12.6.06

Mosquito

Joel-Peter Witkin, Bee-Boy. 1981
Na lista de tudo o que sei que não acedo consta agora um Mosquito. Conceberam-no para protecção de lojistas que queriam manter à distância adolescentes indesejáveis, embora seja também útil para espantar jovens hooligans. É um som e só os novos o ouvem; aos ouvidos adultos é inexistente. Passou a toque de telemóvel, muito conveniente para utilização escolar. Se o Romeu e a Julieta estivessem assim apetrechados as coisas não teriam corrido tão mal. A não ser, claro, que acabasse a bateria ou estivessem sem rede. Ou sem saldo.

11.6.06

Contra-ofensiva

Niki de Saint-Phalle, "sky dance". 2000 [click!]

Elas ignoravam que eles não gostassem de celulite.

Ciências do natural #1

Chegar junto à parede, rodar sem esforço um brilhante objecto, frio mas agradável ao tacto, que existe para a minha mão. Ver, ouvir e cheirar a água que jorra. Ver, ouvir e cheirar a água. Que jorra. Seguir-lhe os trajectos. Submeter-lhe o corpo, receios nenhuns. A água viajou muito para chegar a mim e continua a verter. Não sei exactamente de que leito a tiraram, quantos quilómetros andou, a cor e a textura das vias por onde andou, tratos fiduciários que lhe foram dados. E é tépida. Sai da parede da minha casa, tanta quanta quero. Não a carrego, não a regateio. Posso abrir a boca e engoli-la sem ficar doente. A água continua a jorrar. Estou vários metros acima do solo, a distâncias mensuráveis de Gibraltar, do Mar Negro, da Austrália e de Mercúrio. A água corre ainda abundante e morna. Posso fazer isto todos os dias. Faço-o tantas vezes que já me parece uma coisa natural. Já nem lhe chamo chuveiro. Fico ciente.

10.6.06

Do género. Espécies procriativas aos sábados e domingos

Pépé Smit, Le Déjeuner sur l'Herbe. 2003 [click]

Quando não chove, as espécies domésticas procuram o ar livre e, à medida da compostura de cada qual, afadigam-se em valorosos entretenimentos, ora educativos, ora benfazejos, das suas crianças-programa. É preciso que o tempo passe e as microproles são boas para isso. Saber o que fazer é saber quem se é. As microproles são mesmo boas para isto. Enfim, desde que colaborem.

3.6.06

Guillaume-Benjamin-Armand Duchenne de Boulogne. Medo. Mecânica da fisionomia humana. 1862

O veto e a realidade*

O Presidente da República fundamentou o seu veto à lei da paridade - isto é, à lei do terço - dizendo que ela estabeleceria um regime sancionador excessivo e desproporcionado porque, desde logo, poderia impedir que certos partidos ou listas de candidaturas eleitorais, que não aceitem ou que não possam cumprir com os rígidos critérios do diploma, concorressem às eleições.

Terá o Presidente tido em consideração a composição efectiva dos actuais grupos parlamentares? Se teve, deparou-se-lhe o seguinte:


O BE (4 deputados e 4 deputadas) e os Verdes (1 deputado e 1 deputada) praticam já uma lei da paridade propriamente dita. São pequenos partidos, são forças periféricas, não é muito expressivo, poderá dizer-se.

Passando ao PS, verifica-se que pratica já uma remediada lei dos dois terços e picos (74 deputados e 47 deputadas). Para esta força partidária, os mínimos já estariam sendo cumpridos; viesse a lei nova, calamidade nenhuma.


No entanto, o mesmo não acontece com os restantes grupos partidários:

O PCP, enfileirando-se actualmente segundo uma lei do sexto (10 deputados e 2 deputadas), teria de dar uma volta pelas militâncias e prebendas.

Finalmente, muito, muitíssimo, imensamente inconveniente, seria a lei do terço para o PSD, que parece preferir a lei do undécimo-vírgula-qualquer-coisa (69 deputados e 6 deputadas), e para o CDS-PP, que se contenta com uma sólida lei dos duodécimos (11 deputados e 1 deputada).
Tendo em consideração estes números, a afirmação de que a lei da paridade mereceu o veto porque poderia ser prejudicial para certos partidos ou listas de candidaturas eleitorais é, no mínimo, infeliz. E ou foi feita com desconhecimento da realidade, o que estará muito mal, ou é excessivamente realista, o que é pior ainda.
*Addenda: A "quota" efectiva das mulheres no conjunto dos portugueses é superior a 50%. Um partido que não aceite ou não possa, dizia o Presidente...

