Lessig, a law professor at Stanford and an expert in the laws of cyberspace, said that contrary to popular belief, true defamation was easily pursued through the courts because almost everything on the Internet was traceable and subpoenas were not that hard to obtain. (For real anonymity, he advised, use a pay phone.)
"People will be defamed," he said. "But that's the way free speech is. Think about the gossip world. It spreads. There's no way to correct it, period. Wikipedia is not immune from that kind of maliciousness, but it is, relative to other features of life, more easily corrected."
Indeed, Esther Dyson, editor of Release 1.0 and a longtime Internet analyst, said Wikipedia may, in that sense, be better than real life.
"The Internet has done a lot more for truth by making things easier to discuss," she said. "Transparency and sunlight are better than a single point of view that can't be questioned."
Nota adicional: recomendo, em contrapartida, este post da Linha dos Nodos

6.12.05

O coming out de uma jacobina?

A vantagem da Wikipédia é poder tirar do negrume da ignorância ou do esquecimento (é indiferente) que os jacobinos eram os membros da « Société des Amis de la Constitution » e assim encontrar uma família de malfeitores pronta a suprir uma orfandade congénita. Ora bem. A culpa da crise é tua, Lutz.

Restless sleep

Nem assim?!

A (im)perfeição dos prazeres

*
... todos os outros prazeres me parecem imperfeitos... **

[Mondrian* meets Mariana Alcoforado**]

5.12.05

Desgosto pelos senhores candidatos Alegre e Silva

Dois aspectos no debate da SIC entre os senhores candidatos Alegre e Silva - que foi molengo, soporífero e sem história quanto ao mais - captaram a minha atenção: as palavras que traziam estudadas e a questão portuguesinha do título. Este último é o que ficou para a memória.

Quanto ao primeiro aspecto: os senhores candidatos tiveram palavras pouco frescas, direi mesmo serôdias, que surgiram em cruzadas guirlandas, de umas pirracinhas inócuas no campo lexical um do outro. De Alegre ouviu-se sobre "a tecnologia e essas coisas" e de Silva ouviram-se também algumas sílabas em equilíbrio sobre a "cultura e essas coisas". Com esta moderação e ampla generalidade ficou feita a festa da foice em seara alheia. Nenhum desafiou a irritação do outro, cada um deixou o outro dizer as suas palavras-de-casa. Fiquei a saber que ambos podiam alinhavar sobre "essas coisas" cuja falta de conhecimento lhes é criticada. Foi como se concluísse "olha olha ele fala".


E passo à questão do título. Terrível foi o momento em que ouvi o candidato Silva chamar "senhor deputado" ao candidato Alegre. E este sem pestanejar. Ou quando o jornalista lhe chamou, ao mesmo candidato Alegre, "senhor dr". E este sem pestanejar.
Talvez o jornalista não saiba, mas tanto o candidato Alegre como o candidato Silva sabem que o candidato Alegre não é "licenciado" - estudou Direito em Coimbra, mas não concluiu o curso - e, portanto, de acordo com esse uso de doutorizar licenciados, não devia ser assim titulado.
Ora, sabendo isto muito bem, vai o candidato Silva e deputa o candidato Alegre. Arranha o ouvido: um deputado candidato presidencial.
Ficam ali os dois entendidos: um, o nosso candidato Alegre, à boleia de não ter, perante o povo elegante, o mínimo de importância ser ou não ser licenciado em qualquer burrologia aplicada ou fundamental, assim se deixando doutorizar pelo jornalista, sem um tremor na pálpebra que fosse, assim se alindando para o povão que sabe que ser alguém é ser dôtor; o outro, o nosso candidato Silva pagando taxa moderadora de conveniente verdade, usando um título absurdo e quase caricato (senhor deputado... candidato presidencial), sempre em posição educadinha, e quem sabe até que ponto malévola, ou simplesmente timorata, antecipada desistência de lidar com o incidente que pela certa se faria se chamasse "senhor" ao senhor candidato Alegre perante as câmaras e o país.
No fim, achei que nada do que se tinha ali passado entre o senhor deputado candidato, ou senhor dr. Porque Não, e o senhor Professor, nada daquilo podia ser tomado por uma coisa séria. Foi como se estivessem conversados. Não foi honesto. Foi uma falsidade cúmplice em directo.

4.12.05

Desincrustação


Frida traz Diego no seu pensamento.

Também eu me sinto neurasténica por ter de destinar o jantar

Leio no Impensável que talvez venha a iniciar-se uma rubrica no blogue com palavras e expressões em vias de extinção.
Fico esperançosa de que a ideia venha a concretizar-se senão corro o risco de sucumbir à tentação - o que seria via certa para o surménage...

3.12.05

Amor das palavras

Amo todas as palavras, mesmo as mais difíceis
que só vêm no dicionário.
O dicionário ensinou-me mais um atributo para os teus lábios.
São doces como sericaia.
Faz-me pensar ainda se a tua beleza não será
comparável à das huris prometidas.
No dicionário aprendi que o meu verso é
por vezes fabordão e sesquipedal.
Nele existe o meu retrato moral (que
não confesso) e o dos meus inimigos,
rasteiros como seramelas sepícolas
e intragáveis como hidragogos destinados à comua.
O dicionário, as palavras, irritam muita gente.
Eu gosto das palavras com ternura
e sinto carinho pelo dicionário,
maciço e baixo pelo seu casaco, azul
desbotado, de modesto erudito.

[Rui Knopfli]

Continuo sem descobrir o que é Aulil

Mas o transporte para lá sempre voltou. Ainda bem.

Manual de instruções #4

Indivíduos emproados devem ser (o verbo é ought) arrumados no vão das vassouras e espanejadores; os sarcásticos arrumar-se-ão juntamente com os portadores de mau hálito.

Manual de instruções #3

A utilização do verbo "ser" é de desaconselhar quando este se pretenda apontado a indivíduos, ainda que em posições tão díspares quanto a de indivíduo que pronuncia a frase, ou a de indivíduo terceiro a respeito de quem a frase é dita, ou ainda a de indivíduo segundo ao qual a frase é apontada.

Manual de instruções #2

Um frase que fornece apoio a uma acção não é uma frase útil. Útil é a frase que, sendo ligeira, dirige a acção.

Manual de instruções #1

"Ninguém é insubstituível" será uma frase equivalente a "uma pessoa habitua-se a tudo"?
Se sim, deve ser também riscada da lista das frases úteis.

2.12.05

Leitreslura


Um paquete transporta um pacote. Um transpete paquote um paquota. Papumquete transtorta copatumte.

De Klee.

30.11.05

Não!


Não às metamorfoses letais.

Sim não não sim

SIM:O primeiro dos catorze éditos do Grande Rei Asoka
NÃO:
O MUNDO FICA MUITO MAIS SEGURO III: Porque Paul McCartney se recusa a ir cantarolar à China enquanto eles maltratarem os animais ( os humanos pode sem ser chacinados à vontade).

