21.1.07

Em cima, por debaixo, por trás, ao lado

Ralph Humphrey, South Orange. 1981-82

O André Carapinha e a Sílvia Sousa apresentam um aforismo inspirado:
Apenso aqui duas subvariantes:
1.a. Por trás de um grande homem está sempre uma grande mulher. Pela frente dessa grande mulher não costuma haver nada.
1.b. Por trás de um grande homem está sempre uma grande mulher (ponto final). Por detrás de uma grande mulher estará sempre alguém ... (reticências: em cima, por debaixo, ao lado )
[NOTA: afinei 1.b.]

17.1.07

That´s all folks! (longamente aditado)

Gerhard Richter, Helen. 1963
Por aqui dá-se por concluída a instalação argumentícia teórico-fundamentalista e nihilpragmatática da IVG. A todos os que me sinalizaram, obrigada por terem detectado o meu esforço para tocar nos pontos decisivos. A todos os que me tresleram, obrigada por me permitirem identificar modos expressivos susceptíveis de melhoramento. A todos os que me vilipendiaram, obrigada pela inequívoca confirmação da minha pontaria.
Siga, pf, a campanha com os seus narizinhos de cera.

Aditamentos:
1 – O PACOTE
Por ordem cronológica, do post mais recente para o mais antigo, o "pacote postal" em questão é constituído por:
- Mulheres e tubos de ensaio - embriões há muitos e há embriões de primeira e de segunda; a posse pública do corpo fecundo
- A importância de não se chamar Santoro ou os paradoxos da-vid'-umana - absurdos da posse pública do corpo fecundo; embriões há realmente muitos
- "Fazer um aborto" - é uma expressão corrente; apesar do esforço simbólico em sentido contrário, as pessoas sabem que fazer um aborto não tem mal; o corpo fecundo reclama-se
- Filhos são entidades únicas - parâmetros do infortúnio (ou de felicidade)
- Embriões são entidades descartáveis - embriões há muitos, mas mesmo muitos, mesmo
- Muchas gracias - ou o "sim" a reboque da argumentação do "não"
- Entidades descartáveis - (Id)entidades - (obiter dictum); da vid'-umana; coisas da individuação (indivíduos não há muitos, há só um)
- Saddam e o aborto. Um exercício cru - da vid'-umana; a tristeza é a emoção com que se reage ao infortúnio, enquanto a repugnância é a emoção com que se assinala o mal.

2- A CONCLUSÃO
Dei por concluída (tanto quanto avisto) a argumentação sobre o assunto por dois motivos: embora eu considere que os meus pontos de vista sobre a questão são partilhados efectivamente pela maioria das pessoas, não obstante a espessa camada simbólica de insistente re-enunciação e reformulação por parte da ICAR&Associados (aqui recordo Boaventura Sousa Santos, mencionando a perícia desse organismo em séculos e séculos de racionalização do absurdo), estou perfeitamente ciente de que o registo expositivo em que os apresento está longe de corresponder a uma defesa low profile do "sim", que vem sendo veementemente apresentada pelos gurus da táctica como condição de vitória no referendo. Inclino-me perante quem sabe. Entretanto, o que queria dizer, está dito. Limito-me à decisão de não me repetir. E o que quis dizer, fica dito.

3- OS AGRADECIMENTOS EM ESPÉCIE
Agradeço em particular à Sara Monteiro, comentadora no Quase em Português, no Timshel e no Dragoscópio - sempre airosa, fresca e perfumada, é certo, mesmo quando letal, um autêntico Bond feminino a quem não falta um viçoso pastor e um ciciar pigmaliónico - várias intervenções rectas, benevolentes e corajosas.
Assinalaram os esforços argumentativos de um ou mais posts deste pacote, com links nos seus blogues, e por isso lhes agradeço,
o Lutz (bis), a Shyznogud (bis), o Luís, a MIP, o Henrique, o JPN e a a Srp; também assinalaram, manifestando discordância, o Timshel, o Fernando (bis) e o Pedro.
O "não" teve também a amabilidade de reagir mais visceralmente. O Orlando comparou-me a um exquisite carpaccio de cavalo; o Dragão defendeu-se denodadamente, embora um pouco atabalhoado, desta Barbie explosiva que subscreve, ao som das interjeições do Carlos. Da parte dos comentadores do "não" em modo de desmando, a fartura vai dos "teóricos de vão de escada em supetões indignados" (obrigada João!) a criativos de estimulantes jogos de incidência anatómica, que anseio por experimentar.

