18.2.06

O eu sem mim

Era uma amnésia invertida. Sabia o nome, o lugar das coisas, as datas. Elencava sem esforço os principais colunistas de sete jornais, o jantar de ontem e as férias do ano passado. Não havia mistério com horários, preferências dos clientes, encomendas e projectos. Sabia o conteúdo funcional da sua posição na empresa e o seu estatuto na família, na sociedade, situações de trânsito incluídas. Mas perdeu a inteligência da fome. Não se lembrava onde ficava a boca por onde saciasse a fome que o consumiu sem que tivesse chegado a lembrar-se, também, do motivo daquela crescente fraqueza.

17.2.06

Assim


Dürer, Estudo de mulher em movimento. 1528

Rasga-se o gesto e a ideia no espaço de uma só mente.

Subir na vida

Qualquer dia vou colocar aqui neste blogue um link para as referências aos meus textos, em que, se me apetecer, abusarei de aguçados sarcasmos e untuosas bajulices. Mas depois refiro só os que me agradarem. Liberdade de expressão à la ...

16.2.06

Estigma paratemplate

Se calhar vou ter de mudar o nome da caixa de comentários deste blogue para a tornar mais amena ao estremecido cavalheiro. Se não o fizer - acho que é essa a minha opinião, se bem que o processo da opinião e do enigma seja entrelaçado e mutante - colocá-lo-ei num paradoxo se se lembrar de passar por cá. E isso não (lhe) desejo.

Manual de instruções #15

Parir um rato é preferível a parir uma montanha, por isso é conveniente ser selectiva nas exogamias.

15.2.06

Liberdade de pensamento

Oscilam entre o descritivo e o normativo. E são mais lamentações que leis.
Mas se o Papa Abruptus I alguma vez na vida teve razão foi na sua primeira lei, que descreve sumariamente a falta de liberdade de pensamento nos hábitos da paróquia. Ou melhor, descreve a falta de uso, a falta do hábito do uso do pensamento livre.
Assim, quantas vezes o desvio "da posição" é zurzido como contradição, vezes demais, cedo demais, com fervores judicativos e soberanos, a excomunhão sempre a pairar.
Com demasiada frequência, para zurzir melhor a posição contrária, finge-se que o seu defensor é idiota. Base primeira para usar o velho argumento ad hominem.
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O argumento funciona de modo simples: primeiro, faço de X um idiota ridículo ou um bandido vendido (às vezes com piscares de olhos e outras sinalefas de corte impróprias de uma dama honesta mas abundantemente usadas em diversas confrarias). Ora, é sabido que os idiotas ridículos ou os bandidos vendidos não dizem coisa que preste. Logo, o que X diz não presta.
Um pouco de rodagem nesta habilidade e chega-se à suprema apresentação do argumento. Basta dizer: Fulano disse tal e tal. Desencadeiam-se, de imediato, risos e contorções nas hostezinhas, e por contraste surge A Palavra a Seguir.
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Há outra maneira, mais elegante, mais invisível, de insuficiente exercício da liberdade de pensamento que, aliás, nos primatas superiores creio ter uma função paralela à amorosa desparasitação ou respeitosa apresentação retro-anal entre outros primatas não tão superiores (sempre segundo o superior ponto de vista do primata superior, entenda-se).
É a que se prende com o facto de serem três, e não apenas uma, as vias da persuasão, recordando o que debalde nos tentou ensinar o bom Aristóteles. Recapitule-se: persuade-se pela bondade ou validade do raciocínio (logos) que, para isso, havia de cultivar-se ser claro, ligeiro e escorreito. Mas persuade-se também pelo apelo às emoções (pathos) e ainda pela credibilidade que o orador vê em si depositada pela audiência (ethos).
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Bem controlada, a confiança na credibilidade do defensor de uma ideia é um instrumento interessante para gerir energias no cansativo caminho do desfiar dos juízos sobre as questões que a maré nos vai trazendo. Ou seja, não precisamos de estar a refazer sempre o caminho todo inteiro; num ponto qualquer podemo-nos basear em alguém com provas dadas de probidade e boa pinta nas ideias.
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Porém, para além da dose legal, que é homeopática, a confiança na credibilidade do orador é uma armadilha à liberdade de pensamento. Torna-se um encosto e não um apoio; amolece em vez de promover a melhor utilização das energias.
Descontrolada, incontrolada, tornada habitual e, em qualquer caso, para além de um mínimo uso, com parcimónia e condicionalidade, a confiança na credibilidade do orador dá cabo de qualquer debate. Entre o que adere e o orador. Entre os que aderem e os que não ouviram, não conhecem, não seguem, não catam o orador de referência.
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É necessário debate válido para que a liberdade de pensamento floresça. E valerá a pena dizer que sem ela a liberdade de expressão corre o risco de ser a caixa de ressonância dos pusilânimes, mesmo que se trate de cow-boys ruidosamente armados até aos dentes (e obedientes, e subservientes)?
É necessário debate válido para que a liberdade de pensamento floresça. A primeira lei do Abrupto tem de ser falseada.