NÃO porque:
Cantarolar na China não vale como protesto contra a chacina de seres humanos.
Censura ou protesto por serem maltratados animais não é um acto pós-modernaço destituído de valor ético.


SIM:
Censura ou protesto por serem maltratados animais é um acto com valor ético autónomo porque é relativo à acção humana.

29.11.05

Só pra lembrar que...

... um privilégio não é uma situação de preferência. É um estatuto privativo. É exactamente isso o que, na maioria das vezes, está mal.

Tresleitura olfactiva



Nesta Nossa Senhora do cravo de Dürer sinto sobretudo os cheiros. Cravo e pêra. Tudo rescende a cravo: a cor que se evade do cravo e se espalha e replica até mesmo no sombreado da pêra, até mesmo, mescladas as cores da pêra e do cravo, na própria tonalidade da íris, passando aos anéis de cabelo. Cheira a cravo intensamente, um cheiro adoçado pelo aroma maduro da pêra. Uma combinação doce e picante, acre e aérea. Dürer era um "nez".

Antes pelo contrário...

Impensável? Nem pensar! Muito, muitíssimo pensável. Pensante!

28.11.05

Traditio

Concordo quase ilimitadamente com o que li no Canhoto sobre tradição, dica do Lutz (e assim sucessivamente).
Não é tecnicamente possível romper com a tradição; o máximo que se pode fazer é vesti-la do avesso quando se quer negar a tradição. Mas o nosso espírito não terá descanso nessa luta e a nossa criatividade ficará todo esse tempo amordaçada enquanto durar uma luta face a face com a tradição.
A tradição não se rompe, supera-se. Da mesma maneira que se rectifica uma trajectória ou corrige um desvio.
Os jovens não devem ser incentivados a seguir a tradição mas sim a não partir do princípio de que ela está errada ou obsoleta.
A afirmação de que a tradição está errada ou obsoleta só é válida como conclusão, nunca como pressuposto. Deve ser, creio, uma conclusão a que uma vida vivida com reflexão conduzirá inúmeras vezes, a passo crescente à medida que os anos passam.
Não é adequado opor a decisão racional à decisão segundo a tradição. A decisão segundo a tradição é ainda uma decisão racional, que se apoia na racionalidade do conteúdo da tradição, ou melhor, na convicção dessa racionalidade. Ou mais exactamente ainda, numa presunção de racionalidade quanto ao critério tradicional de decisão.
A maior parte das vezes, em todos os assuntos que não foram objecto de um escrutínio que tivesse conduzido à apreciação crítica de uma tradição, o momento decisivo para o fim de uma tradição é precisamente aquele em que conseguimos identificar, de entre todas as neutras naturalidades do mundo, que neste ou naquele ponto temos (vivemos) uma tradição. Casca que estamos sempre dispostos a largar.

27.11.05

O músculo do discernimento talvez se chame cultura

O que há de importante em ter lido ou não ter lido os Lusíadas - ou em ter tido contacto com as artes ou com as ciências moles ou com o que se costuma chamar " a cultura" - não é a consequente capacidade ou incapacidade de fazer bonitas piruetas pelos salões; não é uma questão de ter ou não ter adquirido "savoir faire" segundo as sinalefas das elites económico-sociais.
Por isso não creio que seja uma arrogância desclassificar alguém para funções de máxima responsabilidade e representação com base na deficiente exposição cultural dessa pessoa. E orgulho na minguada atenção às coisas da cultura pode, sim, ser um sinal de populismo.
Para lá disso, um orgulho orientado dessa maneira é um forte indício de que por tal pessoa não passa ou não passou a experiência de amadurecimento e refinação analítica e emocional que constitui o principal motivo por que a cultura faz falta. Um sinal a não ignorar de que essa pessoa não estará provavelmente em boa forma para enfrentar situações complexas. Disto se fala aqui.

Ainda os joelhos e as diferenças

Um joelho segundo Maria Teresa Horta é um joelho esculpido em palavras, que se beija com as palavras porque é um joelho que se beija também, ou melhor, sobretudo, fora das palavras.
Um joelho que se beija, segundo as palavras de Maria Teresa Horta, é um ponto de partida ou uma paragem num circuito intermédio de um percurso mais vasto, em que se dilui o joelho, a palavra, o beijo. Só com paixão se pode falar assim do trajecto de uma boca que beija um joelho.

Um joelho, segundo Rubens, é apenas mais um ponto qualquer de um circuito mais longo na exploração de um corpo, embora se trate de um apeadeiro certo. Os joelhos de Helena Fourment não são extraordinariamente bonitos; mas os joelhos de Helena Fourment são minuciosamente ponderados, são uma paragem no trajecto reflexivo sobre a carnação branca, luminosa, fresca - e elástica? e macia? e morna? e cheirosa? - de Helena Forment. Só com paixão o branco opalino e alguns tons de rosa quase improváveis de um corpo podem ser pintados assim.
Tacteados antes com a minúcia que causa o amor, patentemente marcados todos estes joelhos por semelhantes antecedentes, chegam a mim por via de sentidos diferentes: um joelho, oiço-o e situo-o, por palavras; os outros joelhos, vejo-os moldados na harmonia clara de uma imagem.
E fico estupefacta por não perceber bem a razão pela qual o joelho de Maria Teresa Horta tem carga erótica aparentemente mais intensa. É a tal diferença entre homens e mulheres que define preferencialmente de modo diferente os sentidos de ignição erótica, a visão para eles e a audição (de palavras!) para nós? É o olhar longamente fustigado pelas convenções do olhar que se habituou definitivamente ao faz-de-conta-que-não-está-lá ao cruzar-se com a amada de Rubens, apesar de ser tão explícita a razão primeira de um corpo ter assim uma textura? Não sei encontrar a diferença.

Naturalidade inteligente

Eu não li o livro da Maria Filomena Mónica, folheei-o apenas numa livraria. Não sei se o lerei porque o meu rol de paixões é tumultuoso, embora não necessariamente de elevado estatuto, e já me traz à beira da insanidade; penso oferecê-lo brevemente a uma pessoa muito mais velha do que eu, mais velha que a Maria Filomena Mónica, que se agrada com uma naturalidade inteligente - cito - que encontra nos escritos dela. Depois de ler esta crónica sinto-me impaciente para que chegue o momento em que vou oferecer o livro. E sinto-me um pouco mais confortável no mundo porque já me agastava a colecção de emproadas vociferações que castigam sempre no mesmo estilo acaciano esta outra que ousa inovações ao figurino aprovado.

Descubra as diferenças #2

Estes joelhos são contados por Rubens.

Joelho

Ponho um beijo
demorado
no topo do teu joelho.