6.5.06

Paul Klee. Rapariga numa árvore. 1903

Partida

Os rapazes terminaram as obras. A hora di bai chegou. É esta mesma. Gostei muito de estar nesta insana lida, tentando ideias e palavras sobre lados minúsculos ou grandes da vida, dizendo-as em larga medida como se pela primeira vez. Soube-me bem, fez-me bem. Estou grata a cada um que quis passar por aqui, tenha deixado, ou não, sinais das suas leituras.
Se quiserem saber de mim, encontramo-nos noutro lugar. Para lá também seguem os dilectos rapazes desta miúda com sorte: o Lutz, o Afonso e o Luís.
O tropel das paixões segue por lá. Por isso, na verdade, verdadinha, o que eu queria dizer, rouca, requebrada e mimosa, é isto apenas: Vens?! Parto para o lugar comum.

Bocage e eu, à vista dos fins

Meu ser evaporei na lida insana
Do tropel de paixões, que me arrastava;
Ah!, cego eu cria, ah!, mísero eu sonhava
Em mim quase imortal a essência humana.

De que inúmeros sóis a mente ufana
Existência falaz me não doirava!
Mas eis sucumbe a Natureza escrava
Ao mal que a vida em sua origem dana.

Prazeres, sócios meus e meus tiranos!
Esta alma, que sedenta em si não coube,
No abismo vos sumiu dos desenganos.

Deus, ó Deus!... Quando a morte à luz me roube,
Ganhe um momento o que perderam anos.
Saiba morrer o que viver não soube.
[Manuel Maria Barbosa du Bocage]

Não sou versada em literaturas, e a bem dizer, em nada, a não ser em modo diletante. Mas ando por aqui e isso habilita a falar sobre a vida. Sobre a minha e até sobre a do Bocage, na parte em que ele parece reflectir sobre a sua. A minha ternura por Bocage neste soneto não tem fim. Gostava de lhe poder ter dito que o admiro e sigo, que acho válido comovermo-nos com a infinitude e imortalidade da essência humana. Dizer-lhe assim: "a mim, parece-me que tens razão, sempre tiveste razão; é na alma sedenta que a redenção consegue acontecer e os prazeres tiranos, todos os abismos e desenganos são as sombras dos sóis que nos resgatam".
Por mais amargamente que digam que ele fecha o soneto, gosto de pensar que, chamando-lhe graça divina ou que quiser, ele chega ao fim ainda no viço de crer que, afinal, saberá. Que é possível lá chegar. Que é indo, que se chega. À luz dos fins acode assim.

4.5.06

Work in progress

Frances Benjamin Johnston. Stairway of the Treasurer's Residence, Students at Work, The Hampton Institute, Hampton, Virginia. 1899-1900

Tive de mandar selar a entrada para a cave, o que obrigou a revestir de painéis a parede sob as escadas. Com os rapazes, nunca se sabe o que pode encontrar-se numa cave. Jura-me um que nunca lá iria, que para brincar com bonecas prefere os cumes do sótão. Que nem as pendura, nem nada, não as retalha, só lhes diz olá, olá, correndo-as em série como uma mnemónica. O outro finge que não houve nada, que nada ouve. Que está muito ocupado, que a curva do corrimão não está ainda na forma exacta. E assobia, fazendo-se anjinho. Há-de ser anjinho, mas lá na terra dele, que aqui não me engana. O mais daninho de todos faz-se todo maciezas. Que patati, que patatá, o belo varão encaixa aqui, se não dá, grosa acolá. Rapazes de olho brilhante. E a seiva ...!. Penso, pois penso, num certo lugar.

3.5.06

Check up on-line: nécéssaires

Eadweard J. Muybridge. Cockatoo Flying from Animal Locomotion (1887).

Às vezes parece-me uma ousadia altiva pensar que, nas viagens de longo curso, levar ou não levar nécéssaire não compromete necessariamente o êxito da viagem.

30.4.06

Tem hora di bai que não tem dor


Giorgio de Chirico. Gare Montparnasse (The Melancholy of Departure). 1914.

Não tem hora di bai sem nostalgia.

E, pensando bem, também não tem sem alguma esperança.

29.4.06

Da especificidade do género especialmente geral

Lari Pittman. Optional Setting for atmospheric conditions that can induce delirium in the male. 2001.

Lavandaria

Estimado cliente: diga-nos sempre que possível a natureza das suas nódoas. Limpam almas a seco?

Treinando em jejum

Suspicaz de amplas venturas, o calipígio paidotribes marcando digitalmente o treino para as doze, faço-me às sortes, que aos treinos não se falta: AM ou PM, mister? Coma pouco, respondeu-me.

28.4.06

Urso

Chamava-se Urso. Era um pastor, um pastor alemão, um cão. Espantou a família durante oito anos e depois começou a envelhecer. A maleita enfraqueceu-lhe até à imobilidade as patas traseiras. Arrastava-se, inteligente como sempre, olho húmido só um pouco vidrado. Era a indocilidade passiva da matéria, que dores não tinha. A família arranjou-lhe uma cadeira de rodas. Uma cadeira de rodas própria para um cão, entenda-se. Na nação dos cães, a que pertencia por direito de sangue e quejandos, não seria a sua canidade tão deferida. É provável que ele estivesse consciente disso.

