31.3.06

Parafraseando judiciosamente

Quando alguém nos desilude aprendemos mais alguma coisa [sobre o que julgávamos saber] sobre nós próprios.

Com este optimismo todo, devo ser mais velha que o Franco Atirador...

O que se pode dizer, segundo os melhores

A Helena e o Lutz mostram ao mundo o que significa discutir um assunto com armas legítimas e, sobretudo, com o tipo de inteligência que serve para alguma coisa. Falam sobre judeus mas o modo como o fazem torna o exercício exemplar. Planam por cima da vozearia e ainda por cima dão vontade de pensar.

Aspasia #4

E se um desconhecido de repente ...

Delacroix, Aspasia. 1842
Cortesia do Luís M. Jorge

27.3.06

Cruel primavera

Chovem telefonemas e mensagens no meu telemóvel em resposta a um anúncio de um chat no qual - quero acreditar que por lapso - surge o meu número como contacto para alguém que pede consolo. Tenho atendido alguns telefonemas. Os cavalheiros que vêm ao engano são tão afáveis, tão delicados no trato que por diversas vezes acabei essas breves conversas em compungidos e sinceros pedidos de desculpa por não ser a J. Custa-me pensar que ela continua, pobrezinha, inconsolada com tanta boa vontade acorrendo ao chamamento. Cruel esta primavera.

Manual de instruções #19

Os melhores rapazes são alimentícios. Pão e pêssego são fórmulas de sucesso. Evitem-se os pudins.

Aspasia #2


O pézinho era ligeiro. Tinha dançado muito antes de Péricles se tornar seu. Enquanto hetaira. Sócrates aprendeu bem a lição de retórica e ela resolveu expandi-lo. Depois do treino, a que ele nunca faltava, foi pedir a Aspasia a lição de dança. Ela disse: é simplex!
Dante Gabriel Rossetti, Aspasia Teaching Socrates to Dance.1864

26.3.06

Aspasia #1

-(clic!) -
Socrates bebendo palavras de Aspasia, a que lavava mais branco as vestes e os argumentos.

[235e] Menexenus : And do you think that you yourself would be able to make the speech, if required and if the Council were to select you ?
Socrates : That I should be able to make the speech would be nothing wonderful, Menexenus ;
for she who is my instructor is by no means weak in the art of rhetoric ; on the contrary, she has turned out many fine orators, and amongst them one who surpassed all other Greeks, Pericles, the son of Xanthippus.
Menexenus : Who is she ? But you mean
Aspasia, no doubt.
Socrates :
I do ; and also Connus the son of Metrobius ; [236a] for these are my two instructors, the one in music, the other in rhetoric. So it is not surprising that a man who is trained like me should be clever at speaking. But even a man less well taught than I, who had learnt his music from Lamprus and his rhetoric from Antiphon the Rhamnusian, — even such a one, I say, could none the less win credit by praising Athenians before an Athenian audience.
Menexenus : What, then, would you have to say, if you were required to speak ?
Socrates : Nothing, perhaps, myself of my own invention ;
[236b] but I was listening only yesterday to Aspasia going through a funeral speech for these very people. For she had heard the report you mention, that the Athenians are going to select the speaker ; and thereupon she rehearsed to me the speech in the form it should take, extemporizing in part, while other parts of it she had previously prepared, as I imagine, at the time when she was composing the funeral oration which Pericles delivered ; and from this she patched together sundry fragments.
Menexenus :
Could you repeat from memory that speech of Aspasia ?
Socrates :
Yes, if I am not mistaken ; for I learnt it, to be sure, from her as she went along, [236c] and I nearly got a flogging whenever I forgot.
Menexenus : Why don’t you repeat it then ?
Socrates : But
possibly my teacher will be vexed with me if I publish abroad her speech.

[Plato, Menexenus; destaques insanos]

Pudor

As notícias sobre as persistentes dificuldades de liderança e de afirmação ideológica do PP deram em parecer-me uma devassa informativa, que arranha já um sentido de pudor. Daquele vazio - que assim o é porque o PP parece insistir em não ver que a Maria José Nogueira Pinto existe e ela, apesar de tudo, não deixa de parecer consentir - surge cada vez mais nítido, em sulcos de baixo relevo cada vez mais fundos, o perfil do Grande Camaleão Bronzeado de Caldas Quibir.