Desço-te a perna
arrastando
a saliva pelo meio

Onde a língua
segue o trilho
até onde vai o beijo

Não há nada
que disfarce
de ti aquilo que vejo

Em torno um mar
tão revolto
no cume o cimo do tempo

E os lençóis desalinhados
como se fosse
de vento

Volto então ao teu
joelho
entreabindo-te as pernas

Deixando a boca
faminta
seguir o desejo nelas

[Maria Teresa Horta]

23.11.05

Ratzinger, mais uma vez

Continua a agradar-me a actuação deste Papa.
Ao excluir a ordenação de gays *(devo presumir que os restantes são ... heterossexuais?!, mas adiante...) actua, mais uma vez, segundo os princípios que declarou.
Desta vez consegue um verdadeiro all-in-one. Afastando os gays, diminui o número de padres, o que em si só já seria positivo, segundo o meu ponto de vista; mas mais relevantemente ainda, esta exclusão da ordenação de gays aumenta o número de pessoas que, inconsoláveis com o conservadorismo social (ou teológico?) de tal medida, se apercebem que a Igreja (católica) já não satisfaz, o que, por sua vez, liberta estas pessoas para uma procura de outros modos, mais inspiradores e satisfatórios, de se pensarem a si e ao mundo.
E assim, Raztinger contribui indirectamente para o progresso e para a superação da irracionalidade pelo teor tão cruamente consequente das suas posições. O que acumula com o facto de também contribuir directamente para a prevalência da racionalidade pela simples circunstância de a praticar tão cristalinamente.
* link acrescentado depois de visita ao Pontos de vista

Descubra as diferenças

Segundo dados estatísticos da PSP (...) em 2004, um total de 7152 mulheres e 1229 homens foram vítimas de violência doméstica praticada por 7331 agressores do sexo masculino e 984 do sexo feminino.Relativamente ao grau de parentesco entre o agressor e a vítima, os mesmos dados revelam que 69 por cento destes crimes são praticados pelo cônjuge, 11 por cento por ex-cônjuges, seis por cento por filhos ou filhas, seis por cento por pais, mães, padrastos ou madrastas e quatro por cento por irmãos.

Os dados da GNR revelam também que são maioritariamente os homens que cometem os crimes de violência doméstica e grande parte tem mais de 25 anos de idade. Em 2004, um total de 6452 mulheres e 1015 homens foram vítimas de maus-tratos praticados por 5897 agressores do sexo masculino e 579 do sexo feminino.

22.11.05

Palavras com cães

Podiam ter escolhido os gatos ou os caracóis - eu acho que a escolha dos caracóis seria uma das mais interessantes -, mas são os cães, sempre os cães.
A minha estimada Hipparchia e o seu Crates eram adeptos do dogging (linkado aqui a título de serviço público). Por essa e por outras ficaram para a história como cínicos, pois portavam-se como cães, embora não tenham sido eles a inventar nem a designação nem o plano de uma vida simples e essencial.
A volta que a palavra deu é quase tão perversa como a volta que deu a palavra que hoje denomina essa quarentena ortopediátrica que é a escola, que de actividade liberta das servilidades da sobrevivência, de tempo de expansão do que de melhor houvesse em nós, passou ao seu contrário, com pais e professores desorientados a xingar gente pequena cada vez mais estarrecida... (há aí no fundo do baú, repetindo-a aqui, uma cronologia dessa perversa cambalhota narrada em língua exótica mas suficientemente decifrável para diligentes agnósticos-on-line).
Agora, como há vinte e cinco séculos, pode dizer-se a alguém: você é um cão, você não tem respeito por nada; você é uma cadela, você desqualificou-se socialmente por demonstrar afastamento do comportamento morigerado. Isto é o mesmo que dizer, por exemplo: você é um punk, você é um rasca (disse rasca e não rasta, mas talvez servisse também), você é um animal.
E com isto chama-se a alguém, com propriedade, cínico. Quando se chama cão ou cadela a alguém adopta-se o ponto de vista da vizinha da Hipparchia que, imagino, consideraria desconcertante e inaceitável a cadelice da filósofa.
Línguas mais analíticas que a nossa tentaram resolver a aparente confusão distinguindo o cinismo "bom" (respeitável como escola filosófica, desde que não praticada demasiado perto de nós e sobretudo sem a nossa adesão) do cinismo "mau" (a perda de aderência a bons costumes), o que é uma prática linguística que nós poderíamos também tentar, fazendo um jogo qualquer de consoantes. Do género "zinismo" e "cinismo" ou "tchinismo" e "cinismo". Ou replicar saltitando entre o grego e o latim, para distinguir "cinismo" de "canidade" (de "cão", já se sabe).
Sinceramente, acho que isto não serviria de nada. A "canidade" é sempre a qualidade que o desconcerto legitimamente encontra quando topa alguém (eu ou o outro) que sacudiu, juntamente ou em vez do que é supérfluo, qualquer orientação íntima muito importante que fica em falta para dar cimento aos episódios do mundo.
Nesses casos a questão relevante não é a da confirmação ou negação do cinismo; é a questão da qualificação da canidade.
Acredito que o plano de acção (ética, pois claro) é este, a adoptar logo a seguir ao desconcerto: há que indagar se quem assim se desfaz de regulação age desse modo por causa de uma visão optimista da vida ou por causa de uma visão pessimista. Quem assim se desfaz de padrões acha que "vale a pena" alguma coisa?
Se sim, é um cínico bom, porventura um filósofo, ainda que não o saiba (esses são dos melhores para a estrada). Haverá que verificar ainda se se enganou, ou não. E se não, é seguir com ele. Com fidelidade, caninamente, como se fosse o nosso melhor amigo.
Mas se o nosso protagonista de "canidade" vem a revelar que anda por aí na vadiação das pautas só porque nada vale nada, apenas porque isto tudo é igual, nada vale realmente a pena, as pessoas são todas uns cães, etc, etc, então, podemos concluir com segurança que estamos perante um cínico mau. Haverá que considerar que esta pessoa necessita profundamente que a amem. Não conheço outro tratamento. É que este é um caso, precisamente, em que não se trata a doença com o pelo de cão. É que, venho concluindo, estes cínicos apenas são pessoas que soçobraram nalguma esquina de uma vida de cão.

Deus aceitável

O que é uma metáfora.

