30.3.06

Aspasia #3

Em casa de Aspasia, Sócrates acabava por sentir o pézinho puxar-lhe para a dança. A coreografia e a retórica, poucos se lembram, foram separadas à jumelar nascença. O mulherio douto e audaz sabe-o, em geral; silente.
Honoré Daumier, Socrates et Aspasia. 1842

27.3.06

Cruel primavera

Chovem telefonemas e mensagens no meu telemóvel em resposta a um anúncio de um chat no qual - quero acreditar que por lapso - surge o meu número como contacto para alguém que pede consolo. Tenho atendido alguns telefonemas. Os cavalheiros que vêm ao engano são tão afáveis, tão delicados no trato que por diversas vezes acabei essas breves conversas em compungidos e sinceros pedidos de desculpa por não ser a J. Custa-me pensar que ela continua, pobrezinha, inconsolada com tanta boa vontade acorrendo ao chamamento. Cruel esta primavera.

Manual de instruções #19

Os melhores rapazes são alimentícios. Pão e pêssego são fórmulas de sucesso. Evitem-se os pudins.

Aspasia #2


O pézinho era ligeiro. Tinha dançado muito antes de Péricles se tornar seu. Enquanto hetaira. Sócrates aprendeu bem a lição de retórica e ela resolveu expandi-lo. Depois do treino, a que ele nunca faltava, foi pedir a Aspasia a lição de dança. Ela disse: é simplex!
Dante Gabriel Rossetti, Aspasia Teaching Socrates to Dance.1864

26.3.06

Aspasia #1

-(clic!) -
Socrates bebendo palavras de Aspasia, a que lavava mais branco as vestes e os argumentos.

[235e] Menexenus : And do you think that you yourself would be able to make the speech, if required and if the Council were to select you ?
Socrates : That I should be able to make the speech would be nothing wonderful, Menexenus ;
for she who is my instructor is by no means weak in the art of rhetoric ; on the contrary, she has turned out many fine orators, and amongst them one who surpassed all other Greeks, Pericles, the son of Xanthippus.
Menexenus : Who is she ? But you mean
Aspasia, no doubt.
Socrates :
I do ; and also Connus the son of Metrobius ; [236a] for these are my two instructors, the one in music, the other in rhetoric. So it is not surprising that a man who is trained like me should be clever at speaking. But even a man less well taught than I, who had learnt his music from Lamprus and his rhetoric from Antiphon the Rhamnusian, — even such a one, I say, could none the less win credit by praising Athenians before an Athenian audience.
Menexenus : What, then, would you have to say, if you were required to speak ?
Socrates : Nothing, perhaps, myself of my own invention ;
[236b] but I was listening only yesterday to Aspasia going through a funeral speech for these very people. For she had heard the report you mention, that the Athenians are going to select the speaker ; and thereupon she rehearsed to me the speech in the form it should take, extemporizing in part, while other parts of it she had previously prepared, as I imagine, at the time when she was composing the funeral oration which Pericles delivered ; and from this she patched together sundry fragments.
Menexenus :
Could you repeat from memory that speech of Aspasia ?
Socrates :
Yes, if I am not mistaken ; for I learnt it, to be sure, from her as she went along, [236c] and I nearly got a flogging whenever I forgot.
Menexenus : Why don’t you repeat it then ?
Socrates : But
possibly my teacher will be vexed with me if I publish abroad her speech.

[Plato, Menexenus; destaques insanos]

Pudor

As notícias sobre as persistentes dificuldades de liderança e de afirmação ideológica do PP deram em parecer-me uma devassa informativa, que arranha já um sentido de pudor. Daquele vazio - que assim o é porque o PP parece insistir em não ver que a Maria José Nogueira Pinto existe e ela, apesar de tudo, não deixa de parecer consentir - surge cada vez mais nítido, em sulcos de baixo relevo cada vez mais fundos, o perfil do Grande Camaleão Bronzeado de Caldas Quibir.

25.3.06

Do mulherio "interessante" em desgastantes movimentos pendulares ou centrípetos

Quando o meu pai dizia "uma mulher interessante" - aliás, "uma mulher de tipo nórdico, interessante", pois naquela altura falava-se à socapa na revolução sexual da Suécia e as Helgas é que estavam com boa saída - nunca era por se tratar de alguém que estivesse a modos de trocar impressões sobre os Kindertotenlieder.
Quando uma mulher, sem pretender com isso fazer uma confissão de conteúdo homolibidinoso, diz o que torna uma mulher uma "mulher interessante" fico inicialmente um pouco baralhada. Depois percebo que estará possivelmente a pretender ensinar os homens. A dizer, nas entrelinhas, como eles devem olhar: em obediência ao modo como as mulheres querem ser olhadas. Ora, toda a gente sabe que isto é simples: se me olham como criatura inteligente, quero que me amem como objecto; se me olham como objecto, quero explicar que é bom terem cuidadinho comigo. Clean and easy! Mais clarinho só com setas!
O que não acredito de todo é que as mulheres consigam imaginar, sem ser por raras guinadas de faro de caçadoras, o que, em cada caso, interessa aos homens, não sendo nada seguro que aquilo em que elas se esmifram em clássicas disciplinas de preparos de sedução coincida minimamente com os gostos da freguesia. E vice-versa. Cada um para si próprio imaginando-se sedutor do outro a partir de lances de sedução fantasista que em nada promovem o entusiasmo do outro, embora contribuam para o fim em vista através do acréscimo de desenvoltura dos sedutores e das sedutoras, sob o efeito da convicção de se estar lançando sortilégios irresistíveis. E todos estão só encantando-se a si mesmos, o que afinal vem a torná-los a eles mesmos encantados e, por isso, mais encantadores para o outro. Vêem como o que digo no parágrafo acima é mesmo simples afinal, comparado com isto?

23.3.06

Ó meu rico santantoninho!

Praxíteles. Hermes e Dionísio. Há vinte e cinco séculos. Vin-te-e-cin-co. Que-temos-nós-andado-a-fazer?!

Pontos nos iis

Concedo: o cristianismo é um dos produtos mais relevantes da nossa civilização.

22.3.06

Antídoto paradisíaco

Tal como Gramsci e a sua mãe, o único paraíso que concebo situa-se no coração dos meus.

Ter lugar num coração amável é uma das maneiras íntimas de se sentir com valia, isto é, digno.

Antídoto com efeitos secundários

Aprendo que o antídoto do sofrimento não é a alegria, não é o prazer. É a dignidade. De súbito entendo os reformados terminalmente sós que se vestem com circunstância e vão aos refeitórios, hieráticos sobre as malgas de alumínio, macios e educados no gesto. E percebo também a importância de uma música, um requiem, uma curva esculpida no momento absurdo da morte ao lado de nós, como formas de declaração da valia da dor, assim a tornando afeiçoada. A estranha realeza na pose dos devastados.
O efeito secundário, a consequência política disso; ou melhor, a importância política deste elemento central da condição humana. Condenados ao sofrimento, resgatados pela dignidade. Fazer por isso.

19.3.06

Manual de instruções #18

Há duas formas de manter os sapatos limpos: transportá-los debaixo do braço ou deixá-los onde estão.

Procura-se

Dono de casa minucioso ou esposa funcional. Oferece-se retribuição compatível.

