22.2.06

Manual de instruções #16

Já minha avó me dizia que era indispensável a ablução generosa com água fria para salvaguardar a galhardia do busto, a qual, por sua vez, favorece um modo de vida saudável e socialmente útil. Tal não dispensa as boas alfaias, é certo, mas é já meio caminho andado.
[Instrução afixada na sequência de mais uma extremosa sapiencial ilustração do Afonso Bivar]

21.2.06

Quando soube ao fim do dia

Quando soube ao fim do dia como o meu nome havia sido recebido com clamores no capitólio, ainda assim não foi para mim feliz a noite que se seguiu;
E também, quando brindei ou quando os meus planos se realizaram, ainda assim não fui feliz;
Mas o dia em que me ergui de madrugada em perfeita saúde, refrescado, cantando, inalando o maduro hálito do outono,
Quando vi a lua cheia no oeste fazer-se pálida e desaparecer na luz da manhã,
Quando vagueei só pela praia e, despido, me banhei rindo nas águas frias e vi o sol erguer-se,
E quando pensei que o meu amigo querido, meu amante, vinha a chegar, oh então fui feliz;

Oh então mais doce era o sabor do ar - e durante todo esse dia a comida me alimentou mais - e o maravilhoso dia passou-se bem,
E o seguinte dia chegou com igual júbilo - e com o seguinte, à tardinha, chegou o meu amigo;

E nessa noite, enquanto tudo estava tranquilo, ouvi as águas enrolando-se lentamente continuamente pela praia,
Ouvi o sibilo murmurado das águas e das areias, como se dirigido a mim, suspirando, felicitando-me,
Pois aquele que eu amo mais repousava adormecido junto a mim sob a mesma coberta na noite fria,
Na quietude, no luar de outono, a sua face inclinada para mim,
E o seu braço pousava levemente em torno do meu peito - e nessa noite fui feliz.

Walt Whitman, When I heard at the Close of the Day. Leaves of Grass (1860)
trad. insana

Maçada caótica

As nove dez leis da blogosfera evoluíram para um queixume caótico e prolixo. É pena.

Descubra as manias (quase um passatempo)

Watwood, Music and Poetry. 2000

"A Bês" já tinha confessado manias, uma mão-cheia. Neste passatempo vão outras tantas, directamente do tropel das paixões, para sagazes descobridores. Não houve como resistir ao apelo de quem, também, se desfaz dos livros. Sniperizada.

20.2.06

Rude e esfaimada

Não li hoje jornais, não ouvi notícias, não vi televisão. Não sendo domingo, não me apetece falar dos aleluias à criação, essa excentricidade de cultivar aqui um hábito compassado. O mulherio douto e audaz esgotou-se ao almoço, bem como toda a especulação. Seria caso para falar das minúcias da pesca. De escamas que ficam coladas à pele dos braços, o cheiro a peixe debaixo das unhas. De quando o peixe fila o anzol, a linha retesa, a cana verga. Destrancar o peixe e hesitar se se deixa morrer na asfixia ou se se lhe aplica o golpe. Um murro mal dado estraga o jantar. No peixe, claro. Mas não pesquei; fiz, sim, um pão-de-ló.

18.2.06

O eu sem mim

Era uma amnésia invertida. Sabia o nome, o lugar das coisas, as datas. Elencava sem esforço os principais colunistas de sete jornais, o jantar de ontem e as férias do ano passado. Não havia mistério com horários, preferências dos clientes, encomendas e projectos. Sabia o conteúdo funcional da sua posição na empresa e o seu estatuto na família, na sociedade, situações de trânsito incluídas. Mas perdeu a inteligência da fome. Não se lembrava onde ficava a boca por onde saciasse a fome que o consumiu sem que tivesse chegado a lembrar-se, também, do motivo daquela crescente fraqueza.

17.2.06

Assim


Dürer, Estudo de mulher em movimento. 1528

Rasga-se o gesto e a ideia no espaço de uma só mente.

Subir na vida

Qualquer dia vou colocar aqui neste blogue um link para as referências aos meus textos, em que, se me apetecer, abusarei de aguçados sarcasmos e untuosas bajulices. Mas depois refiro só os que me agradarem. Liberdade de expressão à la ...

16.2.06

Estigma paratemplate

Se calhar vou ter de mudar o nome da caixa de comentários deste blogue para a tornar mais amena ao estremecido cavalheiro. Se não o fizer - acho que é essa a minha opinião, se bem que o processo da opinião e do enigma seja entrelaçado e mutante - colocá-lo-ei num paradoxo se se lembrar de passar por cá. E isso não (lhe) desejo.

Manual de instruções #15

Parir um rato é preferível a parir uma montanha, por isso é conveniente ser selectiva nas exogamias.

15.2.06

Liberdade de pensamento

Oscilam entre o descritivo e o normativo. E são mais lamentações que leis.
Mas se o Papa Abruptus I alguma vez na vida teve razão foi na sua primeira lei, que descreve sumariamente a falta de liberdade de pensamento nos hábitos da paróquia. Ou melhor, descreve a falta de uso, a falta do hábito do uso do pensamento livre.
Assim, quantas vezes o desvio "da posição" é zurzido como contradição, vezes demais, cedo demais, com fervores judicativos e soberanos, a excomunhão sempre a pairar.
Com demasiada frequência, para zurzir melhor a posição contrária, finge-se que o seu defensor é idiota. Base primeira para usar o velho argumento ad hominem.
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O argumento funciona de modo simples: primeiro, faço de X um idiota ridículo ou um bandido vendido (às vezes com piscares de olhos e outras sinalefas de corte impróprias de uma dama honesta mas abundantemente usadas em diversas confrarias). Ora, é sabido que os idiotas ridículos ou os bandidos vendidos não dizem coisa que preste. Logo, o que X diz não presta.
Um pouco de rodagem nesta habilidade e chega-se à suprema apresentação do argumento. Basta dizer: Fulano disse tal e tal. Desencadeiam-se, de imediato, risos e contorções nas hostezinhas, e por contraste surge A Palavra a Seguir.
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Há outra maneira, mais elegante, mais invisível, de insuficiente exercício da liberdade de pensamento que, aliás, nos primatas superiores creio ter uma função paralela à amorosa desparasitação ou respeitosa apresentação retro-anal entre outros primatas não tão superiores (sempre segundo o superior ponto de vista do primata superior, entenda-se).
É a que se prende com o facto de serem três, e não apenas uma, as vias da persuasão, recordando o que debalde nos tentou ensinar o bom Aristóteles. Recapitule-se: persuade-se pela bondade ou validade do raciocínio (logos) que, para isso, havia de cultivar-se ser claro, ligeiro e escorreito. Mas persuade-se também pelo apelo às emoções (pathos) e ainda pela credibilidade que o orador vê em si depositada pela audiência (ethos).
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Bem controlada, a confiança na credibilidade do defensor de uma ideia é um instrumento interessante para gerir energias no cansativo caminho do desfiar dos juízos sobre as questões que a maré nos vai trazendo. Ou seja, não precisamos de estar a refazer sempre o caminho todo inteiro; num ponto qualquer podemo-nos basear em alguém com provas dadas de probidade e boa pinta nas ideias.
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Porém, para além da dose legal, que é homeopática, a confiança na credibilidade do orador é uma armadilha à liberdade de pensamento. Torna-se um encosto e não um apoio; amolece em vez de promover a melhor utilização das energias.
Descontrolada, incontrolada, tornada habitual e, em qualquer caso, para além de um mínimo uso, com parcimónia e condicionalidade, a confiança na credibilidade do orador dá cabo de qualquer debate. Entre o que adere e o orador. Entre os que aderem e os que não ouviram, não conhecem, não seguem, não catam o orador de referência.
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É necessário debate válido para que a liberdade de pensamento floresça. E valerá a pena dizer que sem ela a liberdade de expressão corre o risco de ser a caixa de ressonância dos pusilânimes, mesmo que se trate de cow-boys ruidosamente armados até aos dentes (e obedientes, e subservientes)?
É necessário debate válido para que a liberdade de pensamento floresça. A primeira lei do Abrupto tem de ser falseada.

