11.11.06

Inconfidência

Edward Ruscha, Jumbo. 1986

Um sentido insistido. Basta isso. É só isso. É muito insistir no sentido.

Ao Luís.

6.11.06

Saddam e o aborto. Um exercício cru

Considerem-se as seguintes possibilidades:

1. Sim à pena de morte de Saddam e sim ao aborto.
2. Sim à pena de morte de Saddam e não ao aborto.
3. Não à pena de morte de Saddam e sim ao aborto.
4. Não à pena de morte de Saddam e não ao aborto.

O "sim" só deve ser escolhido se a convicção de legitimidade da acção é tão profunda que se actuaria em execução do acto em questão (aplicar a pena de enforcamento ou submeter-se a um aborto ou participar na decisão, consoante se seja mulher ou homem).
Por "aborto" entende-se a interrupção de uma gravidez apenas durante a fase embrionária.
3. comporta uma muito crua implicação: é mais repugnante matar um facínora que inviabilizar um projecto de filho.
Podia dar-lhe uma volta e dizer que é mais repugnante tirar a vida a um homem que eliminar um mero embrião, mas isso obscureceria as coisas. O que é interessante, para quem subscreve 3., como eu, é haver-se com a crueza da escolha.
Essa crueza não me convida a ir acomodar-me em 4., visto que o critério de 4. não é mais claro (não há consistência numa posição de defesa absoluta da "vida", nem mesmo para quem não mata uma mosca, basta que coma peixe, use sapatos de pele, pise uma minhoca ou arranque da terra uma cenoura).
Essa crueza permite ainda reparar que seria muito mais triste inviabilizar um projecto de filho que saber da (repugnante) morte de um facínora. Mas isso é assim apenas porque a tristeza é a emoção com que se reage ao infortúnio, enquanto a repugnância é a emoção com que se assinala o mal.

Bloco de notas. Poligamia

Becker v. Posner

Para segundas núpcias.

2.9.06

Um, dois, três... experiência (da vida?)


O pai disse-lhe "não é o fim do mundo, não é o fim do mundo".
O outro pai disse-lhe "tudo se resolve, tudo se resolve".
A mãe mantinha-se jovem. A mãe disse "que horror".

28.8.06

Estocadas, penetrações e lanças gloriosas

Com a energia e o vigor destes joelhos, peixes, gargantas, elmos e papoilas só tenho lido ultimamente literatura erótica. Se é que tenho lido. Belos, virtuosos e deslumbrantes homens no ... bl_g_ _x_st_.

27.8.06

Passa-me a salada


A vantagem de se ver o telejornal é que a informação já vem praticamente toda processada, tanto no aspecto em que vem desossada, como no aspecto em que já vem por ordem de importância. Não me escapasse a atenção para o secundário, teria sido possível ficar a saber ontem que o Futebol (Louvado-seja) assim, e o Futebol (Louvado-seja-nas-alturas) assado, e a Liga (Santíssima) cozido, e a Federação (Os-nossos-corações-estão-ao-alto) assado e muitíssimos pormenores e sensibilidades sobre isto, que questionam os fundamentos da civilização. Isto deu tempo para passar do aperitivo à sopa e da sopa à parte dos lombinhos de pescada, que se compram já sem espinhas e sem pele. Nos fait-divers, e à sobremesa, ao terminar o postre lácteo, também soube que uma prostituta apareceu morta numa rua de lisboa e, segundo uma entrevistada, a prostituta, que era uma prostituta, até nem costumava andar por ali àquelas horas na sua vida de prostituta e a menina das notícias confirmou qualquer coisa que voltou a requerer a utilização repetida do termo designativo, a saber, prostituta. Ao café já eu sabia que quem tiver Cães já pode proporcionar-lhes Fisioterapia. Nem é preciso palitar os dentes.

19.8.06

Sweet Fifteen, Never Kissed Before (Anymore) - Sweet Sour Fifteen - SS 15

Christoph Schmidberger, Untitled. 2005 Predominante a compaixão, lamenta-se o homem que viveu o peso silente de opções que eram naqueles dias tão banalmente prováveis e fáceis e tentadoras quão banal é, quase sempre, o acto leviano, cúpido, maldoso, rapace.
Predominando a mágoa, predominando a fidelidade, predominante a raiva pelo sofrimento inútil, o homem não tem redenção, nem desculpa.
Lamento o homem. Se tivesse sabido hoje que ele tinha sido o assassino do meu pai, do meu filho, do meu amigo, dos meus, não saberia encontrar apaziguamento para a minha raiva, talvez lhe arrancasse eu própria os olhos. A raiva em que se transforma uma mágoa assim é justa; bem como o nojo, que é uma forma de raiva surda.
A raiva justa, todavia, desculpa-se, compreende-se; em nenhum momento se confunde com um critério racional de agir, de ajuizar. A não ser que se trate de agir ou ajuizar perante a impureza ritual, a da violação da regra sacralizada em tabu, em vez de agir ou ajuizar sobre a violação de um preceito de conduta. A raiva justa compreende-se; a condenação à impureza verifica-se.
Lamento o homem. Pela banalidade, pelo peso do silêncio e, agora, pelo nojo.

16.8.06

A má acção. Censura e impureza.

