Também gosto assim.
As fêmeas antílopes cortejam-se entre si e acariciam despudoradamente a genitália das suas preferidas, esteja ou não algum macho túrgido por perto. Os machos golfinhos juntam-se aos pares, podem até admitir fêmeas passageiras, e vivem nessa dupla longos anos de dedicação e meiguices. Os bonobos baralham as regras e acasalam com tudo o que vier à rede: fêmeas, outros machos, sem qualquer atenção à posição hierárquica na comunidade. Os babuínos, ferozes guerreiros, amam-se entre si, como gregos virtuosos. Há carneiros de porte castrense que são bichas impenitentes. E os polvos, até os polvos, querem lá saber da transmissão dos genes e não perdem oportunidade de um one-night-stand nas noites eternas dos mares profundos, com um outro bacano qualquer, ainda que de outra espécie, ainda que quatro vezes maior, que esteja a fim da interacção mais misteriosa da natureza. Nem os patos escapam à barafunda, incluindo em respeitáveis famílias um macho suplente para todo o serviço, inclusivamente o baby-sitting de patinhos satisfeitos e bem-comportados. Isto tudo aprendi eu ontem depois de me ter baralhado entre as folhas repolhosas de um Expresso deslavado, que em boa hora troquei por um programa da dois.
De subtilezas é o que reza a história. Não faz mal que tudo não passe de uma lengalenga, cantilena, ladaínha. A gente entretém-se e acontece entre as dobras, penugem ao vento. Mas um bronco não. O bronco é nesse sentido um tipo glabro, coriáceo. A espinha, creio eu, não se lhe arrepia, pois de tão dúctil se fez víscera suplementar, que malignamente me ocorre servir apenas de trânsito a portentoso bolo fecal. Não é a falta de letras, nem de cromossomas, nem a falta de ocasiões e de oportunidades, o que está na origem do bronco. Não sei como se diz "eu expando-me leve e flexível" nas narrativas do bronco. Até nisto o bronco exerce a sua insidiosa opressão. Nisso, sabotando-me insuperavelmente a possibilidade de enunciação, e também neste encalhamento opressivo que não me deixa sentir o cheiro da aragem, apesar de o dia estar azul e radioso. O bronco sabe que é bronco aos meus olhos e gosta de o ser. Assim ainda lhe sabe melhor levar-me ao tapete. O bronco também converge comigo quanto ao facto de estarmos de lado opostos sobre o que vale a pena. Está criada, pois, a situação laboratorial e o resultado não é muito animador: o bronco vence-me aos pontos, até agora; se ele acabar por vencer, hei-de tornar-me totalmente marginal, periférica, subinstanciada. O chimpanzé da imagem está comigo, é dos meus, acalenta-me.para o cafre da Zambézia, o símbolo da tristeza é o pastor no isolamento da campina distante, vigiando o rebanho
O senhor Sousa pastoreou-me no seu táxi ontem à noite. Eu fui a ovelha desta vez. Tinha umas réstias de Rachmaninov ainda comigo.
We examined the effect of an image of a pair of eyes on contributions to an
honesty box used to collect money for drinks in a university coffee room. People paid nearly three times as much for their drinks when eyes were displayed rather than a control image. This finding provides the first evidence from a naturalistic setting of the importance of cues of being watched, and hence reputational concerns, on human cooperative behaviour.
Por causa disto, percebo agora, ofereceram-me um dia uma pintura a acrílico sobre papel de embrulho, no qual me tinha chegado uma encomenda de víveres familiares. A obra foi produzida em solidariedade noctívaga, nas vésperas de um exame que implicava lauta assimilação de inutilidades e uma das questões que recorrentemente se cruzava por esses dias era precisamente a da minha fidelidade oculta a pautas de morigeração, apesar do verbo libertário. Incauta, deixei-me acompanhar por essa imagem ao longo do tempo. Levei-a para a minha casa adulta e até as crianças aprenderam o seu próprio nome sob o meu gesto remissivo. Já não vive quem, apesar de nunca ter sido apresentado ao autor da pintura, foi representado no quadro, com o seu olhar agudo. Eu continuo a discutir, a argumentar, a discutir-me, a argumentar-me. O olhar nunca mais se gasta. Ocasionalmente olhei-o de viés, triunfante de algum pequeno feito de naughty girl, em dias que não contribuiram para a frescura e longevidade dos meus sofás. As quais, tal qual nas pessoas, parecem andar curiosamente cosidas aos bons costumes. Com o passar do tempo, sobretudo porque naquela imagem reside hoje a única evidência física, exterior a mim, de que o olhar alguma vez existiu, vem acontecendo o estranho fenómeno de os olhos se tornarem cada vez mais significativos, a ponto de eu começar a detectar o esforço físico de focagem. Tudo visto e ponderado, num dado instante, as coisas seriam assim. Esse momento, quando o capto, devolve-me outro indício de que existo.