30.4.06

Tem hora di bai que não tem dor


Giorgio de Chirico. Gare Montparnasse (The Melancholy of Departure). 1914.

Não tem hora di bai sem nostalgia.

E, pensando bem, também não tem sem alguma esperança.

29.4.06

Da especificidade do género especialmente geral

Lari Pittman. Optional Setting for atmospheric conditions that can induce delirium in the male. 2001.

Lavandaria

Estimado cliente: diga-nos sempre que possível a natureza das suas nódoas. Limpam almas a seco?

Treinando em jejum

Suspicaz de amplas venturas, o calipígio paidotribes marcando digitalmente o treino para as doze, faço-me às sortes, que aos treinos não se falta: AM ou PM, mister? Coma pouco, respondeu-me.

28.4.06

Urso

Chamava-se Urso. Era um pastor, um pastor alemão, um cão. Espantou a família durante oito anos e depois começou a envelhecer. A maleita enfraqueceu-lhe até à imobilidade as patas traseiras. Arrastava-se, inteligente como sempre, olho húmido só um pouco vidrado. Era a indocilidade passiva da matéria, que dores não tinha. A família arranjou-lhe uma cadeira de rodas. Uma cadeira de rodas própria para um cão, entenda-se. Na nação dos cães, a que pertencia por direito de sangue e quejandos, não seria a sua canidade tão deferida. É provável que ele estivesse consciente disso.

27.4.06

26.4.06

Jumping & etc

Eadweard J. Muybridge. Jumping; Hand-Spring; Somersault; Springing over a Man's Back from Animal Locomotion (1887).

25.4.06

E contudo...

... tem demorado bastante. A malta ainda se abespinha bastante com os delitos de opinião. A desopinião dá muitos ares de canalhice do sujeito desopinado. A malta acalenta-se no simsismo à brava. A malta tem medo de tropeçar na língua. De pensar errado. Vai daí e pensa pelo cheiro. Verga a mola. Se acompanhada, abespinha-se. A malta anda abespinhável. A malta anda com medo ainda. A malta aquece-se no rebanho e bale. Méééé.... A malta persigna-se, inscreve-se e depois (dis)pensa(-se) ...

Onde é que você estava no 25 de Abril?!

Estava numa cidade, estava numa ilha? Chovia? Bordava missangas nas calças? Trauteava o Zeca? Soube por quem? Percebeu? Passou a noite toda sem dormir a ouvir a Emissora Nacional? Repetiu as palavras aos amigos? À mãe? Chamou os irmãos mais novos? Telefonou? Foi para a rua? Observou os mais velhos e tomou-lhes a agitação? Repetiu palavras? Usava calças à boca de sino? Relacionou com o pide do café? Enfiou as mãos na bata, no bibe? Repetiu palavras? Aprendeu cantigas? Foi antes das sms. Saberia por sms?
Esclarecimento em estilo de diva: é claro que só sei dessas coisas pela minha avó...

24.4.06

Manual de instruções #20

"Um vírgula um, um, um, um, um, ...", na mão esquerda, só porque é o lado convencional do coração. "Um, dois, três, ...", ao peito.

A deter-me demoradamente

Miró, Paisagem.1976

Em sete, sobram seis. Mas em Sevilha, não posso adivinhar. Aqui digo "assim, sim" ou "não, não". Ou não digo.

Matinal alento

Um blogue de nome bonito foi bom para mim.

22.4.06

Pepino breve

Era uma vez um pepino. Torceu-se e ficou pequenino.

Imagens da trabalhêra


- Anda cá, meu comentador galdério dos blogues-dos-outros, sim, tu, bestiúncula apeada da vadiagem limosa!
- Chega-t'aqui, foste apanhado pela bocarra, excomungado anónimo escamoso, sim tu, criatura viscosico-bestiária das profundidades lodosas!

Ahhh, a trabalhêra qu'isto dá...

18.4.06

Memória útil

‘Living backwards!’ Alice repeated in great astonishment. ‘I never heard of such a thing!’
‘—but there's one great advantage in it, that one's memory works both ways.’
‘I'm sure mine only works one way.’ Alice remarked. ‘I can't remember things before they happen.’
‘It's a poor sort of memory that only works backwards,’ the Queen remarked.

Lewis Carrol, Through the Looking-Glass, and What Alice Found There. Ch.5

16.4.06

A minha vela

As homenagens a vítimas podem e devem ser feitas, na minha opinião. Aos indivíduos, não às bandeiras. Embora seja certo que precisamos de um nome para os evocar e esse nome é frequentemente referente do mesmo elemento de identificação que consta de bandeiras, o mesmo que suscitou o ódio ou que alimenta a intolerância. Se as homenagens servirem para revisitar a nunca acabada reflexão sobre as questões da intolerância ou os motivos do ódio e forem uma forma de acção que os contraria, tanto melhor. A memória das vítimas é a nossa. Se somos descendentes das vítimas ou dos carrascos, tanto faz. Não respondo pelos meus antepassados, nem sei se me reconheceria neles, nem sequer sei se seriam ou não meus inimigos, nem quais deles eu escolheria como meus legítimos ascendentes. Sei que se escolher os que foram vítimas, faço a homenagem a mim mesma e se escolher os que foram carrascos assumo uma inútil e sobretudo anuladora culpa. E com isso, em qualquer desses casos, perco o sentido da homenagem às vítimas. Que pode e deve ser feita reforçando a minha memória contra a intolerância e o ódio.

Arrumando-me

Além de os folhear, de os soprar, de me ver transportada sempre com espanto aos dias em que li certos livros, agora hei-de levá-los a passear algumas vezes. O princípio e o fim de alguns. Assim me arrumo (oxalá não de vez!, oxalá ocasionalmente).