10.1.06

Não gostei. Gostei

Não gostei:

- de Manuel Alegre, de comitiva e campanha eleitoral com todos, a passear homenagens no cemitério;

- da explicação (?) que Soares deu para deixar de responder aos jornalistas (embora a título individual tenha toda a minha solidariedade, aquilo deve ser um pitéu).


Gostei:

- de ver o senhor que tinha ido ao jantar do Cavaco Silva, com a mulher e a sogra, dizer que estavam lá todos os militantes do PSD;

- de ser entrevistada para uma sondagem. Por alguns momentos, decidi os resultados eleitorais.


E depois? Morreram as vacas e acabaram-se os bois. Sonhar é bom.

9.1.06

Shaw

Demonstração de que sempre há algumas vantagens numa economia de trocas directas - e com a licença de JG, que levou, na troca, a carta de Schiele abaixo postada - apraz-me muito colocar aqui o retrato deste cavalheiro.
É Bernard Shaw e não sei com certezas se a disse ou não, e se o fez onde e como, esta frase que nunca se evapora deste ser: selvagem é o que confunde as regras da sua tribo com as leis da natureza.
O que eu não sabia era que Bernard Shaw tinha esta cara, esta expressão diabinha de mestre de cerimónias de um corpo muito muito diplomático.

Da arte epistolar


Carta de Egon Schiele ao irmão.

8.1.06

Entrada de leão ...

O ímpeto de Cavaco Silva neste primeiro dia de campanha é sinal de que ele afinal andou estes anos todos consumido por contas que teria para fazer com o país? País que lhe andou todo o tempo debaixo de olho, enquanto ele digeria a derrota das presidenciais e esperava, amparado pela sua boa Maria em longas horas de azedume, o momento para avançar?
É que foi isso mesmo o que ele me pareceu: alguém que tem contas a fazer com o país e que se manteve à coca e agora salta para mostrar como é que elas são. Nada de supererogatório, portanto, bem pelo contrário. Isto é "muito político" - já não me espanta - muito mais político do que os políticos criticados por o serem por este político que se chegou há semanas de mansinho afirmando que não era político. Confuso? Não, confusa e pouco transparente foi logo essa retórica da negação. Esse expediente de insinuação a que se segue agora, pelos vistos, o atordoamento pelo espalhafato.

Post postal domingueiro


Reconsiderando; há pontos de vista que merecem atenção, apesar de frequentemente negligenciados.

Postal domingueiro


Kouros. Um bom hábito.

Que livro eu levaria para uma ilha deserta?

Obviamente o dicionário.

Será que ...

... um destes dias vai passar a dizer-se: "ó bruno, 'mô, 'tive a ler o título d' um livro mas não te vou dizer qual era pa não t' influenciar"?

Anamnese @anibalística das presidenciais

A ver se passo pelo Solvstäg para apanhar as gotas contra os ACv'S eleitorais.

Campanha eleitoral is in the air

As pessoas estão a encarar esta campanha como uma espécie de reality show. Cavaco faz aqui o papel de José Castelo Branco, sem as afectações.

7.1.06

Intimismo insanoterapêutico com ídolo, prece e tudo


Ontem foi um dia apicado nesta lida. Houve passos de cidadania militante, houve telefonemas, houve, com par e tudo, bens de primeira necessidade, houve o problema dos homens bonitos e até houve o sobrevôo de uma bruxa malvada sobre águas amenas de uma gruta mansinha. Visitas de renome quiseram também trazer-me inusitada animação no opinário.
Extraordinária agitação tão simultaneamente amável e repreensiva cá para certas procrastinações habituées da minha rica caminha, esse território de verdades.
Também eu havia de ir ali e voltar já mas a monotonia (leia-se: muuu nuuu tuuu niii a) é-me anaeróbia, além de que - principalmente - verifico que isto aqui é mais económico que as terapias de estilo. À distância, acendo velas, persigno-me e tento voltar a acreditar em tudo, embora o Padrinho me alerte que talvez não seja assim. Contudo, ele tem a grande qualidade de, ocasionalmente, se enganar um pouco, além de que sabe duvidar como gente grande.
Albrecht, tu também ficas. És agora o meu manipanso.
Às folhas tantas
do livro matemático
um Quociente apaixonou-se
um dia
doidamente
por uma Incógnita.
Olhou-a com seu olhar inumerável
e viu-a do ápice à base
uma figura ímpar;
olhos rombóides, boca trapezóide,
corpo retangular, seios esferóides.
Fez de sua uma vida
paralela à dela
até que se encontraram no infinito.
"Quem és tu?", indagou ele
em ânsia radical.
"Sou a soma do quadrado dos catetos.
Mas pode me chamar de Hipotenusa.
"E de falarem descobriram que eram
(o que em aritmética corresponde
a almas irmãs)
primos entre si.
E assim se amaram
ao quadrado da velocidade da luz
numa sexta potenciação
traçando
ao sabor do momento
e da paixão
retas, curvas, círculos e linhas sinoidais
nos jardins da quarta dimensão.
Escandalizaram os ortodoxos das fórmulas euclidiana
e os exegetas do Universo Finito.
Romperam convenções newtonianas e pitagóricas.
E enfim resolveram se casar
constituir um lar, mais que um lar,
um perpendicular.
Convidaram para padrinhos
o Poliedro e a Bissetriz.
E fizeram planos, equações e diagramas para o futuro
sonhando com uma felicidade integral e diferencial.
E se casaram e tiveram uma secante e três cones
muito engraçadinhos.
E foram felizes
até aquele dia
em que tudo vira afinal
monotonia.
Foi então que surgiu O Máximo Divisor Comum
freqüentador de círculos concêntricos,
viciosos.
Ofereceu-lhe, a ela,
uma grandeza absoluta
e reduziu-a a um denominador comum.
Ele, Quociente, percebeu
que com ela não formava mais um todo,
uma unidade.
Era o triângulo,
tanto chamado amoroso.
Desse problema ela era uma fração, ~
a mais ordinária.
Mas foi então que Einstein descobriu a Relatividade
e tudo que era espúrio passou a ser
moralidade
como aliás em qualquer
sociedade.
E bem-hajam.

6.1.06

Colhendo doce educação

Quero lá saber que o chão esteja frio, ou até mesmo lascado. É caso para dizer, chão frio, coração quente.