Take 1.
- Ó pá, desculpa lá, foi sem querer/estava em erro e não percebi a javardice que estava a fazer.
- Ahh, então se foi sem querer/se reconheces e superaste o erro, o que fizeste não é tão mau como parece. Toma lá uma desculpadela/uma censura atenuada.

Take 2.
- Ó pá, desculpa lá, não sabia o que estava a fazer/não pensei bem/era um parvo.
- Soubesses ou não/tenhas ou não tenhas superado o erro/tenhas ou não actuado outramente e bem, fizeste o que não é de fazer. Estás impuro, contaminado pela hedionda acção. Ainda bem que nunca te apertei a mão. Vai furar os olhos. Quero lá saber que te chames Grass, ou Édipo ou lá o que for.

22.7.06

Tempo do Mal

Beth Moon, Seen But Not Heard: The Great Clock of Gormenghast
Um rapaz sem flor de acne disse por aí que era sexta (ou sábado), havia anos talvez, e ela não apareceu. Insana. Ou, se não, trocados estariam os relógios...

19.7.06

Post moderno na efeméride

(...)

Amo, insensatamente, os ácidos, os gumes
E os ângulos agudos.

(...)

Em honra dos (glaciais) humores cruéis, frenéticos e exigentes, no aniversário da morte de Cesário Verde.

17.7.06

Ciências do natural #3. O discreto e o contínuo no verbo "estar"

Há dias que não passaram, outros que se degradaram no uso da recordação e se tornaram miragens. Há muitas coisas para fazer sempre, há sempre muitas coisas, os dias são vítima disso. Em alguns dias bem-aventurados, pode-se soltar o tempo de mergulhar, os olhos presos pelos olhos. Quem diz os olhos, diz uma área circunscrita de pele, uma sombra fresca, uma guinada de som, uma ideia cheia e sumarenta. Fazem-se instantes que são infinitos contínuos, nós mesmos enrolados em clausura firme, num tempo que parece para sempre, para sempre, fincados num nó apertado da memória. É daí que depois espreitamos os dias discretos que passam, de onde tantas vezes estamos ausentes.

14.7.06

Check list

Diana Blok, Boy with Birdcage. 2003 [click!]

Basta de candeeiros e beatas, de passadeiras e escadas, de deglutições em magote, de gravatas relativamente recentes e de camisas mal passadas por enfermeiras ucranianas.
Basta de ATM's e de blisters (mas alguém tem de fazer um poema rapidamente com a palavra blister!) e de brushings e de unhas manicuradas que só duram dois dias. De aftershaves a conta também já chega.
Basta de ideias inúteis e de descobridores de fósforos.
Já chega de sabões, detergentes, ratos sem fios e a tralha a acumular-se e de grupos de meninas em três na cervejaria do Chiado, a gordinha a chaperonar a bonitinha, a viborazinha em treinos. Prefiro também não ver pijamas intelectuais pelos locais de estilo. Alguém que me explique também o que se passa em algumas livrarias, onde todas as almas penadas circulam num ritmo amoroso fúnebre.
Ainda não estou a fazer oitenta anos, mas mesmo assim digo que já basta. Não tarda, zarpo para as ilhas, com as vacinas em dia.

10.7.06

Práticas eugénicas

Considerando que as universidades são caldo de endogamias, fica-se a aguardar com grande expectativa o resultado do cruzamento da competência académica de umas com a competência atlética de outros. É este o meu comentário - muito lateral, é certo - ao dossiê do NYTimes sobre assimetrias de género nas universidades americanas. Os rapazes das famílias más andam tramados; por cá também, mas ainda ninguém lhes deitou a mão.

9.7.06

O que se faz #5. Costura-se a voz

Esclarecendo que o poema
é um duelo agudíssimo
quero eu dizer um dedo
agudíssimo claro
apontado ao coração do homem

falo
com uma agulha de sangue
a coser-me todo o corpo
à garganta
e a esta terra imóvel
onde já a minha sombra
é um traço de alarme

("Poema I" da Luiza Neto Jorge)

Contraponto

Também gosto assim.

Foi bonita a festa, pá


Em geral pois, como se diz por aí, não há regra sem excepção(ões).

Even educated flees do it

As fêmeas antílopes cortejam-se entre si e acariciam despudoradamente a genitália das suas preferidas, esteja ou não algum macho túrgido por perto. Os machos golfinhos juntam-se aos pares, podem até admitir fêmeas passageiras, e vivem nessa dupla longos anos de dedicação e meiguices. Os bonobos baralham as regras e acasalam com tudo o que vier à rede: fêmeas, outros machos, sem qualquer atenção à posição hierárquica na comunidade. Os babuínos, ferozes guerreiros, amam-se entre si, como gregos virtuosos. Há carneiros de porte castrense que são bichas impenitentes. E os polvos, até os polvos, querem lá saber da transmissão dos genes e não perdem oportunidade de um one-night-stand nas noites eternas dos mares profundos, com um outro bacano qualquer, ainda que de outra espécie, ainda que quatro vezes maior, que esteja a fim da interacção mais misteriosa da natureza. Nem os patos escapam à barafunda, incluindo em respeitáveis famílias um macho suplente para todo o serviço, inclusivamente o baby-sitting de patinhos satisfeitos e bem-comportados. Isto tudo aprendi eu ontem depois de me ter baralhado entre as folhas repolhosas de um Expresso deslavado, que em boa hora troquei por um programa da dois.