Quase quase em quadrado


É assim que ponho Max Ernst a jogar xadrez com o Mal.

Querido Criador

Escreve-te, não o escondo, uma miúda sem camisola, sem clube. Oiço dizer que ocasionalmente isso não te molesta e só por assim ser me atrevo a dirigir-me a Ti.
Crendo que o facto de hoje ser domingo Te fará estar de mais brando humor que nos outros dias em que te borrifas para as calamidades que nos afligem - alacridade à parte, até compreendo isso, também eu tenho essa tendência de me descartar das responsabilidades que não tenho meios para controlar - vinha aqui sugerir-te um pequeno aperfeiçoamento para a tua próxima criação de Nós.
Pensarás que venho pedir mais eternidade, mais tempo de vida, mais juventude, mais prazer, mais conforto, mais saúde, mais harmonia, mais amenidade das forças naturais, mais beleza, mais equilíbrio na distribuição das benesses, incluindo os talentos, mais talentos, mais alegria...
Bom, nada disso! Para isso já terás todos os teus crentes todos os dias a azucrinarem-Te as divinas antenas e é para mim já claro que ou não queres atender a isso, ou perdeste o livro das receitas.
O que eu Te peço é uma coisa muito mais modesta. Isto, simplesmente: um critério. Dá-nos, da próxima vez que te puseres na plasticina, um critériozinho, uma pauta, um conceito, uma lista já ordenadinha, se quiseres ir tão longe, que sirva para, de uma vez por todas, uma alma penada sem pretensões, nem ambições transcendentes conseguir orientar-se no elenco do que haveriam de ser as suas prioridades. Por favor, um critériozinho para organizar as nossas prioridades! Vá lá! Não há-de ser coisa assim tão inacessível se nos soubeste organizar tão bem o sistema da premência dos desejos.
Insistindo no meu pedido, não deixo de te lembrar que o interesse também é Teu: o assédio pedinchoso dos teus crentes diminuiria pela certa...
Saudações desta tua criada.

18.3.06

A minha manhã


Min Tanaka.

A menina que morreu

Encontro republicado o post que me tornou leitora diária do bombyx mori.

O pai salvou-se. A menina morreu.
A menina morreu. O pai salvou-se.

O pai salvou-se.
A menina morreu mas teve um irmão?
A menina morreu mas teve depois um irmão.
O pai salvou-se.
A menina teve depois um irmão, mas morreu primeiro.
O pai salvou-se. Mas a menina não.

Levantam-se*, pf!

Como ele é o meu padrinho nestas coisas (porque comecei a ver blogues e congeminei ter um próprio por efeito da influência dele) e como ainda por cima vou almoçar brevemente com ele, se a minha querida megera da blogosfera não resolver alterar os planos à última hora, estava a deixar-me ficar comprimida na minha vontade de atribuir aqui uma espécie de prémio ao Lutz. Mas aqui vai disto, que já estava a ficar atrasada.
Lutz, faço-te aqui solenemente Grande Cavaleiro da Ordem da Naturalidade Inteligente e agradeço-te o aporte suplementar de oxigénio que lanças para a atmosfera através do QeP.
*Assim mesmo, arranhando no conjuntivo ilógico do nosso linguajar

Globalização da minha confusão

Um solo que eu tinha por sagrado tornou-se o paraíso dos pensionistas gaiteiros. Não sei que pensar disto.

Esta manhã




Esta manhã este homem feriu-me.

Não se acredite nas linhas do rosto.

Min Tanaka

17.3.06

Bons rapazes é por aqui, sff!

Henry Scott Tuke (1858-1929): Ruby, gold and malachite

Este post, em nada desagradado, cheio de bons rapazes, vai dedicado ao João Tunes.

[ohhh, pssst, ohh João, então não topa que aquilo é silicone?! e olhe que não é por despeito...]

15.3.06

Sucessão

Barbara MorganDoris Humphrey, (Humphrey Group)

Primeiro perdeu a esperança. Noutro dia acordou e tinha perdido a identidade.

A grossa casca

Todos os violentos são portadores de honras sensíveis e de sensibilidades delicadas. Responder a um violento não é um duelo. É um acto caridoso.

12.3.06

O género elegante

Isto e muito mais para as elegantes visitas masculinas no NYTimes.

Aprender ou não aprender

Aprender, aprendemos. Mas somos muito persistentes no que queremos.
Insisto, repetindo-me.

Think about it!

Puro Becker. Nobel da economia em 1992, para reavivar memórias e espevitar entendedeiras.

Belo sexo, pele de galinha e quotas






Fui criada entre gente morigerada e com tento na língua. Recordo, da infância, que a galinha ainda era alguém numa ementa mais cuidada e compunha-se disciplinadamente de carne branca ou de carne escura, nisso se esgotando o léxico da anatomia. Às vezes os senhores, naquela parte adiantada do jantar que se seguia ao desabamento surdo do esmero dos têxteis, da compostura das flores, do alinhamento militarizado dos copos - quando estes, aliás, passavam a xilofone sátiro espalhado pela mesa - usavam uma expressão que arrepiava a pele das senhoras: o belo sexo. Apesar disso, sou pelas quotas.

10.3.06

Prolegómeno à arte das carícias


Reconhece-te, dizia ele, esta adorável pessoa és tu...
{Calligramme de Guillaume Apollinaire}

Leal traição

Dia após dia eu saio e busco ainda um Diferente
que a todos os trilhos dos campos há muito perguntei
(...)

Hölderlin, com Menon, pranteia por Diotima.

8.3.06

100%

Capote alentejano

Assisti ontem à mais esfacelante peça televisiva de que tenho memória: no telejornal da rtp1 mostrou-se um rapaz de 21 anos, pálido e de dentes cariados, a ver num minúsculo computador (pareceu-me, mas talvez se tratasse de aparelho mais sofisticado) imagens dele próprio que tinham sido captadas dez anos antes, quando ele era simplesmente um pequeno pastorzinho precocemente removido da escola, apesar do gosto e do bom desempenho, por (supostas?) necessidades familiares.
Via-se o rapaz pálido a ver-se, a ele, pastorzinho sorridente e rosado, às ovelhas, que eram brancas, à erva que havia sido tenra. Entrevistado o pastorzinho: uma voz firme, sonhos, certezas de que, inclusivamente, concluiria - aí pelos 21 anos - o 9º ano de escolaridade. Embora dissesse que seria sempre pastor. Isto tudo com sorrisos, olho brilhante e a tal pele tisnada. Um olhar agudo sobre a vida.
Fiquei à espera de ver qual o milagre na vida desta pessoa que se via a si mesma perante as câmaras, perante mim, à distância desses dez anos, no mini computador que lhe assentava nos joelhos. Se seria como as gémeas de Sampaio, por exemplo. Se se teria tornado um pastor cibernético. Se nele tinha florescido um talento que já se vislumbraria na frescura desses anos iniciais.
Nada disso.
Tudo, literalmente tudo, parecia ter sido esbatido na vida do pastorzinho. Até o sorriso tinha ficado ténue. Já nem pastor. O 9º ano tornou-se tão distante que já nem o magoa, uma irrealista fantasia infantil. Pelos vistos, corta e atira para um monte toros de lenha. O olhar desenha uma curva redonda e pousa. A palidez. A única coisa que ele parecia ter conseguido era olhar com naturalidade para as maravilhas da electrónica que lhe tinham posto ao colo. O que só reforçava o tom escurecido dos dentes.
Isto foi mostrado ontem, sem qualquer outra explicação para além da curiosidade de exibir um "antes e depois". Sem mais nada.
Exibido ficou o fracasso organizativo de todos nós, a cegueira ética das nossas prioridades, a mediocridade dos nossos resultados, a indigência extrema com que nos enrolamos ao som do cacarejo de bichas odientas, matronas ressabiadas e emproados de diversas boçalidades. A minha vergonha, também, ficou à tona. Bem como a necessidade de trazer viva a insatisfação que o pastorzinho não pode sequer permitir-se.