27.4.06

26.4.06

Jumping & etc

Eadweard J. Muybridge. Jumping; Hand-Spring; Somersault; Springing over a Man's Back from Animal Locomotion (1887).

25.4.06

E contudo...

... tem demorado bastante. A malta ainda se abespinha bastante com os delitos de opinião. A desopinião dá muitos ares de canalhice do sujeito desopinado. A malta acalenta-se no simsismo à brava. A malta tem medo de tropeçar na língua. De pensar errado. Vai daí e pensa pelo cheiro. Verga a mola. Se acompanhada, abespinha-se. A malta anda abespinhável. A malta anda com medo ainda. A malta aquece-se no rebanho e bale. Méééé.... A malta persigna-se, inscreve-se e depois (dis)pensa(-se) ...

Onde é que você estava no 25 de Abril?!

Estava numa cidade, estava numa ilha? Chovia? Bordava missangas nas calças? Trauteava o Zeca? Soube por quem? Percebeu? Passou a noite toda sem dormir a ouvir a Emissora Nacional? Repetiu as palavras aos amigos? À mãe? Chamou os irmãos mais novos? Telefonou? Foi para a rua? Observou os mais velhos e tomou-lhes a agitação? Repetiu palavras? Usava calças à boca de sino? Relacionou com o pide do café? Enfiou as mãos na bata, no bibe? Repetiu palavras? Aprendeu cantigas? Foi antes das sms. Saberia por sms?
Esclarecimento em estilo de diva: é claro que só sei dessas coisas pela minha avó...

24.4.06

Manual de instruções #20

"Um vírgula um, um, um, um, um, ...", na mão esquerda, só porque é o lado convencional do coração. "Um, dois, três, ...", ao peito.

A deter-me demoradamente

Miró, Paisagem.1976

Em sete, sobram seis. Mas em Sevilha, não posso adivinhar. Aqui digo "assim, sim" ou "não, não". Ou não digo.

Matinal alento

Um blogue de nome bonito foi bom para mim.

22.4.06

Pepino breve

Era uma vez um pepino. Torceu-se e ficou pequenino.

Imagens da trabalhêra


- Anda cá, meu comentador galdério dos blogues-dos-outros, sim, tu, bestiúncula apeada da vadiagem limosa!
- Chega-t'aqui, foste apanhado pela bocarra, excomungado anónimo escamoso, sim tu, criatura viscosico-bestiária das profundidades lodosas!

Ahhh, a trabalhêra qu'isto dá...

18.4.06

Memória útil

‘Living backwards!’ Alice repeated in great astonishment. ‘I never heard of such a thing!’
‘—but there's one great advantage in it, that one's memory works both ways.’
‘I'm sure mine only works one way.’ Alice remarked. ‘I can't remember things before they happen.’
‘It's a poor sort of memory that only works backwards,’ the Queen remarked.

Lewis Carrol, Through the Looking-Glass, and What Alice Found There. Ch.5

16.4.06

A minha vela

As homenagens a vítimas podem e devem ser feitas, na minha opinião. Aos indivíduos, não às bandeiras. Embora seja certo que precisamos de um nome para os evocar e esse nome é frequentemente referente do mesmo elemento de identificação que consta de bandeiras, o mesmo que suscitou o ódio ou que alimenta a intolerância. Se as homenagens servirem para revisitar a nunca acabada reflexão sobre as questões da intolerância ou os motivos do ódio e forem uma forma de acção que os contraria, tanto melhor. A memória das vítimas é a nossa. Se somos descendentes das vítimas ou dos carrascos, tanto faz. Não respondo pelos meus antepassados, nem sei se me reconheceria neles, nem sequer sei se seriam ou não meus inimigos, nem quais deles eu escolheria como meus legítimos ascendentes. Sei que se escolher os que foram vítimas, faço a homenagem a mim mesma e se escolher os que foram carrascos assumo uma inútil e sobretudo anuladora culpa. E com isso, em qualquer desses casos, perco o sentido da homenagem às vítimas. Que pode e deve ser feita reforçando a minha memória contra a intolerância e o ódio.

Arrumando-me

Além de os folhear, de os soprar, de me ver transportada sempre com espanto aos dias em que li certos livros, agora hei-de levá-los a passear algumas vezes. O princípio e o fim de alguns. Assim me arrumo (oxalá não de vez!, oxalá ocasionalmente).

15.4.06

Terceiro mandamento

Ama-te muito, já está dito. Ama os outros em ti e a ti nos outros, também já está dito. Ama também muito o próximo. Muito, muito, nunca menos do que amaste o anterior e vive sempre com essa esperança.

Richter e eu

Senti hoje um ligeiro abalo.

14.4.06

Do que "é"*

Clausura: O que tem nome existe.
Ambígua: Os nomes são dados, da(r)dos.
Reversão: Precários são os nomes.
Subverte-se assim.


*Não será talvez evidente, mas acabo de vir, assim, daqui.