Hoje não, amanhã talvez


Mendicante com velo. Turquia. Séc. XVII*

Onde há amabilidade e sabedoria.... *

[post actualizado]

14.2.06

Rumi

O Amor murmura-me ao ouvido:
"Antes presa que predador.
Faz de ti o meu bobo.
Pára de tentar seres o sol e torna-te mancha!
Fica-te à minha porta e faz-te mendigo.
Não tentes ser a luz da vela, sê a traça,
assim possas sentir o cheiro da vida
e conhecer o poder secreto que há no servir".

Rumi, Mathnawi V. 411-414 The Rumi Collection
trad. insana

Serviço de massagista no S. Valentim para corações desamparados



Clique e oiça o coro mavioso: "és o maiiooor!"*

À atenção de todos os cavalheiros temporariamente em deriva solitária.

*alguém que avise o Pedro Mexia, pode ser que lhe interesse também, embora este blogue seja de imaculada candura.

Desblogueando

Elegante.

Boa sorte e melhor inspiração ainda!

Do dia

O post.

Do mulherio bíblico

Cristofano Allori, Judite com a cabeça de Holofernes. 1613

13.2.06

Liberdade

Necessariamente.

Achada de vírgulas e brincadeiras

Eu acho que representar Maomé como um terrorista é um acto tão obsceno, tão vilipendioso para o meu amigo D., que, por acaso, reza a Alá, que fico a pensar se não violará a lei que protege o respeito pelos símbolos religiosos.
Eu acho que, se, por hipótese, essa representação não couber, como acredito que cabe, dentro do que a lei considera crime, representar Maomé como um terrorista depois do 11 de Setembro, depois do 11 de Março, depois do Metro de Londres, quando nos descalçamos nos aeroportos, quando olhamos para mochilas esquecidas e pensamos "será que", quando até se matam brasileiros inocentes por terem um ar vagamente islamizado, é uma alarvidade preconceituosa.
Eu acho que dizer que não pode ser colocada uma vírgula à liberdade de expressão é, eticamente, um rotundo disparate e, quanto às leis existentes, uma completa falsidade.
Eu acho que se pode brincar com tudo. Tal como acho que há actos de agressão disfarçados de brincadeira ou executados através das palavras.
Eu acho que acreditar piamente que os nossos valores de referência são mais intocáveis que os dos outros é obscurantista e nocivo preconceito. Isto aplica-se a todos os que se emocionam com o contraste e correm a pegar nas bandeiras, em ambos os lados.
Eu acho que aqueles muçulmanos que não lêem jornais, nem vêem cartoons e, apesar disso, incendiam embaixadas com os olhos turvos de lágrimas de ódio e redenção pelo sangue, são ignorantes. Tal como o nosso Miguel Sousa Tavares. Que também não me representa.
Eu acho, para acabar esta achada, que os nossos valores de referência são importantes simplesmente porque são os nossos. É quanto basta. Pela mesma razão, os "deles" também são.
*
Post-post: Na achada do Lutz há bom oxigénio e a vista é luminosa.

Só quero que Você me aqueça neste inveeeerno

... e que tudo o mais vá pró inferno...

(surripiado d' aqui)

The rules of cricket

Uma belíssima série corre no ...bl-g- -x-st-.

Da exactidão

12.2.06

As bandeiras

Desfraldam-se ao vento, ambivalentes. Erigidas e por isso rijas, mas coleantes no desfraldar. Atraem os ânimos, excitam os ânimos. Animam os ânimos! Oferecem-se à convergência, à rutilante bravata, ânimo ao alto. Molhada.

11.2.06

Parcerias. Aimez donc, et mourez !










Amants, autour de vous une voix inflexible
Crie à tout ce qui naît : "Aime et meurs ici-bas ! "
La mort est implacable et le ciel insensible ;
Vous n'échapperez pas.




(Louise Ackermann à palavra & Dürer imaginando)

10.2.06

Rapazes da minha estima

Na blogosfera, não desfazendo, há três em especial. E estou desconversada com todos eles neste momento. Não é motivo de júbilo. Acredito que vale a pena expor pontos de vista.
Eu digo que a liberdade não é um fim em si; o Lutz pergunta-me de que fim é então.
Eu digo que gosto das palavras mas não me emociono demais com elas e o Luís pergunta-me se eu discordo dos rapazes da estrada e porquê colocar vírgulas.
Por outro lado, o Afonso toca a rebate por crer que qualquer vírgula na liberdade de imprensa será um silêncio a mais (embora depois, em comentário, suscite a questão da efectividade da própria liberdade de imprensa, a que quaisquer limitações abundariam às limitações já de raíz, se bem entendi, e acrescente, conquistando a minha adesão, que a liberdade de opinião é em si mesma um dispositivo retórico que, nas sociedades ocidentais democráticas, camufla o exercício arbitrário do poder simbólico - o poder de dizer o que e como as coisas são).

Entendo o seguinte:
A liberdade de expressão é meritória como instrumento de afirmação da pluralidade de opinião e como instrumento de acesso às realidades distantes da experiência directa, de modo a que as instâncias de controlo do poder não se alheiem dramaticamente dos interessados. Tudo isto para que a sociedade possa organizar-se e desenvolver-se da maneira mais amena e mais favorável à expansão máxima de cada indivíduo. É abstracto, mas será isto.
Para além deste aspecto, cabe apontar que a liberdade de expressão não é uma grandeza absoluta. Trata-se sempre de alguém a dizer o que pensa sobre alguma outra coisa. E narrá-la-á segundo o seu entender, com a facilidade do altifalante de que dispuser. Controlo sobre a utilização do altifalante, não há. Basta fazer um mídia e já temos altifalante. Sem nenhum caminho de legitimação da voz. Aleatório, no mínimo. Pega-se num altifalante e berra-se literalmente o que se quiser? É bonito, como inspiração para humores épicos. Mas, por favor, não berrem sobre mim o que quiserem, que eu posso não gostar.
E assim, chegamos à questão das vírgulas.
Querem alguns senhores, que fazem profissão no grande trombone que são os mídia, convencer-nos que o nosso acesso à melhor informação, aquela que nos permite realizar as reflexões mais profícuas sobre as decisões e acções a tomar sobre o nosso destino, dependem criticamente da situação de ilimitação na sua actividade. Ora, não acho. Bons elementos e melhor reflexão bastam. Nas ilhas remotas, nos lugares longínquos pode pensar-se e decidir-se racionalmente sobre o mundo.
É poder puro e duro, mas apenas num plano simbólico, o que é reclamado pelos gritos da liberdade de expressão. E não é verdadeiramente de expressão, é de imprensa. Não é da minha expressão aqui que se trata. É da afirmação de uma intangibilidade o que se trata. Ora, poderes absolutos, que não reportam, que não se referendam, não quero eu.
Entretanto, faz-se da face épica de uma defesa de liberdades o elemento de uma luta que protagoniza o choque de civilizações. Lamentável equívoco. Está longe de ser claridade e racionalidade de lés a lés aquilo que anima o nosso lado.

9.2.06

Do mulherio douto e criativo

Mulher livre.

