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Timshel, em resposta a pergunta minha sobre se o inferno teria acabado, deixou-me esta manhã uma defesa tão deliciosa da utilidade do inferno que vou republicá-la aqui à vista, não vá ficar submersa na escuridão dos tempos lá onde foi deixada, sob
este post.
Tomando o texto como comentário ou resposta à minha pergunta, creio que ele pode ser interpretado nestes termos: "Mas porque raio haveria o inferno de acabar se ele é tão útil?".
Na experiência do autor do texto, um bom inferno, tal como o que lhe foi intensamente pintado em Vermont, trouxe de volta uma frescura na face que dificilmente encontraria noutros lados. Óptimo! É esse sempre o valor dos desportos radicais, das experiências extremas, até mesmo da sauna, suspeito eu.
Eu própria me senti refrescada depois de ler o texto. É de Steinbeck? Cá vai, com os meus agradecimentos:
"No domingo de manhã, numa cidade do Vermont, no meu último dia na Nova Inglaterra, fiz a barba, vesti um fato, engraxei os sapatos, penteei-me e procurei uma igreja aonde ir. Eliminei várias por razões de que já não me lembro, mas ao ver uma igreja de John Knox conduzi o Rocinante para uma rua lateral e estacionei-o fora da vista, dei ao Charley as minhas instruções quanto à guarda do veículo e encaminhei-me com dignidade para uma igreja de paredes de tábua pintadas de uma brancura ofuscante. Sentei-me ao fundo do imaculado e polido lugar de adoração. As orações foram objectivas, chamando a atenção do Todo-Poderoso para certas fraquezas e tendências não divinas que sei serem as minhas e podia apenas supor que fossem compartilhadas pelos outros ali reunidos.
O oficio divino fez bastante bem ao meu coração e espero que à minha alma. Já havia muito que não ouvia uma tal abordagem. É nosso hábito agora, pelo menos nas grandes cidades, descobrir por intermédio do nosso clero psiquiátrico que os nossos pecados não são realmente nada pecados mas acidentes postos em acção por forças fora do nosso domínio. Não havia tal tolice nesta igreja. O padre, um homem de ferro com olhos de aço temperado e uma elocução semelhante a uma broca pneumática, esclareceu a oração e assegurou-nos que éramos um grupo muito lamentável. E tinha razão. Não éramos grande coisa para começar, e graças aos nossos próprios esforços espalhafatosos vínhamos a escorregar desde sempre. Depois, tendo-nos amaciado, lançou-se num sermão glorioso, um sermão de fogo e enxofre. Tendo provado que nós, ou só eu talvez, não tínhamos nada de bons, pintou com uma certeza fria o que era provável que nos acontecesse se não fizéssemos algumas reorganizações básicas, no que ele não punha muita esperança. Falou do inferno como um perito, não do inferno piegas dos nossos dias moles, mas de um inferno de fogo bem atiçado, aquecido ao rubro-branco, servido por técnicos de primeira ordem. Este reverendo levou-o a um ponto em que podíamos compreendê-lo — um bom fogo de carvão, com muito boa tiragem, e um grupo de diabos de fornalha que põem o coração no seu trabalho, e o seu trabalho era eu. Comecei a sentir-me completamente bem. Há já alguns anos que Deus vem sendo um camarada para nós, praticando o companheirismo, e isso produz o mesmo vácuo que um pai produz ao jogar ao softball com os filhos. Mas este Deus do Vermont importava-se o bastante comigo para se dar a um ror de incómodos, correndo o inferno a pontapé para fora de mim. Deu aos meus pecados uma nova perspectiva. Ao passo que haviam sido pequenos e mesquinhos, sórdidos e preferíveis de esquecer, aquele ministro deu-lhes algum volume, peso e dignidade. Não vinha pensando muito bem de mim mesmo há alguns anos, mas se os meus pecados tinham aquela dimensão, salvava-se algum orgulho. Não era uma criança desobediente mas um pecador de primeira categoria, e ia apanhar essa classificação.
Senti-me tão revivido em espírito que pus cinco dólares na bandeja, e depois, à porta da igreja, apertei calorosamente a mão ao padre e a tantos fiéis da congregação quantos pude. Deu-me uma bela sensação de malfeitoria que durou bem viva até terça-feira. Cheguei a considerar a hipótese de bater no Charley para lhe dar também alguma satisfação, já que o Charley é só um pouco menos pecador do que eu. Fui à igreja todos os domingos, através de todo o país, com uma denominação diferente em cada semana, mas não encontrei em parte nenhuma a qualidade daquele pregador do Vermont. Esse forjou uma religião destinada a durar e não um fóssil pré-cozinhado.”
Continua de pé, no entanto, a questão: uns ardem, outros não. Porque uns pecam e outros não.
Foram-lhes traçadas ou permitidas diferentes trajectórias com estes resultados cujas diferenças estão longe de ser indiferentes.
São estes iguais entre si? Como a resposta afirmativa requer um bom exercício retórico, a resposta "natural" é ... não. Um bom túnel de penetração para a direita... Era este o ponto.
O que, de maneira nenhuma, constitui refutação da extrema valia do inferno tal como no sermão de Vermont.
Por mim, cá me vou fazendo ao dia grata ao
Timshel, impante e de frescura na face, depois de avistar tal inferno...