19.1.06

Manual de instruções #11

Mesmo que não seja prático dizê-las, é conveniente pensar nas frases por inteiro. Particular atenção merecem as frases em que figura o instrumentório conceptual "bem"; o "bem em si" só se for bemol.

18.1.06

Da virtude no casamento

Vamos lá a ver se percebi bem a Educadora. Não era exactamente por esta e por outras que tais que foi botado o sapientíssimo aforismo de David Mourão-Ferreira: uma pessoa casada, só com outra pessoa casada?

Catrapás pás pás!

Luís: mas não é que é mesmo?!

Ca tem nada na ês bida más grande que amor



Pois não, não tem.

Coisas que em português imesclo não soem dizer-se com tanta limpidez. Um rodriguinho vivaz, oxiúro nos largos caudais do saber-que-se-sente, mina de fininho o sentir e faz do impulso, doença. Trôpega tradição. Mas não menos comovente.

O manuscrito é de Eugénio Tavares.

17.1.06

Retrato



Seria assim. Talvez denso mas não compacto. Cheio mas disperso, ampla malha. As cores seriam simples. Seria assim talvez. Estarias flagrante na ausência.

Sol LeWitt. Wall Drawing #65. Lines not short, not straight, crossing and touching, drawn at random using four colors, uniformly dispersed with maximum density, covering the entire surface of the wall. Pormenor.

It's a gal

Com virtude, sim, e ainda simpatia.

15.1.06

Ratinhos presidenciáveis

Nada como uma boa crise, como a das Oitenta Mil Escutas, para fazer dos candidatos presidenciais ratinhos de laboratório.
Cavaco Silva fechou desmesuradamente a boca e pôs a tocar o hit "não me pronuncio porque não sei do que se trata".
E nesse mesmo dia foi ouvido a prometer ao país, se fosse eleito, um sistema judicial digno e íntegro - a leste, noroeste ou sussudoeste da perturbação gerada pela eclosão da notícia, seja ela falsa ou verdadeira. Incapaz de submeter a (ainda que hipotética) crise a uma análise, a uma perspectiva de acção. Incapaz de levar os factos à teoria e vice-versa. Incapaz de oferecer um ponto de vista, uma orientação. Um ratinho inviável.

Excepção de grave urgência feminil. Sou fêmea e estou-me nas tintas para a pátria


Sendo hoje, domingo, dia de contemplação meditativa e não se tendo recebido a graça do arrebatamento indistinto (a Divina Safo que me perdoe e, se assim lhe aprouver, me inspire) haveria de ser aqui entoada loa à condição masculina no seu esplendoroso viço fenomenologicamente surpreeendida.
Mas não.
Hoje terá de ser diferente. Hoje o mulherio não vem aqui por ser douto e audaz (como já vieram a Anscombe, a Hipatia, a Hipparchia, a Teodora, et cetera), nem vem louvada a condição masculina por ser difícil e bela.
Hoje tenho de esclarecer, sob pena de continuar a ver-me de sono perturbado pela incomodidade de me manter silente, o que verdadeiramente acho que é "ser mulher".
Não percebo - ou talvez, discordo de - o que leva mentes atentas e reflexivas a procurar construir, subtraindo-o à largueza do horizonte, o mausoléu complexo, ataviado mesmo, do que é "ser mulher".
Eu digo-o em duas palavras e não podiam ser mais douradas: é "ser fêmea". Ponto.
Uma mulher é uma fêmea. É um indivíduo projectado para assim participar na nobre tarefa da reprodução.
O que é alguém encontrar-se "como mulher" fora da função de fêmea? Eu digo, no amplo espaço do ser, nada. Só o mausoléu da construção do género permite circunscrever na atmosfera o local desse lúgubre encontro.
Sou uma mulher, sou um indivíduo fêmea. Sinonímia.
E se não fosse fêmea, seria macho. De certo modo não sei existencialmente o que isso é. Da mesma maneira que não sei o que é a experiência de ser avó. Ou ser canhota. Ou ser cega. Ou pensar com palavras chinesas.
Tenho a experiência de existir e isto é o que partilho com os outros. Em círculos mais amplos ou menos amplos, enquanto bicho, enquanto humana, enquanto fêmea, enquanto europeia, peninsular, vagabunda.
É por isso que neste blogue a condição masculina receberá loas infinitas, por ser a forma apetecida da única razão pela qual se é fêmea, perdão, mulher.
É por isso também que neste blogue, que não se arrebata pela forma feminina, embora dela tenha orgulho, não se querem divas, não se querem beldades que não se possam degustar.
Exulta-se este domingo, em excepção, a unidade simples da fêmea, a forma e a função em viçosa sintonia. Ali em cima é a Vitória de Paionios. A ter que ter, a minha pátria são os meus seres.

12.1.06

Homens mecânicos e super-heróis


Já não se fazem como nos anos 30. E depois, passaram a chamar-se outras coisas. Robots. E sei lá que mais.