6.3.06

Aborletice primaveril cinco minutos antes da meia-idade

Era outra vez um senhor. Que escondia a mulher debaixo do tapete enquanto traía a amante com a rapariga das enciclopédias. Acumulação. Capitalista. Vivia aborrido. Coitado.

Colidildo

Não gosto de fitas com fitas. Gosto de Crash.

4.3.06

Efemérides

A ocasião será boa, talvez, para dizer que a Voz do Deserto é um dos meus blogues favoritos.

A cinzenta sisudez

Só não há um projecto político no sisudismo por falta de engenho e garra; quanto ao mais é a soez ditadura dos medricas.
Post post: A Helena, através do (Q)eP, acaba de me ajudar a perceber que o palavreado é uma forma de sisudismo, inimigo que é da aristotélica preclara insolência.

3.3.06

Bons sensos

Schiele.

E, para já, fim de ciclo. Domingo será dia de aleluia e é necessário preparar o espaço.

1.3.06

Uma pessoa chamada Gis

Estou de acordo com o Luís e através dele com o que leio nos Avatares de um Desejo.
Penso no tempo que por vezes demora a eliminar uma vida. Recordo-me, por exemplo, de uma garoupa que não se despreendia da vida e me obrigou a sucessivas manobras de procura de algum centro vital até que se apaziguasse. O nojo de impor a morte, acredito, progride ao longo da escala evolutiva, desde a animosidade ligeira até ao ódio.
Penso também nas histórias da infância, de pessoas vitimadas por "ataques", que eram veladas agonizando nas suas camas, por vezes dias a fio, sem comer, sem beber, sem falar, talvez sem pensar, e nunca mais se deslindava o estertor final. Penso em alguém que levou uma heróica luta de sobrevivência a dois anos agónicos, até que se foi misteriosamente. Penso como é às vezes resistente esse fio que nos prende à vida, como é às vezes acesa a luta para o cortar.
Penso na quantidade de pedradas, de golpes, de impactos que foram necessários para matar a Gis. Penso na quantidade de energia, de incitamento, de largueza, de esforço. Na persistência de Gis a não morrer, no alevantamento dos ânimos mais e mais agastados, na ebulição de ímpetos, na exaltação do abismo da ira, da repulsa odiosa, na descurada banalidade do mal. Penso se terão sido muito confusos ou muito pacificados os últimos segundos da consciência de si, da Gis. Penso na última centelha do último olhar de ver e no silêncio depois.

27.2.06

And where, oh where, are the naked men?! Aqui, por exemplo


O meu contributo para a questão tocada pelo Tiago. Este senhor aqui está despido há mais de vinte e três séculos e ainda não se constipou. O bom tinto tê-lo-á ajudado, dir-me-ão os meus viris amigos, que gostam de colar nas paredes dos seus blogues senhoras bem recortadas - ou até as gentis amigas que também gostam de pendurar senhoras bem recortadas nos seus blogues, embora não para consumo directo (isto sou eu a supor), antes como quem diz, em ricochete de sedução, "eu quando for grande e sexy hei-de ser assim". Ora, este senhor, passe o mutismo arreliante e a excessiva passividade, tem muito por onde se lhe olhe e é bom que permaneça assim destapado. Quem diz que há uma falta de hábito na contemplação da nudez masculina pode trazer o banquinho e sentar-se pelo tempo que quiser. Quem diz que as mulheres descuram as honras ao belo traçado varonil (excepto se transposto para conta bancária) pode ficar aí a ouvir-me treinar mnemónicas de adjectivos carnívoros ou deglutíveis (ou a ver-me passá-lo a ábaco, nas tabuadas dos dedos), enquanto o meu staff apronta a lista de elogios ao carácter, ao estilo e às qualidades morais.

25.2.06

Prantos e jejum

Em puro espírito do contra, aqui faz-se jejum e alastra-se em prantos. Pranteia-se pelos ritos distanciados. Pranteia-se porque há vozearia barulhenta ou altiva ou com fífia canora ou canónica sem dó ou catatónica moralmente, ou, em qualquer caso, canina. Não disturbar, autodetermina-se. À medida das nossas possibilidades também nos evadimos pelos campos. Lencinho no bolso, pelo sim, pelo não. Na verdade, porém, não é o espírito do contra, sequer; é mais a lamúria dos ritos sonegados e a vulgar questão da supremacia dos limites anatómicos.

23.2.06

Convertida ao poder do amor

Uma nova confissão religiosa alastra na blogosfera. Ele ama-o, até aí tudo bem. E ele, por sua vez, amá-lo-á, por isso, a ele? E a ela, quem a ama? Amar-me-ia ele mesmo a mim da mesma maneira que o ama a ele?! E ela, acharia bem mesmo assim?

Colo, colinho é que era


É o que se dá a Baco quando o passo lhe parece falhar. Isso e não diuréticos. Mesmo que Baco se engane sobre a falsidade dos passos, talvez por efeito - sem causa! - de surpreendentemente insanos hábitos de leitura. A arma rebrilhante, a pontaria afinada, o dedo em riste, é que é pra manter, sáchavôrzinho. Ou tenho de ir buscar as bandeiras?!

Conselho

Um conselho a todos: leiam mais livros e menos blogs. Poupem-se, todavia, alguns; como o que dá tais conselhos.

22.2.06

Manual de instruções #16

Já minha avó me dizia que era indispensável a ablução generosa com água fria para salvaguardar a galhardia do busto, a qual, por sua vez, favorece um modo de vida saudável e socialmente útil. Tal não dispensa as boas alfaias, é certo, mas é já meio caminho andado.
[Instrução afixada na sequência de mais uma extremosa sapiencial ilustração do Afonso Bivar]

21.2.06

Quando soube ao fim do dia

Quando soube ao fim do dia como o meu nome havia sido recebido com clamores no capitólio, ainda assim não foi para mim feliz a noite que se seguiu;
E também, quando brindei ou quando os meus planos se realizaram, ainda assim não fui feliz;
Mas o dia em que me ergui de madrugada em perfeita saúde, refrescado, cantando, inalando o maduro hálito do outono,
Quando vi a lua cheia no oeste fazer-se pálida e desaparecer na luz da manhã,
Quando vagueei só pela praia e, despido, me banhei rindo nas águas frias e vi o sol erguer-se,
E quando pensei que o meu amigo querido, meu amante, vinha a chegar, oh então fui feliz;

Oh então mais doce era o sabor do ar - e durante todo esse dia a comida me alimentou mais - e o maravilhoso dia passou-se bem,
E o seguinte dia chegou com igual júbilo - e com o seguinte, à tardinha, chegou o meu amigo;

E nessa noite, enquanto tudo estava tranquilo, ouvi as águas enrolando-se lentamente continuamente pela praia,
Ouvi o sibilo murmurado das águas e das areias, como se dirigido a mim, suspirando, felicitando-me,
Pois aquele que eu amo mais repousava adormecido junto a mim sob a mesma coberta na noite fria,
Na quietude, no luar de outono, a sua face inclinada para mim,
E o seu braço pousava levemente em torno do meu peito - e nessa noite fui feliz.