21.11.05

Girl talk*

Anda por aí pela blogosfera uma coisa séria de homo e heterofonias sobre a homofobia... eles são muitos e animados os posts, por todos os cantos, para todos os gostos (este aqui é a meu gosto).
Eu estou pela paz das miúdas de Gaia mas não gosto da palavra "homofobia". Preferia talvez dizer menos economicamente "preconceito contra actos homossexuais". Eu não sei o que "é" um homossexual. Eu não sei se as miúdas, além do mais, "são" homossexuais. Isso não é na generalidade dos casos como o QI que sobe e desce e varia ao longo da vida?! O verbo "ser" é tão parado nestas coisas...
Numa onda assaz heterófila, minha e delas, mas ainda nas fímbrias do grande assunto da identidade, encontrei a Zazie, lançando outro concurso, desta vez para descobrirmos a voz mais bela (isto sou eu a falar assim...à esdrúxula...e acho que a voz que se ouve lá no sítio da Zazie é a lúbrica voz de James Mason*, que nos faz sentir anjos prestes a cair) e encontro depois a Rita, proferindo uma aguda máxima, segundo a qual uma função relevante de um ex-namorado é lembrar-nos de vez em quando o que faz dele um ex-namorado (o que, estando bem visto, talvez só se aplique aos ex-namorados semi-frescos pois, se forem completamente frescos, não há que "lembrar" porque não houve esquecimento ainda, e se já passou há muito a frescura, então a função é a de fazer-nos lembrar de vez em quando quem nós costumávamos ser ... e já não somos).
Mas... e se eu tivesse um ex-namorado que falasse como o Anthony Quinn**?... Eu acho que, nesse caso, ia a correr para Gaia e punha-me aos beijos na primeira directora do conselho directivo que me aparecesse...
*Corrigido. Como é que fui capaz de confundir a voz de Anthony Quinn com a de James Mason?!
** Não corrigido. Apercebo-me de que em circunstância nenhuma, pelo menos em circunstância capaz de ser alcançada pela minha imaginação, eu poderia ter um ex-namorado com a voz de James Mason.

20.11.05

O sol que ilumina os rostos


É o sol poente o que ilumina e talha o rosto da Mulher da Cidade, riscando a giz a pungência da vontade do Homem. Na penumbra, já as mãos e o ângulo do colo o cingem, iniciam a deglutição. O Homem e a Mulher da Cidade sofrem e isso é bom.

No sol da aurora, mais tarde ou nem isso, a vertigem é a da alegria inebriante, não haverá ângulos de luz. O olhar será imenso e cristalino, a luz do sol será só e muito justamente a dócil matéria dos sorrisos. Dos sorrisos irreprimíveis próprios dos grandes amores, desses sorrisos que ninguém percebe como se formam e como acontecem. O Homem e a Mulher estarão felizes e isso é muito bom.

No céu obscurecido de uma tarde sábado de Outono, um dia obviamente sem sol, outro homem e outra mulher estiolam. Não é improvável que estiolem na ausência um do outro. Ela tem quarenta anos e está suspensa de tudo, dispensada até de deveres de geração, e sufoca em solidão. Ele tem quarenta anos e sufoca também, perdido de si, à procura de meias, no desconforto dos afins, na submissão das compras e dos objectos. Não sabem quanto tempo lhes resta. Não sabem o que há afinal para colher ainda, ou em geral. O homem e a mulher sofrem. Segunda-feira trocarão um olhar dilacerado, sabemos que sim. Trocarão. Que sol iluminará esse olhar?

19.11.05

Meditação

Muitos planos tem a transcendência.

Fenecido

MST tem de fazer melhor que o jogo claro-escuro, quente-frio, cravo-ferradura, atira ao ar e onde cair, cai, para segurar o que sobra (muito pouco) do seu interesse como cronista.
A fórmula está gasta e a caturrice começa a dar sinais: a verdade não é uma coisa que vá a votos (bom... eu sei, eu sei que até nem é assim...) mas a convergência lúcida de vozes provenientes de áreas tão distintas devia dar-lhe que pensar.
A fórmula está gasta e nem sequer as suas outrora fãs, já no climatério, permitem relevar que continue a servir-se, a título histriónico-argumentativo, de tiques e tacles de "Lindinho", sinaléctica apenas tolerável em tenros mancebos, exalando ainda morno leitinho e baunilha.

18.11.05

200 milhões de nós

Há 200 milhões de migrantes. Já imaginava que seriam muitos mas um número dessa ordem tremelica-me a cartografia mental.

Representar o mundo, pensá-lo, sem marcar clara presença desses 200 milhões deverá, cogito, dar um resultado tão distorcido dos dados da realidade como eliminar do mapa Portugal, Espanha, França, Itália e uma boa fatia da Alemanha.


Gostei de encontrar uma mais que plácida, optimista consideração do impacto económico desta Grande Migração: "Migration Can Deliver Welfare Gains, Reduce Poverty", assim começa o título de um artigo no sítio do Banco Mundial, a que cheguei por indicação do Timshel.

17.11.05

Cavaco Silva e Magritte


Cavaco Silva, que se diz contra a retórica, é candidato às presidenciais e diz que não é um político profissional, nem um profissional da política.

Magritte representou simplesmente um cachimbo.

Tectos de vidro

Eu gostava que quem deu o conselho tivesse corado e pedido desculpa mas receio que não.

Bem dito!

Ao contrário do que Cavaco (...) sugere, aquilo de que os portugueses mais precisam para avaliar um político, é de aprender a dominar a retórica dos seus discursos e demais declarações públicas.

Magritte e Cavaco Silva




E Cavaco Silva é um político amador.

Presidenciais. A retórica

Um dos mais significativos momentos da recente entrevista de Cavaco Silva na TVi foi aquele em que - como cito de memória, as palavras poderão ter variado um pouco, mas não as essenciais - Cavaco Silva se distanciou da retórica na política. Contudo, logo de seguida, esclarecendo afirmações anteriores, disse que não tinha nada contra os "políticos profissionais", que sublinhou não ser, mas sim contra os "profissionais da política". Ora isto é um passo de puro artifício retórico.

A planitude imperturbável com que as duas frases se sucederam demonstra porque é que Cavaco Silva não deve constar da galeria dos nossos Presidentes: ou Cavaco Silva pensa que pode fazer-nos passar por parvos, dizendo-nos que não estamos a vê-lo fazer o que ele nega fazer, enquanto o faz, (não sou dada a acreditar neste tipo de explicações e creio que não é esse o caso), ou Cavaco Silva não percebe mesmo a incongruência do seu discurso. Acredito que seja esta a situação. Mas neste caso, é ele que não consegue ver-se a si próprio. E se não se vê a si próprio, se se apercebe apenas por via de uma construção narcísica e normativa da sua identidade, mesmo que seja apenas da sua identidade enquanto homem público, não dá garantias de estar seriamente comprometido com a realidade e, por isso, anda profundamente à deriva.

Para as minhas visitas brasileiras via "Google"

Se V. chegou aqui em busca de "ortografia", não vá aqui, e muito menos aqui, - porque aí só vai encontrar refilação contra o (ab)uso sinistro, vulgar e classista das regras gramaticais, degradadas em modos de apoucamento alheio - mas vá sim, por exemplo, ali.

Se V. chegou em busca de "causinha", lamento o engano. Queira, pf, dirigir-se para ali. Boas festas.

16.11.05

A girls' best friend

Rapazes em vias de desenvolvimento: watch & see.

Ei-lo ali sempre ariçante, sempre no fio.


- Não no fio de esmorecimentos.


Não no fio da fiação encarneirada.


Muitas vezes, é verdade, no fio da navalha. -


No fio da seda.
Como sói.