Hoje não, amanhã talvez


Mendicante com velo. Turquia. Séc. XVII*

Onde há amabilidade e sabedoria.... *

[post actualizado]

14.2.06

Rumi

O Amor murmura-me ao ouvido:
"Antes presa que predador.
Faz de ti o meu bobo.
Pára de tentar seres o sol e torna-te mancha!
Fica-te à minha porta e faz-te mendigo.
Não tentes ser a luz da vela, sê a traça,
assim possas sentir o cheiro da vida
e conhecer o poder secreto que há no servir".

Rumi, Mathnawi V. 411-414 The Rumi Collection
trad. insana

Serviço de massagista no S. Valentim para corações desamparados



Clique e oiça o coro mavioso: "és o maiiooor!"*

À atenção de todos os cavalheiros temporariamente em deriva solitária.

*alguém que avise o Pedro Mexia, pode ser que lhe interesse também, embora este blogue seja de imaculada candura.

Desblogueando

Elegante.

Boa sorte e melhor inspiração ainda!

Do dia

O post.

Do mulherio bíblico

Cristofano Allori, Judite com a cabeça de Holofernes. 1613

13.2.06

Liberdade

Necessariamente.

Achada de vírgulas e brincadeiras

Eu acho que representar Maomé como um terrorista é um acto tão obsceno, tão vilipendioso para o meu amigo D., que, por acaso, reza a Alá, que fico a pensar se não violará a lei que protege o respeito pelos símbolos religiosos.
Eu acho que, se, por hipótese, essa representação não couber, como acredito que cabe, dentro do que a lei considera crime, representar Maomé como um terrorista depois do 11 de Setembro, depois do 11 de Março, depois do Metro de Londres, quando nos descalçamos nos aeroportos, quando olhamos para mochilas esquecidas e pensamos "será que", quando até se matam brasileiros inocentes por terem um ar vagamente islamizado, é uma alarvidade preconceituosa.
Eu acho que dizer que não pode ser colocada uma vírgula à liberdade de expressão é, eticamente, um rotundo disparate e, quanto às leis existentes, uma completa falsidade.
Eu acho que se pode brincar com tudo. Tal como acho que há actos de agressão disfarçados de brincadeira ou executados através das palavras.
Eu acho que acreditar piamente que os nossos valores de referência são mais intocáveis que os dos outros é obscurantista e nocivo preconceito. Isto aplica-se a todos os que se emocionam com o contraste e correm a pegar nas bandeiras, em ambos os lados.
Eu acho que aqueles muçulmanos que não lêem jornais, nem vêem cartoons e, apesar disso, incendiam embaixadas com os olhos turvos de lágrimas de ódio e redenção pelo sangue, são ignorantes. Tal como o nosso Miguel Sousa Tavares. Que também não me representa.
Eu acho, para acabar esta achada, que os nossos valores de referência são importantes simplesmente porque são os nossos. É quanto basta. Pela mesma razão, os "deles" também são.
*
Post-post: Na achada do Lutz há bom oxigénio e a vista é luminosa.

Só quero que Você me aqueça neste inveeeerno

... e que tudo o mais vá pró inferno...

(surripiado d' aqui)

The rules of cricket

Uma belíssima série corre no ...bl-g- -x-st-.

Da exactidão