Walt Whitman, When I heard at the Close of the Day. Leaves of Grass (1860)
trad. insana

Maçada caótica

As nove dez leis da blogosfera evoluíram para um queixume caótico e prolixo. É pena.

Descubra as manias (quase um passatempo)

Watwood, Music and Poetry. 2000

"A Bês" já tinha confessado manias, uma mão-cheia. Neste passatempo vão outras tantas, directamente do tropel das paixões, para sagazes descobridores. Não houve como resistir ao apelo de quem, também, se desfaz dos livros. Sniperizada.

20.2.06

Rude e esfaimada

Não li hoje jornais, não ouvi notícias, não vi televisão. Não sendo domingo, não me apetece falar dos aleluias à criação, essa excentricidade de cultivar aqui um hábito compassado. O mulherio douto e audaz esgotou-se ao almoço, bem como toda a especulação. Seria caso para falar das minúcias da pesca. De escamas que ficam coladas à pele dos braços, o cheiro a peixe debaixo das unhas. De quando o peixe fila o anzol, a linha retesa, a cana verga. Destrancar o peixe e hesitar se se deixa morrer na asfixia ou se se lhe aplica o golpe. Um murro mal dado estraga o jantar. No peixe, claro. Mas não pesquei; fiz, sim, um pão-de-ló.

18.2.06

O eu sem mim

Era uma amnésia invertida. Sabia o nome, o lugar das coisas, as datas. Elencava sem esforço os principais colunistas de sete jornais, o jantar de ontem e as férias do ano passado. Não havia mistério com horários, preferências dos clientes, encomendas e projectos. Sabia o conteúdo funcional da sua posição na empresa e o seu estatuto na família, na sociedade, situações de trânsito incluídas. Mas perdeu a inteligência da fome. Não se lembrava onde ficava a boca por onde saciasse a fome que o consumiu sem que tivesse chegado a lembrar-se, também, do motivo daquela crescente fraqueza.

17.2.06

Assim


Dürer, Estudo de mulher em movimento. 1528

Rasga-se o gesto e a ideia no espaço de uma só mente.

Subir na vida

Qualquer dia vou colocar aqui neste blogue um link para as referências aos meus textos, em que, se me apetecer, abusarei de aguçados sarcasmos e untuosas bajulices. Mas depois refiro só os que me agradarem. Liberdade de expressão à la ...

16.2.06

Estigma paratemplate

Se calhar vou ter de mudar o nome da caixa de comentários deste blogue para a tornar mais amena ao estremecido cavalheiro. Se não o fizer - acho que é essa a minha opinião, se bem que o processo da opinião e do enigma seja entrelaçado e mutante - colocá-lo-ei num paradoxo se se lembrar de passar por cá. E isso não (lhe) desejo.

Manual de instruções #15

Parir um rato é preferível a parir uma montanha, por isso é conveniente ser selectiva nas exogamias.

15.2.06

Liberdade de pensamento

Oscilam entre o descritivo e o normativo. E são mais lamentações que leis.
Mas se o Papa Abruptus I alguma vez na vida teve razão foi na sua primeira lei, que descreve sumariamente a falta de liberdade de pensamento nos hábitos da paróquia. Ou melhor, descreve a falta de uso, a falta do hábito do uso do pensamento livre.
Assim, quantas vezes o desvio "da posição" é zurzido como contradição, vezes demais, cedo demais, com fervores judicativos e soberanos, a excomunhão sempre a pairar.
Com demasiada frequência, para zurzir melhor a posição contrária, finge-se que o seu defensor é idiota. Base primeira para usar o velho argumento ad hominem.
.
O argumento funciona de modo simples: primeiro, faço de X um idiota ridículo ou um bandido vendido (às vezes com piscares de olhos e outras sinalefas de corte impróprias de uma dama honesta mas abundantemente usadas em diversas confrarias). Ora, é sabido que os idiotas ridículos ou os bandidos vendidos não dizem coisa que preste. Logo, o que X diz não presta.
Um pouco de rodagem nesta habilidade e chega-se à suprema apresentação do argumento. Basta dizer: Fulano disse tal e tal. Desencadeiam-se, de imediato, risos e contorções nas hostezinhas, e por contraste surge A Palavra a Seguir.
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Há outra maneira, mais elegante, mais invisível, de insuficiente exercício da liberdade de pensamento que, aliás, nos primatas superiores creio ter uma função paralela à amorosa desparasitação ou respeitosa apresentação retro-anal entre outros primatas não tão superiores (sempre segundo o superior ponto de vista do primata superior, entenda-se).
É a que se prende com o facto de serem três, e não apenas uma, as vias da persuasão, recordando o que debalde nos tentou ensinar o bom Aristóteles. Recapitule-se: persuade-se pela bondade ou validade do raciocínio (logos) que, para isso, havia de cultivar-se ser claro, ligeiro e escorreito. Mas persuade-se também pelo apelo às emoções (pathos) e ainda pela credibilidade que o orador vê em si depositada pela audiência (ethos).
.
Bem controlada, a confiança na credibilidade do defensor de uma ideia é um instrumento interessante para gerir energias no cansativo caminho do desfiar dos juízos sobre as questões que a maré nos vai trazendo. Ou seja, não precisamos de estar a refazer sempre o caminho todo inteiro; num ponto qualquer podemo-nos basear em alguém com provas dadas de probidade e boa pinta nas ideias.
.
Porém, para além da dose legal, que é homeopática, a confiança na credibilidade do orador é uma armadilha à liberdade de pensamento. Torna-se um encosto e não um apoio; amolece em vez de promover a melhor utilização das energias.
Descontrolada, incontrolada, tornada habitual e, em qualquer caso, para além de um mínimo uso, com parcimónia e condicionalidade, a confiança na credibilidade do orador dá cabo de qualquer debate. Entre o que adere e o orador. Entre os que aderem e os que não ouviram, não conhecem, não seguem, não catam o orador de referência.
.
É necessário debate válido para que a liberdade de pensamento floresça. E valerá a pena dizer que sem ela a liberdade de expressão corre o risco de ser a caixa de ressonância dos pusilânimes, mesmo que se trate de cow-boys ruidosamente armados até aos dentes (e obedientes, e subservientes)?
É necessário debate válido para que a liberdade de pensamento floresça. A primeira lei do Abrupto tem de ser falseada.

Hoje não, amanhã talvez


Mendicante com velo. Turquia. Séc. XVII*

Onde há amabilidade e sabedoria.... *

[post actualizado]

14.2.06

Rumi

O Amor murmura-me ao ouvido:
"Antes presa que predador.
Faz de ti o meu bobo.
Pára de tentar seres o sol e torna-te mancha!
Fica-te à minha porta e faz-te mendigo.
Não tentes ser a luz da vela, sê a traça,
assim possas sentir o cheiro da vida
e conhecer o poder secreto que há no servir".