5.1.06

Zelig, eu e Cavaco Silva

Deixei-me assistir a uma entrevista de semi-bisbilhotices a Cavaco Silva que procuraria apresentá-lo no seu habitat. A entrevista, razoavelmente atrapalhada na parte da produção, foi passeando Cavaco Silva pela entrada da Católica, no gabinete na Católica e pela casa de férias, cercanias incluídas. O homem mostrou-se de fato e depois vestido informalmente, e nestas vestes pareceu-me mirrado e indefeso.
Durante todo o tempo tentei não o olhar desfavoravelmente, tentei vê-lo de uma maneira que fizesse nascer em mim adesão - pelo gosto, talvez perverso, talvez ocioso, de sentir vibrar em mim qualquer coisa nova e estimulante tal como "sentir-me como" uma apoiante de Cavaco. A velha questão "o que é que se vê nele?" é uma coisa que requer a presença de um sujeito vidente, em que eu desejava alojar-me. Faltou-me o pé, ou o jeito, ou a concentração. Desconsegui, o que ficou claro ao fim dos primeiros dez minutos, e declarei-me em falha zeliguiana. Uns minutos mais de entrevista e percebi que até nem teria sido tão mal sucedida. Cavaco Silva não tem mesmo dotes de simpatia; tem uma deficiente capacidade de gerar empatia, nada nele é fácil ou comunicativo ou fluente.
O tom que utiliza para comunicar, com excepção do que foi a vibrante, quase eufórica, referência ao número dos desempregados, não lhe saía nem solto nem natural, mas sempre com o véu de uma cerimónia: esforçado, mastigado, rangente, distanciado.
Isto pode beneficiá-lo quando aborda assuntos que passam bem debaixo do chapéu de "matérias complicadas", fazendo com que pareça profundo e exacto, mas por outro lado resulta muito desfavoravelmente quando o assunto é mais coloquial (tais como que notas dará aos estudantes ou o que leu recentemente) ou de natureza mais genérica (tais como a IGV), ou se refere à classe de questões da vida-em-geral (tais como o papel da mulher na sua vida política) que não são por isso necessariamente questões sem que ou quê. Nestes casos, em todos os casos em que a fluência do verbo e da expressão o beneficiariam, o tom sempre esforçado e circunstancioso tornou irrefragavelmente rasante o conteúdo das suas palavras.
Ora, isto fez-me reparar que se Jerónimo de Sousa não andasse por aí a derramar comunicatividade, frases pensantes e ponderadas que lhe saem em tom calorosamente calmo, seria bem melhor para Cavaco Silva. Sempre haveria ensejo de dizer que se batia no pobrezinho - que ele, Cavaco Silva, por acaso não é. Mas depois de Jerónimo de Sousa a menção da aridez e do desinteresse da paisagem humana de Cavaco Silva deixou de poder levar o labéu de pedante elitismo urbano. Fica mostrado ao país inteiro que aquilo vai da natureza individual.
Perante isto, estou convencida de que a minha falha zeliguiana foi mínima: inclino-me a achar que não há quase nada - para não dizer, nada - em que basear uma empática adesão a Cavaco Silva, excluindo, concerteza, o caso das pessoas que lhe são muito próximas e que naturalmente gostarão dele.
Ele corresponde apaticamente ao desejo de adesão, tantaliza quem queira tomar-se de simpatias por ele, não há sumo, não há cor, não há forma, nem há conteúdo. Isto passa por honestidade mas, embora não tenha motivos para duvidar da sua honestidade, não se trata de semelhante coisa. É vazio, é aridez, é vida de menos.
No fim, senti-me fortemente constrangida ao olhar o futuro. Se este homem ganhar as eleições, para além do que já tenho por magnificamente sustentado por Soares, no que respeita ao perigo que isso representaria para a paz e harmonia no plano institucional e no plano social, andarei cinco ou dez anos em desconforto e aflições, consoante encare o exercício das suas funções interna ou internacionalmente.
Mas se este homem perder as eleições, como acredito que pode vir a acontecer, será um caso pungente de definhamento, de desolada paisagem humana e eu sentirei pena dele.

Atalanta ainda


No século XIV, uma Cristina com assento no mulherio de estimação deste blogue andou também à volta dos pomos. Apesar de dada às letras, consta que é dela esta imagem. Quilos de têxteis amortecem a estória, a impureza vinha abrindo caminho.

4.1.06

Atalanta

Outros viram-na assim. Não interessa quando a viram assim. Interessa que viram-na assim.
Era, nas palavras da época, um tanto arrapazada para rapariga mas um outro tanto demasiado feminil para rapaz.
A pele era branca, isso está assente. Tingia-se ao de leve de carmim quando corria veloz e grácil.
Afrodite é que não achava nada bem que Atalanta não prestasse tributo às graças do amor. Em vez de honrar a seiva dos que a desejavam, Atalanta abria-lhes o caminho para a morte. De se manter sem parceiro dependia, por causa da maldição, a sua própria vida.
E assim, a expressão "ficar eliminado" em prova atlética ia adquirindo sentidos literalmente vitais para os seus candidatos/adversários porque Atalanta só aceitaria quem a vencesse.
Dessas maçãs golden que agora temos nos supermercados havia a rodos no quintal de Afrodite. Três foram colhidas. Urdia-se a derrota de Atalanta.

O que não gosto nele*

É par. Prefiro-os ímpares.

* No ano. Já disse que não sou de desconsiderar a difícil condição masculina.

Causas

E porque não, antes, contra a monogamia?

Ele e ela

Jordaens, Hippomenes et Atalanta. 1630

Apesar do ar roliço e nada tisnado - isenta, pois, dos sinais de elevado metabolismo e longa exposição solar em treinos ao ar livre - ela era a maior atleta. No fim será transformada em leão. Mas não em leoa. Aparentemente para que não possa copular com ele. Por agora o que interessa é que para vê-los competir vieram amores, querubins e anjinhos papudos variados e até os primos de pintores russos e espanhóis mais tardios. As maçãs que ele leva nas mãos não são alimento. São batota. Ela curva-se para apanhar uma outra maçã que ele já fez rolar pelo chão, mas não sabe ainda que coisa é aquela, não compreende o que está a passar-se. É assim que ele (a) ganhará.
Neste blogue a fruta desempenha um papel importante.

Manual de instruções #10

Thou shall not kiss a frog.

