Oscilam entre o descritivo e o normativo. E são mais lamentações que leis.
Mas se o
Papa Abruptus I alguma vez na vida teve razão foi na sua primeira lei, que descreve sumariamente a falta de liberdade de pensamento nos hábitos da paróquia. Ou melhor, descreve a falta de uso, a falta do hábito do uso do pensamento livre.
Assim, quantas vezes o desvio "da posição" é zurzido como contradição, vezes demais, cedo demais, com fervores judicativos e soberanos, a excomunhão sempre a pairar.
Com demasiada frequência, para zurzir melhor a posição contrária, finge-se que o seu defensor é idiota. Base primeira para usar o velho argumento ad hominem.
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O argumento funciona de modo simples: primeiro, faço de X um idiota ridículo ou um bandido vendido (às vezes com piscares de olhos e outras sinalefas de corte impróprias de uma dama honesta mas abundantemente usadas em diversas confrarias). Ora, é sabido que os idiotas ridículos ou os bandidos vendidos não dizem coisa que preste. Logo, o que X diz não presta.
Um pouco de rodagem nesta habilidade e chega-se à suprema apresentação do argumento. Basta dizer: Fulano disse tal e tal. Desencadeiam-se, de imediato, risos e contorções nas hostezinhas, e por contraste surge A Palavra a Seguir.
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Há outra maneira, mais elegante, mais invisível, de insuficiente exercício da liberdade de pensamento que, aliás, nos primatas superiores creio ter uma função paralela à amorosa desparasitação ou respeitosa apresentação retro-anal entre outros primatas não tão superiores (sempre segundo o superior ponto de vista do primata superior, entenda-se).
É a que se prende com o facto de serem três, e não apenas uma, as vias da persuasão, recordando o que debalde nos tentou ensinar o bom Aristóteles. Recapitule-se: persuade-se pela bondade ou validade do raciocínio (logos) que, para isso, havia de cultivar-se ser claro, ligeiro e escorreito. Mas persuade-se também pelo apelo às emoções (pathos) e ainda pela credibilidade que o orador vê em si depositada pela audiência (ethos).
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Bem controlada, a confiança na credibilidade do defensor de uma ideia é um instrumento interessante para gerir energias no cansativo caminho do desfiar dos juízos sobre as questões que a maré nos vai trazendo. Ou seja, não precisamos de estar a refazer sempre o caminho todo inteiro; num ponto qualquer podemo-nos basear em alguém com provas dadas de probidade e boa pinta nas ideias.
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Porém, para além da dose legal, que é homeopática, a confiança na credibilidade do orador é uma armadilha à liberdade de pensamento. Torna-se um encosto e não um apoio; amolece em vez de promover a melhor utilização das energias.
Descontrolada, incontrolada, tornada habitual e, em qualquer caso, para além de um mínimo uso, com parcimónia e condicionalidade, a confiança na credibilidade do orador dá cabo de qualquer debate. Entre o que adere e o orador. Entre os que aderem e os que não ouviram, não conhecem, não seguem, não catam o orador de referência.
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É necessário debate válido para que a liberdade de pensamento floresça. E valerá a pena dizer que sem ela a liberdade de expressão corre o risco de ser a caixa de ressonância dos pusilânimes, mesmo que se trate de cow-boys ruidosamente armados até aos dentes (e obedientes, e subservientes)?
É necessário debate válido para que a liberdade de pensamento floresça. A primeira lei do
Abrupto tem de ser falseada.