25.3.06

Do mulherio "interessante" em desgastantes movimentos pendulares ou centrípetos

Quando o meu pai dizia "uma mulher interessante" - aliás, "uma mulher de tipo nórdico, interessante", pois naquela altura falava-se à socapa na revolução sexual da Suécia e as Helgas é que estavam com boa saída - nunca era por se tratar de alguém que estivesse a modos de trocar impressões sobre os Kindertotenlieder.
Quando uma mulher, sem pretender com isso fazer uma confissão de conteúdo homolibidinoso, diz o que torna uma mulher uma "mulher interessante" fico inicialmente um pouco baralhada. Depois percebo que estará possivelmente a pretender ensinar os homens. A dizer, nas entrelinhas, como eles devem olhar: em obediência ao modo como as mulheres querem ser olhadas. Ora, toda a gente sabe que isto é simples: se me olham como criatura inteligente, quero que me amem como objecto; se me olham como objecto, quero explicar que é bom terem cuidadinho comigo. Clean and easy! Mais clarinho só com setas!
O que não acredito de todo é que as mulheres consigam imaginar, sem ser por raras guinadas de faro de caçadoras, o que, em cada caso, interessa aos homens, não sendo nada seguro que aquilo em que elas se esmifram em clássicas disciplinas de preparos de sedução coincida minimamente com os gostos da freguesia. E vice-versa. Cada um para si próprio imaginando-se sedutor do outro a partir de lances de sedução fantasista que em nada promovem o entusiasmo do outro, embora contribuam para o fim em vista através do acréscimo de desenvoltura dos sedutores e das sedutoras, sob o efeito da convicção de se estar lançando sortilégios irresistíveis. E todos estão só encantando-se a si mesmos, o que afinal vem a torná-los a eles mesmos encantados e, por isso, mais encantadores para o outro. Vêem como o que digo no parágrafo acima é mesmo simples afinal, comparado com isto?

23.3.06

Ó meu rico santantoninho!

Praxíteles. Hermes e Dionísio. Há vinte e cinco séculos. Vin-te-e-cin-co. Que-temos-nós-andado-a-fazer?!

Pontos nos iis

Concedo: o cristianismo é um dos produtos mais relevantes da nossa civilização.

22.3.06

Antídoto paradisíaco

Tal como Gramsci e a sua mãe, o único paraíso que concebo situa-se no coração dos meus.

Ter lugar num coração amável é uma das maneiras íntimas de se sentir com valia, isto é, digno.

Antídoto com efeitos secundários

Aprendo que o antídoto do sofrimento não é a alegria, não é o prazer. É a dignidade. De súbito entendo os reformados terminalmente sós que se vestem com circunstância e vão aos refeitórios, hieráticos sobre as malgas de alumínio, macios e educados no gesto. E percebo também a importância de uma música, um requiem, uma curva esculpida no momento absurdo da morte ao lado de nós, como formas de declaração da valia da dor, assim a tornando afeiçoada. A estranha realeza na pose dos devastados.
O efeito secundário, a consequência política disso; ou melhor, a importância política deste elemento central da condição humana. Condenados ao sofrimento, resgatados pela dignidade. Fazer por isso.

19.3.06

Manual de instruções #18

Há duas formas de manter os sapatos limpos: transportá-los debaixo do braço ou deixá-los onde estão.

Procura-se

Dono de casa minucioso ou esposa funcional. Oferece-se retribuição compatível.

Quase quase em quadrado


É assim que ponho Max Ernst a jogar xadrez com o Mal.

Querido Criador

Escreve-te, não o escondo, uma miúda sem camisola, sem clube. Oiço dizer que ocasionalmente isso não te molesta e só por assim ser me atrevo a dirigir-me a Ti.
Crendo que o facto de hoje ser domingo Te fará estar de mais brando humor que nos outros dias em que te borrifas para as calamidades que nos afligem - alacridade à parte, até compreendo isso, também eu tenho essa tendência de me descartar das responsabilidades que não tenho meios para controlar - vinha aqui sugerir-te um pequeno aperfeiçoamento para a tua próxima criação de Nós.
Pensarás que venho pedir mais eternidade, mais tempo de vida, mais juventude, mais prazer, mais conforto, mais saúde, mais harmonia, mais amenidade das forças naturais, mais beleza, mais equilíbrio na distribuição das benesses, incluindo os talentos, mais talentos, mais alegria...
Bom, nada disso! Para isso já terás todos os teus crentes todos os dias a azucrinarem-Te as divinas antenas e é para mim já claro que ou não queres atender a isso, ou perdeste o livro das receitas.
O que eu Te peço é uma coisa muito mais modesta. Isto, simplesmente: um critério. Dá-nos, da próxima vez que te puseres na plasticina, um critériozinho, uma pauta, um conceito, uma lista já ordenadinha, se quiseres ir tão longe, que sirva para, de uma vez por todas, uma alma penada sem pretensões, nem ambições transcendentes conseguir orientar-se no elenco do que haveriam de ser as suas prioridades. Por favor, um critériozinho para organizar as nossas prioridades! Vá lá! Não há-de ser coisa assim tão inacessível se nos soubeste organizar tão bem o sistema da premência dos desejos.
Insistindo no meu pedido, não deixo de te lembrar que o interesse também é Teu: o assédio pedinchoso dos teus crentes diminuiria pela certa...
Saudações desta tua criada.