6.7.06

Ando batida aos pontos por um bronco

De subtilezas é o que reza a história. Não faz mal que tudo não passe de uma lengalenga, cantilena, ladaínha. A gente entretém-se e acontece entre as dobras, penugem ao vento. Mas um bronco não. O bronco é nesse sentido um tipo glabro, coriáceo. A espinha, creio eu, não se lhe arrepia, pois de tão dúctil se fez víscera suplementar, que malignamente me ocorre servir apenas de trânsito a portentoso bolo fecal. Não é a falta de letras, nem de cromossomas, nem a falta de ocasiões e de oportunidades, o que está na origem do bronco. Não sei como se diz "eu expando-me leve e flexível" nas narrativas do bronco. Até nisto o bronco exerce a sua insidiosa opressão. Nisso, sabotando-me insuperavelmente a possibilidade de enunciação, e também neste encalhamento opressivo que não me deixa sentir o cheiro da aragem, apesar de o dia estar azul e radioso. O bronco sabe que é bronco aos meus olhos e gosta de o ser. Assim ainda lhe sabe melhor levar-me ao tapete. O bronco também converge comigo quanto ao facto de estarmos de lado opostos sobre o que vale a pena. Está criada, pois, a situação laboratorial e o resultado não é muito animador: o bronco vence-me aos pontos, até agora; se ele acabar por vencer, hei-de tornar-me totalmente marginal, periférica, subinstanciada. O chimpanzé da imagem está comigo, é dos meus, acalenta-me.

3.7.06

It's Monday Holy Shit

[ Andy Warhol, The Kick. 1986 click!]

É desta. Começo a gostar do futebol


Sim, isso, as imagens das caras e dos gestos, uma torrente de expressão dos corpos e das faces, dos braços, das mãos. Além disso, as pessoas ficam bonitas. A bola, as regras do jogo e as bandeiras ainda não me cativaram, mas isso começa a parecer-me irrelevante. Não deve haver coreógrafo, por mais genial e bem equipado, que consiga replicar tanta energia e emoção.

2.7.06

Ciências do natural #2

Tracey Emin.

O exercício do poder sobre alguém começa sempre assim. Confia em mim, que quer dizer, confia-te a mim. Eu nunca consigo confiar em quem pede a minha confiança. E se tento, perco-a de vista. E se confio, é porque já confiava. Confiar faz parte dos actos livres e gratuitos, governados por uma vontade que não se deixa modelar pelas ponderações do que é mais adequado fazer. No exercício do poder sobre os outros é preciso ter isso em conta. Na submissão ao poder dos outros sobre nós é escusado omitir a reserva nas conversas com os botões. É uma terrível perda de tempo o tempo de vida que se leva a perceber que se faz sempre o que se quer. Pior ainda é o custo da sabotagem da nossa vontade. Lá para a frente podem receitar-nos uns ansiolíticos para vivermos mais confortáveis com isso.

Pastoreando de táxi

Oggy Ogburn, Ebony Horseman.

Ontem voltou-me a palavra "macambúzio". Estranhando-a, fui procurar a etimologia. Embora apresentada com incerteza, encontrei a tese de Nei Lopes, segundo a qual a palavra terá origem numa fala banta de Moçambique, em que makambuzi significa 'pastor de cabras', palavra que, por sua vez, deriva de mukumbuso, 'memória, lembrança, recordação' (em nianja, m'busa 'pastor', kukumbutsa 'recordar'; em suaíle kukumbuka 'recordar'). E uma frase:

para o cafre da Zambézia, o símbolo da tristeza é o pastor no isolamento da campina distante, vigiando o rebanho

O senhor Sousa pastoreou-me no seu táxi ontem à noite. Eu fui a ovelha desta vez. Tinha umas réstias de Rachmaninov ainda comigo.

1.7.06

Apreensão metafutebolística

Não sigo o futebol, mas sigo com delícia o entusiasmo pelo futebol. Quando acabar o campeonato vai toda a gente voltar ao macambuzismo? Vai, não vai? Não estou a falar da festa lá na Alemanha. Estou a falar daqui, da quantidade de sorrisos e caras desfranzidas que ando a ver nas últimas semanas.

Paixão pelo Mal


Parabéns, Luís. Aliás, obrigada.
Ou melhor: muito obrigada por nos deixares partilhar o que vês.

30.6.06

Being watched. Pai nosso que estais no céu

We examined the effect of an image of a pair of eyes on contributions to an
honesty box used to collect money for drinks in a university coffee room. People paid nearly three times as much for their drinks when eyes were displayed rather than a control image. This finding provides the first evidence from a naturalistic setting of the importance of cues of being watched, and hence reputational concerns, on human cooperative behaviour.

