2.6.07

A velha questão

Bruce Nauman. Self-Portrait as a Fountain, c 1966.

Quem sou eu, o que faço aqui. Por que razão faço a pergunta. O que vale um ponto de interrogação.

31.5.07

De novo: Novíssimo Livro da Ensinança de Bem Cavalgar Toda a Sela

Aviso a todas as minhas amigas*

Lee Friedlander. New City, New York. 1997.

Um dia podemos chegar ao espelho e não encontrar a nossa cara, nem a sombra da da nossa mãe, nem a faísca lúbrica do senhor da padaria. Pode só lá estar a impressão digital de uma forma de vida extinta. Um formigueiro salvífico talvez comece então a trepar-nos pelas pernas, numa onda de espuma que pode alastrar desde a loiça sanitária até às portas da cidade, numa enxurrada mole e oca. Nada disso deve ser encarado com naturalidade, nada disso é real.
* E amigos também.

27.5.07

Não é assim tão fácil de modo geral


Com um estado de abandono dele deste calibre, a mão ainda contra a coxa dela, e com a intensidade da expressão de serena necessidade por parte dela, o prego só pode ser metafórico.
E assim sendo, acho que exprime o desejo, que se sente, de fazer-se, de si mesma, coisa aguda - diria esdrúxula, se fosse outra pessoa - que penetra na placidez simples do espírito masculino. Ou, melhor, a placidez simples do princípio masculino.
Considero que lidar com esse desejo é o assunto especificamente feminino que suscita as decisões éticas procedimentalmente mais difíceis, encapsuladas pela minguada propriedade da linguagem, para o efeito, estrangeira.

Estados da Matéria


Sendo certo que este "eu" é impessoal, como na generalidade das frases começadas por tal circunlóquio, diria agora assim:

- Eu condenso-me, e isso leva toda uma vida de acção sobre cicatrizes e colóides;

- Eu liquefaço-me, e alargo-me em gotículas na primeira teia.

(Pois se me evaporei... )

Meu ser solidificado seria coprolito ou relíquia. Ou negro.

19.5.07

Yuki Onodera

Ai jesus que lá vou eu!

Mais do mesmo



Não gosto muito de fazer este tipo de críticas, mas esta crónica do DN é um concentrado de pose, ignorância e generalidades que me desgostou muito ler num dos principais jornais portugueses.

A crónica parece desconhecer que em Portugal ninguém tem de ficar casado contra sua vontade (a não ser que seja uma mulher sem meios para fazer face por si mesma às necessidades suas e dos seus filhos, mas isso já é outra história).

Quem não quiser ficar casado e não tiver motivos de queixa do seu cônjuge apresentáveis a um juiz tem dois caminhos: ou lá convence a sua cara-metade que o melhor que fazem é ir cada um à sua vida, ou pega nas suas tamancas e trouxa e põe-se em separado.

E depois de assim estar, passado um prazo legal, basta-lhe praticamente pedir o divórcio e ele será decretado.

Por isso, divórcio unilateral - que é o nome da desburocratização em causa - de certo modo já cá temos. Já temos o princípio de que não pode impor-se o casamento a quem não queira estar casado.
Tudo o que está envolvido na fracturança do BE é se vai ser necessário esperar muito ou pouco tempo para ver consumada legalmente a situação de facto de ruptura; se é preciso fazer prova de separação, ou se basta a presença daquilo que está na base da separação (a vontade de terminar a vida em comum). Não é séria uma crítica à ideia que não se defronte com estes dados da questão.

Evidentemente que não se trata, com a defesa do divórcio unilateral, de eliminar apenas burocracia desnecessária: essa já foi eliminada substancialmente depois de se ter tornado possível o divórcio nas conservatórias do registo civil, diminuindo para o espaço de uma semana o que antes levava meses.
O que está em causa é se é o indivíduo ou o Estado o dono do destino de cada indivíduo. E quem diz o Estado, diz a comunidade impondo-se ao indivíduo (é uma questão puramente terminológica para o efeito).
A crónica não tenta sequer aproximar-se dessa questão. Pelo contrário, adopta uma posição justificativa da artilharia normativa apontada ao indivíduo:

As propostas do Bloco contribuiriam, pois, para destruir uma instituição milenar, para acabar com uma opção contratual necessária para a estabilidade de um número significativo de famílias e para tornar um certificado reconhecido e respeitado num título sem valor.