Legenda sobre o post anterior. A liberdade

O post "Inocentes" é uma ironia. Não me orgulho dele porque não o acho conseguido satisfatoriamente.
Na mesma, porém, sustento a ideia: dizer "a liberdade, a liberdade, a liberdade" é um pregão fácil e porventura ligeiro e insignificante.
A liberdade não é um fim em si. Lamento. É um meio indispensável - mas não absoluto - para um fim.
Pode e deve ser limitada à prossecução desse fim. Não pode e não deve ser invocada como valor absoluto se isso limita a boa prossecução de outros meios para o mesmo fim.
A liberdade como pregão é fácil e maleável.
Gosto delas mas não me assusto, nem me hipnotizo com as palavras.

Inocentes

Dá gosto ver por essa blogosfera os rapazes robustos, ofegantes, sangue na guelra, a dizer a liberdade, a liberdade, a liberdade.

PP. Enquanto isso, os opositores à nobre ideia interrompem bruscos a leitura do jornal, degustado todas as manhãs com especialidades exóticas e distribuído porta a porta por um moço de fretes - que ainda é sobrinho do Pai Natal, que por isso lhe empresta amiúde o trenó para entregas rápidas - e correm, bruscos, a incendiar embaixadas. A liberdade de expressão deixa-os assim indispostos, e mais ainda logo no jornal pela manhãzinha, entre a terceira e a quarta dentada. Isso e alguma areia grossa que lhes entre na sandália. Enfim, gentinha...

8.2.06

Londres






Daqui. No Mar Salgado perguntava-se há dias pelos moderados. Estão aqui. Estão a usar as suas liberdades também. Contra extremistas da(s) liberdade(s) de (/na) expressão.

6.2.06

A quem possa interessar

De XXI ao peito ainda a reluzir, cogito: se o fino galanteio é bom, a cavalgação excelente não há-de ser melhor ainda?! Donzéis, à Ensinança, que eu vou também a caminho.
Donzelas avulso, ide por ali.

Manual de instruções #14

Perverso é o Bem que não tem de quem, rombo o que nele se enreda.

Educação dos meninos

















O sátiro é terno.

Santo António vinha longe.

Já o sátiro, terno sátiro terno, tinha barbas.

Este menino safou-se.

5.2.06

Intolerâncias

Contempladas com justeza.

Barquinha de Belém prá Fáfá

- Senhor Barqueiro
Quem leva aí?

-Levo a Fáfá
Como outra não há,

Dim Dem
A que anda por Belém.

Dem Dim
- Leva-me também a mim

- A ti não levo
Que já levo três

Dim Dem
E já tenho entremez.

Dem Dem
- Vou dizer à minha Mãe.

- Vai lá, vai lá.
- Mas dou vivas à Fáfá.

-Muito bem,
muito bem.
-Viv' à Fáfá de Belém.

prontos! ao menos eu.

Vadiando

A passo pelos campos matinais de Palandru num belo domingo azul.

4.2.06

África minha















Gentil.