[eu hoje acordei no casulo e gostei]

13.11.05

Presidenciais



Afinal, ao contrário do que a minha distraída pessoa dizia, este candidato sempre tem [está em] cartaz...

O martelo não existe fora da palavra martelo

Descoberta via aforismos & afins, esta discussão de grande pinta a quatro [pares de] mãos: João, Tiago Mendes e, not least, O Setúbal e J.A.

...se a ciência é, ou não, a única forma de SCIENTIA e como se relaciona com a verdade.
... se há ciência confinada a enunciados analíticos.
... se '1+1=2' pode ser 'explicado' ou se é uma norma, lá por ser uma convenção neste apenas possível mundo.

Protocolo de ver

oh sim.
oh como há.
oh como se agarram como náufragos à sua realidade.
oh como desprezam os que não vêem o que descrevem.
oh como estranham os que não reconhecem os trilhos que longamente treinaram.

Cavaco, o aborto, a bela e os bácoros

Não tenho nada prejudicialmente a favor da Joana Amaral Dias. Não a conheço, não tenho militância nenhuma convergente, nada. Reparei com agrado, depois das eleições legislativas, que havia mais esta mulher na política, a contrariar a inacreditável hegemonia masculina do parlamento; notei que era nova, bonita e com um ar completamente normal, se é que parecer determinada, corajosa e cosmopolita são atributos normais aqui para malta cá do rincão.
A minha moderadíssima atenção andava, pois, por generalidades dessas até que já há alguns tempos, num truculento blogue que não me apetece ainda linkar, vejo reeditada a boçal nervoseira que a populaça pilocrática tanto protagoniza quando lhe chega ao nariz o rapé que é ver uma mulher bonita na vida pública. A divergência política entaramela-se logo, a chalaça vira do caraças, enfim, um festival em que broncos, tacanhos e trogloditas disputam acesamente o título de néscio pacóvio mais (enganam quem?) macho do ano.
Depois do desfile de alarvidades no tal blog cheio da tal virtude do arroto de pescada e do pelo no peito ou na ventarola, vejo hoje um bom post da Joana Amaral Dias - simples, exacto e de conteúdo relevante sobre a [não] posição de Cavaco Silva [também] em matéria de aborto - dar origem a um cortejo de verdadeiras bacoradas (alguma excepção salta por si à vista).
A chave de tanta picardia não é uma acesa divergência política. É simplesmente violência e grunhice.

10.11.05

Porquês pelas ruas de Lisboa

Porque é que o Mário Soares tirou as fotos para a campanha num dia em que estava constipado e com conjuntivite?
?
Porque é que o Louçã estava tão zangado que até ia batendo com o nariz na objectiva quando lhe tiraram o retrato para o cartaz da campanha?
?
Porque é que ainda não vi o Manuel Alegre ou nenhum cartaz dele me furou a absorção?
?
Porque é que o Cavaco Silva não aparece nos cartazes? E quem é/o que é "Si" com letra grande, de que se necesSita? Somos nós, ...é Ele??

Amar o amor, esperar a espera, segurar insegura

Oh Bobby, darling, you didn't!


Lida: Bobby, darling, como te sentes depois daquele terrível concurso?
Bobby: hummm....

Lida: Sssimm...?
Bobby: Estes sofás são confortáveis...

Lida: ... Espaçosos...
Bobby: hummm...

Lida: Ficaste contente com a menção honrosa da categoria "voz"?
Bobby: humm...

9.11.05

Divinamente flamboyante

O Timshel, em resposta a pergunta minha sobre se o inferno teria acabado, deixou-me esta manhã uma defesa tão deliciosa da utilidade do inferno que vou republicá-la aqui à vista, não vá ficar submersa na escuridão dos tempos lá onde foi deixada, sob este post.

Tomando o texto como comentário ou resposta à minha pergunta, creio que ele pode ser interpretado nestes termos: "Mas porque raio haveria o inferno de acabar se ele é tão útil?".
Na experiência do autor do texto, um bom inferno, tal como o que lhe foi intensamente pintado em Vermont, trouxe de volta uma frescura na face que dificilmente encontraria noutros lados. Óptimo! É esse sempre o valor dos desportos radicais, das experiências extremas, até mesmo da sauna, suspeito eu.
Eu própria me senti refrescada depois de ler o texto. É de Steinbeck? Cá vai, com os meus agradecimentos:
"No domingo de manhã, numa cidade do Vermont, no meu último dia na Nova Inglaterra, fiz a barba, vesti um fato, engraxei os sapatos, penteei-me e procurei uma igreja aonde ir. Eliminei várias por razões de que já não me lembro, mas ao ver uma igreja de John Knox conduzi o Rocinante para uma rua lateral e estacionei-o fora da vista, dei ao Charley as minhas instruções quanto à guarda do veículo e encaminhei-me com dignidade para uma igreja de paredes de tábua pintadas de uma brancura ofuscante. Sentei-me ao fundo do imaculado e polido lugar de adoração. As orações foram objectivas, chamando a atenção do Todo-Poderoso para certas fraquezas e tendências não divinas que sei serem as minhas e podia apenas supor que fossem compartilhadas pelos outros ali reunidos.
O oficio divino fez bastante bem ao meu coração e espero que à minha alma. Já havia muito que não ouvia uma tal abordagem. É nosso hábito agora, pelo menos nas grandes cidades, descobrir por intermédio do nosso clero psiquiátrico que os nossos pecados não são realmente nada pecados mas acidentes postos em acção por forças fora do nosso domínio. Não havia tal tolice nesta igreja. O padre, um homem de ferro com olhos de aço temperado e uma elocução semelhante a uma broca pneumática, esclareceu a oração e assegurou-nos que éramos um grupo muito lamentável. E tinha razão. Não éramos grande coisa para começar, e graças aos nossos próprios esforços espalhafatosos vínhamos a escorregar desde sempre. Depois, tendo-nos amaciado, lançou-se num sermão glorioso, um sermão de fogo e enxofre. Tendo provado que nós, ou só eu talvez, não tínhamos nada de bons, pintou com uma certeza fria o que era provável que nos acontecesse se não fizéssemos algumas reorganizações básicas, no que ele não punha muita esperança. Falou do inferno como um perito, não do inferno piegas dos nossos dias moles, mas de um inferno de fogo bem atiçado, aquecido ao rubro-branco, servido por técnicos de primeira ordem. Este reverendo levou-o a um ponto em que podíamos compreendê-lo — um bom fogo de carvão, com muito boa tiragem, e um grupo de diabos de fornalha que põem o coração no seu trabalho, e o seu trabalho era eu. Comecei a sentir-me completamente bem. Há já alguns anos que Deus vem sendo um camarada para nós, praticando o companheirismo, e isso produz o mesmo vácuo que um pai produz ao jogar ao softball com os filhos. Mas este Deus do Vermont importava-se o bastante comigo para se dar a um ror de incómodos, correndo o inferno a pontapé para fora de mim. Deu aos meus pecados uma nova perspectiva. Ao passo que haviam sido pequenos e mesquinhos, sórdidos e preferíveis de esquecer, aquele ministro deu-lhes algum volume, peso e dignidade. Não vinha pensando muito bem de mim mesmo há alguns anos, mas se os meus pecados tinham aquela dimensão, salvava-se algum orgulho. Não era uma criança desobediente mas um pecador de primeira categoria, e ia apanhar essa classificação.
Senti-me tão revivido em espírito que pus cinco dólares na bandeja, e depois, à porta da igreja, apertei calorosamente a mão ao padre e a tantos fiéis da congregação quantos pude. Deu-me uma bela sensação de malfeitoria que durou bem viva até terça-feira. Cheguei a considerar a hipótese de bater no Charley para lhe dar também alguma satisfação, já que o Charley é só um pouco menos pecador do que eu. Fui à igreja todos os domingos, através de todo o país, com uma denominação diferente em cada semana, mas não encontrei em parte nenhuma a qualidade daquele pregador do Vermont. Esse forjou uma religião destinada a durar e não um fóssil pré-cozinhado.”
Continua de pé, no entanto, a questão: uns ardem, outros não. Porque uns pecam e outros não.
Foram-lhes traçadas ou permitidas diferentes trajectórias com estes resultados cujas diferenças estão longe de ser indiferentes.
São estes iguais entre si? Como a resposta afirmativa requer um bom exercício retórico, a resposta "natural" é ... não. Um bom túnel de penetração para a direita... Era este o ponto.
O que, de maneira nenhuma, constitui refutação da extrema valia do inferno tal como no sermão de Vermont.
Por mim, cá me vou fazendo ao dia grata ao Timshel, impante e de frescura na face, depois de avistar tal inferno...

