12.1.06

O caminho da democracia é para a frente

Hoje ouvi Jorge Sampaio e percebi mais uma vez quanto aprecio o contributo que ele deu para a maturidade cívica dos portugueses, desde logo pelo seu permanente muito digno respeito pelas pessoas e pelas instituições da democracia.
Mas hoje compreendi que não estou preparada para sentir saudades dele. Isto deste país, é para andar para a frente, não para trás em matéria de aprofundamento da democracia.

O Estado sou eu - também

A frequência com que a palavra "Estado" aparece nos esforços de legitimação de políticas de direita - vulgo, no discurso liberal - é elevadíssima e torna por vezes a leitura pasmacenta. Sugiro, para quebrar a monotonia, que se diga simplesmente, algumas vezes, "o mal".
Ou melhor ainda que, pelo menos de vez em quando, se dê sinal de estar a verbalizar significativamente e se troque a coisa por miúdos. É que "Estado" está longe de ter um só e um inequívoco sentido e não é, em caso algum, "eles". É sempre um "nós". Somos todos accionistas.

O enfado enorme

Por superficialidade e distracção - que mais?! - não me tinha apercebido que os tempos iam de júbilos e, cidadã desleixada e tendencialmente relapsa, estava para aqui apudinada a deixar crescer os pêlos nas pernas, a ferrugem nas juntas e o enfado pela vida na pólis.
Isso já me passou, contudo.
Depois de ver o número de sapateado de JPP a tentar disfarçar o bocejo que é Cavaco Silva com a pretensa hipotonia do povo, logo ali repreendido, recuperei da letargia.
Pela primeira vez associei algo de positivo à hipotética vitória de Cavaco: como é que JPP se colocaria nesse quadro? Especializar-se-ia a dourar-lhe a aridez das ideias ou enveredaria por missão apostólica de educar a populaça impensante?! Coelho e cartola ou malabarismo?
Seria triste enfado para JPP, vendo bem, em qualquer das hipóteses.
Também por este motivo, esperemos que Cavaco Silva continue a perder diariamente o seu 1% higiénico nas intenções de voto, que é um modo tão bom como qualquer outro de (continuar a) perder as eleições. Basta chegar à segunda volta.

10.1.06

Um encontro quase perfeito. Watteau e a Insana


Alô..! Vês-me? Aqui, estou aqui. Isso,

assim

já me vias.

1% a day...

... keeps Cavaco away!

Ao fim de um dia de campanha, menos 1% nas intenções de voto.
Figas insanas para que a tendência se mantenha. Abrenúncio.

Não gostei. Gostei

Não gostei:

- de Manuel Alegre, de comitiva e campanha eleitoral com todos, a passear homenagens no cemitério;

- da explicação (?) que Soares deu para deixar de responder aos jornalistas (embora a título individual tenha toda a minha solidariedade, aquilo deve ser um pitéu).


Gostei:

- de ver o senhor que tinha ido ao jantar do Cavaco Silva, com a mulher e a sogra, dizer que estavam lá todos os militantes do PSD;

- de ser entrevistada para uma sondagem. Por alguns momentos, decidi os resultados eleitorais.


E depois? Morreram as vacas e acabaram-se os bois. Sonhar é bom.

9.1.06

Shaw

Demonstração de que sempre há algumas vantagens numa economia de trocas directas - e com a licença de JG, que levou, na troca, a carta de Schiele abaixo postada - apraz-me muito colocar aqui o retrato deste cavalheiro.
É Bernard Shaw e não sei com certezas se a disse ou não, e se o fez onde e como, esta frase que nunca se evapora deste ser: selvagem é o que confunde as regras da sua tribo com as leis da natureza.
O que eu não sabia era que Bernard Shaw tinha esta cara, esta expressão diabinha de mestre de cerimónias de um corpo muito muito diplomático.

Da arte epistolar


Carta de Egon Schiele ao irmão.

8.1.06

Entrada de leão ...

O ímpeto de Cavaco Silva neste primeiro dia de campanha é sinal de que ele afinal andou estes anos todos consumido por contas que teria para fazer com o país? País que lhe andou todo o tempo debaixo de olho, enquanto ele digeria a derrota das presidenciais e esperava, amparado pela sua boa Maria em longas horas de azedume, o momento para avançar?
É que foi isso mesmo o que ele me pareceu: alguém que tem contas a fazer com o país e que se manteve à coca e agora salta para mostrar como é que elas são. Nada de supererogatório, portanto, bem pelo contrário. Isto é "muito político" - já não me espanta - muito mais político do que os políticos criticados por o serem por este político que se chegou há semanas de mansinho afirmando que não era político. Confuso? Não, confusa e pouco transparente foi logo essa retórica da negação. Esse expediente de insinuação a que se segue agora, pelos vistos, o atordoamento pelo espalhafato.