Nada disto é convincente ou sustentável.
A instituição milenar de que fala a crónica é uma mistificação. Como já tive oportunidade de referir, o casamento só foi inventado como contrato há menos de meia dúzia de séculos e só passou para o foro público na enxurrada geral da constituição dos Estados-nação, na disputa sobre o poder entre as instituições laicas pós-iluministas e a igreja. Isto se estamos a falar de casamento-matrimónio, aquela ligação entre um homem e uma mulher que imputa a paternidade dos filhos desta mulher ao homem com quem está casada (efeito primeiro e principal do casamento).
Cândida é, contudo, a ideia expressa na crónica de que o casamento tem contribuído para a regulação dos impulsos sexuais, dulcificando assim a definição do interesse do casamento enquanto "remédio para a concupiscência", um dos fins essenciais do casamento estabelecidos pelos teóricos medievais do catolicismo.
Cândida e quase comovente, pois não é isso que vejo em meu redor, antes a instituição da facadinha, em todas as suas dimensões, desde o formato suíço à majestosa catana (assunto a que talvez volte um destes dias).


Que a estabilidade das famílias não está baseada, ao contrário do que se passa talvez nas relações de trabalho, numa opção contratual, todos nós sabemos da experiência comum. Se alguém tiver dúvidas, experimente declinar por escrito em três minutos, e sem fazer batota, os termos do "contrato" que faz de si mesma cônjuge de alguém e depois leve o texto a um advogado pedindo-lhe para fazer a correcção, de acordo com o que está nas leis. (Não sugiro um dia de fraca auto-estima para o exercício, pode ser o golpe final!)
A ideia de certificado, que a crónica julga encontrar entre as máximas funções do casamento, provaria perante a comunidade que existe uma relação estável. Ora aqui está uma coisa que não quer dizer rigorosamente nada, sobretudo depois de as uniões de facto terem, perante a comunidade juridicamente organizada, a generalidade dos efeitos que o casamento. A comunidade está disposta a reconhecer uma série de coisas a quem é parte de uma relação estável, seja ela baseada no casamento ou numa união de facto. Certificado, basta o da junta de freguesia.


Embora salpicada de "custo", "benefício", "valor" e outros tokens ao sabor da toada que vai no ar, a crónica resume-se ao que sempre se encontra cada vez que é tocado o tema do casamento, em impressionante afinação com o que já se ouvia nos finais do século XIX, quando se introduziu o casamento estatal - princípio do fim das boas instituições, de que resta como subproduto precioso a prosa de Herculano. São sempre os mesmos argumentos, qualquer que seja o ponto da discussão. Como é nevrálgico e rígido o status quo bias em matéria de nupcialidades!


Há, no entanto, um ponto que considero interessante na crónica, que é o título. Suponho que a expressão "casamenteiros míopes" pretende evocar as posições do BE de defesa do casamento homossexual. E tem toda a razão. É o regime do casamento legal heterossexual que seria necessário eliminar. E depois redefinir todo o sistema normativo em função das tarefas próprias de uma democracia baseada na protecção dos indivíduos nas matérias que estão agrupadas no regime legal do casamento: filiação e questões de conteúdo patrimonial.
O resto, o resto é assunto do foro individual, que cada um deve viver como bem entende. E é para isso mesmo que temos de ter uma casa, ou, enfim, o quarto.
A imagem lá em cima é de Mm de Maintenon. Em lembrança do casamento morganático, que tanta falta nos faz, pela evidência que continha de pluralidade nas fórmulas matrimoniais.

18.5.07

Lengalengas, ratos e um desabamento sentimental



A generosidade da Shy, mesmo que o entusiasmo se justifique antes de mais pelo gosto do Castelo de Chuchurumel, deixou-me desconcertada. De um modo que me transportou a tempos passados, quando andava por aí, exposto à canícula, ao suão e à torreira do sol, o grande Afonso Bivar.
Sabendo-se que lengalengas e trava-línguas não são o mesmo, deixo aqui, encomendando a classificação à prudência do transeunte, este texto que, tendo sido elaborado como addenda a uma indicação minha em matéria de práticas eugénicas, acabou por deixar-me tão sem fôlego como propriamente as ditas, ou antes pelo contrário, nas suas melhores horas (e que sejam por muitos e longos anos ainda). Olhai, pois, esta lindeza, que há casulos que mais parecem baús.