Segundo mandamento

Ama-te incondicionalmente. Ama-te. Ama-te com tal intensidade que possas amar-te mais e mais, e mais ainda, através dos reflexos de ti, os outros.

8.4.06

Meninas e gajo dançando alegremente à sombra da morte

Picasso, Três dançarinos. 1925

Dúvida integralmente metódica

Sabemos já bem do clique que fixa a quina entre o que descrito ser pode e o que pode só infimamente apreender-se no langoroso segundo infinitesimal que não previne a derrocada. Ou a erupção. Chamem-lhe paixão, chamam-lhe bem.
Arrasar os corações é uma arte afim do hipnotismo das galinhas, embora tão mais patético o que age. O método como problema integral não conhece mais letal enunciado.

4.4.06

Lindíssima bátega

Lin ssi ma!

O mulherio felisminado

Este blogue estará provavelmente quietinho durante os próximos breves dias, enquanto a insensata leva o alfabeto para outras composições. Vem mesmo a calhar: se é certo que nunca se padece de míngua de tempo, apenas se vê reflectida a lista das prioridades na exiguidade, sempre remediada, dos recursos do tempo e do espaço, não menos certo é que o bolo falimentar das disciplinas vitais às vezes atinge tal densidade que só as espumas são autorizadas à luz do sol. E as espumas, as espumas encantam e frustram; são formas tantalizadoras do lúdico, para chóninhas, por hipótese. Adiante, que não é disso que se versa.
Passo às palavras a eito: antes de me interromper, ainda que simbolicamente, uma necessária citação, já atrasada de dias, deste post do bl_g_ _x_st_ , que eu gostaria de ter escrito, de certeiro e bem talhado.
Acresce agora, da mesma estirpe, este, em que vem referida a humilhação, invocada pela Zita Seabra, que a lei das quotas importaria para as mulheres - embora insira também o interessante tópico desse PSD benetton, laranja a bem dizer furta-cores, se quisermos olhar com atenção o bom género dos seus notáveis.
Ora, eu sei exactamente de que é que a Zita Seabra está a falar: não preciso de quota para me medir com os outros; há, felizmente, embora isso não me dê a felicidade na vida, várias disciplinas, artes e habilidades em que não receio, nem por um segundo, defrontar-me com a turba, um a um, sabendo que vou sair vencedora - e, o caso exige que a monstruosa personalidade de quem escreve se revele por um momento, se excepcionalmente não sair vencedora, o que me vencer merece a minha eterna paixão, ou no mínimo a minha fiel admiração e amizade.
Mas, não tendo recebido qualquer espécie de consagração por via masculina (como é próprio das mulheres filhas de, netas de, mulheres de, viúvas de que fazem o protagonismo "feminino" das sociedades intensamente hierarquizadas e masculinamente dominadas), apercebo-me bem de como se vive contra o vento das solidariedades, sinais de respeitabilidade, ritmos e marchas masculinas nestas bravatas com que me entretenho e sei encontrar todos privilégios e golpes de sorte que me assistiram ao longo da vida quando me dispus a juntar o inconciliável (desde logo, a procriação consciente e a credibilidade na praça, ou melhor, na praceta).
Como a Zita Seabra, eu diria: eu não preciso das quotas para nada! Ponho, disponho, lanço e retomo ao nível dos melhores, quando a isso me proponho (pronto, está bem!, escolhendo adequadamente o campo, para voltar à realidade e à sensata modéstia). Eu e muitas outras. Eu e - Gauss, komm hier! - mais de metade das outras.
No entanto, eu, mesmo tão ás-inha, considero que a "humilhação" das quotas é um mal necessário; que a vaidade é o bem menos relevante nesta questão. Que não há hesitação ética ou política (é o mesmo, ok?!) quanto à necessidade das quotas.
Sem ainda saber muito bem porquê (talvez aproveite a pausa dos próximos dias para explorar um pouco a ideia) surge-me no espírito, como uma brincadeira cuja ironia resulta do excesso de realidade, esta ideia alternativa ao estabelecimento de quotas: o concurso, o exame. Conceda-se aqui a ficção e pondere-se este sistema: os senhores candidatos a candidatos a deputados fariam um exame, as melhores seriam as elegíveis nas listas. Não há, tanto quanto conheço, área de actividade que tenha sido submetida a exames que paulatinamente não tivesse ficado enxameada de mulherio: numerus clausus universitários, medicina, magistratura ... Por isso, oh povo felismino de altivo porte!, verdadeiramente mortífera para a hegemonia masculina do poder seria a instituição de um qualquer sistema de provas.
A vaidade ferida do mulherio que se julga superior às quotas bem pode untar-se com esta certeza: o sistema só seria desgostantemente womenfriendly se se passasse ao crivo da prova escrita...! Not joking!
Mas, podemos dizer que os exames de admissão, tomados de assalto pelas mulheres, essas provas todas meritoriamente centradas em ideias de mérito, essa espécie de anti-quotas, são motivo para nos encher de orgulho?
Bom, a mim é que não. Eu nem sequer acredito na excelência desses sistemas de apuramento, considero-os deficientemente construídos, são a medíocre construção do mérito, ou pelo menos assim resultam, postas todas as circunstâncias. ... E aliás, se outras razões não existissem, os meus filhos, que são varões, não são menos capazes do que eu e eu não os quero fora de jogo por causa de umas criaturas felisminas de espírito obediente, que debitam competentemente os missais.
Vamos pelas quotas, que esse ainda é o caminho mais suave.