Post postal domingueiro


Reconsiderando; há pontos de vista que merecem atenção, apesar de frequentemente negligenciados.

Postal domingueiro


Kouros. Um bom hábito.

Que livro eu levaria para uma ilha deserta?

Obviamente o dicionário.

Será que ...

... um destes dias vai passar a dizer-se: "ó bruno, 'mô, 'tive a ler o título d' um livro mas não te vou dizer qual era pa não t' influenciar"?

Anamnese @anibalística das presidenciais

A ver se passo pelo Solvstäg para apanhar as gotas contra os ACv'S eleitorais.

Campanha eleitoral is in the air

As pessoas estão a encarar esta campanha como uma espécie de reality show. Cavaco faz aqui o papel de José Castelo Branco, sem as afectações.

7.1.06

Intimismo insanoterapêutico com ídolo, prece e tudo


Ontem foi um dia apicado nesta lida. Houve passos de cidadania militante, houve telefonemas, houve, com par e tudo, bens de primeira necessidade, houve o problema dos homens bonitos e até houve o sobrevôo de uma bruxa malvada sobre águas amenas de uma gruta mansinha. Visitas de renome quiseram também trazer-me inusitada animação no opinário.
Extraordinária agitação tão simultaneamente amável e repreensiva cá para certas procrastinações habituées da minha rica caminha, esse território de verdades.
Também eu havia de ir ali e voltar já mas a monotonia (leia-se: muuu nuuu tuuu niii a) é-me anaeróbia, além de que - principalmente - verifico que isto aqui é mais económico que as terapias de estilo. À distância, acendo velas, persigno-me e tento voltar a acreditar em tudo, embora o Padrinho me alerte que talvez não seja assim. Contudo, ele tem a grande qualidade de, ocasionalmente, se enganar um pouco, além de que sabe duvidar como gente grande.
Albrecht, tu também ficas. És agora o meu manipanso.
Às folhas tantas
do livro matemático
um Quociente apaixonou-se
um dia
doidamente
por uma Incógnita.
Olhou-a com seu olhar inumerável
e viu-a do ápice à base
uma figura ímpar;
olhos rombóides, boca trapezóide,
corpo retangular, seios esferóides.
Fez de sua uma vida
paralela à dela
até que se encontraram no infinito.
"Quem és tu?", indagou ele
em ânsia radical.
"Sou a soma do quadrado dos catetos.
Mas pode me chamar de Hipotenusa.
"E de falarem descobriram que eram
(o que em aritmética corresponde
a almas irmãs)
primos entre si.
E assim se amaram
ao quadrado da velocidade da luz
numa sexta potenciação
traçando
ao sabor do momento
e da paixão
retas, curvas, círculos e linhas sinoidais
nos jardins da quarta dimensão.
Escandalizaram os ortodoxos das fórmulas euclidiana
e os exegetas do Universo Finito.
Romperam convenções newtonianas e pitagóricas.
E enfim resolveram se casar
constituir um lar, mais que um lar,
um perpendicular.
Convidaram para padrinhos
o Poliedro e a Bissetriz.
E fizeram planos, equações e diagramas para o futuro
sonhando com uma felicidade integral e diferencial.
E se casaram e tiveram uma secante e três cones
muito engraçadinhos.
E foram felizes
até aquele dia
em que tudo vira afinal
monotonia.
Foi então que surgiu O Máximo Divisor Comum
freqüentador de círculos concêntricos,
viciosos.
Ofereceu-lhe, a ela,
uma grandeza absoluta
e reduziu-a a um denominador comum.
Ele, Quociente, percebeu
que com ela não formava mais um todo,
uma unidade.
Era o triângulo,
tanto chamado amoroso.
Desse problema ela era uma fração, ~
a mais ordinária.
Mas foi então que Einstein descobriu a Relatividade
e tudo que era espúrio passou a ser
moralidade
como aliás em qualquer
sociedade.
E bem-hajam.

6.1.06

Colhendo doce educação

Quero lá saber que o chão esteja frio, ou até mesmo lascado. É caso para dizer, chão frio, coração quente.