8.11.05

Raiva e má-criação

Anyone can become angry - that is easy, but to be angry with the right person, to the right degree, at the right time, for the right purpose, and in the right way - that is not easy [ Aristotle, wikicitado]
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Um dos objectivos principais da educação é o de aprender isto.
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Digo "educação" não no sentido da "boa educação" que, com excessiva frequência, vejo ser um programa oco de maneirismos sociais, transmitido por pais desorientados e esmagados por responsabilidades moralistas a filhos em-treino ortopédico, ou invocado como trave em geometrias de desprezo pelo próximo.
Dessa "boa educação" só tenho a dizer que a considero um dos modos de cegueira mais perniciosos que conheço.
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Digo "educação", sim, no sentido de nutrir o desenvolvimento de um ser humano harmonioso individual e socialmente.
É, claro, uma responsabilidade de cada um tomar conta deste seu próprio assunto mas é também ancestralmente, para não dizer biologicamente, a principal responsabilidade da geração adulta relativamente à geração mais nova.
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Numa sociedade complexa essa responsabilidade requer também - para além dos grupos naturais e informais - a intervenção de modos institucionalizados de acção. No mundo que conhecemos isso é o objecto da política de educação.
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Se a nova geração sente raiva e isso tem expressão disseminada, isso não é bom. É , concerteza, um sinal de que há ajustamentos relevantes a fazer.
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Mas se a nova geração é mal-criada, neste sentido que aqui interessa, que é afinal o sentido próprio, e, além disso, sente raiva e isso tem expressão disseminada, então a coisa é séria, é má, é muito má...

7.11.05

Stabat mater dolorosa


O quam tristis et afflícta

Não se pode, não, exterminá-los

Se tivesse de escolher o traço mais relevante do que está a acontecer em França, eu sublinharia o carácter espontâneo e disseminado do vandalismo.
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Isto é o que o torna muito difícil de controlar e, principalmente, isto é o que me parece dar um sinal claro de que alguma coisa, que talvez não possamos simplesmente apagar da realidade, tem andado a correr muito mal (aos erros nas políticas de imigração e de urbanismo, sumariados pelo Lutz, eu acrescentaria o fracasso da política da educação).
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Mas uma coisa de que eu tenho bem a certeza é de que os pais e as mães dessa rapaziada que anda a incendiar a França bem gostariam de ter mão neles.

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Rectifico: é claro que não tenho a certeza, não tenho certeza nenhuma, de que os pais e as mães dessa rapaziada que anda a incendiar a França bem gostariam de ter mão neles.

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Não tenho a certeza, nem deixo de ter. Conjecturo. Isso sim, conjecturo baseada na experiência da vida. Conjecturar o contrário só seria razoável se algum outro elemento me trouxesse uma indicação forte nesse sentido porque os dados da vida mostram que os pais se interessam em geral pelos filhos e que, por egoísmo ou altruísmo, os pais gostam é que os filhos andem por aí bem integrados, atinados, a fazer pela sua vida.

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Não deve ser carga fácil a frustração e a angústia de quem, depois de ter cortado as suas raízes, o que não pode deixar de ter tido o seu quê de doloroso, vê que a prole não passa da cepa torta e se põe em desacatos desta monta - embora eu acredite que esta tempestade terá sido antecedida de inúmeros aguaceiros e tudo isso acaba por servir de treino...
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É de coisas assim concretas que a vida é feita, é por causa de coisas assim que a política é feita.

Causa


Apoio a causa lançada pela Vitriolica.

6.11.05

Barbaridades para todos os gostos


Pois, se calhar o problema é que os outros são reles! E ímpios.

Há que proteger as nossas cidades, flores da civilização, desses bárbaros impenitentes.

Abre-se a porta generosa da hospitalidade aos estrangeiros e é o que é...

Uma coisa assim, inesperada, sei-lá..., ninguém podia imaginar... já não há respeito... essa gente...

A bola, o vinho e a fé

Um exigente exercício espiritual: ler um artigo numa revista estrangeira, motivado pela rebelião (sub) urbana francesa, que narra um caso de sucesso na integração de imigrantes.
*

Tudo começou há quarenta anos quando um jovem aventureiro em busca de vida melhor terá dado à costa, digamos assim com liberdades expressivas, àquelas paragens.
*
Como não desgostou do que por lá encontrou, chamou a sua gente. Da terra natal até lá, à cidade de acolhimento, acabariam por ir chegando cerca de 8 mil pessoas; a presença destes imigrantes e seus descendentes, hoje em dia, exprime-se em 15% dos habitantes daquela cidade.

*

O gosto por festas bem regadas, a partilha da fé católica e o entusiasmo por uma boa futebolada, ora agora jogo eu, ora agora jogas tu, ajudaram a dissipar as fronteiras. A mistura de quotidianos que assim se foi fazendo, acrescia aos do mundo do trabalho, onde os imigrantes iam dando provas de natureza trabalhadeira.