Rumi, Mathnawi V. 411-414 The Rumi Collection
trad. insana

Serviço de massagista no S. Valentim para corações desamparados



Clique e oiça o coro mavioso: "és o maiiooor!"*

À atenção de todos os cavalheiros temporariamente em deriva solitária.

*alguém que avise o Pedro Mexia, pode ser que lhe interesse também, embora este blogue seja de imaculada candura.

Desblogueando

Elegante.

Boa sorte e melhor inspiração ainda!

Do dia

O post.

Do mulherio bíblico

Cristofano Allori, Judite com a cabeça de Holofernes. 1613

13.2.06

Liberdade

Necessariamente.

Achada de vírgulas e brincadeiras

Eu acho que representar Maomé como um terrorista é um acto tão obsceno, tão vilipendioso para o meu amigo D., que, por acaso, reza a Alá, que fico a pensar se não violará a lei que protege o respeito pelos símbolos religiosos.
Eu acho que, se, por hipótese, essa representação não couber, como acredito que cabe, dentro do que a lei considera crime, representar Maomé como um terrorista depois do 11 de Setembro, depois do 11 de Março, depois do Metro de Londres, quando nos descalçamos nos aeroportos, quando olhamos para mochilas esquecidas e pensamos "será que", quando até se matam brasileiros inocentes por terem um ar vagamente islamizado, é uma alarvidade preconceituosa.
Eu acho que dizer que não pode ser colocada uma vírgula à liberdade de expressão é, eticamente, um rotundo disparate e, quanto às leis existentes, uma completa falsidade.
Eu acho que se pode brincar com tudo. Tal como acho que há actos de agressão disfarçados de brincadeira ou executados através das palavras.
Eu acho que acreditar piamente que os nossos valores de referência são mais intocáveis que os dos outros é obscurantista e nocivo preconceito. Isto aplica-se a todos os que se emocionam com o contraste e correm a pegar nas bandeiras, em ambos os lados.
Eu acho que aqueles muçulmanos que não lêem jornais, nem vêem cartoons e, apesar disso, incendiam embaixadas com os olhos turvos de lágrimas de ódio e redenção pelo sangue, são ignorantes. Tal como o nosso Miguel Sousa Tavares. Que também não me representa.
Eu acho, para acabar esta achada, que os nossos valores de referência são importantes simplesmente porque são os nossos. É quanto basta. Pela mesma razão, os "deles" também são.
*
Post-post: Na achada do Lutz há bom oxigénio e a vista é luminosa.

Só quero que Você me aqueça neste inveeeerno

... e que tudo o mais vá pró inferno...

(surripiado d' aqui)

The rules of cricket

Uma belíssima série corre no ...bl-g- -x-st-.

Da exactidão

12.2.06

As bandeiras

Desfraldam-se ao vento, ambivalentes. Erigidas e por isso rijas, mas coleantes no desfraldar. Atraem os ânimos, excitam os ânimos. Animam os ânimos! Oferecem-se à convergência, à rutilante bravata, ânimo ao alto. Molhada.

11.2.06

Parcerias. Aimez donc, et mourez !










Amants, autour de vous une voix inflexible
Crie à tout ce qui naît : "Aime et meurs ici-bas ! "
La mort est implacable et le ciel insensible ;
Vous n'échapperez pas.




(Louise Ackermann à palavra & Dürer imaginando)

10.2.06

Rapazes da minha estima

Na blogosfera, não desfazendo, há três em especial. E estou desconversada com todos eles neste momento. Não é motivo de júbilo. Acredito que vale a pena expor pontos de vista.
Eu digo que a liberdade não é um fim em si; o Lutz pergunta-me de que fim é então.
Eu digo que gosto das palavras mas não me emociono demais com elas e o Luís pergunta-me se eu discordo dos rapazes da estrada e porquê colocar vírgulas.
Por outro lado, o Afonso toca a rebate por crer que qualquer vírgula na liberdade de imprensa será um silêncio a mais (embora depois, em comentário, suscite a questão da efectividade da própria liberdade de imprensa, a que quaisquer limitações abundariam às limitações já de raíz, se bem entendi, e acrescente, conquistando a minha adesão, que a liberdade de opinião é em si mesma um dispositivo retórico que, nas sociedades ocidentais democráticas, camufla o exercício arbitrário do poder simbólico - o poder de dizer o que e como as coisas são).

Entendo o seguinte:
A liberdade de expressão é meritória como instrumento de afirmação da pluralidade de opinião e como instrumento de acesso às realidades distantes da experiência directa, de modo a que as instâncias de controlo do poder não se alheiem dramaticamente dos interessados. Tudo isto para que a sociedade possa organizar-se e desenvolver-se da maneira mais amena e mais favorável à expansão máxima de cada indivíduo. É abstracto, mas será isto.
Para além deste aspecto, cabe apontar que a liberdade de expressão não é uma grandeza absoluta. Trata-se sempre de alguém a dizer o que pensa sobre alguma outra coisa. E narrá-la-á segundo o seu entender, com a facilidade do altifalante de que dispuser. Controlo sobre a utilização do altifalante, não há. Basta fazer um mídia e já temos altifalante. Sem nenhum caminho de legitimação da voz. Aleatório, no mínimo. Pega-se num altifalante e berra-se literalmente o que se quiser? É bonito, como inspiração para humores épicos. Mas, por favor, não berrem sobre mim o que quiserem, que eu posso não gostar.
E assim, chegamos à questão das vírgulas.
Querem alguns senhores, que fazem profissão no grande trombone que são os mídia, convencer-nos que o nosso acesso à melhor informação, aquela que nos permite realizar as reflexões mais profícuas sobre as decisões e acções a tomar sobre o nosso destino, dependem criticamente da situação de ilimitação na sua actividade. Ora, não acho. Bons elementos e melhor reflexão bastam. Nas ilhas remotas, nos lugares longínquos pode pensar-se e decidir-se racionalmente sobre o mundo.
É poder puro e duro, mas apenas num plano simbólico, o que é reclamado pelos gritos da liberdade de expressão. E não é verdadeiramente de expressão, é de imprensa. Não é da minha expressão aqui que se trata. É da afirmação de uma intangibilidade o que se trata. Ora, poderes absolutos, que não reportam, que não se referendam, não quero eu.
Entretanto, faz-se da face épica de uma defesa de liberdades o elemento de uma luta que protagoniza o choque de civilizações. Lamentável equívoco. Está longe de ser claridade e racionalidade de lés a lés aquilo que anima o nosso lado.

9.2.06

Do mulherio douto e criativo

Mulher livre.

Legenda sobre o post anterior. A liberdade

O post "Inocentes" é uma ironia. Não me orgulho dele porque não o acho conseguido satisfatoriamente.
Na mesma, porém, sustento a ideia: dizer "a liberdade, a liberdade, a liberdade" é um pregão fácil e porventura ligeiro e insignificante.
A liberdade não é um fim em si. Lamento. É um meio indispensável - mas não absoluto - para um fim.
Pode e deve ser limitada à prossecução desse fim. Não pode e não deve ser invocada como valor absoluto se isso limita a boa prossecução de outros meios para o mesmo fim.
A liberdade como pregão é fácil e maleável.
Gosto delas mas não me assusto, nem me hipnotizo com as palavras.