daqui


Por causa disto, percebo agora, ofereceram-me um dia uma pintura a acrílico sobre papel de embrulho, no qual me tinha chegado uma encomenda de víveres familiares. A obra foi produzida em solidariedade noctívaga, nas vésperas de um exame que implicava lauta assimilação de inutilidades e uma das questões que recorrentemente se cruzava por esses dias era precisamente a da minha fidelidade oculta a pautas de morigeração, apesar do verbo libertário. Incauta, deixei-me acompanhar por essa imagem ao longo do tempo. Levei-a para a minha casa adulta e até as crianças aprenderam o seu próprio nome sob o meu gesto remissivo. Já não vive quem, apesar de nunca ter sido apresentado ao autor da pintura, foi representado no quadro, com o seu olhar agudo. Eu continuo a discutir, a argumentar, a discutir-me, a argumentar-me. O olhar nunca mais se gasta. Ocasionalmente olhei-o de viés, triunfante de algum pequeno feito de naughty girl, em dias que não contribuiram para a frescura e longevidade dos meus sofás. As quais, tal qual nas pessoas, parecem andar curiosamente cosidas aos bons costumes. Com o passar do tempo, sobretudo porque naquela imagem reside hoje a única evidência física, exterior a mim, de que o olhar alguma vez existiu, vem acontecendo o estranho fenómeno de os olhos se tornarem cada vez mais significativos, a ponto de eu começar a detectar o esforço físico de focagem. Tudo visto e ponderado, num dado instante, as coisas seriam assim. Esse momento, quando o capto, devolve-me outro indício de que existo.

25.6.06

O que se faz #4. Tomando as coisas como elas são

Pépé Smit, Afterglow. [click!]
A sorte - geralmente - favorece os audazes. Muitas vezes isso parece um desperdício de recursos por parte da sorte. Todavia, às vezes a sorte não está de favores, não se percebe bem porquê, embora aconteça que os audazes, com uma frequência que merece registo, não desejem, desde o imo mais fundo do seu íntimo, ser envoltos em bafejos de qualquer tipo - não sejam eles o do hálito morno do regaço original ou, enfim, o de um outro que, de forma não menos absoluta, os recolhesse e assegurasse, fosse isso real.

Eu hoje acordei assim

Pépé Smit, Affection. [click!]
Audere est facere. Tellement faite.

O que se faz #3. Esqueci o dia

Joseph Kosuth, Wittgenstein's color.1989 [click]

Em que aprendi o meu nome.

O que se faz #2. Fazendo flores

Walasse Ting, Do You Like Red Roses?.1983 [click!]
Dá-me lírios, lírios
E rosas também.
Dá-me rosas, rosas,
E lírios também,
Crisântemos, dálias,
Violetas, e os girassóis
Acima de todas as flores...
Roses are blue
Violets are red
I'm not good with colours
But I'm good in bed
(...)

24.6.06

Speculum

Redentoras são as palavras de quem acredita nas palavras. Vivemos de palavras emprestadas. As palavras ferem a crosta infinitamente complacente da deriva que nos leva os braços, os olhos, os dedos e a pele. Acontece as palavras, ecos imortais, chegarem de alhures, e trazem o que sabem, de onde não sabe, e trazem o que podem, de onde não querem, algo maior que elas, mais verdadeiro, mais intenso, inútil e vital, na voz que as diz. E então, olhamos.

Prière

Timur Tsaku, Dancing on the Wind.2003 [click!]
Um homem exilado em casa faz tratos inconfessáveis com o silêncio vadio e mofino. E depois, ele não lhe chega. Vem dizer que afinal é na rua, o silêncio é na rua. Era, lá isso era. Oiço-o ainda às vezes. Que num recôndito sítio muito frio um véu de gelo que queima em seda se desfaça.

21.6.06

Futebol

Nunca torço por Portugal nos jogos de futebol. Não gosto da bandeira desse clube, embora alguns jogadores sejam fotogénicos. Tenho um amigo que diz que as emoções são magníficas. Autorizadas, penso que é isso que ele pretende dizer. Autorizadas, legitimadas e partilhadas. Isso é que é magnífico. Ainda adiro.

Quase-prova de vida


Caroline Golden, Waiting to Scream.1998 [click!]

É quase certo que existo: não sei o que pensar sobre a maior parte das coisas e essa dúvida quase me satisfaz.

18.6.06

O que se faz

Beth Moon, Chestnut in Cowdry Park
Não é que os dias custem a passar, não é que demorem.

16.6.06

São rosas, apenas rosas, meu adorado senhor


Delmas Howe, The Miracle (Genet´s Dream). 2003 [click!]

Que mais poderia eu trazer no meu regaço? Pães?!

14.6.06

De volta às quotas

De tecto de vidro é coisa de que não se fala abundantemente a propósito de quotas, mas é do que devia falar-se. É por haver o tecto de vidro no acesso aos lugares que não são objecto de um critério objectivo de selecção (como é o caso do acesso, mediante exames, a certas profissões como a medicina e a magistratura, para não falar do acesso à universidade) que a lei da paridade (a que insisto em chamar lei do terço) é uma medida justificada. Mas também não lhe deveríamos chamar apenas lei do terço. Preferível seria dar-lhe o nome verdadeiro e completo: lei do limite discriminatório máximo das mulheres no seio dos partidos que têm assento em órgãos eleitos da democracia representativa, porque é disso que se trata.
Ou será mesmo que as mulheres de mérito (especialmente as dos partidos mais conservadores com assento na Assembleia da República, que as socialistas devem estar já lá todas, visto que rareiam no Governo) não querem saber da política? E se sim, neste país de médicas, magistradas, universitárias, professoras, químicas, porquê? Não terá isso já a ver com o tecto de vidro?
Claro que podemos fazer de conta que não existe esse verdadeiro limite ao mérito e esperar que o bizarro fenómeno da escassez de mulheres em órgãos da democracia passe por si mesmo, mas talvez depois tenhamos de nos perguntar como convivemos com a ideia de um sistema discriminatório sem freio nem obstáculos confortavelmente sentado nas nossas instituições, a começar pelo nosso democrático parlamento. Ou então, convertemo-nos ao mérito rançoso, o que se anicha no conforto do tecto de vidro. Negando-o.