Do casamento

Na discussão que anda a correr sobre a admissibilidade, ou não, do casamento homossexual seria útil não perder de vista dois ou três pontos respeitantes à própria noção de casamento e ao facto da sua presença no domínio do jurídico.
Para começar, isso que hoje em dia nos parece tão banal, que o "casamento é um contrato" provoca ainda voltas nas tumbas aos bons dos romanos que forjaram a figura do contrato e que nunca, mas nunca de todo na vida, olharam para o casamento como exemplo ou sequer hipótese de semelhante categoria.
Ser-lhes-ia tão aberrante como para nós pensar numa carreira diplomática de burié na lapela e caspa até à cintura. Para eles um contrato era uma acordo de vontades em vista de produzir um determinado compromisso entre dois indivíduos, livremente estabelecido e modelado pelas vontades individuais. O contrato era a expressão da autonomia.
Em contrapartida, o casamento não era sequer uma relação de tipo jurídico, era uma situação social que podia ter alguns efeitos jurídicos. Como é hoje, por exemplo, a figura do noivado. Ou melhor ainda, a união de facto - o casamento romano era simplesmente uma união de facto entre cidadãos (desde que, por exemplo, um deles não fosse um actor e a outra a filha de um senador, aí a coisa já mudava de figura e até de nome). Coisa entregue aos costumes sociais mas cuja disponibilidade cabia por inteiro na mão dos interessados.
Era também, tanto quanto é dado saber, uma coisa heterossexual - o que faz todo o sentido porque o ponto de gravidade não era o que é que os indivíduos fazem com as suas zonas erógenas mas sim um outro, que anda perversa e pudicamente relegado para segundo plano e que de tem de ser trazido de novo à tona: os meninos!
O grande efeito jurídico do casamento era e é (porque cada vez que ocorre é um evento supremamente importante) isto que continua a dizer-se em latim: Mater semper certa est; pater is est quem nuptiae demonstrant. O que tem o nome de presunção de paternidade marital: o filho de uma mulher casada é filho legal do marido e isso é assim porque corresponde à grande correnteza dos factos da vida. Ou seja: quando nascemos, se a nossa mãe - aquela que protagoniza connosco o aparatoso facto da gestação e do parto, e por isso se pode (podia) dizer que era "sempre certa" - for casada, então fica automaticamente estabelecido (até prova em contrário) que o nosso pai é aquele que é casado com a nossa mãe. Se, quando nascemos, a nossa mãe não for casada, estabelecer quem é o nosso pai tem de resultar de actos positivamente desenvolvidos (nem que seja a declaração espontânea de alguém que se apresenta assim, perfilhando-nos). Dispenso-me de desenvolver a importância de se saber quem é o nosso pai e a nossa mãe.
O que efectivamente aconteceu, e que nos seus reflexos hoje sentidos, sobretudo se a memória do passado nos falha, contribui grandemente para a complexidade de todas as discusssões sobre o casamento no seu formato normativo, foi que na folia do movimento de codificação que varreu a Europa continental a partir do fim do século XVIII, que foi também, para além da vertente racionalista, o reflexo jurídico de um movimento de consolidação de fronteiras políticas e também um movimento de consolidação interna do poder, promovendo a homogeneidade da ordem que vinha a pôr-se estabelecida, intra-fronteiras nacionais, contra a tradicional pluralidade dos costumes jurídicos no mosaico europeu, os Estados quiseram também disputar à Igreja a - digamos assim - ownership da direcção existencial, incluindo, desde logo, a que incidia sobre esse momento fulcral das sociedades humanas ou animais, que é o respeitante ao acasalamento reprodutivo.
Na verdade, os Estados apropriaram-se do que a Igreja se tinha apropriado, não menos bruscamente, havia bem menos que meia dúzia de séculos (!) através do famoso decreto Tametsi.
Dir-se-ia mais claramente assim: a Igreja, com a aguda perspicácia das diversas plataformas de influência que a caracteriza, apropriara-se da nupcialidade para se apropriar da fertilidade (força máxima na vida dos povos); o Estado veio a seguir e tirou a taça à Igreja.
Ao fazê-lo levou a taça inteira, que ia agora grandemente enriquecida com o que o génio criativo dos canonistas tinha dado ao mundo: a ideia de tratar sob a pesada artilharia conceptual de pressupostos, requisitos relativos às partes, formalidades, jurisdição, invalidades negociais - enfim, à luz tudo aquilo que caracteriza a técnica normativa dos contratos - o que antes se encontrava fluidamente deixado aos costumes sociais.
A Igreja não largou a taça de boa vontade e houve tensão, houve debates acaloradíssimos. Damo-nos conta com muita clareza da estridência dessa disputa no que se pode ler a propósito da instituição, ou não (e se sim, a obrigatoriedade, ou não) de um casamento civil (subproduto interessante aqui, continuando a ser a obra de referência, totalmente omissa nas missas universitárias portuguesas, a de Schwab, Grundlagen und Gestalt der staatlichen Ehegesetzgebung in der Neuzeit bis zum Beginn des 19. Jahrhunderts, Verlag Gieseking, Bielefeld 1967).
Quase nada mudou nessa sucessão de "donos" do assunto, com excepção de um aspecto imerecidamente silenciado: é que, fiel ao seu ponto de partida, a Igreja considerava e continua a considerar que a incapacidade para procriar afecta a validade do casamento, enquanto o Estado, não. O que não é coisa de somenos para deslindarmos o emaranhado da questão.
Que as instâncias do poder discreto - por oposição ao contínuo, o que se encontra em tensão com o poder instituído formalmente - se vergaram, ao longo de uma gorda meia dúzia de séculos, à ocupação normativa, pela Igreja ou pelo Estado, de um modelo de vida interindividual cuja descrição acabou por ser transposta numa fórmula (supostamente) prescritiva, isso já todos o sabemos. Tanto é assim que nunca ninguém em seu perfeito juízo pretendeu que casar-se com alguém se resumiria a observar a lista dos "deveres" conjugais enunciados na lei (respeito, fidelidade, coabitação, assistência e cooperação, na versão actual - e por pouco, believe me!, não consta o "dever de amar" (mas não esse, que subsistiu com a designação de "débito conjugal"), que chegou a ser discutido para essa matriz que é o código civil francês...!) - não é isso, nas nossas vidas, e mesmo na nossa cultura, o que é o casamento. Mas é incontestável, todavia, que a ideia de nupcialidade regular, de casamento, passou a conter um elemento essencial de institucionalização com intervenção das estruturas jurídico-estatais.
Assim, nas nossas convicções sociais, antes ainda que nas representações jurídicas, passámos a considerar que "casamento" é uma coisa em que há formalização, celebração, dimensão legal; adquirimos isto há relativamente pouco tempo e damos isto por uma grande verdade. Uma vida em comum sem tal formalização não é casamento, ou se pretendemos que é, fazêmo-lo com um sentido de crítica social, de crítica aos costumes (ao contrário, pois, dos romanos, que se bastavam com pouco mais que os factos da vida em comum).
Outro aspecto relevante para se equacionar adequadamente a questão da admissibilidade, ou não, dos casamentos homossexuais, é o que se refere ao próprio conteúdo e natureza do vínculo, ponderado agora do ponto de vista institucional-normativo, isto é, depois - e no contexto - da sua absorção pelo Estado.
Neste aspecto, ao lado da manutenção de um regime de celebração onde permanece totalmente reconhecível a "invenção" do "contrato de casamento" pelo direito canónico (formalidades, impedimentos, casamento putativo), deparamos com um conteúdo caracterizado por uma antes inimaginada multiplicação da eficácia legal do casamento.
É que aquilo que hoje se apresenta como "casamento" é um quid gerador de reflexos jurídicos que não estavam nem de perto, nem de longe, quer na extensão, quer na sua densidade actual, no horizonte de problemas tanto das sessões do concílio de Trento, como das discussões sobre o casamento civil. Efeitos sucessórios, fiscais, relativos ao arrendamento, a prestações sociais, à administração e disposição de bens, etc.
Ora, se o casamento perdeu a sua vocação inicial de berço da procriação, ao ver a sua validade emancipar-se da fertilidade e ao ser revestido de uma multiplicidade de efeitos jurídicos dos quais a presunção da paternidade marital é apenas um entre outros não menos característicos, então o casamento legal deixou de estar, numa medida proporcional, justificado pela necessidade da heterossexualidade. A não ser que fosse prevista uma fórmula equivalente para a hipótese de homossexualidade - mas isso não acontece em Portugal, nem é muito claro que fizesse algum sentido do ponto de vista da arte da boa legislação (não mencionando sequer a questão da constitucionalidade de semelhante nuance).
Com a mudança de (auto-pretenso) suporte dessa instituição social (Schwab usa a expressão Träger), isto é, com o trânsito para o domínio dos Estados, para o sistema jurídico dos Estados constitucionais, redefinida necessariamente ficou - ainda que isso tenha permanecido algum tempo na penumbra - a justificação dos regimes (legais) sobre o casamento.
Este ponto é sistematicamente omitido nas discussões sobre o assunto do enquadramento constitucional e legal do casamento dos homossexuais, com prejuízo da boa enunciação dos problemas. A este respeito, a pergunta relevante é: como se justifica do ponto de vista ético-político-jurídico, isto é, constitucional, a existência de uma regulamentação legal do casamento? Querendo responder que se justifica, há que mencionar, para além da questão da procriação, que permanece facultativa, a circunstância de uma disciplina jurídica do casamento proporcionar um pacote de efeitos jurídicos que se apresentariam particularmente adequados às circunstâncias da vida das pessoas.
O casamento que nós temos aí nas legislações europeias, na nossa, não pode ser visto como um modo de intervenção do Estado sobre a sexualidade (isso não está, como é pacífico, dentro das funções de um Estado constitucional), nem pode ser explicado como um modo de consagração pelo Estado de um modelo de moralidade social (o que não está também dentro das funções do Estado constitucional). O casamento, enquanto modelo social de organização da vida, pode continuar a ser tudo o que se bem quiser, com maior ou menor transcendência e conteúdo, para todos os outros efeitos - simbólicos, religiosos, existenciais - mas juridicamente tem de ser visto necessariamente como um pacote de efeitos jurídicos cuja existência é explicada, justificada e fundamentada pela Constituição.
É útil chamar agora à discussão a união de facto. Uma larga parte dos efeitos jurídicos que vinham originariamente reservados ao casamento foi sendo expandida, em respeito a ideias de igualdade com suporte constitucional, por legislação mais ou menos explícita emitida ao longo dos últimos trinta anos, para ter em vista o caso português, para a fórmula de conjugalidade natural que é a união de facto (há quem fale a propósito, em regresso à "boa companhia dos romanos"). No entanto, alguns desses efeitos - os sucessórios, em particular, e, em geral, toda a definição jurídica e simbólica do "estado civil" - continuam a ser próprios, em exclusividade, do casamento, ao qual, à luz do teor literal da legislação actual, só têm acesso pares heterossexuais.
O que andamos a discutir é, portanto, se é legítimo ou não excluir do acesso a esse pacote de efeitos jurídicos as uniões homossexuais.
É irrelevante se a sociedade considera que uma união de dois homens é como - a mesma coisa que - uma união de um homem e uma mulher ou como uma união de duas mulheres. Duas dadas situações podem ser distintas do ponto de vista de certas representações sociais e serem aglutinadas numa única para efeito de outra classe de artefactos. Aliás, essa é uma característica da linguagem jurídica, melhor, da linguagem da normas jurídicas que, por isso, se dizem revestidas de abstracção. Por exemplo: o senhor passadito a ferro que sai todas as manhãs de fato e gravata para as suas funções importantes num banco qualquer é, perante a sua entidade patronal, portador do mesmo pacote de efeitos jurídicos abstractos que a sua empregada ucraniana que lhe passou a roupa a ferro. Ou outra: os efeitos do contrato de compra e venda de uma livro são os mesmos que os de uma prancha de surf.
Voltando, para rematar, ao problema: a história e a biologia explicam porque é que o código civil define o casamento (legal) como um "contrato entre indivíduos de sexo diferente" mas essas circunstâncias são destituídas de importância perante o programa legislativo do Estado constitucional que temos e, mais particularizadamente, perante a justificação da disciplina jurídica do casamento (um pacote de efeitos jurídicos, cuja atribuição depende de certos requisitos, um dos quais tem sido a heterossexualidade).
Na verdade, o reconhecimento legal dos modelos da conjugalidade, seja hoje a matrimonial em sentido estrito, seja a da união de facto, não se baseia, nem poderia basear-se, nas circunstâncias da sexualidade, que é assunto juridicamente irrelevante, nem da procriação, que deixou de ser o centro de gravidade da existência de regras relativas ao casamento, mas sim na supremacia da dignidade do indivíduo, o qual é o alfa e o ómega da Constituição, e no que daí resulta quanto às tarefas do Estado. É a supremacia do indivíduo, em cuja dignidade a República Portuguesa se baseia, recorde-se o artigo 1º da Constituição, que comanda a protecção da família e do casamento.
Com isso do que se trata é de estabelecer um reconhecimento, com efeitos jurídicos concordantes, das circunstâncias existenciais da rede social de apoio de cada um, a qual, no que respeita às relações entre adultos, tem a sua expressão máxima nas uniões de partilha de vida.
Assim, a questão do casamento dos homossexuais não tem a ver com sexo, nem com moralidade, nem com opções políticas; tem a ver com acesso ou não acesso a pacotes de efeitos jurídicos, com indivíduos, com cidadania. Se tiver a ver, para além disso, com a renovação das pautas da consideração social, como parece que também tem, isso já é ainda um outro assunto.