Inocentes

Dá gosto ver por essa blogosfera os rapazes robustos, ofegantes, sangue na guelra, a dizer a liberdade, a liberdade, a liberdade.

PP. Enquanto isso, os opositores à nobre ideia interrompem bruscos a leitura do jornal, degustado todas as manhãs com especialidades exóticas e distribuído porta a porta por um moço de fretes - que ainda é sobrinho do Pai Natal, que por isso lhe empresta amiúde o trenó para entregas rápidas - e correm, bruscos, a incendiar embaixadas. A liberdade de expressão deixa-os assim indispostos, e mais ainda logo no jornal pela manhãzinha, entre a terceira e a quarta dentada. Isso e alguma areia grossa que lhes entre na sandália. Enfim, gentinha...

8.2.06

Londres






Daqui. No Mar Salgado perguntava-se há dias pelos moderados. Estão aqui. Estão a usar as suas liberdades também. Contra extremistas da(s) liberdade(s) de (/na) expressão.

6.2.06

A quem possa interessar

De XXI ao peito ainda a reluzir, cogito: se o fino galanteio é bom, a cavalgação excelente não há-de ser melhor ainda?! Donzéis, à Ensinança, que eu vou também a caminho.
Donzelas avulso, ide por ali.

Manual de instruções #14

Perverso é o Bem que não tem de quem, rombo o que nele se enreda.

Educação dos meninos

















O sátiro é terno.

Santo António vinha longe.

Já o sátiro, terno sátiro terno, tinha barbas.

Este menino safou-se.

5.2.06

Intolerâncias

Contempladas com justeza.

Barquinha de Belém prá Fáfá

- Senhor Barqueiro
Quem leva aí?

-Levo a Fáfá
Como outra não há,

Dim Dem
A que anda por Belém.

Dem Dim
- Leva-me também a mim

- A ti não levo
Que já levo três

Dim Dem
E já tenho entremez.

Dem Dem
- Vou dizer à minha Mãe.

- Vai lá, vai lá.
- Mas dou vivas à Fáfá.

-Muito bem,
muito bem.
-Viv' à Fáfá de Belém.

prontos! ao menos eu.

Vadiando

A passo pelos campos matinais de Palandru num belo domingo azul.

4.2.06

África minha















Gentil.