3.1.06

2.

an·ti·cli·max (nt-klmks, nt-)
n.
1. A decline viewed in disappointing contrast with a previous rise: the anticlimax of a brilliant career.
2. Something trivial or commonplace that concludes a series of significant events: After a week of dramatic negotiations, all that followed was anticlimax.
3. A sudden descent in speaking or writing from the impressive or significant to the ludicrous or inconsequential, or an instance of it: "Waggish non-Yale men never seem weary of calling 'for God, for Country and for Yale' the outstanding single anticlimax in the English language" Time.

1.1.06

E foram-se as festas...

Off he eventually went

O bombyx mori foi (??)* o mais inteligente, inspirado, inspirador, verbo-amancebado, criativo, culto, bem-humorado, multifacetado, elegante e galante blogue que conheci na blogosfera.
Oxalá esteja apenas temporariamente retirado para práticas de culto impostas por alguma benção bíblica e regresse na Primavera.
Mas o momento é de encómio: os deuses amam quem tem de fazer escolhas assim.
*Plano para sapateado em SOS, na hipótese de isto ser apenas um caso de metamorfose tipo gato-matreiro-a-fingir-que-está-morto: leva, de castigo, o prémio do melhor do ano transacto e é bom que os deuses o amem nesse caso - mas calculo que sim porque, pela minha parte, acabaria por desculpar a malvadez prestidigitadora.
....
aDDenda:
CERCA DE 15 HORAS MAIS TARDE:
*Post post 1. Bom, se calhar não.
*Post post 2. Bem, afinal...
*Post post 3. Talvez sempre...
*Post post 4. Ah, pois, confirma-se.
*Post post 5. Porém não parece.
*Post post ... ... ...
*Post post final - a postadeira foi achada em estado de grande confusão, desgredenhada e com riscos de eye liner na testa, à porta do Museu de História Natural oferecendo a virtude em troca de uns milímetros cúbicos de soro de quiescência. Consta que ficou internada. Primeira baixa do ano.

29.12.05

Resíduos tóxicos

Este pedaço de informação que me chegou, quando andei pela Internet a tentar perceber o que seria um epitáfio adequado para certo blogue que já não posso referir mais sob pena de parecer uma melga, não me sai da cabeça:

After mating for 12 to 24 hours, the pair will separate.

Good Lord! Pudera não! Não admira que alguns pareçam querer descanso de quando em vez!

O texto, ilustrado com prodigalidade, pode ser lido enquanto narrativa ou enquanto obra hermética. Lá também se lê, na última linha bem destacada:


That's the whole life cycle of Bombyx mori. It starts over again with the eggs in the spring!

Ahhh.... !

Taf(os)etá tipo multimedia se o engenho lá chegasse. Epi. Hurra!

...
Enquanto você viver, brilhe
Não sofra nenhum mal
A vida é curta
E o tempo cobra suas dívidas
e agora de novo, em logopéia sincrética:
Hoson zes, phainou
Meden holos su lupou
Pros oligon esti to zen
To telos ho chronos apaitei

28.12.05

Baudelaire



Malgré lui-même. Selon Matisse.

Subtilezas no masculino. Ou não se pense que isto também não é de cá para lá

Ao contrário do que por aí consta, mas totalmente em convergência com Baudelaire, sempre achei que em matéria de amores os homens são muito mais complexos que as mulheres. Para uma mulher, sexo e amor são uma única e mesma coisa. Isto às vezes é mal entendido e lido pelo avesso até se presta a especulações. Mas a coisa é simples: o amor é uma coisa que pede ofícios de corpo e se os ofícios florescem, isso é o amor. Abelhinhas e florzinhas na versão mais básica. Milhares e milhares de anos de evolução, tudo a bater certo, olaré olaré, viva a reprodução com adn em cocktail.
Aprendi, no entanto, que no masculino é possível operar uma subtil distinção: pode-se, por exemplo, prestar os melhores serviços aqui e ser-se "emocionalmente fiel" ali. É uma subtileza a que a minha alma não acede, por mais aplicadamente que se deite a porfiar. Atenção, estimados senhores, que isto não é zurzidela, manifestando minguada compreensão pelas leis da vida, que mandem, porventura, manter acesa a chama olímpica.

Intimismo minimalista

Confesso que não existo.

Intimismo verista

Confesso que não existo.

Intimismo tardio

Confesso que não existo.

27.12.05

Bloguexistência

... é preciso resistir à tristeza, não só porque a alegria é boa, o que seria já uma espécie de razão, mas porque precisamos ser justos, e a tristeza, eloquente sempre, sempre imperiosa, nunca quer que sejamos justos ...

Confusão de uns é microturbulência dos outros

Ahh, então o mal hoje não é só meu!

Passeio microturbulento na blogosfera

Na Rua da Judiaria pasmo sempre. Desta vez é por ficar a saber que algumas das mais populares canções de Natal (estadunidenses) foram compostas por judeus.
Continuo o meu caminho placidamente e que encontro eu?! De um lado, um blogue com nome de uma das coelhinhas do painel do meu mulherio de estimação: a Hipácia, ou Hipatia. Até aqui tudo bem. Só que a Hipácia, além de matemática, astrónoma, cidadã influente, mestra de estudos em Alexandria e inventora do avô do nosso astrolábio, ficou também para a história como mártir. Alvo de uma cilada, foi apedrejada até à morte. Por cristãos. Imagino que se tenha encontrado no céu com Santo Estêvão*, com quem me cruzo, por outro lado, na larga blogosfera. Vejo-os, em harmonia celestial, pantomimando às alminhas o "Menino do Contra" da Luísa Ducla Soares; fazem-no, nesta fantasia, porque ambos terão sido criaturas de assombro.
*"Christianity, and nothing else, is the ultimate foundation of liberty, conscience, human rights, and democracy, the benchmarks of Western civilisation" é uma frase sectária e infeliz de Habermas, if so. Dissesse a frase: "Christianity can be held as a ultimate foundation of liberty, conscience, human rights, and democracy, the benchmarks of Western civilisation", then I would say: Habermas ist doch richtig!

26.12.05

Ssssssssshhtzzzuuumm...


thinkingaboutdanflavinuntitledredandbluelight.

Mundificar-se

Piscas, tisanas, Maria João Pires, banhos tépidos e palavras magrinhas.