5.1.06

Zelig, eu e Cavaco Silva

Deixei-me assistir a uma entrevista de semi-bisbilhotices a Cavaco Silva que procuraria apresentá-lo no seu habitat. A entrevista, razoavelmente atrapalhada na parte da produção, foi passeando Cavaco Silva pela entrada da Católica, no gabinete na Católica e pela casa de férias, cercanias incluídas. O homem mostrou-se de fato e depois vestido informalmente, e nestas vestes pareceu-me mirrado e indefeso.
Durante todo o tempo tentei não o olhar desfavoravelmente, tentei vê-lo de uma maneira que fizesse nascer em mim adesão - pelo gosto, talvez perverso, talvez ocioso, de sentir vibrar em mim qualquer coisa nova e estimulante tal como "sentir-me como" uma apoiante de Cavaco. A velha questão "o que é que se vê nele?" é uma coisa que requer a presença de um sujeito vidente, em que eu desejava alojar-me. Faltou-me o pé, ou o jeito, ou a concentração. Desconsegui, o que ficou claro ao fim dos primeiros dez minutos, e declarei-me em falha zeliguiana. Uns minutos mais de entrevista e percebi que até nem teria sido tão mal sucedida. Cavaco Silva não tem mesmo dotes de simpatia; tem uma deficiente capacidade de gerar empatia, nada nele é fácil ou comunicativo ou fluente.
O tom que utiliza para comunicar, com excepção do que foi a vibrante, quase eufórica, referência ao número dos desempregados, não lhe saía nem solto nem natural, mas sempre com o véu de uma cerimónia: esforçado, mastigado, rangente, distanciado.
Isto pode beneficiá-lo quando aborda assuntos que passam bem debaixo do chapéu de "matérias complicadas", fazendo com que pareça profundo e exacto, mas por outro lado resulta muito desfavoravelmente quando o assunto é mais coloquial (tais como que notas dará aos estudantes ou o que leu recentemente) ou de natureza mais genérica (tais como a IGV), ou se refere à classe de questões da vida-em-geral (tais como o papel da mulher na sua vida política) que não são por isso necessariamente questões sem que ou quê. Nestes casos, em todos os casos em que a fluência do verbo e da expressão o beneficiariam, o tom sempre esforçado e circunstancioso tornou irrefragavelmente rasante o conteúdo das suas palavras.
Ora, isto fez-me reparar que se Jerónimo de Sousa não andasse por aí a derramar comunicatividade, frases pensantes e ponderadas que lhe saem em tom calorosamente calmo, seria bem melhor para Cavaco Silva. Sempre haveria ensejo de dizer que se batia no pobrezinho - que ele, Cavaco Silva, por acaso não é. Mas depois de Jerónimo de Sousa a menção da aridez e do desinteresse da paisagem humana de Cavaco Silva deixou de poder levar o labéu de pedante elitismo urbano. Fica mostrado ao país inteiro que aquilo vai da natureza individual.
Perante isto, estou convencida de que a minha falha zeliguiana foi mínima: inclino-me a achar que não há quase nada - para não dizer, nada - em que basear uma empática adesão a Cavaco Silva, excluindo, concerteza, o caso das pessoas que lhe são muito próximas e que naturalmente gostarão dele.
Ele corresponde apaticamente ao desejo de adesão, tantaliza quem queira tomar-se de simpatias por ele, não há sumo, não há cor, não há forma, nem há conteúdo. Isto passa por honestidade mas, embora não tenha motivos para duvidar da sua honestidade, não se trata de semelhante coisa. É vazio, é aridez, é vida de menos.
No fim, senti-me fortemente constrangida ao olhar o futuro. Se este homem ganhar as eleições, para além do que já tenho por magnificamente sustentado por Soares, no que respeita ao perigo que isso representaria para a paz e harmonia no plano institucional e no plano social, andarei cinco ou dez anos em desconforto e aflições, consoante encare o exercício das suas funções interna ou internacionalmente.
Mas se este homem perder as eleições, como acredito que pode vir a acontecer, será um caso pungente de definhamento, de desolada paisagem humana e eu sentirei pena dele.

Atalanta ainda


No século XIV, uma Cristina com assento no mulherio de estimação deste blogue andou também à volta dos pomos. Apesar de dada às letras, consta que é dela esta imagem. Quilos de têxteis amortecem a estória, a impureza vinha abrindo caminho.

4.1.06

Atalanta

Outros viram-na assim. Não interessa quando a viram assim. Interessa que viram-na assim.
Era, nas palavras da época, um tanto arrapazada para rapariga mas um outro tanto demasiado feminil para rapaz.
A pele era branca, isso está assente. Tingia-se ao de leve de carmim quando corria veloz e grácil.
Afrodite é que não achava nada bem que Atalanta não prestasse tributo às graças do amor. Em vez de honrar a seiva dos que a desejavam, Atalanta abria-lhes o caminho para a morte. De se manter sem parceiro dependia, por causa da maldição, a sua própria vida.
E assim, a expressão "ficar eliminado" em prova atlética ia adquirindo sentidos literalmente vitais para os seus candidatos/adversários porque Atalanta só aceitaria quem a vencesse.
Dessas maçãs golden que agora temos nos supermercados havia a rodos no quintal de Afrodite. Três foram colhidas. Urdia-se a derrota de Atalanta.