All things please the soul—but these please the soul well

Harry Holland, Theo. 2006 [click]

I have perceiv’d that to be with those I like is enough,

To stop in company with the rest at evening is enough,

To be surrounded by beautiful, curious, breathing, laughing flesh is enough,

To pass among them, or touch any one, or rest my arm ever so lightly round his or her neck for a moment—what is this, then?

I do not ask any more delight—I swim in it, as in a sea.


There is something in staying close to men and women, and looking on them, and in the contact and odor of them, that pleases the soul well;

All things please the soul—but these please the soul well.
Walt Withman, I Sing the Electric Body (Leaves of Grass. 1900)

12.6.06

Mosquito

Joel-Peter Witkin, Bee-Boy. 1981
Na lista de tudo o que sei que não acedo consta agora um Mosquito. Conceberam-no para protecção de lojistas que queriam manter à distância adolescentes indesejáveis, embora seja também útil para espantar jovens hooligans. É um som e só os novos o ouvem; aos ouvidos adultos é inexistente. Passou a toque de telemóvel, muito conveniente para utilização escolar. Se o Romeu e a Julieta estivessem assim apetrechados as coisas não teriam corrido tão mal. A não ser, claro, que acabasse a bateria ou estivessem sem rede. Ou sem saldo.

11.6.06

Contra-ofensiva

Niki de Saint-Phalle, "sky dance". 2000 [click!]

Elas ignoravam que eles não gostassem de celulite.

Ciências do natural #1

Chegar junto à parede, rodar sem esforço um brilhante objecto, frio mas agradável ao tacto, que existe para a minha mão. Ver, ouvir e cheirar a água que jorra. Ver, ouvir e cheirar a água. Que jorra. Seguir-lhe os trajectos. Submeter-lhe o corpo, receios nenhuns. A água viajou muito para chegar a mim e continua a verter. Não sei exactamente de que leito a tiraram, quantos quilómetros andou, a cor e a textura das vias por onde andou, tratos fiduciários que lhe foram dados. E é tépida. Sai da parede da minha casa, tanta quanta quero. Não a carrego, não a regateio. Posso abrir a boca e engoli-la sem ficar doente. A água continua a jorrar. Estou vários metros acima do solo, a distâncias mensuráveis de Gibraltar, do Mar Negro, da Austrália e de Mercúrio. A água corre ainda abundante e morna. Posso fazer isto todos os dias. Faço-o tantas vezes que já me parece uma coisa natural. Já nem lhe chamo chuveiro. Fico ciente.

10.6.06

Do género. Espécies procriativas aos sábados e domingos

Pépé Smit, Le Déjeuner sur l'Herbe. 2003 [click]

Quando não chove, as espécies domésticas procuram o ar livre e, à medida da compostura de cada qual, afadigam-se em valorosos entretenimentos, ora educativos, ora benfazejos, das suas crianças-programa. É preciso que o tempo passe e as microproles são boas para isso. Saber o que fazer é saber quem se é. As microproles são mesmo boas para isto. Enfim, desde que colaborem.

3.6.06

Guillaume-Benjamin-Armand Duchenne de Boulogne. Medo. Mecânica da fisionomia humana. 1862

O veto e a realidade*

O Presidente da República fundamentou o seu veto à lei da paridade - isto é, à lei do terço - dizendo que ela estabeleceria um regime sancionador excessivo e desproporcionado porque, desde logo, poderia impedir que certos partidos ou listas de candidaturas eleitorais, que não aceitem ou que não possam cumprir com os rígidos critérios do diploma, concorressem às eleições.

Terá o Presidente tido em consideração a composição efectiva dos actuais grupos parlamentares? Se teve, deparou-se-lhe o seguinte:


O BE (4 deputados e 4 deputadas) e os Verdes (1 deputado e 1 deputada) praticam já uma lei da paridade propriamente dita. São pequenos partidos, são forças periféricas, não é muito expressivo, poderá dizer-se.

Passando ao PS, verifica-se que pratica já uma remediada lei dos dois terços e picos (74 deputados e 47 deputadas). Para esta força partidária, os mínimos já estariam sendo cumpridos; viesse a lei nova, calamidade nenhuma.


No entanto, o mesmo não acontece com os restantes grupos partidários:

O PCP, enfileirando-se actualmente segundo uma lei do sexto (10 deputados e 2 deputadas), teria de dar uma volta pelas militâncias e prebendas.

Finalmente, muito, muitíssimo, imensamente inconveniente, seria a lei do terço para o PSD, que parece preferir a lei do undécimo-vírgula-qualquer-coisa (69 deputados e 6 deputadas), e para o CDS-PP, que se contenta com uma sólida lei dos duodécimos (11 deputados e 1 deputada).
Tendo em consideração estes números, a afirmação de que a lei da paridade mereceu o veto porque poderia ser prejudicial para certos partidos ou listas de candidaturas eleitorais é, no mínimo, infeliz. E ou foi feita com desconhecimento da realidade, o que estará muito mal, ou é excessivamente realista, o que é pior ainda.
*Addenda: A "quota" efectiva das mulheres no conjunto dos portugueses é superior a 50%. Um partido que não aceite ou não possa, dizia o Presidente...