3.4.06

Os rapazes vão a banhos desde os primeiros sinais do estio


Eu preparo-lhes bolachinhas de manteiga e chá gelado, para a merenda. Depois conto-lhes a verdade: são só umas férias.
Cézanne, Banhistas.1890-91

2.4.06

Tratado de macieza em 1911 ou a inverosimilhança da fotografia

Tão doce, suave e caloroso fotografado com têxteis, seja no olhar seja nas texturas, como irremediavelmente agreste e despojado quando se nos impõe, nu, ao olhar. Egon Schiele.

1.4.06

Descubra as semelhanças - ou a aldrabice, consoante preferir

O template do lida insana é o "Minima" - tal como o da educação sentimental, Lutz. O post do "da literatura" que citas (criticamente) é, de facto, uma grotesca e arrogante falsidade. Desatinados, no mínimo, são os termos em que a justa pretensão da Inês é referida. Haja estômago!
[post alterado]

Sou pelas quotas


Nasce-se macho e nasce-se fêmea. Os anjos, os anjos também existem, mas não abusemos deles.
















Carlos Reis, Asas. 1932

31.3.06

Parafraseando judiciosamente

Quando alguém nos desilude aprendemos mais alguma coisa [sobre o que julgávamos saber] sobre nós próprios.

Com este optimismo todo, devo ser mais velha que o Franco Atirador...

O que se pode dizer, segundo os melhores

A Helena e o Lutz mostram ao mundo o que significa discutir um assunto com armas legítimas e, sobretudo, com o tipo de inteligência que serve para alguma coisa. Falam sobre judeus mas o modo como o fazem torna o exercício exemplar. Planam por cima da vozearia e ainda por cima dão vontade de pensar.

Aspasia #4

E se um desconhecido de repente ...

Delacroix, Aspasia. 1842
Cortesia do Luís M. Jorge

27.3.06

Cruel primavera

Chovem telefonemas e mensagens no meu telemóvel em resposta a um anúncio de um chat no qual - quero acreditar que por lapso - surge o meu número como contacto para alguém que pede consolo. Tenho atendido alguns telefonemas. Os cavalheiros que vêm ao engano são tão afáveis, tão delicados no trato que por diversas vezes acabei essas breves conversas em compungidos e sinceros pedidos de desculpa por não ser a J. Custa-me pensar que ela continua, pobrezinha, inconsolada com tanta boa vontade acorrendo ao chamamento. Cruel esta primavera.

Manual de instruções #19

Os melhores rapazes são alimentícios. Pão e pêssego são fórmulas de sucesso. Evitem-se os pudins.

Aspasia #2


O pézinho era ligeiro. Tinha dançado muito antes de Péricles se tornar seu. Enquanto hetaira. Sócrates aprendeu bem a lição de retórica e ela resolveu expandi-lo. Depois do treino, a que ele nunca faltava, foi pedir a Aspasia a lição de dança. Ela disse: é simplex!
Dante Gabriel Rossetti, Aspasia Teaching Socrates to Dance.1864

26.3.06

Aspasia #1

-(clic!) -
Socrates bebendo palavras de Aspasia, a que lavava mais branco as vestes e os argumentos.

[235e] Menexenus : And do you think that you yourself would be able to make the speech, if required and if the Council were to select you ?
Socrates : That I should be able to make the speech would be nothing wonderful, Menexenus ;
for she who is my instructor is by no means weak in the art of rhetoric ; on the contrary, she has turned out many fine orators, and amongst them one who surpassed all other Greeks, Pericles, the son of Xanthippus.
Menexenus : Who is she ? But you mean
Aspasia, no doubt.
Socrates :
I do ; and also Connus the son of Metrobius ; [236a] for these are my two instructors, the one in music, the other in rhetoric. So it is not surprising that a man who is trained like me should be clever at speaking. But even a man less well taught than I, who had learnt his music from Lamprus and his rhetoric from Antiphon the Rhamnusian, — even such a one, I say, could none the less win credit by praising Athenians before an Athenian audience.
Menexenus : What, then, would you have to say, if you were required to speak ?
Socrates : Nothing, perhaps, myself of my own invention ;
[236b] but I was listening only yesterday to Aspasia going through a funeral speech for these very people. For she had heard the report you mention, that the Athenians are going to select the speaker ; and thereupon she rehearsed to me the speech in the form it should take, extemporizing in part, while other parts of it she had previously prepared, as I imagine, at the time when she was composing the funeral oration which Pericles delivered ; and from this she patched together sundry fragments.
Menexenus :
Could you repeat from memory that speech of Aspasia ?
Socrates :
Yes, if I am not mistaken ; for I learnt it, to be sure, from her as she went along, [236c] and I nearly got a flogging whenever I forgot.
Menexenus : Why don’t you repeat it then ?
Socrates : But
possibly my teacher will be vexed with me if I publish abroad her speech.