Do casamento

Na discussão que anda a correr sobre a admissibilidade, ou não, do casamento homossexual seria útil não perder de vista dois ou três pontos respeitantes à própria noção de casamento e ao facto da sua presença no domínio do jurídico.
Para começar, isso que hoje em dia nos parece tão banal, que o "casamento é um contrato" provoca ainda voltas nas tumbas aos bons dos romanos que forjaram a figura do contrato e que nunca, mas nunca de todo na vida, olharam para o casamento como exemplo ou sequer hipótese de semelhante categoria.
Ser-lhes-ia tão aberrante como para nós pensar numa carreira diplomática de burié na lapela e caspa até à cintura. Para eles um contrato era uma acordo de vontades em vista de produzir um determinado compromisso entre dois indivíduos, livremente estabelecido e modelado pelas vontades individuais. O contrato era a expressão da autonomia.
Em contrapartida, o casamento não era sequer uma relação de tipo jurídico, era uma situação social que podia ter alguns efeitos jurídicos. Como é hoje, por exemplo, a figura do noivado. Ou melhor ainda, a união de facto - o casamento romano era simplesmente uma união de facto entre cidadãos (desde que, por exemplo, um deles não fosse um actor e a outra a filha de um senador, aí a coisa já mudava de figura e até de nome). Coisa entregue aos costumes sociais mas cuja disponibilidade cabia por inteiro na mão dos interessados.
Era também, tanto quanto é dado saber, uma coisa heterossexual - o que faz todo o sentido porque o ponto de gravidade não era o que é que os indivíduos fazem com as suas zonas erógenas mas sim um outro, que anda perversa e pudicamente relegado para segundo plano e que de tem de ser trazido de novo à tona: os meninos!
O grande efeito jurídico do casamento era e é (porque cada vez que ocorre é um evento supremamente importante) isto que continua a dizer-se em latim: Mater semper certa est; pater is est quem nuptiae demonstrant. O que tem o nome de presunção de paternidade marital: o filho de uma mulher casada é filho legal do marido e isso é assim porque corresponde à grande correnteza dos factos da vida. Ou seja: quando nascemos, se a nossa mãe - aquela que protagoniza connosco o aparatoso facto da gestação e do parto, e por isso se pode (podia) dizer que era "sempre certa" - for casada, então fica automaticamente estabelecido (até prova em contrário) que o nosso pai é aquele que é casado com a nossa mãe. Se, quando nascemos, a nossa mãe não for casada, estabelecer quem é o nosso pai tem de resultar de actos positivamente desenvolvidos (nem que seja a declaração espontânea de alguém que se apresenta assim, perfilhando-nos). Dispenso-me de desenvolver a importância de se saber quem é o nosso pai e a nossa mãe.
O que efectivamente aconteceu, e que nos seus reflexos hoje sentidos, sobretudo se a memória do passado nos falha, contribui grandemente para a complexidade de todas as discusssões sobre o casamento no seu formato normativo, foi que na folia do movimento de codificação que varreu a Europa continental a partir do fim do século XVIII, que foi também, para além da vertente racionalista, o reflexo jurídico de um movimento de consolidação de fronteiras políticas e também um movimento de consolidação interna do poder, promovendo a homogeneidade da ordem que vinha a pôr-se estabelecida, intra-fronteiras nacionais, contra a tradicional pluralidade dos costumes jurídicos no mosaico europeu, os Estados quiseram também disputar à Igreja a - digamos assim - ownership da direcção existencial, incluindo, desde logo, a que incidia sobre esse momento fulcral das sociedades humanas ou animais, que é o respeitante ao acasalamento reprodutivo.
Na verdade, os Estados apropriaram-se do que a Igreja se tinha apropriado, não menos bruscamente, havia bem menos que meia dúzia de séculos (!) através do famoso decreto Tametsi.
Dir-se-ia mais claramente assim: a Igreja, com a aguda perspicácia das diversas plataformas de influência que a caracteriza, apropriara-se da nupcialidade para se apropriar da fertilidade (força máxima na vida dos povos); o Estado veio a seguir e tirou a taça à Igreja.
Ao fazê-lo levou a taça inteira, que ia agora grandemente enriquecida com o que o génio criativo dos canonistas tinha dado ao mundo: a ideia de tratar sob a pesada artilharia conceptual de pressupostos, requisitos relativos às partes, formalidades, jurisdição, invalidades negociais - enfim, à luz tudo aquilo que caracteriza a técnica normativa dos contratos - o que antes se encontrava fluidamente deixado aos costumes sociais.
A Igreja não largou a taça de boa vontade e houve tensão, houve debates acaloradíssimos. Damo-nos conta com muita clareza da estridência dessa disputa no que se pode ler a propósito da instituição, ou não (e se sim, a obrigatoriedade, ou não) de um casamento civil (subproduto interessante aqui, continuando a ser a obra de referência, totalmente omissa nas missas universitárias portuguesas, a de Schwab, Grundlagen und Gestalt der staatlichen Ehegesetzgebung in der Neuzeit bis zum Beginn des 19. Jahrhunderts, Verlag Gieseking, Bielefeld 1967).
Quase nada mudou nessa sucessão de "donos" do assunto, com excepção de um aspecto imerecidamente silenciado: é que, fiel ao seu ponto de partida, a Igreja considerava e continua a considerar que a incapacidade para procriar afecta a validade do casamento, enquanto o Estado, não. O que não é coisa de somenos para deslindarmos o emaranhado da questão.
Que as instâncias do poder discreto - por oposição ao contínuo, o que se encontra em tensão com o poder instituído formalmente - se vergaram, ao longo de uma gorda meia dúzia de séculos, à ocupação normativa, pela Igreja ou pelo Estado, de um modelo de vida interindividual cuja descrição acabou por ser transposta numa fórmula (supostamente) prescritiva, isso já todos o sabemos. Tanto é assim que nunca ninguém em seu perfeito juízo pretendeu que casar-se com alguém se resumiria a observar a lista dos "deveres" conjugais enunciados na lei (respeito, fidelidade, coabitação, assistência e cooperação, na versão actual - e por pouco, believe me!, não consta o "dever de amar" (mas não esse, que subsistiu com a designação de "débito conjugal"), que chegou a ser discutido para essa matriz que é o código civil francês...!) - não é isso, nas nossas vidas, e mesmo na nossa cultura, o que é o casamento. Mas é incontestável, todavia, que a ideia de nupcialidade regular, de casamento, passou a conter um elemento essencial de institucionalização com intervenção das estruturas jurídico-estatais.
Assim, nas nossas convicções sociais, antes ainda que nas representações jurídicas, passámos a considerar que "casamento" é uma coisa em que há formalização, celebração, dimensão legal; adquirimos isto há relativamente pouco tempo e damos isto por uma grande verdade. Uma vida em comum sem tal formalização não é casamento, ou se pretendemos que é, fazêmo-lo com um sentido de crítica social, de crítica aos costumes (ao contrário, pois, dos romanos, que se bastavam com pouco mais que os factos da vida em comum).
Outro aspecto relevante para se equacionar adequadamente a questão da admissibilidade, ou não, dos casamentos homossexuais, é o que se refere ao próprio conteúdo e natureza do vínculo, ponderado agora do ponto de vista institucional-normativo, isto é, depois - e no contexto - da sua absorção pelo Estado.
Neste aspecto, ao lado da manutenção de um regime de celebração onde permanece totalmente reconhecível a "invenção" do "contrato de casamento" pelo direito canónico (formalidades, impedimentos, casamento putativo), deparamos com um conteúdo caracterizado por uma antes inimaginada multiplicação da eficácia legal do casamento.
É que aquilo que hoje se apresenta como "casamento" é um quid gerador de reflexos jurídicos que não estavam nem de perto, nem de longe, quer na extensão, quer na sua densidade actual, no horizonte de problemas tanto das sessões do concílio de Trento, como das discussões sobre o casamento civil. Efeitos sucessórios, fiscais, relativos ao arrendamento, a prestações sociais, à administração e disposição de bens, etc.
Ora, se o casamento perdeu a sua vocação inicial de berço da procriação, ao ver a sua validade emancipar-se da fertilidade e ao ser revestido de uma multiplicidade de efeitos jurídicos dos quais a presunção da paternidade marital é apenas um entre outros não menos característicos, então o casamento legal deixou de estar, numa medida proporcional, justificado pela necessidade da heterossexualidade. A não ser que fosse prevista uma fórmula equivalente para a hipótese de homossexualidade - mas isso não acontece em Portugal, nem é muito claro que fizesse algum sentido do ponto de vista da arte da boa legislação (não mencionando sequer a questão da constitucionalidade de semelhante nuance).
Com a mudança de (auto-pretenso) suporte dessa instituição social (Schwab usa a expressão Träger), isto é, com o trânsito para o domínio dos Estados, para o sistema jurídico dos Estados constitucionais, redefinida necessariamente ficou - ainda que isso tenha permanecido algum tempo na penumbra - a justificação dos regimes (legais) sobre o casamento.
Este ponto é sistematicamente omitido nas discussões sobre o assunto do enquadramento constitucional e legal do casamento dos homossexuais, com prejuízo da boa enunciação dos problemas. A este respeito, a pergunta relevante é: como se justifica do ponto de vista ético-político-jurídico, isto é, constitucional, a existência de uma regulamentação legal do casamento? Querendo responder que se justifica, há que mencionar, para além da questão da procriação, que permanece facultativa, a circunstância de uma disciplina jurídica do casamento proporcionar um pacote de efeitos jurídicos que se apresentariam particularmente adequados às circunstâncias da vida das pessoas.
O casamento que nós temos aí nas legislações europeias, na nossa, não pode ser visto como um modo de intervenção do Estado sobre a sexualidade (isso não está, como é pacífico, dentro das funções de um Estado constitucional), nem pode ser explicado como um modo de consagração pelo Estado de um modelo de moralidade social (o que não está também dentro das funções do Estado constitucional). O casamento, enquanto modelo social de organização da vida, pode continuar a ser tudo o que se bem quiser, com maior ou menor transcendência e conteúdo, para todos os outros efeitos - simbólicos, religiosos, existenciais - mas juridicamente tem de ser visto necessariamente como um pacote de efeitos jurídicos cuja existência é explicada, justificada e fundamentada pela Constituição.
É útil chamar agora à discussão a união de facto. Uma larga parte dos efeitos jurídicos que vinham originariamente reservados ao casamento foi sendo expandida, em respeito a ideias de igualdade com suporte constitucional, por legislação mais ou menos explícita emitida ao longo dos últimos trinta anos, para ter em vista o caso português, para a fórmula de conjugalidade natural que é a união de facto (há quem fale a propósito, em regresso à "boa companhia dos romanos"). No entanto, alguns desses efeitos - os sucessórios, em particular, e, em geral, toda a definição jurídica e simbólica do "estado civil" - continuam a ser próprios, em exclusividade, do casamento, ao qual, à luz do teor literal da legislação actual, só têm acesso pares heterossexuais.
O que andamos a discutir é, portanto, se é legítimo ou não excluir do acesso a esse pacote de efeitos jurídicos as uniões homossexuais.
É irrelevante se a sociedade considera que uma união de dois homens é como - a mesma coisa que - uma união de um homem e uma mulher ou como uma união de duas mulheres. Duas dadas situações podem ser distintas do ponto de vista de certas representações sociais e serem aglutinadas numa única para efeito de outra classe de artefactos. Aliás, essa é uma característica da linguagem jurídica, melhor, da linguagem da normas jurídicas que, por isso, se dizem revestidas de abstracção. Por exemplo: o senhor passadito a ferro que sai todas as manhãs de fato e gravata para as suas funções importantes num banco qualquer é, perante a sua entidade patronal, portador do mesmo pacote de efeitos jurídicos abstractos que a sua empregada ucraniana que lhe passou a roupa a ferro. Ou outra: os efeitos do contrato de compra e venda de uma livro são os mesmos que os de uma prancha de surf.
Voltando, para rematar, ao problema: a história e a biologia explicam porque é que o código civil define o casamento (legal) como um "contrato entre indivíduos de sexo diferente" mas essas circunstâncias são destituídas de importância perante o programa legislativo do Estado constitucional que temos e, mais particularizadamente, perante a justificação da disciplina jurídica do casamento (um pacote de efeitos jurídicos, cuja atribuição depende de certos requisitos, um dos quais tem sido a heterossexualidade).
Na verdade, o reconhecimento legal dos modelos da conjugalidade, seja hoje a matrimonial em sentido estrito, seja a da união de facto, não se baseia, nem poderia basear-se, nas circunstâncias da sexualidade, que é assunto juridicamente irrelevante, nem da procriação, que deixou de ser o centro de gravidade da existência de regras relativas ao casamento, mas sim na supremacia da dignidade do indivíduo, o qual é o alfa e o ómega da Constituição, e no que daí resulta quanto às tarefas do Estado. É a supremacia do indivíduo, em cuja dignidade a República Portuguesa se baseia, recorde-se o artigo 1º da Constituição, que comanda a protecção da família e do casamento.
Com isso do que se trata é de estabelecer um reconhecimento, com efeitos jurídicos concordantes, das circunstâncias existenciais da rede social de apoio de cada um, a qual, no que respeita às relações entre adultos, tem a sua expressão máxima nas uniões de partilha de vida.
Assim, a questão do casamento dos homossexuais não tem a ver com sexo, nem com moralidade, nem com opções políticas; tem a ver com acesso ou não acesso a pacotes de efeitos jurídicos, com indivíduos, com cidadania. Se tiver a ver, para além disso, com a renovação das pautas da consideração social, como parece que também tem, isso já é ainda um outro assunto.