Quatro tremores por uma só frase

Leio uma frase arrepelante, atribuída a Lobo Antunes, no Esplanar: esquecer uma mulher inteligente custa um número incalculável de mulheres estúpidas.
Identifico quatro motivos para a perturbação que a frase me causa.
Desde logo, perturba-me a frieza da operação aritmética que apresenta como resto o amontoado das mulheres estúpidas abatidas ao longo do processo do esquecimento, num desperdício de vida, de cabelos, de pernas. É esse custo, o desbaratar de recursos, que conta também com brincos, pochettes, talhes de anca, curvas de pescoço, timbres e, enfim, tudo o mais que corporiza a matéria das mulheres em desfile - e não a sua condição descartável - o que começa por me impressionar. Em matéria de agrados, estar em posição de criatura para abater é situação corriqueira; ser cascalho vulgar, e não a gema de alguém, é comum. O desmando multiplicador destes abates é o que estranho.
Para além disso - e este é o título segundo do abalo - estremeço sempre em presença desta expressão quando apresentada por voz masculina, especialmente se dita a propósito de uma terceira pessoa: "mulher inteligente". Oiço "mulher (e) inteligente", o que é um superlativo de qualidades, próprias de um ser de excepção que superabunda excelência no porte e no exercício da feminilidade, com resultados incendiários na convocação dos deleites. Dito assim, é como se ouvisse dizer de alguém que exerce com inteligência a feminilidade e ainda lhe sobra inteligência para ser inteligente em registo normal. Alguém bafejado amigavelmente pelos deuses. Uma deusa, já tenho ouvido. O estremecimento, neste sentido segundo, é o que acontece quando se toma conhecimento da existência de criaturas de tão elevada estirpe.
Um terceiro motivo para a instabilidade humoral que a frase me provoca, achando eu que compreendo o descarnamento de alma que advém a quem tenha de lançar-se a esquecer uma "mulher inteligente" como a da frase, acontece ao sentir-me esbarrar contra um muro-mordaça, que se levanta para me impedir de referir com simetria, ou simplesmente com propriedade, o contraponto masculino de um exercício de esquecimento como o da frase de Lobo Antunes. Como é que eu digo?! "Esquecer um homem inteligente custa um número incalculável de homens estúpidos"? De maneira nenhuma. Ninguém vai curar dores junto de homens estúpidos, são os inteligentes que são bons nisso. Esses e mais nenhuns. Poderia ainda tentar-se desta maneira: "Esquecer um homem bonito custa um número incalculável de horas de homens inteligentes". Mas esta formulação também não serve. Ninguém em seu perfeito juízo vai ficar nesse estado de devastação por causa de um "homem bonito" (no mínimo, terá de lhe ser reconhecida, natural ou artificialmente, qualquer outra qualidade). Depois de muitas voltas pelo leque dos atributos, parece-me que o contraponto masculino para a "mulher inteligente" na frase em questão é muito provavelmente o "homem meigo". Este será, creio, a personagem capaz de conduzir ao pináculo das dores da ausência e de arrastar qualquer heroína sentimental pelas asperezas do caminho do esquecimento.
Acontece, porém, que um "homem meigo" não o é em si; a expressão "homem meigo" é a abreviatura de uma fórmula que descreve um longo e complexo processo mental. Trata-se, na verdade, de uma expressão ligeira que explicita um ponto de vista da destinatária das meiguices. Não se pense, pois, que um "homem meigo" é, simplesmente, um homem dado à meiguice; não é! Em vez disso, é um homem que executa bem meiguices que alegremente se perspectiva receber, ou continuar a receber, no caso de ele já as ter iniciado. Como se vê, não se tratará de molenguices, como é próprio dos homens que, em vez de meigos, são delicodoces, nem de concupiscências desinteressantes, como acontece com os homens dados a desinspiradas vontades.
Ficando demonstrado que a "meiguice" está longe de ser uma característica intrínseca dos cavalheiros dados como "meigos", bem se vê que a frase de Lobo Antunes não tem realmente jeito de ser pronunciada por uma mulher em prol de um homem. Esta impossibilidade de lograr a expressão através daquela frase é a terceira razão pela qual ela me perturba; e, para que conste, não é ligeiro o tremor que isto me causa.
O quarto e - apesar de tudo o que foi dito - principal motivo porque me sinto estremecer perante a frase é que ela trata despudoradamente da longa devastação da im-presença, da erosão mais e mais do que já fracturado há-de ainda ser exposto às intempéries, da ecolalia da ausência, do número incalculável de episódios que têm de replicar o-que-não-está até que a im-presença se esbata e deixe, finalmente, de estar.

25.12.05

Pensando melhor



Natal místico. Botticelli expansivo e esotérico. Eu curvo-me, com cerimónia ou circunspecção, ao esoterismo, ao sofrimento, ao misticismo mas sinto-me capaz da alegria. Hossana!

23.12.05

Entre o solstício e o equinócio

Nada mais esperançoso do que dobrar o solstício de Inverno - que (me) foi recordado cálida e oportunamente pelo Luís. Falta agora conseguir chegar à Primavera.

Bah, humbug

Apresentação da Ignorância e da Carência ao senhor Scrooge .

22.12.05

Aleluias à Criação

O Pirelli que se guarde que a devoção religiosa pode ser de arrasar. O calendário bíblico erótico acabou de nascer.

Presidenciais por ali também

Novo e renhido match à vista entre Carlos Veiga e Pedro Pires.

[A propósito de] citações


[Também] Vermeer gostava de citações. O motivo do quadro que se encontra à direita é* a Caritas romana - mas a representação citada não é nenhuma dessas duas de Rubens, nem as restantes aqui linkadas, nem sequer esta e muito menos esta; outra ainda.

*WEBER, Ein neu entdecktes Bild im Bild von Johannes Vermeer, Weltkunst 70,2 (February 2000), pp. 225-228.

21.12.05

Meditação segunda



Não tens outro caminho.

Bacon, Study for Crouching Nude. 1952

Pensando nas crianças

Neil Mato Grosso e Cavaco Silva, juntos e ao vivo, estão agora aglutinados no meu imaginário, mandando-me pensar nas crianças.
*
Pergunta-me o rapaz mais novo: "Mãe, ele está a fazer publicidade a um jardim infantil?"