6.5.06

Paul Klee. Rapariga numa árvore. 1903

Partida

Os rapazes terminaram as obras. A hora di bai chegou. É esta mesma. Gostei muito de estar nesta insana lida, tentando ideias e palavras sobre lados minúsculos ou grandes da vida, dizendo-as em larga medida como se pela primeira vez. Soube-me bem, fez-me bem. Estou grata a cada um que quis passar por aqui, tenha deixado, ou não, sinais das suas leituras.
Se quiserem saber de mim, encontramo-nos noutro lugar. Para lá também seguem os dilectos rapazes desta miúda com sorte: o Lutz, o Afonso e o Luís.
O tropel das paixões segue por lá. Por isso, na verdade, verdadinha, o que eu queria dizer, rouca, requebrada e mimosa, é isto apenas: Vens?! Parto para o lugar comum.

Bocage e eu, à vista dos fins

Meu ser evaporei na lida insana
Do tropel de paixões, que me arrastava;
Ah!, cego eu cria, ah!, mísero eu sonhava
Em mim quase imortal a essência humana.

De que inúmeros sóis a mente ufana
Existência falaz me não doirava!
Mas eis sucumbe a Natureza escrava
Ao mal que a vida em sua origem dana.

Prazeres, sócios meus e meus tiranos!
Esta alma, que sedenta em si não coube,
No abismo vos sumiu dos desenganos.

Deus, ó Deus!... Quando a morte à luz me roube,
Ganhe um momento o que perderam anos.
Saiba morrer o que viver não soube.
[Manuel Maria Barbosa du Bocage]

Não sou versada em literaturas, e a bem dizer, em nada, a não ser em modo diletante. Mas ando por aqui e isso habilita a falar sobre a vida. Sobre a minha e até sobre a do Bocage, na parte em que ele parece reflectir sobre a sua. A minha ternura por Bocage neste soneto não tem fim. Gostava de lhe poder ter dito que o admiro e sigo, que acho válido comovermo-nos com a infinitude e imortalidade da essência humana. Dizer-lhe assim: "a mim, parece-me que tens razão, sempre tiveste razão; é na alma sedenta que a redenção consegue acontecer e os prazeres tiranos, todos os abismos e desenganos são as sombras dos sóis que nos resgatam".
Por mais amargamente que digam que ele fecha o soneto, gosto de pensar que, chamando-lhe graça divina ou que quiser, ele chega ao fim ainda no viço de crer que, afinal, saberá. Que é possível lá chegar. Que é indo, que se chega. À luz dos fins acode assim.

4.5.06

Work in progress

Frances Benjamin Johnston. Stairway of the Treasurer's Residence, Students at Work, The Hampton Institute, Hampton, Virginia. 1899-1900

Tive de mandar selar a entrada para a cave, o que obrigou a revestir de painéis a parede sob as escadas. Com os rapazes, nunca se sabe o que pode encontrar-se numa cave. Jura-me um que nunca lá iria, que para brincar com bonecas prefere os cumes do sótão. Que nem as pendura, nem nada, não as retalha, só lhes diz olá, olá, correndo-as em série como uma mnemónica. O outro finge que não houve nada, que nada ouve. Que está muito ocupado, que a curva do corrimão não está ainda na forma exacta. E assobia, fazendo-se anjinho. Há-de ser anjinho, mas lá na terra dele, que aqui não me engana. O mais daninho de todos faz-se todo maciezas. Que patati, que patatá, o belo varão encaixa aqui, se não dá, grosa acolá. Rapazes de olho brilhante. E a seiva ...!. Penso, pois penso, num certo lugar.

3.5.06

Check up on-line: nécéssaires

Eadweard J. Muybridge. Cockatoo Flying from Animal Locomotion (1887).

Às vezes parece-me uma ousadia altiva pensar que, nas viagens de longo curso, levar ou não levar nécéssaire não compromete necessariamente o êxito da viagem.

30.4.06

Tem hora di bai que não tem dor


Giorgio de Chirico. Gare Montparnasse (The Melancholy of Departure). 1914.

Não tem hora di bai sem nostalgia.

E, pensando bem, também não tem sem alguma esperança.

29.4.06

Da especificidade do género especialmente geral

Lari Pittman. Optional Setting for atmospheric conditions that can induce delirium in the male. 2001.

Lavandaria

Estimado cliente: diga-nos sempre que possível a natureza das suas nódoas. Limpam almas a seco?

Treinando em jejum

Suspicaz de amplas venturas, o calipígio paidotribes marcando digitalmente o treino para as doze, faço-me às sortes, que aos treinos não se falta: AM ou PM, mister? Coma pouco, respondeu-me.

28.4.06

Urso

Chamava-se Urso. Era um pastor, um pastor alemão, um cão. Espantou a família durante oito anos e depois começou a envelhecer. A maleita enfraqueceu-lhe até à imobilidade as patas traseiras. Arrastava-se, inteligente como sempre, olho húmido só um pouco vidrado. Era a indocilidade passiva da matéria, que dores não tinha. A família arranjou-lhe uma cadeira de rodas. Uma cadeira de rodas própria para um cão, entenda-se. Na nação dos cães, a que pertencia por direito de sangue e quejandos, não seria a sua canidade tão deferida. É provável que ele estivesse consciente disso.