*

Passadas quatro décadas de - isto agora sou eu a fazer contas - festas, missas, participação em procissões, partidas de futebol, cumprimentos olá como está passou bem, visitas de uns a outros, crescimento em conjunto, namoricos, compadrios e esforços conjuntos, passadas estas décadas e milhares de episódios de ping pong cultural, o evento da integração consumou-se, coroado de êxito.
*
A prova e a medida da integração, regressando eu ao artigo: tão integrados se sentem os jovens que entretanto lá nasceram que, indagados sobre as preocupações relativas aos imigrantes, respondem "não temos problemas com turcos ou com árabes", não se identificando pois enquanto tais, como sublinha enfaticamente a autora do artigo que venho referindo.
*
Eles são "os nossos portugueses" de uma pequena cidade alemã. A expressão entre aspas é uma citação.
*
Sortudos, eles; um pouco baralhada, eu.

5.11.05

Se eu ao menos soubesse


Se eu ao menos soubesse
Sobre que é que pousou o teu último olhar.
Foi uma pedra, que já muitos últimos olhares
Tinha bebido, até que eles em cegueira
Caíram sobre a cega?

Ou foi terra,
Bastante para encher um sapato,
E já negra
De tanta despedida
E de preparar tanta morte?

Ou foi o teu último caminho,
Que te trouxe o adeus de todos os caminhos
Que tu tinhas andado?

Uma poça de água, um pedaço de metal luzente,
Talvez a fivela do cinto do teu inimigo,
Ou qualquer outro, pequeno adivinho
Do céu?

Ou mandou-te esta terra,
Que não deixa partir ninguém sem ser amado,
Um sinal de pássaro pelo ar,
Acordando lembranças na tua alma, e ela estremeceu
No seu corpo queimado de martírio?


Nelly Sachs, em Oração para o noivo morto, traduzida por Paulo Quintela (1967, Portugália).


Ou a magnificência do amor e o superiormente belo desconhecimento do ódio.

3.11.05

Incubo cavaquista 0 - Soares 1

Lépido, ágil, simples, sage, um espectáculo. Quero ser assim quando tiver oitenta anos!
Ontem, na TVi.

Tenho um problema com o mérito



O primeiro motivo do meu problema com o mérito é que o mérito não se agarra ao DNA e, que eu saiba, a engenharia genética não anda a investigar na área, o que faz com que o meu problema esteja para durar, não conseguindo eu encontrar a chave de leitura racional de uma frase, de resto bonita, como esta que diz que "o privilégio é o mérito dos antepassados" (encontrada em melómana fuga à Arte da dita).

Como o mérito não se agarra ao DNA, ínclitos indivíduos geram com frequência verdadeiros trambolhos. Se esses ínclitos indivíduos conseguiram privilégios duradouros para a prole, teremos, pois, privilégios totalmente imerecidos por parte daqueles que os detêm no presente. Se a prole for de realmente boa cepa – ou mesmo empa – então terá renovado as condições de merecimento do privilégio, logo não haverá que falar em privilégio.

Mas com ou sem transmissão via DNA, um mérito de antepassado é, para o presente, um mérito-mais-que-passado e não constitui justificação de privilégios para a prole, de boa e má cepa e empa, nem mesmo se se pretendesse simplesmente, num jeito de simbolismo cultural, tomar a geração presente como ícone do valoroso antepassado. Numa cartilha de amor total ao indivíduo isso seria ainda insustentável pelo que envolve de limitação grave da sorte de cada novo indivíduo de tal geração; e não vale a pena vir dizer que o privilégio valeria mais que a liberdade assim perdida, pois a essa nunca aderirei eu, que subscrevo a tal cartilha.
***

O segundo motivo do meu problema com o mérito é que o mérito como critério de distribuição das vantagens só me parece digno de incenso se for acompanhado de uma rigorosamente-equitativa-distribuição-natural-dos-talentos-socialmente-tidos-por- excelentes.

Por isso, como aqui disse, ou o liberalismo de direita arranja artes de nos garantir uma eficácia eugénica marginal ou então estamos tramados nalguma futura eventual vida a acontecer na Utopia liberal, cabendo-nos aí triste sorte, minguada fatia, se não (re)nascermos belos, inteligentes, atléticos, enfim, virtuosos.
***

O motivo terceiro e principal do meu problema com o mérito é que é uma palavra oca. Completamente oca, madrinha de todos os pleonasmos.
Merecimento segundo o mérito?! Ahh, pois, falamos de excelência. Mas excelência não é fazer muito bem feitinho tudo o que nos pomos a fazer. É fazer muito bem feitinho aquilo que é meritório fazer.
E assim temos a volta dada, do rabinho à boca da pescada. Não se chega lá - à ciência, em todos os sentidos, do que é meritório - sem sair da insistência na prioridade do mérito. É preciso primeiro obter o boneco do que é valoroso, formulá-lo substantivamente, ter um rascunho, um projecto, uma visão do indivíduo pleno na sua incrustação social.
E só depois se pode falar do que – assim, meritoriamente – para lá conduz. Mérito é, por si mesmo, palavra desmeritosa.
***

Como qualquer problema que se tem com qualquer coisa, o meu problema com o mérito existe porque, como tantos outros, sucumbo ao encanto da palavra.

Palavra assim, tão esdrúxula, tão luxuriante... Curvas e contracurvas de sonoridades vocalizáveis - mÉrItuUu. Tão plasticamente sensual numa convocação sucessiva de lábios - mmmééé -, doce requebro longo na língua oferta - rii -, um beijo ritual a fechá-la - tooo... – de ricto a rito final do prazer. Dito em voz masculina é todo um universo sinestésico...
E tudo isto sem perder a compostura, pois pode prevaricar-se neste venal vocábulo com toda a discrição e a mais esplendorosamente assistida seriedade. As pessoas que o dizem muito, geralmente colocam bem a voz, são respeitáveis, cheiram bem com frequência e dizem-no com circunstância... mmmm ééé riii tttuuuu... que arrepio! que perdição.

Chove mas não suavemente

1.11.05

Pão-por-Deus #2

Esta casa cheira a broa
Aqui mora gente boa.
Esta casa cheira a vinho
Aqui mora algum santinho

Pão-por-Deus


O Truca Truca

Já que o coito
- diz Morgado-
Tem como fim cristalino,
Preciso e imaculado
Fazer menina ou menino;
E cada vez que o varão
Sexual petisco manduca,
Temos na procriação
Prova de que houve truca- truca.
Sendo pai de um só rebento,
Lógica é a conclusão
De que viril instrumento
Só usou – parca ração!-
Uma vez.
E se a função
Faz o órgão – diz o ditado –
Consumada essa excepção,
Ficou capado o Morgado.


Memória da Natália Correia

Flor dos terramotos

Há esta flor em Lisboa: uma leitaria chamada "Flor dos Terramotos". O 118 acrescenta: "Lda". E dá as restantes coordenadas.