Apelo

Eu, cidadã medianamente cumpridora, na posse da generalidade dos meus direitos cívicos, sem prejuízo das limitações inerentes à tirania do jugo filial, apelo a quem me queira ouvir que endive seus melhores esforços altruístas para que se substitua a palavra "estratégia" e seus derivados por qualquer outra, que seja, se faz favor, monossilábica, ou pelo menos mais curtinha, libertando algumas fracções de segundos da minha vida da nefasta contaminação da insapiência poseuse...
Depositando as últimas esperanças no achamento e implantação de tal monossílabo de ouro, quedo-me tremendo de ansiedade na antecipação de qual pentassílabo esdrúxulo, qual, haveria de seguir-se para dourar o palavrório oco. "Excelência" ainda mexe mas já deu, por isso não deve contar.

Pensem nos vossos filhos! Presidenciais melodramáticas

Penso, penso. Penso nos meus e até os penso (de penso e não de pensamento). E não vou por ali. Nem que fosse para presidente da escola primária. Naahh, o meu mundo tem mais curvas do que aquele...sem ofensa, mas é assim.

Olhar nos olhos e mandar pensar nas crianças é patético. Tem de se dizer mais qualquer coisa. Nem que seja: "prometo que lhes ensino a recitar a tabuada, e mesmo que nunca cheguem a perceber a letra, hão-de saber a música. De trás para a frente!"

Eleitora paciente

Crise económica, já temos. Crispação institucional e social, dispensamos. Bem dito, por Mário Soares, a terminar o debate.
Mas a minha curiosidade maior é aguardar pelos intérpretes oficiais de Cavaco. Aguardo por amanhã para saber o que ele quis dizer hoje...

Manual de instruções # 7

Resistir, resistir; apenas condescender em caso de tentação*.

*Com a licencinha do senhor Wilde

19.12.05

Virtudes. Caritas romana, ainda mais

Rubens. Caritas romana. 1635

Já li que Cimon acabou por ser poupado, expandindo-se assim o efeito redentor do amor filial. Mas aqui, suculenta, Pero, Rubens usando o mesmo rosa improvável que sabíamos já dos mamilos de Helena, sua mulher. Cimon foi um homem belo e da sua volúpia passada sabemos ainda pela concentração muscular, gesto firme em equilíbrio instável.

Virtudes. Caritas romana, ainda


Pasinell. Caritas romana. 1670
Pero salva o pai. Cimon escapa à morte por dádiva da filha.

Virtudes. Caritas romana

Zoffany, Johan. Caritas romana. 1769
Cimon, condenado a morrer à fome, é furtivamente alimentado por Pero, sua filha, num gesto outrora maximamente expressivo da dedicação e comovente materialização do amor, na versão filial. Exemplar filha, à época, cerca do ano 30, fazendo fé nos Facta et dicta memorabilia de Valerius Maximus, repercutindo-se, diz-se, em Pompeia. Durante os séculos XVII e XVIII, este tema foi diversas vezes abordado na pintura europeia, sobretudo a norte. Depois o silêncio ou talvez pudores. Será mais extraordinário considerar este tema um tema de elevada beleza moral ou não o considerar assim? Aqui, não em Marte.

18.12.05

Post dominical

Deus não tem unidade,
Como a terei eu?


[Fernando Pessoa, Poesias Inéditas]

Herculano

Meias e outras coisas pequenas de um homem grande.

Nota breve da eleitora em delírio

Tirando os olhos do chão, da matrícula do carro da frente ou simplesmente do além, é agora certo e sabido: os cartazes das presidenciais continuam a surpreender-me. Hurray! Cavaco Silva irrompe agora pelas ruas produzido até à caricatura com malícias de galã em fitas "luso-ibero-americanas" dos anos 60. Lábios brilhantes ("sedutores"?), sedosos cabelos adestradinhos, olhar delicodoce e húmido. Tudo isto banhado em textura de espessa camada de make-up sunkissed. É uma sorte não me ter ainda estampado nas proximidades desta visão que, a continuar ou a proliferar, acabaria, receio, por me lançar em crise sobre orientação em matéria de desejo.
Refeita da experiência, prossigo. Eis senão quando surge a fantasmagórica andrógino-wharholiana visão do Mp3 Soares ante-pré-cotas a que só falta pendurar legenda: "istu ker dizer k'o Soares dá pausa". Outra vez os lábios, mas agora lambuzados como quem acabou de atacar a pá dita "salazar" em cenário culinário de preparação de mousse de chocolate. Soares foi aos biscoitos, Soares foi aos bombons, Soares lambeu a taça. Olé.
Piscam-me então revérberos da humanidade crescente de Louçã e Jerónimo. Se ainda não são o suficiente para levarem o meu voto, são já mais que definitivos para uma ponderação mais encorpada e apreciativa, a pender mesmo para a vénia, a eles indivíduos.
E o homem do leme tremeu e disse: ... "a pááátriaaa". Mas sobre esta já outro, mais poeta, me teria em tenra idade instruído: pátria amada, mas de boca, que não tenho coração.

16.12.05

Corpo nervoso

- e não

- e porque

- sabes bem que

- antes também

- mas

- arre, talvez

- ...

- pente fino

- por que é que

- já disse

- antes

[Egon Schiele, Nu masculino com braço levantado]

13.12.05

Repugnante

O homicídio a frio, servido em nome de...?

Cheirinho de Camões

Sempre a Razão vencida foi de Amor;
mas, porque assi o pedia o coração,
quis Amor ser vencido da Razão.
Ora que caso pode haver maior!

Novo modo de morte, e nova dor!
Estranheza de grande admiração,
que perde suas forças a afeição,
porque não perca a pena o seu rigor.

Pois nunca houve fraqueza no querer,
mas antes muito mais se esforça assim
um contrário com outro por vencer.

Mas a Razão, que a luta vence, enfim,
não creio que é razão; mas há de ser
inclinação que eu tenho contra mim.

11.12.05

Ainda outro olhar

Os sentidos do abecedário

Boas contas

Hoje é domingo

Hoje é domingo,
Pé de cachimbo.
O cachimbo é de ouro,
Bate no touro.
O touro é valente,
Bate na gente.
A gente é fraco,
Cai no buraco.
O buraco é fundo,
Acabou-se o mundo.



Desejavelmente apenas depois de se ter memorizado a letra, ir-se-ia ouvir e acompanhar no tom viçoso aqui.

Este post vai dedicado ao Abencerragem, o blogue das palavras vintage. Que acredito serem aquelas que nunca perdem o viço.