[Plato, Menexenus; destaques insanos]

Pudor

As notícias sobre as persistentes dificuldades de liderança e de afirmação ideológica do PP deram em parecer-me uma devassa informativa, que arranha já um sentido de pudor. Daquele vazio - que assim o é porque o PP parece insistir em não ver que a Maria José Nogueira Pinto existe e ela, apesar de tudo, não deixa de parecer consentir - surge cada vez mais nítido, em sulcos de baixo relevo cada vez mais fundos, o perfil do Grande Camaleão Bronzeado de Caldas Quibir.

25.3.06

Do mulherio "interessante" em desgastantes movimentos pendulares ou centrípetos

Quando o meu pai dizia "uma mulher interessante" - aliás, "uma mulher de tipo nórdico, interessante", pois naquela altura falava-se à socapa na revolução sexual da Suécia e as Helgas é que estavam com boa saída - nunca era por se tratar de alguém que estivesse a modos de trocar impressões sobre os Kindertotenlieder.
Quando uma mulher, sem pretender com isso fazer uma confissão de conteúdo homolibidinoso, diz o que torna uma mulher uma "mulher interessante" fico inicialmente um pouco baralhada. Depois percebo que estará possivelmente a pretender ensinar os homens. A dizer, nas entrelinhas, como eles devem olhar: em obediência ao modo como as mulheres querem ser olhadas. Ora, toda a gente sabe que isto é simples: se me olham como criatura inteligente, quero que me amem como objecto; se me olham como objecto, quero explicar que é bom terem cuidadinho comigo. Clean and easy! Mais clarinho só com setas!
O que não acredito de todo é que as mulheres consigam imaginar, sem ser por raras guinadas de faro de caçadoras, o que, em cada caso, interessa aos homens, não sendo nada seguro que aquilo em que elas se esmifram em clássicas disciplinas de preparos de sedução coincida minimamente com os gostos da freguesia. E vice-versa. Cada um para si próprio imaginando-se sedutor do outro a partir de lances de sedução fantasista que em nada promovem o entusiasmo do outro, embora contribuam para o fim em vista através do acréscimo de desenvoltura dos sedutores e das sedutoras, sob o efeito da convicção de se estar lançando sortilégios irresistíveis. E todos estão só encantando-se a si mesmos, o que afinal vem a torná-los a eles mesmos encantados e, por isso, mais encantadores para o outro. Vêem como o que digo no parágrafo acima é mesmo simples afinal, comparado com isto?

23.3.06

Ó meu rico santantoninho!

Praxíteles. Hermes e Dionísio. Há vinte e cinco séculos. Vin-te-e-cin-co. Que-temos-nós-andado-a-fazer?!

Pontos nos iis

Concedo: o cristianismo é um dos produtos mais relevantes da nossa civilização.

22.3.06

Antídoto paradisíaco

Tal como Gramsci e a sua mãe, o único paraíso que concebo situa-se no coração dos meus.

Ter lugar num coração amável é uma das maneiras íntimas de se sentir com valia, isto é, digno.

Antídoto com efeitos secundários

Aprendo que o antídoto do sofrimento não é a alegria, não é o prazer. É a dignidade. De súbito entendo os reformados terminalmente sós que se vestem com circunstância e vão aos refeitórios, hieráticos sobre as malgas de alumínio, macios e educados no gesto. E percebo também a importância de uma música, um requiem, uma curva esculpida no momento absurdo da morte ao lado de nós, como formas de declaração da valia da dor, assim a tornando afeiçoada. A estranha realeza na pose dos devastados.
O efeito secundário, a consequência política disso; ou melhor, a importância política deste elemento central da condição humana. Condenados ao sofrimento, resgatados pela dignidade. Fazer por isso.

19.3.06

Manual de instruções #18

Há duas formas de manter os sapatos limpos: transportá-los debaixo do braço ou deixá-los onde estão.

Procura-se

Dono de casa minucioso ou esposa funcional. Oferece-se retribuição compatível.

Quase quase em quadrado


É assim que ponho Max Ernst a jogar xadrez com o Mal.