31.10.05

Desmemoriados


É como às vezes me parecem andar os portugueses, esquecidos de si mesmos, peitinho todo feito à Europa de que, aliás, me sinto - também - cidadã.
O problema com a falta de memória é que deixamos de saber quem somos e se não soubermos quem somos, não somos, perdemo-nos, goramo-nos. Do colonialismo pindérico para as cicatrizes da descolonização, passando pelos vapores da aproximação à passada europeia e rematando nas macro ou micro arrastonices, nunca se conseguiu ainda fazer espaço para deixar medrar e espraiar-se a imprescindível consciência de que partilhamos uma condição existencialmente relevante com o espaço dito da lusofonia - partilha essa que é culminante no caso dos países lusófonos africanos. Não são os espanhóis que são "nossos irmãos", não são os primos brasileiros; são os africanos da matriz cultural portuguesa (com a devida licencinha às ilhas de Cabo Verde, ainda à procura da sua plataforma continental, pelo epíteto africano, e com a perfeita consciência de que a expressão "matriz cultural portuguesa" presta-se a ser sovada pelo primeiro especiesismo semântico que irrompa de um qualquer desassossego).


A mensagem do dia é que a lusofonia, seja ela o que for, existe.
Ela não é, seguramente, cativa de Portugal, apesar de inúmeras gaffes bacocas por parte das organizações.
Ela existe apesar da extraordinária invisibilidade aos olhos dos portugueses - que a não vêem ou porque simplesmente nem sonham com as grandezas do mundo, ou porque o preconceito, à direita ou à esquerda, os impede de surpreender a identidade.
Isto tudo veio ao de cima por ter começado o dia a ler esta oposição; como espectadora, para além da satisfação de ver o assunto bem disputado, não posso deixar de reparar, com uma nitidez cortante, que a verdadeira oposição é entre os que têm e os que não têm consciência de que esta é uma das bases da nossa identidade, qualquer que seja a maneira como a representamos.
Recordo um provérbio secular que diz: "quem nunca viu Lisboa é como um pinto que morreu dentro do ovo". Cabo-verdiano. Também nos vemos pelos olhos dos outros, não é?

29.10.05

Não vejo assim

... isto, dito por Vicente Jorge Silva, em opinião expressa hoje no DN:
Sem pôr em causa a boa-fé de Cavaco, há em tudo isto algo de excessivo e anormal num quadro democrático, mesmo tendo em conta a gravidade da crise portuguesa. Ao rasurar aquilo que é diferente e diverso e apostando numa "união nacional" de gregos e troianos, a candidatura de Cavaco torna excedentário o pluralismo político e ideológico. Finalmente, a hipótese de um triunfo retumbante, logo na primeira volta, acentua o pendor plebiscitário da eleição e obriga o candidato vitorioso - quer ele queira quer não - a assumir o papel de "salvador".
A principal acentuação que vejo é, antes pelo contrário, a do branqueamento do último contacto de Cavaco Silva com o eleitorado - perdeu, lembram-se?
Logo à primeira volta... não foi?
E, assim, o que também creio ver no texto de VJS é um sinal de que foi inteiramente engolida a ideia, favorável a Cavaco Silva, de que o homem vem em graça (por oposição ao burlesco fácil de respigar nas candidaturas da esquerda).
Ora, não vem. Isso é um trompe l'oeil mediático mas parece que pegou.

Não acho, para além disso, que a efectiva adequação de Cavaco Silva para captar votos no bloco central possa, em boa verdade, ser retorcida ao ponto de transformar-se em algo que "torna excedentário o pluralismo político e ideológico".

Não torna, é bloco mediano, apenas.

Insisto na objecção à presidencialidade de Cavaco Silva: aquilo a que alguns já têm chamado "falta de cultura humanista", mas que não refiro dessa maneira porque assim parece que se trata de um supérfluo adereço, de um elemento histriónico dispensável.

Trata-se da falta de bússola, da deficiente perspectivação política, mas de uma política baseada na compreensão da existência individual, da política como instrumento das condições sociais do que um dia por aí chamei o viço do indivíduo.

Está lançado, já se viu, o campeonato das presidenciais. Ora lá vem chegando a camisola, a clube, a competição, o aconchego da manada ... a náusea.

E agora, José?

Vamos esperar mais um ano e picos pelo novo referendo sobre a despenalização do aborto ou vamos assistir a mais uma "adaptação aos factos", rectificando o que foi dito em campanha eleitoral, e avançar para a acção legislativa do parlamento, dando precedência ao fundo (despenalização) sobre a forma (referendo)?

Entretanto, apraz-me a incomodidade gerada pelo Tribunal Constitucional. Querem referendos quando têm competência legislativa? Querem diluição da responsabilidade política perante o eleitorado? Pois então, tomem lá o túnel espinhoso da referendação, não contem connosco para dar jeitinhos.

A sexosfera, darling, não é lisa

É só pra dizer que gosto de ser bem-amada, mesmo nos intervalos.
E que mantenho que os rapazes são mesmo os nossos melhores amigos, mesmo quando são infiéis, a nós, às outras, tanto faz; e que acho uma infâmia causar o mínimo tremor de medo, de dúvida, de insegurança, na difícil condição masculina.

28.10.05

Que saudades do Verão!

O beco-sistema do cavaquismo e a deriva cega


E ainda:

Claro que achamos (também) que não. Como poderia, se lhe falta a bússola? Como pode, até mesmo, o país perdoar a oportunidade perdida? A Irlanda e a Finlândia, para não ficar por mais perto, mostram, por contraste, quão larga foi a nossa deriva; e a deriva está para durar porque nem sequer vem já a caminho uma geração capaz de forjar a saída do beco que é este sistema desorientado.

É que o cavaquismo como orientação política (coisa que, aliás, fazendo jus à verdade, o próprio tem o cuidado de refutar) é uma deriva.
Uma deriva industriosa mas improdutiva, honesta mas eticamente vaga, laboriosa mas não criativa, empertigada mais que digna, que nos condena sem redenção a vaguear eternamente como cegos, perdidos num estreito beco. Eternamente, não. Só no nosso tempo de vida, concerteza. Apenas durante esse tempo.

27.10.05

Deus aceitável

O que for inútil, sim. E impotente. Infiel - às suas criaturas, condenadas ao sofrimento - é que não.

Mulherio meu

Teodora.
Teodora imperatriz.
Teodora corajosa.
Teodora hetera, isso, inesposável.
Teodora dos ursos.
Teodora, cancro.
Teodora magnífica.
Teodora exacta.
Teodora, amada.
Teodora apesar das núpcias.
Teodora estratega.
Teodora odiada.
Teodora, África, Líbia, Alexandria.
Teodora, ninguém?
Teodora ali.
Teodora.

25.10.05

... and back again!

Temos um C(Px) que se diz ~Pn porque isso o torna, segundo pensa, mais credível como C(Px).*

Não sei se me espante mais pela bonomia ou ingenuidade de tal acto de negação ou pelo understatement sobre a porca da política.




*[Seja C= candidato e P= detentor de cargo político]