3.2.06

SMS - Save My Soul!

Tenho um telemóvel novo. Traz uma mensagem pré-gravada que diz assim: amo-te. Vou ler o livro de instruções e gravarei uma outra: tb eu.

Era uma vez uma senhora e um senhor

Era uma vez uma senhora e um senhor. Como não desgostavam da companhia um do outro nos momentos médios e mauzitos e, para além disso, gostavam muito de brincar em conjunto aos médicos e às enfermeiras, às alunas e aos professores, aos polícias e aos ladrões, ao ali babá e as quarenta ladras, ao truca-truca na cozinha, ao quickies around the world, ao gato e ao rato, ao gato sapato, ao menino e à menina, resolveram casar. Tinham um godemichet de última geração, comprado através da Internet, que lhes era muito prático porque ele, ele gostava de ser a enfermeira, e ela, ela gostava de ser o médico que tratava da saúde à enfermeira e para isso precisava de se explicar devidamente. Casaram e foram muito felizes. Ou melhor, foram muito felizes, porque os sexos, os sexos eram diferentes, e assim, casaram. Nunca ninguém soube que ele era ela e ela era ele.
Uns anos depois ela cansou-se daquilo e disse:"agora quero passar a fazer de mulher". E ele disse: "está bem". E elas as duas agora: "somos tão felizes...".

2.2.06

Que me queres tu, a mim,...

... que me queres tu, de mim, Luís? As minhas manias? Pois sim...
Depois de destampadas pela remoção da mania primeira e rainha de todas as outras - a de que não tenho manias nem hábitos firmes -, começam a surgir aos magotes, vejo que nem sequer em fila indiana!, golfadas e golfadas de manias.
Lanço a rede e apanho algumas das gordas: a mania de que sou tão discreta, tão discreta, que até nem pareço discreta, a mania de que é possível, a mania de que as virtudes são o caminho do bom e do belo e que eu hei-de libertá-las do moralismo. Tresmalhava-se agora esta: a mania de me soltar de toda a tralha, coisas, objectos, colecções (excepção feita a livros, ou nem isso, e excelentes instrumentos de cozinha).
Se eu andar a ser bem sucedida, estas manias não são novidade para quem me conhece, daqui ou de qualquer outra pastagem.
E tu, Afonso Bivar, que dás alma e luz ao bombyx mori?
E tu, Lutz, que adestras meninas quase quase em português perfeito, tens alguma escondida?
E tu, JMNK, que dessa descrita hieroglífica pões por aí a soar sons generosos?
E tu, Sara, atrás do vidro duplo, tão claro, tão transparente?
E tu, André Carapinha, com pertinência matemática, em 2+2=5?
Que manias*?
*Regulamento: "Cada bloguista participante tem de elencar cinco manias suas, hábitos muito pessoais que os diferenciem do comum dos mortais. E além de dar ao público conhecimento dessas particularidades, tem de escolher cinco outros bloguistas para entrarem, igualmente, no jogo, não se esquecendo de deixar nos respectivos blogues aviso do "recrutamento". Ademais, cada participante deve reproduzir este "regulamento" no seu blogue." [Publicado em local de estilo]

1.2.06

Manual de instruções #13

Não se representa bem com os olhos enevoados de lágrimas e a pingar do nariz, nem se pensa bem dentro de um corpo abandonado e sedentário.
[Mexam-se, meninos!]

Roendo um pastelito de bacalhau em Hyde Park

Lá me infiltrei, disfarçada de pastelito de bacalhau, não fosse darem por mim, para ir ver e ouvir o Bill Gates. Tinha de ser, gosto de cheirar as pessoas que fazem coisas. Ouvi-o mencionar os blogues como uma poderosa ferramenta de expressão e de comunicação que hoje está ao dispor de qualquer um (não será bem assim, mas para lá caminha). Básico e simples. Chamo a esta visão dos blogues a versão Hyde Park da blogosfera (estou a usar expressão que li bloggures, sem me lembrar onde, e rendo homenagem ao autor desconhecido).
Não tenho conhecimento - penitencio-me pela falha eventual - de nenhum orador do Hyde Park que tivesse passado direitinho para a Câmara dos Lords, para o Times ou para qualquer outro patamar de exposição em carne e osso do talento. E isso não é falha dos caixotes em que se toma a palavra, nem do regime de admissão nas veneráveis instituições mencionadas. Na versão Hyde Park, são as palavras, as ideias, que giram e circulam; não são os indivíduos que se movem, não há fusão de mundos, não há convergência no instituído.
Recentemente, depois de quatro meses na blogosfera activa, dei-me conta de que há uma outra orientação, que é a versão cenário. Faz-se disto uma comunidade, com mercado, profissionalização, tendências, papas e cardeais, preitos de vassalagem, tornitruâncias, cumplicidades, gritos de Ipirangas, fusões e secessões, enfim, uma cidadezinha em ponto pequeno e à escala humana, com os compadres e as comadres, dando-se os bons-dias e dois ou mais dedos de conversa, arrastando as caudas, os mantos, os emblemas e os chifres próprios das trocas e baldrocas do convívio civilizado.
Nesta versão cenário, evoca-se o mundo real, integra-se o cenário, que afinal é mimético, nas coordenadas do mundo. É claro que este mundo blogosférico é virtualmente tão real como qualquer outro dos nossos conhecimentos, mas o que é interessante é saber se mantém ou não uma lógica vadia, se se afina ou desafina pela toada de outras comunidades já constantes dos mapas tradicionais, se absorve ou não absorve as hierarquias comuns. A versão cenário vai no sentido da fusão. Se um destes dias começar a encontrar publicidade a blogues por essa cidade fora, nos jornais, na rádio, pelas ruas, concluirei que ficou consumado mais este mapa cor de rosa. Nada contra isso, excepto quanto ao achatamento da paisagem; até porque Hyde Park é vivaz e dá-se bem com a periferia.

31.1.06

Mulherzinhas históricas

Parecem duas irmãs, estamos à espera de as ver criar rabo e duplo queixo, com um ou dois filhos, maridos, cunhados e sogras, vestidos de casamento tipo suspiro de poliéster. Uma olha de frente e é risonha, a outra sorri com ironia. Já deram, aposto, para muitos peditórios de gajas assim ou assado, de pouca-vergonha, de fufas, de cerveja e tremoço. Foram com outros antes mas isso não interessa. Passaram possivelmente por uma bata de serviços de limpeza, conheceram-se talvez na carrinha do aspirador. Agora estão naquela, uma com a outra. Será mais ameno. Acho-as perfeitas na mediania. Querem casar uma com a outra mas os sexos não são diferentes. Vão fazer história.