8.12.05

Identidades que apagam

Além de serem as estrelas mais brilhantes no actual blogo-firmamento, para além, pois, de melhor post produzido sobre o assunto, estas palavras de estremecido senhor ajudaram-me a compreender melhor a razão pela qual ser mulher e ser maricas constituem situações tão geradoras de afinidades. Toda a minha vida fugi como o diabo da cruz desta coisa que agora sei que se chama hiper-remissibilidade da condição sexual, ou de género. Finta-se, pinta-se e baralha-se, enfim, dá uma trabalheira descolar da condenação de se ser em todas as circunstâncias aquilo que se "é", sem nunca se chegar verdadeiramente a ser. O verbo ser, já me tinha parecido, pode ser impróprio para falar do existir.

Função na sala de visitas

Um bezerro enfeitado para saudar as visitas insulares. Surripiado à Pintura Portuguesa. É a Festa de António Dacosta. Tem as bolinhas amarelas, creio eu, do outro lado.

Tu quoque, JPP. Paradoxos de uma leitura diagonal à direita observados à esquerda por uma leitora munida de dispositivo de bolso



Mas também é certo que o artigo diz logo de seguida "Nothing was ever proven," the biography added.

No entanto, para levar até ao fim a história do senhor Seigenthaler, é mesmo necessário chegar ao fim da segunda página do artigo:

Nada de novo, portanto, quanto às conclusões apresentadas pelo senhor Seigenthaler. Assim, ao contrário do destaque negativista de JPP, esta informação no final do artigo quase permitiria falar em happy end relativamente à susceptibilidade de rectificação de imprecisões na Wikipédia!

Conclusão interlocutória: JPP fez uma leitura rápida e incompleta do artigo do NYTimes que contava a história do senhor Seigenthaler e contou apenas metade desta história, uma vez que a história inteira requereria que se fizesse menção à correcção introduzida, bem como ao facto de também esta estar destinada à multiplicação de destinatários através da Internet.


Posso basear-me nisto para dizer que o Abrupto é uma perigosa fonte de distorção do que vem escrito no NYTimes e, assim, lançar sinais de cautela para que não se leia o que JPP por impulso "generoso, bem avontadado e ingénuo" se dá ao trabalho de partilhar connosco no seu blogue?

Estarei legitimada, por uma vez, a apontar ao Abrupto este "tu quoque"?

A minha nada hesitante resposta é "não". Não posso aplicar ao Abrupto que, à escala, seguramente notável, de um indivíduo faz o mesmo que a Wikipédia faz, o que JPP ali diz a propósito da Wikipédia, dissolvendo assim em cáustico cepticismo o interesse de um e da outra.
Não posso fazê-lo porque, para além da falta de interesse do argumento, concordo com a mensagem que ocupa a segunda parte do artigo do NYT (transcrita também abaixo*) onde encontro vazado um sentido totalmente discrepante com o que resulta da leitura do post do Abrupto.
No artigo, além de se louvarem vantagens da Wikipédia, também se recorda que muito do problema suscitado pela infeliz história do senhor Seigenhalter tem a ver com o discernimento dos próprios utilizadores sobre o valor a dar à informação obtida ali, e eu diria, na Internet em geral. Menciona-se aí mesmo o essencial dispositivo de bolso (rule of thumb) para lidar com a Wikipédia: considerá-la apenas uma possível fonte e reconfirmar tudo. No fundo, trata-se de repetir a ideia inspiradora de pautas de avaliação da qualidade do conhecimento tão banais como a que nos prescreve que não baseemos trabalhos de investigação de neuroimunobiologia no que se lê no Readers' Digest ou a que genericamente adverte que nem tudo o que vem à rede é peixe. Nada de novo.
A conclusão que realmente me interessa é esta: é errada a ideia gratuita, benévola e ciberneticamente transmitida pelo Abrupto de que, segundo o NYTimes, a informação gratuitamente disponibilizada na Internet está condenada a não ter qualquer valor por força mesmo da natureza humana e das coisas em si.
Fosse eu de direita e teria lido o post do Abrupto sem sentir qualquer espécie de dissonância ou sobressalto. Acreditando que os bem avontadados ou são trouxas, por constituição ou deformação, ou são simplesmente mentirosos encartados, veria confirmado apenas que a "natureza humana" é "infelizmente" "assim".
Fosse eu de direita, tivesse ido ler o artigo do NYTimes sobre a desconfortabilíssima experiência do senhor Seigenthaler e essa leitura acontecesse no meio do lufa-lufa quotidiano, provavelmente não iria até ao fim do artigo e aforraria rapidamente mais uns níqueis para o colchão do miserabilismo da condição humana.
A minha terceira e última conclusão do pequeno episódio é esta: a visão céptica da natureza humana (conceito cujo conteúdo, aliás, constitui segredo fechado a sete chaves!) é particularmente conveniente à construção do programa económica e politicamente conservador, que goza, aliás, de excelente optimismo quanto ao mais.
*Jessica Baumgart, a news researcher at Harvard University, wrote that there were librarians voluntarily working behind the scenes to check information on Wikipedia. "But, honestly," she added, "in some ways, we're just as fallible as everyone else in some areas because our own knowledge is limited and we can't possibly fact-check everything."
In an interview, she said that her rule of thumb was to double-check everything and to consider Wikipedia as only one source.
"Instead of figuring out how to 'fix' Wikipedia - something that cannot be done to our satisfaction," wrote Derek Willis, a research database manager at The Washington Post, who was speaking for himself and not The Post, "we should focus our energies on educating the Wikipedia users among our colleagues."
Some cyberexperts said Wikipedia already had a good system of checks and balances. Lawrence Lessig, a law professor at Stanford and an expert in the laws of cyberspace, said that contrary to popular belief, true defamation was easily pursued through the courts because almost everything on the Internet was traceable and subpoenas were not that hard to obtain. (For real anonymity, he advised, use a pay phone.)
"People will be defamed," he said. "But that's the way free speech is. Think about the gossip world. It spreads. There's no way to correct it, period. Wikipedia is not immune from that kind of maliciousness, but it is, relative to other features of life, more easily corrected."
Indeed, Esther Dyson, editor of Release 1.0 and a longtime Internet analyst, said Wikipedia may, in that sense, be better than real life.
"The Internet has done a lot more for truth by making things easier to discuss," she said. "Transparency and sunlight are better than a single point of view that can't be questioned."
Nota adicional: recomendo, em contrapartida, este post da Linha dos Nodos

6.12.05

O coming out de uma jacobina?

