27.2.06

And where, oh where, are the naked men?! Aqui, por exemplo


O meu contributo para a questão tocada pelo Tiago. Este senhor aqui está despido há mais de vinte e três séculos e ainda não se constipou. O bom tinto tê-lo-á ajudado, dir-me-ão os meus viris amigos, que gostam de colar nas paredes dos seus blogues senhoras bem recortadas - ou até as gentis amigas que também gostam de pendurar senhoras bem recortadas nos seus blogues, embora não para consumo directo (isto sou eu a supor), antes como quem diz, em ricochete de sedução, "eu quando for grande e sexy hei-de ser assim". Ora, este senhor, passe o mutismo arreliante e a excessiva passividade, tem muito por onde se lhe olhe e é bom que permaneça assim destapado. Quem diz que há uma falta de hábito na contemplação da nudez masculina pode trazer o banquinho e sentar-se pelo tempo que quiser. Quem diz que as mulheres descuram as honras ao belo traçado varonil (excepto se transposto para conta bancária) pode ficar aí a ouvir-me treinar mnemónicas de adjectivos carnívoros ou deglutíveis (ou a ver-me passá-lo a ábaco, nas tabuadas dos dedos), enquanto o meu staff apronta a lista de elogios ao carácter, ao estilo e às qualidades morais.

25.2.06

Prantos e jejum

Em puro espírito do contra, aqui faz-se jejum e alastra-se em prantos. Pranteia-se pelos ritos distanciados. Pranteia-se porque há vozearia barulhenta ou altiva ou com fífia canora ou canónica sem dó ou catatónica moralmente, ou, em qualquer caso, canina. Não disturbar, autodetermina-se. À medida das nossas possibilidades também nos evadimos pelos campos. Lencinho no bolso, pelo sim, pelo não. Na verdade, porém, não é o espírito do contra, sequer; é mais a lamúria dos ritos sonegados e a vulgar questão da supremacia dos limites anatómicos.

23.2.06

Convertida ao poder do amor

Uma nova confissão religiosa alastra na blogosfera. Ele ama-o, até aí tudo bem. E ele, por sua vez, amá-lo-á, por isso, a ele? E a ela, quem a ama? Amar-me-ia ele mesmo a mim da mesma maneira que o ama a ele?! E ela, acharia bem mesmo assim?

Colo, colinho é que era


É o que se dá a Baco quando o passo lhe parece falhar. Isso e não diuréticos. Mesmo que Baco se engane sobre a falsidade dos passos, talvez por efeito - sem causa! - de surpreendentemente insanos hábitos de leitura. A arma rebrilhante, a pontaria afinada, o dedo em riste, é que é pra manter, sáchavôrzinho. Ou tenho de ir buscar as bandeiras?!

Conselho

Um conselho a todos: leiam mais livros e menos blogs. Poupem-se, todavia, alguns; como o que dá tais conselhos.

22.2.06

Manual de instruções #16

Já minha avó me dizia que era indispensável a ablução generosa com água fria para salvaguardar a galhardia do busto, a qual, por sua vez, favorece um modo de vida saudável e socialmente útil. Tal não dispensa as boas alfaias, é certo, mas é já meio caminho andado.
[Instrução afixada na sequência de mais uma extremosa sapiencial ilustração do Afonso Bivar]

21.2.06

Quando soube ao fim do dia

Quando soube ao fim do dia como o meu nome havia sido recebido com clamores no capitólio, ainda assim não foi para mim feliz a noite que se seguiu;
E também, quando brindei ou quando os meus planos se realizaram, ainda assim não fui feliz;
Mas o dia em que me ergui de madrugada em perfeita saúde, refrescado, cantando, inalando o maduro hálito do outono,
Quando vi a lua cheia no oeste fazer-se pálida e desaparecer na luz da manhã,
Quando vagueei só pela praia e, despido, me banhei rindo nas águas frias e vi o sol erguer-se,
E quando pensei que o meu amigo querido, meu amante, vinha a chegar, oh então fui feliz;

Oh então mais doce era o sabor do ar - e durante todo esse dia a comida me alimentou mais - e o maravilhoso dia passou-se bem,
E o seguinte dia chegou com igual júbilo - e com o seguinte, à tardinha, chegou o meu amigo;

E nessa noite, enquanto tudo estava tranquilo, ouvi as águas enrolando-se lentamente continuamente pela praia,
Ouvi o sibilo murmurado das águas e das areias, como se dirigido a mim, suspirando, felicitando-me,
Pois aquele que eu amo mais repousava adormecido junto a mim sob a mesma coberta na noite fria,
Na quietude, no luar de outono, a sua face inclinada para mim,
E o seu braço pousava levemente em torno do meu peito - e nessa noite fui feliz.

Walt Whitman, When I heard at the Close of the Day. Leaves of Grass (1860)
trad. insana

Maçada caótica

As nove dez leis da blogosfera evoluíram para um queixume caótico e prolixo. É pena.

Descubra as manias (quase um passatempo)

Watwood, Music and Poetry. 2000

"A Bês" já tinha confessado manias, uma mão-cheia. Neste passatempo vão outras tantas, directamente do tropel das paixões, para sagazes descobridores. Não houve como resistir ao apelo de quem, também, se desfaz dos livros. Sniperizada.

20.2.06

Rude e esfaimada

Não li hoje jornais, não ouvi notícias, não vi televisão. Não sendo domingo, não me apetece falar dos aleluias à criação, essa excentricidade de cultivar aqui um hábito compassado. O mulherio douto e audaz esgotou-se ao almoço, bem como toda a especulação. Seria caso para falar das minúcias da pesca. De escamas que ficam coladas à pele dos braços, o cheiro a peixe debaixo das unhas. De quando o peixe fila o anzol, a linha retesa, a cana verga. Destrancar o peixe e hesitar se se deixa morrer na asfixia ou se se lhe aplica o golpe. Um murro mal dado estraga o jantar. No peixe, claro. Mas não pesquei; fiz, sim, um pão-de-ló.

18.2.06

O eu sem mim

Era uma amnésia invertida. Sabia o nome, o lugar das coisas, as datas. Elencava sem esforço os principais colunistas de sete jornais, o jantar de ontem e as férias do ano passado. Não havia mistério com horários, preferências dos clientes, encomendas e projectos. Sabia o conteúdo funcional da sua posição na empresa e o seu estatuto na família, na sociedade, situações de trânsito incluídas. Mas perdeu a inteligência da fome. Não se lembrava onde ficava a boca por onde saciasse a fome que o consumiu sem que tivesse chegado a lembrar-se, também, do motivo daquela crescente fraqueza.

17.2.06

Assim


Dürer, Estudo de mulher em movimento. 1528

Rasga-se o gesto e a ideia no espaço de uma só mente.