9.7.06

O que se faz #5. Costura-se a voz

Esclarecendo que o poema
é um duelo agudíssimo
quero eu dizer um dedo
agudíssimo claro
apontado ao coração do homem

falo
com uma agulha de sangue
a coser-me todo o corpo
à garganta
e a esta terra imóvel
onde já a minha sombra
é um traço de alarme

("Poema I" da Luiza Neto Jorge)

Contraponto

Também gosto assim.

Foi bonita a festa, pá


Em geral pois, como se diz por aí, não há regra sem excepção(ões).

Even educated flees do it

As fêmeas antílopes cortejam-se entre si e acariciam despudoradamente a genitália das suas preferidas, esteja ou não algum macho túrgido por perto. Os machos golfinhos juntam-se aos pares, podem até admitir fêmeas passageiras, e vivem nessa dupla longos anos de dedicação e meiguices. Os bonobos baralham as regras e acasalam com tudo o que vier à rede: fêmeas, outros machos, sem qualquer atenção à posição hierárquica na comunidade. Os babuínos, ferozes guerreiros, amam-se entre si, como gregos virtuosos. Há carneiros de porte castrense que são bichas impenitentes. E os polvos, até os polvos, querem lá saber da transmissão dos genes e não perdem oportunidade de um one-night-stand nas noites eternas dos mares profundos, com um outro bacano qualquer, ainda que de outra espécie, ainda que quatro vezes maior, que esteja a fim da interacção mais misteriosa da natureza. Nem os patos escapam à barafunda, incluindo em respeitáveis famílias um macho suplente para todo o serviço, inclusivamente o baby-sitting de patinhos satisfeitos e bem-comportados. Isto tudo aprendi eu ontem depois de me ter baralhado entre as folhas repolhosas de um Expresso deslavado, que em boa hora troquei por um programa da dois.

6.7.06

Ando batida aos pontos por um bronco

De subtilezas é o que reza a história. Não faz mal que tudo não passe de uma lengalenga, cantilena, ladaínha. A gente entretém-se e acontece entre as dobras, penugem ao vento. Mas um bronco não. O bronco é nesse sentido um tipo glabro, coriáceo. A espinha, creio eu, não se lhe arrepia, pois de tão dúctil se fez víscera suplementar, que malignamente me ocorre servir apenas de trânsito a portentoso bolo fecal. Não é a falta de letras, nem de cromossomas, nem a falta de ocasiões e de oportunidades, o que está na origem do bronco. Não sei como se diz "eu expando-me leve e flexível" nas narrativas do bronco. Até nisto o bronco exerce a sua insidiosa opressão. Nisso, sabotando-me insuperavelmente a possibilidade de enunciação, e também neste encalhamento opressivo que não me deixa sentir o cheiro da aragem, apesar de o dia estar azul e radioso. O bronco sabe que é bronco aos meus olhos e gosta de o ser. Assim ainda lhe sabe melhor levar-me ao tapete. O bronco também converge comigo quanto ao facto de estarmos de lado opostos sobre o que vale a pena. Está criada, pois, a situação laboratorial e o resultado não é muito animador: o bronco vence-me aos pontos, até agora; se ele acabar por vencer, hei-de tornar-me totalmente marginal, periférica, subinstanciada. O chimpanzé da imagem está comigo, é dos meus, acalenta-me.

3.7.06

It's Monday Holy Shit

[ Andy Warhol, The Kick. 1986 click!]

É desta. Começo a gostar do futebol


Sim, isso, as imagens das caras e dos gestos, uma torrente de expressão dos corpos e das faces, dos braços, das mãos. Além disso, as pessoas ficam bonitas. A bola, as regras do jogo e as bandeiras ainda não me cativaram, mas isso começa a parecer-me irrelevante. Não deve haver coreógrafo, por mais genial e bem equipado, que consiga replicar tanta energia e emoção.

2.7.06

Ciências do natural #2

Tracey Emin.

O exercício do poder sobre alguém começa sempre assim. Confia em mim, que quer dizer, confia-te a mim. Eu nunca consigo confiar em quem pede a minha confiança. E se tento, perco-a de vista. E se confio, é porque já confiava. Confiar faz parte dos actos livres e gratuitos, governados por uma vontade que não se deixa modelar pelas ponderações do que é mais adequado fazer. No exercício do poder sobre os outros é preciso ter isso em conta. Na submissão ao poder dos outros sobre nós é escusado omitir a reserva nas conversas com os botões. É uma terrível perda de tempo o tempo de vida que se leva a perceber que se faz sempre o que se quer. Pior ainda é o custo da sabotagem da nossa vontade. Lá para a frente podem receitar-nos uns ansiolíticos para vivermos mais confortáveis com isso.

Pastoreando de táxi

Oggy Ogburn, Ebony Horseman.

Ontem voltou-me a palavra "macambúzio". Estranhando-a, fui procurar a etimologia. Embora apresentada com incerteza, encontrei a tese de Nei Lopes, segundo a qual a palavra terá origem numa fala banta de Moçambique, em que makambuzi significa 'pastor de cabras', palavra que, por sua vez, deriva de mukumbuso, 'memória, lembrança, recordação' (em nianja, m'busa 'pastor', kukumbutsa 'recordar'; em suaíle kukumbuka 'recordar'). E uma frase:

para o cafre da Zambézia, o símbolo da tristeza é o pastor no isolamento da campina distante, vigiando o rebanho

O senhor Sousa pastoreou-me no seu táxi ontem à noite. Eu fui a ovelha desta vez. Tinha umas réstias de Rachmaninov ainda comigo.