Querido Criador

Escreve-te, não o escondo, uma miúda sem camisola, sem clube. Oiço dizer que ocasionalmente isso não te molesta e só por assim ser me atrevo a dirigir-me a Ti.
Crendo que o facto de hoje ser domingo Te fará estar de mais brando humor que nos outros dias em que te borrifas para as calamidades que nos afligem - alacridade à parte, até compreendo isso, também eu tenho essa tendência de me descartar das responsabilidades que não tenho meios para controlar - vinha aqui sugerir-te um pequeno aperfeiçoamento para a tua próxima criação de Nós.
Pensarás que venho pedir mais eternidade, mais tempo de vida, mais juventude, mais prazer, mais conforto, mais saúde, mais harmonia, mais amenidade das forças naturais, mais beleza, mais equilíbrio na distribuição das benesses, incluindo os talentos, mais talentos, mais alegria...
Bom, nada disso! Para isso já terás todos os teus crentes todos os dias a azucrinarem-Te as divinas antenas e é para mim já claro que ou não queres atender a isso, ou perdeste o livro das receitas.
O que eu Te peço é uma coisa muito mais modesta. Isto, simplesmente: um critério. Dá-nos, da próxima vez que te puseres na plasticina, um critériozinho, uma pauta, um conceito, uma lista já ordenadinha, se quiseres ir tão longe, que sirva para, de uma vez por todas, uma alma penada sem pretensões, nem ambições transcendentes conseguir orientar-se no elenco do que haveriam de ser as suas prioridades. Por favor, um critériozinho para organizar as nossas prioridades! Vá lá! Não há-de ser coisa assim tão inacessível se nos soubeste organizar tão bem o sistema da premência dos desejos.
Insistindo no meu pedido, não deixo de te lembrar que o interesse também é Teu: o assédio pedinchoso dos teus crentes diminuiria pela certa...
Saudações desta tua criada.

18.3.06

A minha manhã


Min Tanaka.

A menina que morreu

Encontro republicado o post que me tornou leitora diária do bombyx mori.

O pai salvou-se. A menina morreu.
A menina morreu. O pai salvou-se.

O pai salvou-se.
A menina morreu mas teve um irmão?
A menina morreu mas teve depois um irmão.
O pai salvou-se.
A menina teve depois um irmão, mas morreu primeiro.
O pai salvou-se. Mas a menina não.

Levantam-se*, pf!

Como ele é o meu padrinho nestas coisas (porque comecei a ver blogues e congeminei ter um próprio por efeito da influência dele) e como ainda por cima vou almoçar brevemente com ele, se a minha querida megera da blogosfera não resolver alterar os planos à última hora, estava a deixar-me ficar comprimida na minha vontade de atribuir aqui uma espécie de prémio ao Lutz. Mas aqui vai disto, que já estava a ficar atrasada.
Lutz, faço-te aqui solenemente Grande Cavaleiro da Ordem da Naturalidade Inteligente e agradeço-te o aporte suplementar de oxigénio que lanças para a atmosfera através do QeP.
*Assim mesmo, arranhando no conjuntivo ilógico do nosso linguajar

Globalização da minha confusão

Um solo que eu tinha por sagrado tornou-se o paraíso dos pensionistas gaiteiros. Não sei que pensar disto.

Esta manhã




Esta manhã este homem feriu-me.

Não se acredite nas linhas do rosto.

Min Tanaka

17.3.06

Bons rapazes é por aqui, sff!

Henry Scott Tuke (1858-1929): Ruby, gold and malachite

Este post, em nada desagradado, cheio de bons rapazes, vai dedicado ao João Tunes.

[ohhh, pssst, ohh João, então não topa que aquilo é silicone?! e olhe que não é por despeito...]

15.3.06

Sucessão

Barbara MorganDoris Humphrey, (Humphrey Group)

Primeiro perdeu a esperança. Noutro dia acordou e tinha perdido a identidade.

A grossa casca

Todos os violentos são portadores de honras sensíveis e de sensibilidades delicadas. Responder a um violento não é um duelo. É um acto caridoso.

12.3.06

O género elegante

Isto e muito mais para as elegantes visitas masculinas no NYTimes.

Aprender ou não aprender

Aprender, aprendemos. Mas somos muito persistentes no que queremos.
Insisto, repetindo-me.

Think about it!

Puro Becker. Nobel da economia em 1992, para reavivar memórias e espevitar entendedeiras.

Belo sexo, pele de galinha e quotas






Fui criada entre gente morigerada e com tento na língua. Recordo, da infância, que a galinha ainda era alguém numa ementa mais cuidada e compunha-se disciplinadamente de carne branca ou de carne escura, nisso se esgotando o léxico da anatomia. Às vezes os senhores, naquela parte adiantada do jantar que se seguia ao desabamento surdo do esmero dos têxteis, da compostura das flores, do alinhamento militarizado dos copos - quando estes, aliás, passavam a xilofone sátiro espalhado pela mesa - usavam uma expressão que arrepiava a pele das senhoras: o belo sexo. Apesar disso, sou pelas quotas.

10.3.06

Prolegómeno à arte das carícias


Reconhece-te, dizia ele, esta adorável pessoa és tu...
{Calligramme de Guillaume Apollinaire}

Leal traição

Dia após dia eu saio e busco ainda um Diferente
que a todos os trilhos dos campos há muito perguntei
(...)

Hölderlin, com Menon, pranteia por Diotima.