3.2.06

SMS - Save My Soul!

Tenho um telemóvel novo. Traz uma mensagem pré-gravada que diz assim: amo-te. Vou ler o livro de instruções e gravarei uma outra: tb eu.

Era uma vez uma senhora e um senhor

Era uma vez uma senhora e um senhor. Como não desgostavam da companhia um do outro nos momentos médios e mauzitos e, para além disso, gostavam muito de brincar em conjunto aos médicos e às enfermeiras, às alunas e aos professores, aos polícias e aos ladrões, ao ali babá e as quarenta ladras, ao truca-truca na cozinha, ao quickies around the world, ao gato e ao rato, ao gato sapato, ao menino e à menina, resolveram casar. Tinham um godemichet de última geração, comprado através da Internet, que lhes era muito prático porque ele, ele gostava de ser a enfermeira, e ela, ela gostava de ser o médico que tratava da saúde à enfermeira e para isso precisava de se explicar devidamente. Casaram e foram muito felizes. Ou melhor, foram muito felizes, porque os sexos, os sexos eram diferentes, e assim, casaram. Nunca ninguém soube que ele era ela e ela era ele.
Uns anos depois ela cansou-se daquilo e disse:"agora quero passar a fazer de mulher". E ele disse: "está bem". E elas as duas agora: "somos tão felizes...".

2.2.06

Que me queres tu, a mim,...

... que me queres tu, de mim, Luís? As minhas manias? Pois sim...
Depois de destampadas pela remoção da mania primeira e rainha de todas as outras - a de que não tenho manias nem hábitos firmes -, começam a surgir aos magotes, vejo que nem sequer em fila indiana!, golfadas e golfadas de manias.
Lanço a rede e apanho algumas das gordas: a mania de que sou tão discreta, tão discreta, que até nem pareço discreta, a mania de que é possível, a mania de que as virtudes são o caminho do bom e do belo e que eu hei-de libertá-las do moralismo. Tresmalhava-se agora esta: a mania de me soltar de toda a tralha, coisas, objectos, colecções (excepção feita a livros, ou nem isso, e excelentes instrumentos de cozinha).
Se eu andar a ser bem sucedida, estas manias não são novidade para quem me conhece, daqui ou de qualquer outra pastagem.
E tu, Afonso Bivar, que dás alma e luz ao bombyx mori?
E tu, Lutz, que adestras meninas quase quase em português perfeito, tens alguma escondida?
E tu, JMNK, que dessa descrita hieroglífica pões por aí a soar sons generosos?
E tu, Sara, atrás do vidro duplo, tão claro, tão transparente?
E tu, André Carapinha, com pertinência matemática, em 2+2=5?
Que manias*?
*Regulamento: "Cada bloguista participante tem de elencar cinco manias suas, hábitos muito pessoais que os diferenciem do comum dos mortais. E além de dar ao público conhecimento dessas particularidades, tem de escolher cinco outros bloguistas para entrarem, igualmente, no jogo, não se esquecendo de deixar nos respectivos blogues aviso do "recrutamento". Ademais, cada participante deve reproduzir este "regulamento" no seu blogue." [Publicado em local de estilo]

1.2.06

Manual de instruções #13

Não se representa bem com os olhos enevoados de lágrimas e a pingar do nariz, nem se pensa bem dentro de um corpo abandonado e sedentário.
[Mexam-se, meninos!]

Roendo um pastelito de bacalhau em Hyde Park

Lá me infiltrei, disfarçada de pastelito de bacalhau, não fosse darem por mim, para ir ver e ouvir o Bill Gates. Tinha de ser, gosto de cheirar as pessoas que fazem coisas. Ouvi-o mencionar os blogues como uma poderosa ferramenta de expressão e de comunicação que hoje está ao dispor de qualquer um (não será bem assim, mas para lá caminha). Básico e simples. Chamo a esta visão dos blogues a versão Hyde Park da blogosfera (estou a usar expressão que li bloggures, sem me lembrar onde, e rendo homenagem ao autor desconhecido).
Não tenho conhecimento - penitencio-me pela falha eventual - de nenhum orador do Hyde Park que tivesse passado direitinho para a Câmara dos Lords, para o Times ou para qualquer outro patamar de exposição em carne e osso do talento. E isso não é falha dos caixotes em que se toma a palavra, nem do regime de admissão nas veneráveis instituições mencionadas. Na versão Hyde Park, são as palavras, as ideias, que giram e circulam; não são os indivíduos que se movem, não há fusão de mundos, não há convergência no instituído.
Recentemente, depois de quatro meses na blogosfera activa, dei-me conta de que há uma outra orientação, que é a versão cenário. Faz-se disto uma comunidade, com mercado, profissionalização, tendências, papas e cardeais, preitos de vassalagem, tornitruâncias, cumplicidades, gritos de Ipirangas, fusões e secessões, enfim, uma cidadezinha em ponto pequeno e à escala humana, com os compadres e as comadres, dando-se os bons-dias e dois ou mais dedos de conversa, arrastando as caudas, os mantos, os emblemas e os chifres próprios das trocas e baldrocas do convívio civilizado.
Nesta versão cenário, evoca-se o mundo real, integra-se o cenário, que afinal é mimético, nas coordenadas do mundo. É claro que este mundo blogosférico é virtualmente tão real como qualquer outro dos nossos conhecimentos, mas o que é interessante é saber se mantém ou não uma lógica vadia, se se afina ou desafina pela toada de outras comunidades já constantes dos mapas tradicionais, se absorve ou não absorve as hierarquias comuns. A versão cenário vai no sentido da fusão. Se um destes dias começar a encontrar publicidade a blogues por essa cidade fora, nos jornais, na rádio, pelas ruas, concluirei que ficou consumado mais este mapa cor de rosa. Nada contra isso, excepto quanto ao achatamento da paisagem; até porque Hyde Park é vivaz e dá-se bem com a periferia.