As notícias sobre as persistentes dificuldades de liderança e de afirmação ideológica do PP deram em parecer-me uma devassa informativa, que arranha já um sentido de pudor. Daquele vazio - que assim o é porque o PP parece insistir em não ver que a Maria José Nogueira Pinto existe e ela, apesar de tudo, não deixa de parecer consentir - surge cada vez mais nítido, em sulcos de baixo relevo cada vez mais fundos, o perfil do Grande Camaleão Bronzeado de Caldas Quibir.
26.3.06
25.3.06
Do mulherio "interessante" em desgastantes movimentos pendulares ou centrípetos
Quando o meu pai dizia "uma mulher interessante" - aliás, "uma mulher de tipo nórdico, interessante", pois naquela altura falava-se à socapa na revolução sexual da Suécia e as Helgas é que estavam com boa saída - nunca era por se tratar de alguém que estivesse a modos de trocar impressões sobre os Kindertotenlieder.
Quando uma mulher, sem pretender com isso fazer uma confissão de conteúdo homolibidinoso, diz o que torna uma mulher uma "mulher interessante" fico inicialmente um pouco baralhada. Depois percebo que estará possivelmente a pretender ensinar os homens. A dizer, nas entrelinhas, como eles devem olhar: em obediência ao modo como as mulheres querem ser olhadas. Ora, toda a gente sabe que isto é simples: se me olham como criatura inteligente, quero que me amem como objecto; se me olham como objecto, quero explicar que é bom terem cuidadinho comigo. Clean and easy! Mais clarinho só com setas!
O que não acredito de todo é que as mulheres consigam imaginar, sem ser por raras guinadas de faro de caçadoras, o que, em cada caso, interessa aos homens, não sendo nada seguro que aquilo em que elas se esmifram em clássicas disciplinas de preparos de sedução coincida minimamente com os gostos da freguesia. E vice-versa. Cada um para si próprio imaginando-se sedutor do outro a partir de lances de sedução fantasista que em nada promovem o entusiasmo do outro, embora contribuam para o fim em vista através do acréscimo de desenvoltura dos sedutores e das sedutoras, sob o efeito da convicção de se estar lançando sortilégios irresistíveis. E todos estão só encantando-se a si mesmos, o que afinal vem a torná-los a eles mesmos encantados e, por isso, mais encantadores para o outro. Vêem como o que digo no parágrafo acima é mesmo simples afinal, comparado com isto?
23.3.06
Ó meu rico santantoninho!
22.3.06
Antídoto paradisíaco
Tal como Gramsci e a sua mãe, o único paraíso que concebo situa-se no coração dos meus.
Ter lugar num coração amável é uma das maneiras íntimas de se sentir com valia, isto é, digno.
Ter lugar num coração amável é uma das maneiras íntimas de se sentir com valia, isto é, digno.
Antídoto com efeitos secundários
Aprendo que o antídoto do sofrimento não é a alegria, não é o prazer. É a dignidade. De súbito entendo os reformados terminalmente sós que se vestem com circunstância e vão aos refeitórios, hieráticos sobre as malgas de alumínio, macios e educados no gesto. E percebo também a importância de uma música, um requiem, uma curva esculpida no momento absurdo da morte ao lado de nós, como formas de declaração da valia da dor, assim a tornando afeiçoada. A estranha realeza na pose dos devastados.
O efeito secundário, a consequência política disso; ou melhor, a importância política deste elemento central da condição humana. Condenados ao sofrimento, resgatados pela dignidade. Fazer por isso.
19.3.06
Manual de instruções #18
Há duas formas de manter os sapatos limpos: transportá-los debaixo do braço ou deixá-los onde estão.
Querido Criador
Escreve-te, não o escondo, uma miúda sem camisola, sem clube. Oiço dizer que ocasionalmente isso não te molesta e só por assim ser me atrevo a dirigir-me a Ti.