8.3.06

100%

Capote alentejano

Assisti ontem à mais esfacelante peça televisiva de que tenho memória: no telejornal da rtp1 mostrou-se um rapaz de 21 anos, pálido e de dentes cariados, a ver num minúsculo computador (pareceu-me, mas talvez se tratasse de aparelho mais sofisticado) imagens dele próprio que tinham sido captadas dez anos antes, quando ele era simplesmente um pequeno pastorzinho precocemente removido da escola, apesar do gosto e do bom desempenho, por (supostas?) necessidades familiares.
Via-se o rapaz pálido a ver-se, a ele, pastorzinho sorridente e rosado, às ovelhas, que eram brancas, à erva que havia sido tenra. Entrevistado o pastorzinho: uma voz firme, sonhos, certezas de que, inclusivamente, concluiria - aí pelos 21 anos - o 9º ano de escolaridade. Embora dissesse que seria sempre pastor. Isto tudo com sorrisos, olho brilhante e a tal pele tisnada. Um olhar agudo sobre a vida.
Fiquei à espera de ver qual o milagre na vida desta pessoa que se via a si mesma perante as câmaras, perante mim, à distância desses dez anos, no mini computador que lhe assentava nos joelhos. Se seria como as gémeas de Sampaio, por exemplo. Se se teria tornado um pastor cibernético. Se nele tinha florescido um talento que já se vislumbraria na frescura desses anos iniciais.
Nada disso.
Tudo, literalmente tudo, parecia ter sido esbatido na vida do pastorzinho. Até o sorriso tinha ficado ténue. Já nem pastor. O 9º ano tornou-se tão distante que já nem o magoa, uma irrealista fantasia infantil. Pelos vistos, corta e atira para um monte toros de lenha. O olhar desenha uma curva redonda e pousa. A palidez. A única coisa que ele parecia ter conseguido era olhar com naturalidade para as maravilhas da electrónica que lhe tinham posto ao colo. O que só reforçava o tom escurecido dos dentes.
Isto foi mostrado ontem, sem qualquer outra explicação para além da curiosidade de exibir um "antes e depois". Sem mais nada.
Exibido ficou o fracasso organizativo de todos nós, a cegueira ética das nossas prioridades, a mediocridade dos nossos resultados, a indigência extrema com que nos enrolamos ao som do cacarejo de bichas odientas, matronas ressabiadas e emproados de diversas boçalidades. A minha vergonha, também, ficou à tona. Bem como a necessidade de trazer viva a insatisfação que o pastorzinho não pode sequer permitir-se.

6.3.06

Aborletice primaveril cinco minutos antes da meia-idade

Era outra vez um senhor. Que escondia a mulher debaixo do tapete enquanto traía a amante com a rapariga das enciclopédias. Acumulação. Capitalista. Vivia aborrido. Coitado.

Colidildo

Não gosto de fitas com fitas. Gosto de Crash.

4.3.06

Efemérides

A ocasião será boa, talvez, para dizer que a Voz do Deserto é um dos meus blogues favoritos.

A cinzenta sisudez

Só não há um projecto político no sisudismo por falta de engenho e garra; quanto ao mais é a soez ditadura dos medricas.
Post post: A Helena, através do (Q)eP, acaba de me ajudar a perceber que o palavreado é uma forma de sisudismo, inimigo que é da aristotélica preclara insolência.

3.3.06

Bons sensos

Schiele.

E, para já, fim de ciclo. Domingo será dia de aleluia e é necessário preparar o espaço.

1.3.06

Uma pessoa chamada Gis

Estou de acordo com o Luís e através dele com o que leio nos Avatares de um Desejo.
Penso no tempo que por vezes demora a eliminar uma vida. Recordo-me, por exemplo, de uma garoupa que não se despreendia da vida e me obrigou a sucessivas manobras de procura de algum centro vital até que se apaziguasse. O nojo de impor a morte, acredito, progride ao longo da escala evolutiva, desde a animosidade ligeira até ao ódio.
Penso também nas histórias da infância, de pessoas vitimadas por "ataques", que eram veladas agonizando nas suas camas, por vezes dias a fio, sem comer, sem beber, sem falar, talvez sem pensar, e nunca mais se deslindava o estertor final. Penso em alguém que levou uma heróica luta de sobrevivência a dois anos agónicos, até que se foi misteriosamente. Penso como é às vezes resistente esse fio que nos prende à vida, como é às vezes acesa a luta para o cortar.
Penso na quantidade de pedradas, de golpes, de impactos que foram necessários para matar a Gis. Penso na quantidade de energia, de incitamento, de largueza, de esforço. Na persistência de Gis a não morrer, no alevantamento dos ânimos mais e mais agastados, na ebulição de ímpetos, na exaltação do abismo da ira, da repulsa odiosa, na descurada banalidade do mal. Penso se terão sido muito confusos ou muito pacificados os últimos segundos da consciência de si, da Gis. Penso na última centelha do último olhar de ver e no silêncio depois.