15.1.07

Mulheres e tubos de ensaio

Ao elevar-se a questão do estatuto do embrião a elemento central na discussão da legitimidade do aborto faz-se de conta que se esquece, ou esquece-se mesmo, que hoje em dia os embriões humanos ocorrem em dois meios: no corpo humano e em meio laboratorial?

Os laboratórios congelam embriões excedentários, assim adiando o momento da sua inviabilidade. Entre a decisão laboratorial de congelar e a decisão natural do desmancho da gravidez não há diferença de monta do ponto de vista do futuro do embrião - no segundo caso, fica logo inviabilizado; no primeiro caso, é elevadíssima a probabilidade de vir a acontecer-lhe o mesmo.
Por outro lado, descartar embriões - imediatamente ou a prazo, congelando-os - nos laboratórios é uma decisão que tem pouco ou nenhum significado existencial para o seu autor. Ninguém vai preso por isso.
Em contrapartida, permitir, ou não, a continuação da gravidez é uma decisão (visceralmente) existencial. Mas pode-se ir presa por isso.
Centrar a questão ética suscitada pelo aborto numa pretensa defesa da vida humana extensível à protecção dos embriões demonstra claras opções quanto à valia ética desses receptáculos em nada superiores a tubos de ensaio, excepto para efeito de censura, as mulheres férteis.
A pergunta não é "quando está legitimada uma mulher a abortar?"
A pergunta é "é legítimo negar às mulheres a prerrogativa de interromperem uma gravidez indesejada?"

11.1.07

O que se faz #9. Estamos

F.W. Murnau. Der letzte Mann. 1924.

A importância de não se chamar Santoro ou Os paradoxos da-vid'-umana

Esta aqui era a Gerri Santoro, tal como encontrada pela polícia, num hotel, há uns quarenta anos. Uma coisa boa dos nossos tempos, meu caro, é que a tua mãe, a tua irmã, a tua mulher, a tua filha, as tuas pessoas, não estão já sujeitas a isto na mesma medida da infortunada Gerri.
Mesmo que tenham o azar de não lhes calhar um dos 20% a 75% de zigotos ou embriões que vão para melhor ainda mais discretamente do que vieram (a cifra do fim, só para quarentonas, é verdade), podem conseguir autorização para abortar se o feto tiver malformações ou se tiverem sido violadas. Porquê?

9.1.07

"Fazer um aborto"


(pedindo licencinha ao Luís para o uso da imagem, neste post que é só meu)


Enquanto fui estudante, tanto no liceu, como na faculdade, várias colegas minhas engravidaram indesejadamente, o que, tanto quanto recordo, era recebido com um sentimento de calamidade, de naufrágio da vida que se pensava ainda viver. Pode-se dizer que isso acontecia às mais afoitas, às menos confiantes em si mesmas, às mais irresponsáveis. Diga-se, se se quiser. Seriam, também, muito férteis, isso sim, vivendo o pico da condição de corpo fecundo.
Fazendo uma breve e rápida conta por alto, vêm-me à memória uns quinze a vinte abortos, uns dois ou três casamentos, uma maternidade apadrinhada pela família da mãe.
Não me lembro em nenhum caso de qualquer espécie de dúvida quanto à legitimidade da decisão de abortar. Nunca passou de qualquer coisa como decidir, sim ou não, remover as amígdalas, em condições de angústia e medo, nas conversas entre confidentes e amigas. A única vez que me lembro de ter sido invocada uma "objecção moral" para a solução foi no caso de uma flausina com ambições nupciais que quis usar a oportunidade para forçar o enlace (expediente vulgaríssimo, nos dois sentidos).
Por isso tudo fiquei muito surpreendida quando um dia soube que o que forçava a clandestinidade do aborto não era a ignomínia padreca de ter alguma coisa a ver com sexo, mas a própria intervenção do Estado. Como se dissesse: você aí, essas amígdalas que traz na garganta, só com deferimento da Autoridade as pode mandar retirar. Uma intervenção autoritária e anómala, requisitando o corpo em que as pessoas vivem, contrafactualmente às circunstâncias físicas do existir, ao arrepio do que cada uma sabe sobre si mesma e - é de sublinhar - dificilmente conjugável com a cartilha democrática da dignidade e autodeterminação do indivíduo.
"Fazer um aborto" é uma expressão corrente, que se pronuncia a maior parte das vezes sem qualquer timbre valorativo. Como quem fala de funções corporais. O facto de haver uma lei a dizer que não é assim significa que, apesar da correnteza, se pretende ver consagrado um estatuto de cidadania ad hoc para quem vive nos corpos cujas entranhas são nidificáveis reprodutivamente. Esses corpos seriam, pois, objecto de expropriação legal.
Contudo, "fazer um aborto" é uma expressão corrente. Discutir a legitimidade do aborto é como discutir a legitimidade de funções corporais. A legitimidade da proibição legal é que tem de ser demonstrada.