A vantagem da Wikipédia é poder tirar do negrume da ignorância ou do esquecimento (é indiferente) que os jacobinos eram os membros da « Société des Amis de la Constitution » e assim encontrar uma família de malfeitores pronta a suprir uma orfandade congénita. Ora bem. A culpa da crise é tua, Lutz.

Restless sleep

Nem assim?!

A (im)perfeição dos prazeres

*
... todos os outros prazeres me parecem imperfeitos... **

[Mondrian* meets Mariana Alcoforado**]

5.12.05

Desgosto pelos senhores candidatos Alegre e Silva

Dois aspectos no debate da SIC entre os senhores candidatos Alegre e Silva - que foi molengo, soporífero e sem história quanto ao mais - captaram a minha atenção: as palavras que traziam estudadas e a questão portuguesinha do título. Este último é o que ficou para a memória.

Quanto ao primeiro aspecto: os senhores candidatos tiveram palavras pouco frescas, direi mesmo serôdias, que surgiram em cruzadas guirlandas, de umas pirracinhas inócuas no campo lexical um do outro. De Alegre ouviu-se sobre "a tecnologia e essas coisas" e de Silva ouviram-se também algumas sílabas em equilíbrio sobre a "cultura e essas coisas". Com esta moderação e ampla generalidade ficou feita a festa da foice em seara alheia. Nenhum desafiou a irritação do outro, cada um deixou o outro dizer as suas palavras-de-casa. Fiquei a saber que ambos podiam alinhavar sobre "essas coisas" cuja falta de conhecimento lhes é criticada. Foi como se concluísse "olha olha ele fala".


E passo à questão do título. Terrível foi o momento em que ouvi o candidato Silva chamar "senhor deputado" ao candidato Alegre. E este sem pestanejar. Ou quando o jornalista lhe chamou, ao mesmo candidato Alegre, "senhor dr". E este sem pestanejar.
Talvez o jornalista não saiba, mas tanto o candidato Alegre como o candidato Silva sabem que o candidato Alegre não é "licenciado" - estudou Direito em Coimbra, mas não concluiu o curso - e, portanto, de acordo com esse uso de doutorizar licenciados, não devia ser assim titulado.
Ora, sabendo isto muito bem, vai o candidato Silva e deputa o candidato Alegre. Arranha o ouvido: um deputado candidato presidencial.
Ficam ali os dois entendidos: um, o nosso candidato Alegre, à boleia de não ter, perante o povo elegante, o mínimo de importância ser ou não ser licenciado em qualquer burrologia aplicada ou fundamental, assim se deixando doutorizar pelo jornalista, sem um tremor na pálpebra que fosse, assim se alindando para o povão que sabe que ser alguém é ser dôtor; o outro, o nosso candidato Silva pagando taxa moderadora de conveniente verdade, usando um título absurdo e quase caricato (senhor deputado... candidato presidencial), sempre em posição educadinha, e quem sabe até que ponto malévola, ou simplesmente timorata, antecipada desistência de lidar com o incidente que pela certa se faria se chamasse "senhor" ao senhor candidato Alegre perante as câmaras e o país.
No fim, achei que nada do que se tinha ali passado entre o senhor deputado candidato, ou senhor dr. Porque Não, e o senhor Professor, nada daquilo podia ser tomado por uma coisa séria. Foi como se estivessem conversados. Não foi honesto. Foi uma falsidade cúmplice em directo.

4.12.05

Desincrustação


Frida traz Diego no seu pensamento.

Também eu me sinto neurasténica por ter de destinar o jantar

Leio no Impensável que talvez venha a iniciar-se uma rubrica no blogue com palavras e expressões em vias de extinção.
Fico esperançosa de que a ideia venha a concretizar-se senão corro o risco de sucumbir à tentação - o que seria via certa para o surménage...

3.12.05

Amor das palavras

Amo todas as palavras, mesmo as mais difíceis
que só vêm no dicionário.
O dicionário ensinou-me mais um atributo para os teus lábios.
São doces como sericaia.
Faz-me pensar ainda se a tua beleza não será
comparável à das huris prometidas.
No dicionário aprendi que o meu verso é
por vezes fabordão e sesquipedal.
Nele existe o meu retrato moral (que
não confesso) e o dos meus inimigos,
rasteiros como seramelas sepícolas
e intragáveis como hidragogos destinados à comua.
O dicionário, as palavras, irritam muita gente.
Eu gosto das palavras com ternura
e sinto carinho pelo dicionário,
maciço e baixo pelo seu casaco, azul
desbotado, de modesto erudito.

[Rui Knopfli]

Continuo sem descobrir o que é Aulil

Mas o transporte para lá sempre voltou. Ainda bem.

Manual de instruções #4

Indivíduos emproados devem ser (o verbo é ought) arrumados no vão das vassouras e espanejadores; os sarcásticos arrumar-se-ão juntamente com os portadores de mau hálito.

Manual de instruções #3

A utilização do verbo "ser" é de desaconselhar quando este se pretenda apontado a indivíduos, ainda que em posições tão díspares quanto a de indivíduo que pronuncia a frase, ou a de indivíduo terceiro a respeito de quem a frase é dita, ou ainda a de indivíduo segundo ao qual a frase é apontada.

Manual de instruções #2

Um frase que fornece apoio a uma acção não é uma frase útil. Útil é a frase que, sendo ligeira, dirige a acção.

Manual de instruções #1

"Ninguém é insubstituível" será uma frase equivalente a "uma pessoa habitua-se a tudo"?
Se sim, deve ser também riscada da lista das frases úteis.

2.12.05

Leitreslura


Um paquete transporta um pacote. Um transpete paquote um paquota. Papumquete transtorta copatumte.

De Klee.

30.11.05

Não!


Não às metamorfoses letais.

Sim não não sim

SIM:O primeiro dos catorze éditos do Grande Rei Asoka
NÃO:
O MUNDO FICA MUITO MAIS SEGURO III: Porque Paul McCartney se recusa a ir cantarolar à China enquanto eles maltratarem os animais ( os humanos pode sem ser chacinados à vontade).

NÃO porque:
Cantarolar na China não vale como protesto contra a chacina de seres humanos.
Censura ou protesto por serem maltratados animais não é um acto pós-modernaço destituído de valor ético.


