Considerem-se as seguintes possibilidades:
1. Sim à pena de morte de Saddam e sim ao aborto.
2. Sim à pena de morte de Saddam e não ao aborto.
3. Não à pena de morte de Saddam e sim ao aborto.
4. Não à pena de morte de Saddam e não ao aborto.
O "sim" só deve ser escolhido se a convicção de legitimidade da acção é tão profunda que se actuaria em execução do acto em questão (aplicar a pena de enforcamento ou submeter-se a um aborto ou participar na decisão, consoante se seja mulher ou homem).
Por "aborto" entende-se a interrupção de uma gravidez apenas durante a fase embrionária.
3. comporta uma muito crua implicação: é mais repugnante matar um facínora que inviabilizar um projecto de filho.
Podia dar-lhe uma volta e dizer que é mais repugnante tirar a vida a um homem que eliminar um mero embrião, mas isso obscureceria as coisas. O que é interessante, para quem subscreve 3., como eu, é haver-se com a crueza da escolha.
Essa crueza não me convida a ir acomodar-me em 4., visto que o critério de 4. não é mais claro (não há consistência numa posição de defesa absoluta da "vida", nem mesmo para quem não mata uma mosca, basta que coma peixe, use sapatos de pele, pise uma minhoca ou arranque da terra uma cenoura).
Essa crueza permite ainda reparar que seria muito mais triste inviabilizar um projecto de filho que saber da (repugnante) morte de um facínora. Mas isso é assim apenas porque a tristeza é a emoção com que se reage ao infortúnio, enquanto a repugnância é a emoção com que se assinala o mal.