Enquanto não chega o dia 4 de Abril de 2048

Segundo o link que encontrei no Xicuembo, expira a 4 de Abril de 2048 o meu prazo de validade, se eu ainda andar por aqui.
Reparando na data, ironicamente cheia de números pares, encontro uma razão hipotética para a minha preferência por números ímpares.
Tudo isto recorda-me um velho problema: o que fazer dos meus dias. Dos meus minutos. Das minhas quinzenas. À primeira vista, sobra-me tempo. Basta-me um segundo, este. Este que passou ou o que vem já agora ou logo ou depois. Fico inteira no tempo de um segundo feliz.
Via Xicuembo, dizia eu, onde hoje também se oficia caligraficamente, tomado daqui.

Do mulherio criativo


Martha Graham. Lamentation.

30.1.06

Lamentações oblíquas

Martha Graham, Lamentation ( oblique), 1935

São cerca de cinquenta os dias que faltam para o Inverno terminar e não são os mais fáceis.

Postas literárias de cacaracá*

Todas as que se inspiram no sarcasmo, essa forma de mau hálito.

*ortografia corrigida

Serviço de cicerone*

Estimadas visitas do Quase em Português:


O quadro do precoce rapazinho alemão é o da Madona da pêra. Se Vossas Mercês se interessarem, temos mais alguns aqui em exibição, com excelente fruta, sem sair da mesma variedade. Há cravo e pêra e pêra e canela; também temos sem pêra mas com linhas.


PS: Possuímos ademais excelente serviço de apostas com palpite já formado a propósito da próxima playmate do Lutz, identificado que está o colega de jogos italiano - um rapazinho, com aquela cara de bonzinho, que se tornou num bom atrevido, oh sim..., pela maciota.


* Gratificação não incluída e bem-vinda.

Palavras larvas

Imperdível. A única coisa imperdível que conheço é a sombra, e mais ainda a da morte. Ouvida mais que uma vez por ano, traz más vibrações ao tímpano. Deslarve-se.
Obviedade. Encontro, finalmente, a palavra recenseada em dicionário. Que alívio assim ficar desonerada de suprir - a que seria - tão pesada falha. Posso arrumar no armário a obviosidade que me despontava na língua, à sombra da ignorância. Desfungue-se.

Vitrina


O vestido do Mal. Duplamente aconselhado.

28.1.06

A doçura do espírito e das palavras

DÜRER, Nossa Senhora da pêra. 1512
A pêra foi agora cortada e o menino toma-lhe a lição de doçura. Nunca foi criança tão irrequieta, nem nunca tão crioulo como aqui. Doce na boca, doce nas palavras, o menino aprende a lição da pêra. Uma cinza dourada desce apenas até à fronte de ambos. Doçura de claridade nas mentes. A lição é a da sabedoria. O menino aprende-a.

Manual de instruções #12

É recomendável exercitar a memória. Não confundir com fantasia.

27.1.06

O prato da casa

Não se mostra o que não há que mostrar, pois, ao contrário de outros, este é verdadeiramente um blogue de família, mas eis aqui o momento em que é adicionado o leite à sopa de peixe.

Nas costas do sabayon

Depois de ter gorado a produção de um brioche na semana passada - a massa azedou, pá, o fermento era bera, comecei-o cedo demais, diz ao Alves que talvez sim talvez não e passa-me aí o sal - empreendi um sabayon. Para réussir há aquela manobra de bien fouetter. Pois não é que entre o ir e o vir da vareta dou pelo bombyx mori antecipando a Primavera (afinal, 'tadinho, que valente!, recompôs-se bem dos cansaços...) com toda a sorte de jogos de sociedade e anúncios de damas primeiras?! Não lhe bastavam já as meninas?! Ó sáchavor! Aquilo é mesmo assim ou as folhas de amoreira foram substituídas por outras ainda menos canónicas?! E como é que se faz agora com o respeitinho?!
[Que é como quem diz: que bom o bombyx ter voltado, como anda inspirado e que bela companhia lá se fez!]
(aditados)

Pergunta dietético-prescrutiva

É perrexil?

Pergunta fora do tempo

Que horas são?

Pergunta género-paisagística e sua amena resposta e é pró menino e é prá menina

E é pró menino:
O que é que um alemão em Portugal faz com a paisagem natural?
Naturezas femininas coleantes.

E é prá menina:
O que é que uma portuguesa na Alemanha faz com a paisagem natural?
Mansas naturezas masculinas.

[E já agora, parabéns Helena, nunca vi uma paisagem tão próxima do corpo masculino! Bem achada!]

Pergunta perguntadeira e sua responsiva resposta

O que é que as comemorações de Mozart têm de bom?
Mozart.

Pergunta de algi-beira e sua cão-petente res-posta

O que é que dói na Beira?
Dói o frio de cão na ovelha.

23.1.06

Romance avant la page

Kandinsky, Composição X. 1930 ['clic'!]

Xisdécimo par sob a indiferença monótona da lua. Os clássicos são sempre os clássicos e uma rosa é uma rosa é uma rosa. None's place. É cedo ainda. Rodopia.

A vida

Pois continua, Lutz. Segue-se o que se segue. Atentemos.

Nem vitória estrondosa, nem chumbo maciço.

Cavaco Silva e os seus apoiantes festejam e têm motivos para isso porque ganharam. A esquerda perdeu. Que a vitória não foi ribombante, já se sabe (hoje no Público consta 50,59%, a taxa de abstenção vai pelos 37,39%). Em qualquer caso, foi uma vitória. Que não foi estrondosa. Tal como o chumbo da esquerda não foi maciço.
Efectivamente, considerando que a candidatura de Cavaco Silva se tratou da única candidatura da oposição (não o eram nem a candidatura de Alegre, pelo berço ideológico, nem as de Jerónimo e Louçã, pela posição no espectro das tendências), que ainda por cima se centrou num candidato de tipo impoluto fazendo promessas ortopolíticas e, com frequência, enfatizadas à esquerda com promessas de prosperidade e honra em tempos marcados por angústia social, aumentos dos preços, descida dos benefícios e algum miserabilismo nacional, considerando também que o espaço político de apoio a essa candidatura foi o da direita toda inteira (una e individida) e que a candidatura beneficiava, desde o início, de um etos triunfante - considerando, pois, tudo isto - sou levada a concluir que Portugal continua a ser um país maioritariamente situado à esquerda.
A não ser, claro, que uma acentuação do discurso de direita na candidatura de Cavaco Silva tivesse conseguido sensibilizar essa faixa escura da abstenção, revelando o verdadeiro sentido das suas inclinações políticas. Não creio, no entanto, pensando nos abstencionistas que conheço (e sobretudo, pensando na natureza dos argumentos que utilizei para os mover e que não produziram qualquer efeito) que nessa faixa abstencionista resida um núcleo puro e duro de um Portugal de direita desconhecido.
No entanto, a conclusão de que Portugal continua a ser um país maioritariamente situado à esquerda é a que conduz a apreciações mais severas para os partidos de esquerda, principalmente para o PS, em particular quanto à capacidade de sensibilizar e de mobilizar a comunidade para desígnios conjuntos.
Mas não relaciono com isto, pelo menos significativamente, os resultados de Manuel Alegre. O voto em Manuel Alegre foi seguramente um teste ao carisma de Sócrates, ao PS de Sócrates, que não correu muito bem, mas foi ainda um voto materialmente socialista - o que mostra que a nupcialidade do PS com o eleitorado não se encontra em fase francamente crítica, já que ela é composta, pelo menos, pela soma das candidaturas de Alegre e Soares (acrescento a taxa negativa da posição no governo).
Por outro lado, a candidatura de Mário Soares era tão intensamente marcada pelo carácter inusitado e desconcertante das suas circunstâncias pessoais, o que requereria, de facto, um tempo de aceitação e adesão superior ao que aconteceu (para além, claro, da eventual dificuldade suscitada pela questão monárquica), que a deslocação do voto para Manuel Alegre tem, a meu ver, muito pouco significado. Quase apetece dizer que bastava estar ali colocado e estender os braços para recolher os votos e que a empenhadíssima campanha teria sido apenas e sobretudo para dizer que estava ali alguém.
Assim, quanto ao PS não creio que tenha havido "um cartão amarelo", nem quanto a Cavaco Silva se pode dizer que o país o recebeu de braços abertos.
Em termos de afirmação individual, entendo que o vencedor, porque o que palmilhou mais espaço, foi Jerónimo de Sousa. O facto de assim ser é um contributo importante para a democracia, que só tem a ganhar com a credibilidade dos seus agentes. Ademais, a direita trauliteira não merece que lhe dêem de borla cromos castiços à esquerda. A aristocracia de Jerónimo é água pura, sombra fresca, pensando nos maneirismos benzocas ou grunhificados da direita corrente.
De Louçã só direi que entendo que fez bem o que tinha a fazer e que me apraz ter visto que conseguiu evitar a grandiosidade do mártir quase até ao fim, até ao discurso terminal.