SIM:
Censura ou protesto por serem maltratados animais é um acto com valor ético autónomo porque é relativo à acção humana.

29.11.05

Só pra lembrar que...

... um privilégio não é uma situação de preferência. É um estatuto privativo. É exactamente isso o que, na maioria das vezes, está mal.

Tresleitura olfactiva



Nesta Nossa Senhora do cravo de Dürer sinto sobretudo os cheiros. Cravo e pêra. Tudo rescende a cravo: a cor que se evade do cravo e se espalha e replica até mesmo no sombreado da pêra, até mesmo, mescladas as cores da pêra e do cravo, na própria tonalidade da íris, passando aos anéis de cabelo. Cheira a cravo intensamente, um cheiro adoçado pelo aroma maduro da pêra. Uma combinação doce e picante, acre e aérea. Dürer era um "nez".

Antes pelo contrário...

Impensável? Nem pensar! Muito, muitíssimo pensável. Pensante!

28.11.05

Traditio

Concordo quase ilimitadamente com o que li no Canhoto sobre tradição, dica do Lutz (e assim sucessivamente).
Não é tecnicamente possível romper com a tradição; o máximo que se pode fazer é vesti-la do avesso quando se quer negar a tradição. Mas o nosso espírito não terá descanso nessa luta e a nossa criatividade ficará todo esse tempo amordaçada enquanto durar uma luta face a face com a tradição.
A tradição não se rompe, supera-se. Da mesma maneira que se rectifica uma trajectória ou corrige um desvio.
Os jovens não devem ser incentivados a seguir a tradição mas sim a não partir do princípio de que ela está errada ou obsoleta.
A afirmação de que a tradição está errada ou obsoleta só é válida como conclusão, nunca como pressuposto. Deve ser, creio, uma conclusão a que uma vida vivida com reflexão conduzirá inúmeras vezes, a passo crescente à medida que os anos passam.
Não é adequado opor a decisão racional à decisão segundo a tradição. A decisão segundo a tradição é ainda uma decisão racional, que se apoia na racionalidade do conteúdo da tradição, ou melhor, na convicção dessa racionalidade. Ou mais exactamente ainda, numa presunção de racionalidade quanto ao critério tradicional de decisão.
A maior parte das vezes, em todos os assuntos que não foram objecto de um escrutínio que tivesse conduzido à apreciação crítica de uma tradição, o momento decisivo para o fim de uma tradição é precisamente aquele em que conseguimos identificar, de entre todas as neutras naturalidades do mundo, que neste ou naquele ponto temos (vivemos) uma tradição. Casca que estamos sempre dispostos a largar.

27.11.05

O músculo do discernimento talvez se chame cultura

O que há de importante em ter lido ou não ter lido os Lusíadas - ou em ter tido contacto com as artes ou com as ciências moles ou com o que se costuma chamar " a cultura" - não é a consequente capacidade ou incapacidade de fazer bonitas piruetas pelos salões; não é uma questão de ter ou não ter adquirido "savoir faire" segundo as sinalefas das elites económico-sociais.
Por isso não creio que seja uma arrogância desclassificar alguém para funções de máxima responsabilidade e representação com base na deficiente exposição cultural dessa pessoa. E orgulho na minguada atenção às coisas da cultura pode, sim, ser um sinal de populismo.
Para lá disso, um orgulho orientado dessa maneira é um forte indício de que por tal pessoa não passa ou não passou a experiência de amadurecimento e refinação analítica e emocional que constitui o principal motivo por que a cultura faz falta. Um sinal a não ignorar de que essa pessoa não estará provavelmente em boa forma para enfrentar situações complexas. Disto se fala aqui.

Ainda os joelhos e as diferenças

Um joelho segundo Maria Teresa Horta é um joelho esculpido em palavras, que se beija com as palavras porque é um joelho que se beija também, ou melhor, sobretudo, fora das palavras.
Um joelho que se beija, segundo as palavras de Maria Teresa Horta, é um ponto de partida ou uma paragem num circuito intermédio de um percurso mais vasto, em que se dilui o joelho, a palavra, o beijo. Só com paixão se pode falar assim do trajecto de uma boca que beija um joelho.

Um joelho, segundo Rubens, é apenas mais um ponto qualquer de um circuito mais longo na exploração de um corpo, embora se trate de um apeadeiro certo. Os joelhos de Helena Fourment não são extraordinariamente bonitos; mas os joelhos de Helena Fourment são minuciosamente ponderados, são uma paragem no trajecto reflexivo sobre a carnação branca, luminosa, fresca - e elástica? e macia? e morna? e cheirosa? - de Helena Forment. Só com paixão o branco opalino e alguns tons de rosa quase improváveis de um corpo podem ser pintados assim.
Tacteados antes com a minúcia que causa o amor, patentemente marcados todos estes joelhos por semelhantes antecedentes, chegam a mim por via de sentidos diferentes: um joelho, oiço-o e situo-o, por palavras; os outros joelhos, vejo-os moldados na harmonia clara de uma imagem.
E fico estupefacta por não perceber bem a razão pela qual o joelho de Maria Teresa Horta tem carga erótica aparentemente mais intensa. É a tal diferença entre homens e mulheres que define preferencialmente de modo diferente os sentidos de ignição erótica, a visão para eles e a audição (de palavras!) para nós? É o olhar longamente fustigado pelas convenções do olhar que se habituou definitivamente ao faz-de-conta-que-não-está-lá ao cruzar-se com a amada de Rubens, apesar de ser tão explícita a razão primeira de um corpo ter assim uma textura? Não sei encontrar a diferença.

Naturalidade inteligente

Eu não li o livro da Maria Filomena Mónica, folheei-o apenas numa livraria. Não sei se o lerei porque o meu rol de paixões é tumultuoso, embora não necessariamente de elevado estatuto, e já me traz à beira da insanidade; penso oferecê-lo brevemente a uma pessoa muito mais velha do que eu, mais velha que a Maria Filomena Mónica, que se agrada com uma naturalidade inteligente - cito - que encontra nos escritos dela. Depois de ler esta crónica sinto-me impaciente para que chegue o momento em que vou oferecer o livro. E sinto-me um pouco mais confortável no mundo porque já me agastava a colecção de emproadas vociferações que castigam sempre no mesmo estilo acaciano esta outra que ousa inovações ao figurino aprovado.