Crendo que o facto de hoje ser domingo Te fará estar de mais brando humor que nos outros dias em que te borrifas para as calamidades que nos afligem - alacridade à parte, até compreendo isso, também eu tenho essa tendência de me descartar das responsabilidades que não tenho meios para controlar - vinha aqui sugerir-te um pequeno aperfeiçoamento para a tua próxima criação de Nós.
Pensarás que venho pedir mais eternidade, mais tempo de vida, mais juventude, mais prazer, mais conforto, mais saúde, mais harmonia, mais amenidade das forças naturais, mais beleza, mais equilíbrio na distribuição das benesses, incluindo os talentos, mais talentos, mais alegria...
Bom, nada disso! Para isso já terás todos os teus crentes todos os dias a azucrinarem-Te as divinas antenas e é para mim já claro que ou não queres atender a isso, ou perdeste o livro das receitas.
O que eu Te peço é uma coisa muito mais modesta. Isto, simplesmente: um critério. Dá-nos, da próxima vez que te puseres na plasticina, um critériozinho, uma pauta, um conceito, uma lista já ordenadinha, se quiseres ir tão longe, que sirva para, de uma vez por todas, uma alma penada sem pretensões, nem ambições transcendentes conseguir orientar-se no elenco do que haveriam de ser as suas prioridades. Por favor, um critériozinho para organizar as nossas prioridades! Vá lá! Não há-de ser coisa assim tão inacessível se nos soubeste organizar tão bem o sistema da premência dos desejos.
Insistindo no meu pedido, não deixo de te lembrar que o interesse também é Teu: o assédio pedinchoso dos teus crentes diminuiria pela certa...
Saudações desta tua criada.
18.3.06
A menina que morreu
Encontro republicado o post que me tornou leitora diária do bombyx mori.
O pai salvou-se. A menina morreu.
A menina morreu. O pai salvou-se.
O pai salvou-se.
A menina morreu mas teve um irmão?
A menina morreu mas teve depois um irmão.
O pai salvou-se.
A menina teve depois um irmão, mas morreu primeiro.
O pai salvou-se. Mas a menina não.
O pai salvou-se. A menina morreu.
A menina morreu. O pai salvou-se.
O pai salvou-se.
A menina morreu mas teve um irmão?
A menina morreu mas teve depois um irmão.
O pai salvou-se.
A menina teve depois um irmão, mas morreu primeiro.
O pai salvou-se. Mas a menina não.
Levantam-se*, pf!
Como ele é o meu padrinho nestas coisas (porque comecei a ver blogues e congeminei ter um próprio por efeito da influência dele) e como ainda por cima vou almoçar brevemente com ele, se a minha querida megera da blogosfera não resolver alterar os planos à última hora, estava a deixar-me ficar comprimida na minha vontade de atribuir aqui uma espécie de prémio ao Lutz. Mas aqui vai disto, que já estava a ficar atrasada.
Lutz, faço-te aqui solenemente Grande Cavaleiro da Ordem da Naturalidade Inteligente e agradeço-te o aporte suplementar de oxigénio que lanças para a atmosfera através do QeP.
*Assim mesmo, arranhando no conjuntivo ilógico do nosso linguajar
Globalização da minha confusão
Um solo que eu tinha por sagrado tornou-se o paraíso dos pensionistas gaiteiros. Não sei que pensar disto.
17.3.06
Bons rapazes é por aqui, sff!
Henry Scott Tuke (1858-1929): Ruby, gold and malachiteEste post, em nada desagradado, cheio de bons rapazes, vai dedicado ao João Tunes.
[ohhh, pssst, ohh João, então não topa que aquilo é silicone?! e olhe que não é por despeito...]
16.3.06
15.3.06
Sucessão
A grossa casca
Todos os violentos são portadores de honras sensíveis e de sensibilidades delicadas. Responder a um violento não é um duelo. É um acto caridoso.
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