Cenas do próximo episódio

Alegre leva tautau do PS depois do PS ter levado tautau do país. Embora Soares seja fixe. Que é.

22.1.06

Isto não começa nada bem

O discurso da vitória foi fracalhote e pardo, não foi o milagre das rosas das ideias. Só o agradecimento final fugiu à platitude. O Carlos Indico quase que lhe apetecia ir para as estranjas...

Queridos dois terços de compatriotas que não elegeram Cavaco


Pensem nos aspectos positivos. Temos muitas maneiras de nos consolar e nem todas são solitárias.

Se eu alguma vez

Se eu alguma vez chegasse a conseguir dizer apenas as sílabas exactas que fundissem a ideia e a coisa numa aguda cintilação discreta - e fosse, assim e por causa disso, capaz de gerar sinais da Máxima Reflexão sobre a Vida - seriam coisas assim que eu poria.

Tempo de encomenda

Parece-me ser isto um factor favorável à acentuação, hoje, da tendência -1%: veja-se onde nubla e onde não. O brioche leveda ainda. Preparai as taças!

Sem cor e sem título

Rui Guerra

21.1.06

Deixa sangrar, caramba!



É assim que os amores para olvido devem ser tratados*: não esquecer envelopar a genitália, o ventre outrora patinável e a zona circundante da glote, por vezes tenra. Não vale a pena o paninho quente.
E agora, vou apanhar ar.

Nitsch ad, ab nichts!

*Rectificação, interrompendo o arejamento: este post é o resultado da minha latente natureza masculina, já que foi produzido sob a influência do chamado espírito play station (Because men, generally, have PlayStations, lembrou a Inês recentemente). Digo que são os "amores" que devem ser tratados dessa maneira, não os "rapazes"! Esses devem ser bem tratados sempre, ainda que não seja porque mais cedo ou mais tarde, se não se desviarem, regressarão aos tratos das nossas sorores, e se não for das nossas sorores será aos dos nossos amigos. Percebo, de acordo com recente lição sobre a natureza feminina, que poderia pensar-se que me referia aos "amados" e não aos "amores". Fica feita a legenda. E agora, vou mas é fazer uma sauna ou qualquer outra coisa delicada, que o brioche continua a levedar e o dia está azul.

Coisas de perfil

Acrescentei uma sílaba ao meu nome, após verificar a exuberante pré-existência de outras blogo-susanas. Ainda passo para Titi. Ou Gudrun. Não gosto, em sede geral, que me confundam com outras. Sem ofensa às susanas que por aí vi, que não desonram o nome.

Da efeméride que 'floréce' e do brioche que 'créce'

No dia 21 de Janeiro de 2006, a véspera, o NYTimes assinalava a morte do Lenine e o nascimento de Balenciaga e de Dior. A palavra efeméride floréce-se-me "au bout des lèvres". Palavra borboleta, tanto mais que aprendo: ephemèron, 'lírio branco, silvestre; animal que nasce e morre no mesmo dia'.
Era a véspera, dizia.
Na melhor técnica, é de véspera que se preparam os brioches.
Ou então, começa-se de manhã cedo e prossegue-se até à hora das vésperas, aí entre as 15h e as 18h. Uma hora mais, para finalizações pouco mais que cosméticas, e temos o brioche pronto.
Mas em qualquer caso, é no silêncio recatado, que se faz a si própria a pujante massa do brioche. Créce e créce e créce.
E vai-se lá e dá-se-lhe o abaixamento.
E ela vai, vai e sossegadinha créce e créce e créce...
Recordo que o brioche, cujo produto final é vagamente aparentado ao pão de leite, é a massa politicamente interessante do cardápio pasteleiro, com uma robustez e com uma substância que fazem do papo-seco um faz de conta* insípido.
Ao contrário do ai de jesus das massas lêvedas, a massa do brioche é posta a levedar, até multiplicar o volume, e sucessivamente abaixada pelo menos duas vezes. Nada de calorzinhos a acalentar a acção tu-cá-tu-lá das moléculas fermentadeiras e fermentativas.
O processo será idealmente todo cumprido ao frio e em sossego, mesmo na adega dizia, se bem me lembro, o grande Escoffier.
Silenciosamente, no recato, no fresco. Na véspera. Créce, créce, ó brioche!

19.1.06

Room service

Pós-post com uns diazitos de atraso (mas antes da referência feita pelo Xicuembo não tinha sentido ser caso deste esclarecimento): Este texto, com link embebido, foi bifado do Hotel Sossego. Assim, tipo souvenir...

Manual de instruções #11

Mesmo que não seja prático dizê-las, é conveniente pensar nas frases por inteiro. Particular atenção merecem as frases em que figura o instrumentório conceptual "bem"; o "bem em si" só se for bemol.

18.1.06

Da virtude no casamento

Vamos lá a ver se percebi bem a Educadora. Não era exactamente por esta e por outras que tais que foi botado o sapientíssimo aforismo de David Mourão-Ferreira: uma pessoa casada, só com outra pessoa casada?

Catrapás pás pás!

Luís: mas não é que é mesmo?!

Ca tem nada na ês bida más grande que amor



Pois não, não tem.

Coisas que em português imesclo não soem dizer-se com tanta limpidez. Um rodriguinho vivaz, oxiúro nos largos caudais do saber-que-se-sente, mina de fininho o sentir e faz do impulso, doença. Trôpega tradição. Mas não menos comovente.

O manuscrito é de Eugénio Tavares.

17.1.06

Retrato



Seria assim. Talvez denso mas não compacto. Cheio mas disperso, ampla malha. As cores seriam simples. Seria assim talvez. Estarias flagrante na ausência.

Sol LeWitt. Wall Drawing #65. Lines not short, not straight, crossing and touching, drawn at random using four colors, uniformly dispersed with maximum density, covering the entire surface of the wall. Pormenor.

It's a gal

Com virtude, sim, e ainda simpatia.

15.1.06

Ratinhos presidenciáveis

Nada como uma boa crise, como a das Oitenta Mil Escutas, para fazer dos candidatos presidenciais ratinhos de laboratório.
Cavaco Silva fechou desmesuradamente a boca e pôs a tocar o hit "não me pronuncio porque não sei do que se trata".
E nesse mesmo dia foi ouvido a prometer ao país, se fosse eleito, um sistema judicial digno e íntegro - a leste, noroeste ou sussudoeste da perturbação gerada pela eclosão da notícia, seja ela falsa ou verdadeira. Incapaz de submeter a (ainda que hipotética) crise a uma análise, a uma perspectiva de acção. Incapaz de levar os factos à teoria e vice-versa. Incapaz de oferecer um ponto de vista, uma orientação. Um ratinho inviável.