1.7.06

Apreensão metafutebolística

Não sigo o futebol, mas sigo com delícia o entusiasmo pelo futebol. Quando acabar o campeonato vai toda a gente voltar ao macambuzismo? Vai, não vai? Não estou a falar da festa lá na Alemanha. Estou a falar daqui, da quantidade de sorrisos e caras desfranzidas que ando a ver nas últimas semanas.

Paixão pelo Mal


Parabéns, Luís. Aliás, obrigada.
Ou melhor: muito obrigada por nos deixares partilhar o que vês.

30.6.06

Being watched. Pai nosso que estais no céu

We examined the effect of an image of a pair of eyes on contributions to an
honesty box used to collect money for drinks in a university coffee room. People paid nearly three times as much for their drinks when eyes were displayed rather than a control image. This finding provides the first evidence from a naturalistic setting of the importance of cues of being watched, and hence reputational concerns, on human cooperative behaviour.

daqui


Por causa disto, percebo agora, ofereceram-me um dia uma pintura a acrílico sobre papel de embrulho, no qual me tinha chegado uma encomenda de víveres familiares. A obra foi produzida em solidariedade noctívaga, nas vésperas de um exame que implicava lauta assimilação de inutilidades e uma das questões que recorrentemente se cruzava por esses dias era precisamente a da minha fidelidade oculta a pautas de morigeração, apesar do verbo libertário. Incauta, deixei-me acompanhar por essa imagem ao longo do tempo. Levei-a para a minha casa adulta e até as crianças aprenderam o seu próprio nome sob o meu gesto remissivo. Já não vive quem, apesar de nunca ter sido apresentado ao autor da pintura, foi representado no quadro, com o seu olhar agudo. Eu continuo a discutir, a argumentar, a discutir-me, a argumentar-me. O olhar nunca mais se gasta. Ocasionalmente olhei-o de viés, triunfante de algum pequeno feito de naughty girl, em dias que não contribuiram para a frescura e longevidade dos meus sofás. As quais, tal qual nas pessoas, parecem andar curiosamente cosidas aos bons costumes. Com o passar do tempo, sobretudo porque naquela imagem reside hoje a única evidência física, exterior a mim, de que o olhar alguma vez existiu, vem acontecendo o estranho fenómeno de os olhos se tornarem cada vez mais significativos, a ponto de eu começar a detectar o esforço físico de focagem. Tudo visto e ponderado, num dado instante, as coisas seriam assim. Esse momento, quando o capto, devolve-me outro indício de que existo.

25.6.06

O que se faz #4. Tomando as coisas como elas são

Pépé Smit, Afterglow. [click!]
A sorte - geralmente - favorece os audazes. Muitas vezes isso parece um desperdício de recursos por parte da sorte. Todavia, às vezes a sorte não está de favores, não se percebe bem porquê, embora aconteça que os audazes, com uma frequência que merece registo, não desejem, desde o imo mais fundo do seu íntimo, ser envoltos em bafejos de qualquer tipo - não sejam eles o do hálito morno do regaço original ou, enfim, o de um outro que, de forma não menos absoluta, os recolhesse e assegurasse, fosse isso real.

Eu hoje acordei assim

Pépé Smit, Affection. [click!]
Audere est facere. Tellement faite.

O que se faz #3. Esqueci o dia

Joseph Kosuth, Wittgenstein's color.1989 [click]

Em que aprendi o meu nome.

O que se faz #2. Fazendo flores

Walasse Ting, Do You Like Red Roses?.1983 [click!]
Dá-me lírios, lírios
E rosas também.
Dá-me rosas, rosas,
E lírios também,
Crisântemos, dálias,
Violetas, e os girassóis
Acima de todas as flores...
Roses are blue
Violets are red
I'm not good with colours
But I'm good in bed
(...)

24.6.06

Speculum

Redentoras são as palavras de quem acredita nas palavras. Vivemos de palavras emprestadas. As palavras ferem a crosta infinitamente complacente da deriva que nos leva os braços, os olhos, os dedos e a pele. Acontece as palavras, ecos imortais, chegarem de alhures, e trazem o que sabem, de onde não sabe, e trazem o que podem, de onde não querem, algo maior que elas, mais verdadeiro, mais intenso, inútil e vital, na voz que as diz. E então, olhamos.

Prière

Timur Tsaku, Dancing on the Wind.2003 [click!]
Um homem exilado em casa faz tratos inconfessáveis com o silêncio vadio e mofino. E depois, ele não lhe chega. Vem dizer que afinal é na rua, o silêncio é na rua. Era, lá isso era. Oiço-o ainda às vezes. Que num recôndito sítio muito frio um véu de gelo que queima em seda se desfaça.

21.6.06

Futebol

Nunca torço por Portugal nos jogos de futebol. Não gosto da bandeira desse clube, embora alguns jogadores sejam fotogénicos. Tenho um amigo que diz que as emoções são magníficas. Autorizadas, penso que é isso que ele pretende dizer. Autorizadas, legitimadas e partilhadas. Isso é que é magnífico. Ainda adiro.