27.4.06

26.4.06

Jumping & etc

Eadweard J. Muybridge. Jumping; Hand-Spring; Somersault; Springing over a Man's Back from Animal Locomotion (1887).

25.4.06

E contudo...

... tem demorado bastante. A malta ainda se abespinha bastante com os delitos de opinião. A desopinião dá muitos ares de canalhice do sujeito desopinado. A malta acalenta-se no simsismo à brava. A malta tem medo de tropeçar na língua. De pensar errado. Vai daí e pensa pelo cheiro. Verga a mola. Se acompanhada, abespinha-se. A malta anda abespinhável. A malta anda com medo ainda. A malta aquece-se no rebanho e bale. Méééé.... A malta persigna-se, inscreve-se e depois (dis)pensa(-se) ...

Onde é que você estava no 25 de Abril?!

Estava numa cidade, estava numa ilha? Chovia? Bordava missangas nas calças? Trauteava o Zeca? Soube por quem? Percebeu? Passou a noite toda sem dormir a ouvir a Emissora Nacional? Repetiu as palavras aos amigos? À mãe? Chamou os irmãos mais novos? Telefonou? Foi para a rua? Observou os mais velhos e tomou-lhes a agitação? Repetiu palavras? Usava calças à boca de sino? Relacionou com o pide do café? Enfiou as mãos na bata, no bibe? Repetiu palavras? Aprendeu cantigas? Foi antes das sms. Saberia por sms?
Esclarecimento em estilo de diva: é claro que só sei dessas coisas pela minha avó...

24.4.06

Manual de instruções #20

"Um vírgula um, um, um, um, um, ...", na mão esquerda, só porque é o lado convencional do coração. "Um, dois, três, ...", ao peito.

A deter-me demoradamente

Miró, Paisagem.1976

Em sete, sobram seis. Mas em Sevilha, não posso adivinhar. Aqui digo "assim, sim" ou "não, não". Ou não digo.

Matinal alento

Um blogue de nome bonito foi bom para mim.

22.4.06

Pepino breve

Era uma vez um pepino. Torceu-se e ficou pequenino.

Imagens da trabalhêra


- Anda cá, meu comentador galdério dos blogues-dos-outros, sim, tu, bestiúncula apeada da vadiagem limosa!
- Chega-t'aqui, foste apanhado pela bocarra, excomungado anónimo escamoso, sim tu, criatura viscosico-bestiária das profundidades lodosas!

Ahhh, a trabalhêra qu'isto dá...

18.4.06

Memória útil

‘Living backwards!’ Alice repeated in great astonishment. ‘I never heard of such a thing!’
‘—but there's one great advantage in it, that one's memory works both ways.’
‘I'm sure mine only works one way.’ Alice remarked. ‘I can't remember things before they happen.’
‘It's a poor sort of memory that only works backwards,’ the Queen remarked.

Lewis Carrol, Through the Looking-Glass, and What Alice Found There. Ch.5

16.4.06

A minha vela

As homenagens a vítimas podem e devem ser feitas, na minha opinião. Aos indivíduos, não às bandeiras. Embora seja certo que precisamos de um nome para os evocar e esse nome é frequentemente referente do mesmo elemento de identificação que consta de bandeiras, o mesmo que suscitou o ódio ou que alimenta a intolerância. Se as homenagens servirem para revisitar a nunca acabada reflexão sobre as questões da intolerância ou os motivos do ódio e forem uma forma de acção que os contraria, tanto melhor. A memória das vítimas é a nossa. Se somos descendentes das vítimas ou dos carrascos, tanto faz. Não respondo pelos meus antepassados, nem sei se me reconheceria neles, nem sequer sei se seriam ou não meus inimigos, nem quais deles eu escolheria como meus legítimos ascendentes. Sei que se escolher os que foram vítimas, faço a homenagem a mim mesma e se escolher os que foram carrascos assumo uma inútil e sobretudo anuladora culpa. E com isso, em qualquer desses casos, perco o sentido da homenagem às vítimas. Que pode e deve ser feita reforçando a minha memória contra a intolerância e o ódio.

Arrumando-me

Além de os folhear, de os soprar, de me ver transportada sempre com espanto aos dias em que li certos livros, agora hei-de levá-los a passear algumas vezes. O princípio e o fim de alguns. Assim me arrumo (oxalá não de vez!, oxalá ocasionalmente).

15.4.06

Terceiro mandamento

Ama-te muito, já está dito. Ama os outros em ti e a ti nos outros, também já está dito. Ama também muito o próximo. Muito, muito, nunca menos do que amaste o anterior e vive sempre com essa esperança.

Richter e eu

Senti hoje um ligeiro abalo.

14.4.06

Do que "é"*

Clausura: O que tem nome existe.
Ambígua: Os nomes são dados, da(r)dos.
Reversão: Precários são os nomes.
Subverte-se assim.


*Não será talvez evidente, mas acabo de vir, assim, daqui.

Segundo mandamento

Ama-te incondicionalmente. Ama-te. Ama-te com tal intensidade que possas amar-te mais e mais, e mais ainda, através dos reflexos de ti, os outros.