Excepção de grave urgência feminil. Sou fêmea e estou-me nas tintas para a pátria


Sendo hoje, domingo, dia de contemplação meditativa e não se tendo recebido a graça do arrebatamento indistinto (a Divina Safo que me perdoe e, se assim lhe aprouver, me inspire) haveria de ser aqui entoada loa à condição masculina no seu esplendoroso viço fenomenologicamente surpreeendida.
Mas não.
Hoje terá de ser diferente. Hoje o mulherio não vem aqui por ser douto e audaz (como já vieram a Anscombe, a Hipatia, a Hipparchia, a Teodora, et cetera), nem vem louvada a condição masculina por ser difícil e bela.
Hoje tenho de esclarecer, sob pena de continuar a ver-me de sono perturbado pela incomodidade de me manter silente, o que verdadeiramente acho que é "ser mulher".
Não percebo - ou talvez, discordo de - o que leva mentes atentas e reflexivas a procurar construir, subtraindo-o à largueza do horizonte, o mausoléu complexo, ataviado mesmo, do que é "ser mulher".
Eu digo-o em duas palavras e não podiam ser mais douradas: é "ser fêmea". Ponto.
Uma mulher é uma fêmea. É um indivíduo projectado para assim participar na nobre tarefa da reprodução.
O que é alguém encontrar-se "como mulher" fora da função de fêmea? Eu digo, no amplo espaço do ser, nada. Só o mausoléu da construção do género permite circunscrever na atmosfera o local desse lúgubre encontro.
Sou uma mulher, sou um indivíduo fêmea. Sinonímia.
E se não fosse fêmea, seria macho. De certo modo não sei existencialmente o que isso é. Da mesma maneira que não sei o que é a experiência de ser avó. Ou ser canhota. Ou ser cega. Ou pensar com palavras chinesas.
Tenho a experiência de existir e isto é o que partilho com os outros. Em círculos mais amplos ou menos amplos, enquanto bicho, enquanto humana, enquanto fêmea, enquanto europeia, peninsular, vagabunda.
É por isso que neste blogue a condição masculina receberá loas infinitas, por ser a forma apetecida da única razão pela qual se é fêmea, perdão, mulher.
É por isso também que neste blogue, que não se arrebata pela forma feminina, embora dela tenha orgulho, não se querem divas, não se querem beldades que não se possam degustar.
Exulta-se este domingo, em excepção, a unidade simples da fêmea, a forma e a função em viçosa sintonia. Ali em cima é a Vitória de Paionios. A ter que ter, a minha pátria são os meus seres.

12.1.06

Homens mecânicos e super-heróis


Já não se fazem como nos anos 30. E depois, passaram a chamar-se outras coisas. Robots. E sei lá que mais.

O caminho da democracia é para a frente

Hoje ouvi Jorge Sampaio e percebi mais uma vez quanto aprecio o contributo que ele deu para a maturidade cívica dos portugueses, desde logo pelo seu permanente muito digno respeito pelas pessoas e pelas instituições da democracia.
Mas hoje compreendi que não estou preparada para sentir saudades dele. Isto deste país, é para andar para a frente, não para trás em matéria de aprofundamento da democracia.

O Estado sou eu - também

A frequência com que a palavra "Estado" aparece nos esforços de legitimação de políticas de direita - vulgo, no discurso liberal - é elevadíssima e torna por vezes a leitura pasmacenta. Sugiro, para quebrar a monotonia, que se diga simplesmente, algumas vezes, "o mal".
Ou melhor ainda que, pelo menos de vez em quando, se dê sinal de estar a verbalizar significativamente e se troque a coisa por miúdos. É que "Estado" está longe de ter um só e um inequívoco sentido e não é, em caso algum, "eles". É sempre um "nós". Somos todos accionistas.

O enfado enorme

Por superficialidade e distracção - que mais?! - não me tinha apercebido que os tempos iam de júbilos e, cidadã desleixada e tendencialmente relapsa, estava para aqui apudinada a deixar crescer os pêlos nas pernas, a ferrugem nas juntas e o enfado pela vida na pólis.
Isso já me passou, contudo.
Depois de ver o número de sapateado de JPP a tentar disfarçar o bocejo que é Cavaco Silva com a pretensa hipotonia do povo, logo ali repreendido, recuperei da letargia.
Pela primeira vez associei algo de positivo à hipotética vitória de Cavaco: como é que JPP se colocaria nesse quadro? Especializar-se-ia a dourar-lhe a aridez das ideias ou enveredaria por missão apostólica de educar a populaça impensante?! Coelho e cartola ou malabarismo?
Seria triste enfado para JPP, vendo bem, em qualquer das hipóteses.
Também por este motivo, esperemos que Cavaco Silva continue a perder diariamente o seu 1% higiénico nas intenções de voto, que é um modo tão bom como qualquer outro de (continuar a) perder as eleições. Basta chegar à segunda volta.

10.1.06

Um encontro quase perfeito. Watteau e a Insana


Alô..! Vês-me? Aqui, estou aqui. Isso,

assim

já me vias.

1% a day...

... keeps Cavaco away!

Ao fim de um dia de campanha, menos 1% nas intenções de voto.
Figas insanas para que a tendência se mantenha. Abrenúncio.

Não gostei. Gostei

Não gostei:

- de Manuel Alegre, de comitiva e campanha eleitoral com todos, a passear homenagens no cemitério;

- da explicação (?) que Soares deu para deixar de responder aos jornalistas (embora a título individual tenha toda a minha solidariedade, aquilo deve ser um pitéu).


Gostei:

- de ver o senhor que tinha ido ao jantar do Cavaco Silva, com a mulher e a sogra, dizer que estavam lá todos os militantes do PSD;

- de ser entrevistada para uma sondagem. Por alguns momentos, decidi os resultados eleitorais.


E depois? Morreram as vacas e acabaram-se os bois. Sonhar é bom.

9.1.06

Shaw

Demonstração de que sempre há algumas vantagens numa economia de trocas directas - e com a licença de JG, que levou, na troca, a carta de Schiele abaixo postada - apraz-me muito colocar aqui o retrato deste cavalheiro.
É Bernard Shaw e não sei com certezas se a disse ou não, e se o fez onde e como, esta frase que nunca se evapora deste ser: selvagem é o que confunde as regras da sua tribo com as leis da natureza.
O que eu não sabia era que Bernard Shaw tinha esta cara, esta expressão diabinha de mestre de cerimónias de um corpo muito muito diplomático.

Da arte epistolar


Carta de Egon Schiele ao irmão.

8.1.06

Entrada de leão ...

O ímpeto de Cavaco Silva neste primeiro dia de campanha é sinal de que ele afinal andou estes anos todos consumido por contas que teria para fazer com o país? País que lhe andou todo o tempo debaixo de olho, enquanto ele digeria a derrota das presidenciais e esperava, amparado pela sua boa Maria em longas horas de azedume, o momento para avançar?
É que foi isso mesmo o que ele me pareceu: alguém que tem contas a fazer com o país e que se manteve à coca e agora salta para mostrar como é que elas são. Nada de supererogatório, portanto, bem pelo contrário. Isto é "muito político" - já não me espanta - muito mais político do que os políticos criticados por o serem por este político que se chegou há semanas de mansinho afirmando que não era político. Confuso? Não, confusa e pouco transparente foi logo essa retórica da negação. Esse expediente de insinuação a que se segue agora, pelos vistos, o atordoamento pelo espalhafato.

Post postal domingueiro


Reconsiderando; há pontos de vista que merecem atenção, apesar de frequentemente negligenciados.

Postal domingueiro


Kouros. Um bom hábito.

Que livro eu levaria para uma ilha deserta?

Obviamente o dicionário.

Será que ...

... um destes dias vai passar a dizer-se: "ó bruno, 'mô, 'tive a ler o título d' um livro mas não te vou dizer qual era pa não t' influenciar"?

Anamnese @anibalística das presidenciais

A ver se passo pelo Solvstäg para apanhar as gotas contra os ACv'S eleitorais.