8.1.07

Filhos são entidades únicas

Mihoko Ogaki, vor dem anfang - nach dem ende #1. 2006
Filhos são entidades únicas, tendencialmente absolutas, que nidificam no nosso coração.

7.1.07

Embriões são entidades descartáveis

Um embrião é uma coisa descartável, tendencialmente excessiva, que eventualmente nidifica nas entranhas de uma pessoa fértil.

Muchas gracias

- Os meus impostos para financiar desmanchos a essas gajas? Não, obrigada.
- Vá lá, sim, por favor, vá lá (bá lá, blá blá blá...)*
- Não, obrigada. Prefiro ir a Espanha.




*Blá blá elas são coitadinhas blá blá, nós somos bonzinhos, blá blá, nós também achamos que há coisas sagradas blá blá a-vid'-umana blá blá é uma coisa sagrada blá blá blá é só por causa de blá blá blá

2.1.07

2007

Meret Oppenheim, Object. 1936

Resta prosseguir caminho. Por esse intervalo tectónico entre o deus de Espinoza* e o livre arbítrio de Schopenhauer**.

31.12.06

looking forward

Elizabeth Murray. Dis Pair. 1989-90

Olho em frente por amanhã, deixando para trás, para sempre, todas as penúrias. Amanhã tudo o que existe de bom continuará a existir e tudo o que não presta terá mirrado naturalmente até desaparecer sem resíduos. O ar será confortável na cara e no peito, os olhos estarão brilhantes sempre. Os que nos amam amar-nos-ão ainda mais e nós a eles, ondas amáveis e largas acudirão a banhar-nos, até ao ponto exacto em que desejemos trocar de bonança, sem nunca desafinar a harmonia. A desarrumação terá um ângulo novo, desvendando o gáudio afinal inocente e imaculado de inteligências fecundas. É escusado lembrar que os conceitos de arestas cortantes ou exalando enxofres, sangue e urina, sejam eles de chagas a devastação polar, passarão a rolar polidos com um chilreio de espanta-diabos a uma distância lúdica (e já não de segurança). Os portugueses com mais de vinte e cinco anos terão em média menos seis quilos de espessura e franzirão o sobrolho apenas na utilização do fio dental propriamente dito, ou não, sendo esse sério caso. As mentes luminosas e reconfortantes que eu visito na blogosfera continuarão a permitir que eu me alimente nos seus espíritos. Algumas pessoas que vêm aqui de vez em quando deixarão ainda atrás dos seus clics esta grata dúvida de que, se calhar, existimos de verdade e, afinal, andamos todos por aí, não é que andamos mesmo?!

30.12.06

Maçadora

Ainda acho a pena de morte uma grande maçada, talvez ainda maior. Saddam lá foi executado, exemplarmente: os carrascos vêm da banda desenhada, com a armadura moral do homem aranha, a corda é vulgar e orgânica, a morte foi rápida, o executado parece um cão. Saddam interpretou magnificamente o papel do mau de uma história reles em que o bem vence para sempre e isso não tem o mínimo valor.