8.4.06

Meninas e gajo dançando alegremente à sombra da morte

Picasso, Três dançarinos. 1925

Dúvida integralmente metódica

Sabemos já bem do clique que fixa a quina entre o que descrito ser pode e o que pode só infimamente apreender-se no langoroso segundo infinitesimal que não previne a derrocada. Ou a erupção. Chamem-lhe paixão, chamam-lhe bem.
Arrasar os corações é uma arte afim do hipnotismo das galinhas, embora tão mais patético o que age. O método como problema integral não conhece mais letal enunciado.

4.4.06

Lindíssima bátega

Lin ssi ma!

O mulherio felisminado

Este blogue estará provavelmente quietinho durante os próximos breves dias, enquanto a insensata leva o alfabeto para outras composições. Vem mesmo a calhar: se é certo que nunca se padece de míngua de tempo, apenas se vê reflectida a lista das prioridades na exiguidade, sempre remediada, dos recursos do tempo e do espaço, não menos certo é que o bolo falimentar das disciplinas vitais às vezes atinge tal densidade que só as espumas são autorizadas à luz do sol. E as espumas, as espumas encantam e frustram; são formas tantalizadoras do lúdico, para chóninhas, por hipótese. Adiante, que não é disso que se versa.
Passo às palavras a eito: antes de me interromper, ainda que simbolicamente, uma necessária citação, já atrasada de dias, deste post do bl_g_ _x_st_ , que eu gostaria de ter escrito, de certeiro e bem talhado.
Acresce agora, da mesma estirpe, este, em que vem referida a humilhação, invocada pela Zita Seabra, que a lei das quotas importaria para as mulheres - embora insira também o interessante tópico desse PSD benetton, laranja a bem dizer furta-cores, se quisermos olhar com atenção o bom género dos seus notáveis.
Ora, eu sei exactamente de que é que a Zita Seabra está a falar: não preciso de quota para me medir com os outros; há, felizmente, embora isso não me dê a felicidade na vida, várias disciplinas, artes e habilidades em que não receio, nem por um segundo, defrontar-me com a turba, um a um, sabendo que vou sair vencedora - e, o caso exige que a monstruosa personalidade de quem escreve se revele por um momento, se excepcionalmente não sair vencedora, o que me vencer merece a minha eterna paixão, ou no mínimo a minha fiel admiração e amizade.
Mas, não tendo recebido qualquer espécie de consagração por via masculina (como é próprio das mulheres filhas de, netas de, mulheres de, viúvas de que fazem o protagonismo "feminino" das sociedades intensamente hierarquizadas e masculinamente dominadas), apercebo-me bem de como se vive contra o vento das solidariedades, sinais de respeitabilidade, ritmos e marchas masculinas nestas bravatas com que me entretenho e sei encontrar todos privilégios e golpes de sorte que me assistiram ao longo da vida quando me dispus a juntar o inconciliável (desde logo, a procriação consciente e a credibilidade na praça, ou melhor, na praceta).
Como a Zita Seabra, eu diria: eu não preciso das quotas para nada! Ponho, disponho, lanço e retomo ao nível dos melhores, quando a isso me proponho (pronto, está bem!, escolhendo adequadamente o campo, para voltar à realidade e à sensata modéstia). Eu e muitas outras. Eu e - Gauss, komm hier! - mais de metade das outras.
No entanto, eu, mesmo tão ás-inha, considero que a "humilhação" das quotas é um mal necessário; que a vaidade é o bem menos relevante nesta questão. Que não há hesitação ética ou política (é o mesmo, ok?!) quanto à necessidade das quotas.
Sem ainda saber muito bem porquê (talvez aproveite a pausa dos próximos dias para explorar um pouco a ideia) surge-me no espírito, como uma brincadeira cuja ironia resulta do excesso de realidade, esta ideia alternativa ao estabelecimento de quotas: o concurso, o exame. Conceda-se aqui a ficção e pondere-se este sistema: os senhores candidatos a candidatos a deputados fariam um exame, as melhores seriam as elegíveis nas listas. Não há, tanto quanto conheço, área de actividade que tenha sido submetida a exames que paulatinamente não tivesse ficado enxameada de mulherio: numerus clausus universitários, medicina, magistratura ... Por isso, oh povo felismino de altivo porte!, verdadeiramente mortífera para a hegemonia masculina do poder seria a instituição de um qualquer sistema de provas.
A vaidade ferida do mulherio que se julga superior às quotas bem pode untar-se com esta certeza: o sistema só seria desgostantemente womenfriendly se se passasse ao crivo da prova escrita...! Not joking!
Mas, podemos dizer que os exames de admissão, tomados de assalto pelas mulheres, essas provas todas meritoriamente centradas em ideias de mérito, essa espécie de anti-quotas, são motivo para nos encher de orgulho?
Bom, a mim é que não. Eu nem sequer acredito na excelência desses sistemas de apuramento, considero-os deficientemente construídos, são a medíocre construção do mérito, ou pelo menos assim resultam, postas todas as circunstâncias. ... E aliás, se outras razões não existissem, os meus filhos, que são varões, não são menos capazes do que eu e eu não os quero fora de jogo por causa de umas criaturas felisminas de espírito obediente, que debitam competentemente os missais.
Vamos pelas quotas, que esse ainda é o caminho mais suave.