O caminho da democracia é para a frente

Hoje ouvi Jorge Sampaio e percebi mais uma vez quanto aprecio o contributo que ele deu para a maturidade cívica dos portugueses, desde logo pelo seu permanente muito digno respeito pelas pessoas e pelas instituições da democracia.
Mas hoje compreendi que não estou preparada para sentir saudades dele. Isto deste país, é para andar para a frente, não para trás em matéria de aprofundamento da democracia.

O Estado sou eu - também

A frequência com que a palavra "Estado" aparece nos esforços de legitimação de políticas de direita - vulgo, no discurso liberal - é elevadíssima e torna por vezes a leitura pasmacenta. Sugiro, para quebrar a monotonia, que se diga simplesmente, algumas vezes, "o mal".
Ou melhor ainda que, pelo menos de vez em quando, se dê sinal de estar a verbalizar significativamente e se troque a coisa por miúdos. É que "Estado" está longe de ter um só e um inequívoco sentido e não é, em caso algum, "eles". É sempre um "nós". Somos todos accionistas.

O enfado enorme

Por superficialidade e distracção - que mais?! - não me tinha apercebido que os tempos iam de júbilos e, cidadã desleixada e tendencialmente relapsa, estava para aqui apudinada a deixar crescer os pêlos nas pernas, a ferrugem nas juntas e o enfado pela vida na pólis.
Isso já me passou, contudo.
Depois de ver o número de sapateado de JPP a tentar disfarçar o bocejo que é Cavaco Silva com a pretensa hipotonia do povo, logo ali repreendido, recuperei da letargia.
Pela primeira vez associei algo de positivo à hipotética vitória de Cavaco: como é que JPP se colocaria nesse quadro? Especializar-se-ia a dourar-lhe a aridez das ideias ou enveredaria por missão apostólica de educar a populaça impensante?! Coelho e cartola ou malabarismo?
Seria triste enfado para JPP, vendo bem, em qualquer das hipóteses.
Também por este motivo, esperemos que Cavaco Silva continue a perder diariamente o seu 1% higiénico nas intenções de voto, que é um modo tão bom como qualquer outro de (continuar a) perder as eleições. Basta chegar à segunda volta.

10.1.06

Um encontro quase perfeito. Watteau e a Insana


Alô..! Vês-me? Aqui, estou aqui. Isso,

assim

já me vias.

1% a day...

... keeps Cavaco away!

Ao fim de um dia de campanha, menos 1% nas intenções de voto.
Figas insanas para que a tendência se mantenha. Abrenúncio.

Não gostei. Gostei

Não gostei:

- de Manuel Alegre, de comitiva e campanha eleitoral com todos, a passear homenagens no cemitério;

- da explicação (?) que Soares deu para deixar de responder aos jornalistas (embora a título individual tenha toda a minha solidariedade, aquilo deve ser um pitéu).


Gostei:

- de ver o senhor que tinha ido ao jantar do Cavaco Silva, com a mulher e a sogra, dizer que estavam lá todos os militantes do PSD;

- de ser entrevistada para uma sondagem. Por alguns momentos, decidi os resultados eleitorais.


E depois? Morreram as vacas e acabaram-se os bois. Sonhar é bom.

9.1.06

Shaw

Demonstração de que sempre há algumas vantagens numa economia de trocas directas - e com a licença de JG, que levou, na troca, a carta de Schiele abaixo postada - apraz-me muito colocar aqui o retrato deste cavalheiro.
É Bernard Shaw e não sei com certezas se a disse ou não, e se o fez onde e como, esta frase que nunca se evapora deste ser: selvagem é o que confunde as regras da sua tribo com as leis da natureza.
O que eu não sabia era que Bernard Shaw tinha esta cara, esta expressão diabinha de mestre de cerimónias de um corpo muito muito diplomático.

Da arte epistolar


Carta de Egon Schiele ao irmão.

8.1.06

Entrada de leão ...

O ímpeto de Cavaco Silva neste primeiro dia de campanha é sinal de que ele afinal andou estes anos todos consumido por contas que teria para fazer com o país? País que lhe andou todo o tempo debaixo de olho, enquanto ele digeria a derrota das presidenciais e esperava, amparado pela sua boa Maria em longas horas de azedume, o momento para avançar?
É que foi isso mesmo o que ele me pareceu: alguém que tem contas a fazer com o país e que se manteve à coca e agora salta para mostrar como é que elas são. Nada de supererogatório, portanto, bem pelo contrário. Isto é "muito político" - já não me espanta - muito mais político do que os políticos criticados por o serem por este político que se chegou há semanas de mansinho afirmando que não era político. Confuso? Não, confusa e pouco transparente foi logo essa retórica da negação. Esse expediente de insinuação a que se segue agora, pelos vistos, o atordoamento pelo espalhafato.

Post postal domingueiro


Reconsiderando; há pontos de vista que merecem atenção, apesar de frequentemente negligenciados.

Postal domingueiro


Kouros. Um bom hábito.