26.12.06

Em tempo


Fizeram-lhe ver que desejar a alguém, como gesto superlativo, a concretização dos seus desejos é como condenar essa pessoa à asfixia pelo excesso de si mesma, ao definhamento pela carência de crise. Que quando se quer fazer um desejo eloquente e grandioso é necessário falar de novos sonhos, de outras esperanças, ainda e sempre radiosas. Onde encontrar agora um símbolo gráfico, um ícone desta ideia, que possa ficar bem ao lado da inscrição I am not your love, I am your lover (ou seria I am your love though you are my lover...) ?

24.12.06

Postal de natal

I wish you a merry xmas
i wish you a merry xmas
i wish you a merry xmas
and
(again!)
i wish you a merry xmas
i wish you a merry xmas
i wish you a merry xmas
and
a happy new... (again!!)
i wish you a merry xmas
i wish you a merry xmas
i wish you a merry xmas
and ... (yes yes yes) a...

Bruce Weber

23.12.06

Entidades descartáveis


Se um embrião é, por natureza, uma entidade descartável - e será, assim, se assim se quiser, um caso de vida humana descartável, so is life - profusamente sustentada por tantos óvulos e tantos espermatozóides em constante reboliço, que andam por aí para isso mesmo, a identidade ainda o é muito mais. Com a mínima diferença de que não o é por natureza. Troca-se o objecto amado, deliquesce-se o sujeito, um nome dito outramente - será o meu? soa diferente, quem serei? Descartável esse eu que vive do nome, e já nem falo dos números de cidadanias e pertenças que um dia, dizem-no ministros, serão únicos - o que para o efeito pouco importa. Já nem falo de ruas e andares, de endereços electrónicos, de ícones e santinhos, etiquetas de casacos. Nem do cartão de eleitor, nem do nome, de novo, declamado por um oficial de justiça num claustro que também pode ser de hospital, para receber uma pena ou uma pica. Há quem se tome pela sua identidade, isto é, pelas suas identidades. Descartáveis. Há um país inteiro a boiar nisto. Como se pode desejar bom natal?

10.12.06

O cravo e a ferradura

Quando se dá desconto ao que diz o Jardim, o que é que não está a ser levado a sério? O Jardim ou as instituições da democracia? E porquê?

O peso das culpas ligeiras


Por causa das novas regras sobre segurança nos aeroportos, passou a andar exposto ao mundo o afundamento sem jeito do pequeno presente do regresso, sucumbindo num dos cantos do saco de plástico, sempre grande e sem forma mas agora também transparente, das lojas duty (but not guilty) free.

8.12.06

Sobre rapazes de mentes magníficas muitos anos depois

Pablo Picasso. Maquette "Minotaure". 1933.
Alguns rapazes adoptam figuras e formas bizarras e é sobre elas que depois transportam os sinais das suas mentes magníficas. Juntam-se, por exemplo, três ou quatro. Ajuntam-se em torno de uma roda de barriguinhas redondas, que eles montam na giga, gaiatos ainda e prontos à bravata, às cavalitas sobre o que outrora teriam sido colunas, numa nuvem do tropel contínuo dessas mentes que os possuem e velam por eles e continuam a brilhar. Os olhos lumem, tal e qual como antes, ou mais agudos ainda. Interceda de alguma nova dobra ou pela liana de pêlo surreal um fumo ligeiro, um véu humilde, uma discreta declaração de que o corço, o potro fúlvido já não está lá, não lhes faz diferença de monta. É guerra que não perdem. O animal partiu mas o esplendor ainda é o aroma alterno aos cheiros adocicados já tão pouco vegetais. Seja sapuda e vermelha a língua, brilhe, empastelem-se as palavras, um cicio não eréctil esborrache as sílabas moles de frases encurtadas, babem-se pelas meninas e passem a nu o strip das amadurecidas obtusamente em denial, são ainda belos animais mansos em pasto. A ternura lúbrica que inspiram.

1.12.06

Accroché à l'ombre

André Breton. Poem-Object. December 1941
Poderia dizer:
ces terrains vastes
de mon coeur maison
vaincue à la lune où j'erre
et object de poème
Poderia dizer só:
maison de l'ombre
j'erre mon coeur.
Poderia mesmo dizer apenas:
accrochée à l'ombre
É provável que em todos estes casos se tratasse ainda de dizer qualquer outra coisa igualmente óbvia.