Fica encomendado, gratamente, à Shy.
Andando eu de peso na consciência por manter sem expressão gratas emoções ocasionadas pela amabilidade de alguns links feitos para aqui - e correndo o risco de abusar da bonomia e largueza de espírito dos seus autores, por o fazer nesta espécie de cerimónia colectiva -, lanço daqui um agradecimento ainda:
Ao ANAUEL, com insensatez
Ao jmnk, com deleite
Ao João Tunes, simpático é o menino
À Margarete, porque sim
Ao CLeone, de blog felismino para blog feminista
Ao António P., alucinadamente
À Elisa, que a Primavera vai mais alta ainda e finalmente começa a dar sinais...- espero que aí também!
Ao Pedro, por quem ser escutada é um privilégio
À Helena, tão atenta e serena
Ao João Pinto e Castro, por várias, mas muito em particular por esta
Ao Luís e ao Lutz. Roubando beijos e pedindo a benção.

16.5.07

Porque gosto da política

Vivíamos na maior pasmaceira. Os blogues andavam moles ou embirrentos e dava por mim a limar as unhas ao telefone.
Subitamente: remodelações no Governo, vaga um lugar, como quem lhe cai um dente, no tribunal constitucional porque um juiz foi para ministro, para substituir um ministro que foi para candidato nas eleições de uma câmara, que ficou livre por causa de umas confusões do anterior presidente relacionadas com outras confusões de uma tal braga-qualquer-coisa, que um visionário vereador um dia disse ir "desmascarar".
Começou tudo há uns meses mas acelerou em bola-de-neve e termina, para já, com uma remodelação.
Que ninguém pergunte Qué máis irá acontécê?! com ar sonso. Porque vai. Ó se vai...!

Salvar crianças

Passem a palavra!

As time goes by

Russell Lee, Bulletin Board in Post Office Showing a Large Collection of "Wanted Men" Signs, Ames, Iowa. 1936

14.5.07

Maio insone Maio

Damien Hirst, Cinchonidine. 2004 [clic!]

Se não são as rosas, são os mosquitos. Se não são os mosquitos, é a luz. Se não é a luz, é o dia. Se não é o dia, é a noite. Se não é a noite, são as rosas.

10.5.07

Bolor

No Público de 8 de Maio lia-se, em afinação com os restantes meios informativos:

Em nenhum dos 18 distritos de Portugal continental ou na Madeira os alunos
do 9.º ano conseguiram obter uma média igual ou superior a três valores nos
exames nacionais (numa escala de 1 a 5) de 2006. Nem a Matemática, nem a Língua Portuguesa, ao contrário do que tinha acontecido no ano anterior com esta última disciplina.

Vejo poucas pessoas do 9º ano no meu dia-a-dia. Dispenso-as, a essas, de feitos escolares em qualquer disciplina.
As palavras "feito" e "disciplina" explicam porquê, embora possa acrescentar, para explicitude total, que há afecto e respeito e confiança nessa isenção particular.
Afecto, porque são pessoas queridas; respeito, porque me chegam como indivíduos inteiros e íntegros e assim me submeto à interacção com eles; confiança, porque descanso a minha velhice, carência ou doença no mundo operado por tais mentes, corações e mãos.
No entanto, quando leio ou escuto informação sobre o estado da nação juvenil, armo-me de rijas expectativas. Espero saber que lavam os dentes, sabem exprimir-se, estão conectados energicamente com qualquer coisa que não seja um huis clos pessoal ou grupal e usam as suas mentes novinhas em folha para pensamentos ousados e refrescantes, sobre o que muito bem se lhes aprouver.
Por isso fiquei preocupada com a dita notícia do Público. Pareceu-me que havia alguma coisa muito errada com a juventude e com o sistema.
Se não dão uso que se veja (traduzido em resultados escolares) à representação facultada pelo jorro caótico e complexo suportado pela linguagem natural, nem à representação expurgada e magrinha da matemática, que anda esta gente a fazer, que será de nós todos?!
Hoje deparei-me, no entanto, com esta outra notícia bastante contrastante, uma contra-informação poderosa da mensagem de mediocridade, de flacidez colectiva, de ameaça involutiva, de absentismo.
Valia a pena fazer um exercício exaustivo de leitura das imagens sob o mediático leitmotiv "somos um país roído pelo ubíquo Déficit Altíssimo e Profundíssimo" e, na mais jocosa ironia, limpar-se da (d)ox(idad)a maligna bebendo os ares dessa juventude tanto mais magnífica quanto anónima. Não me atrevo fazê-lo por me assistir um vestígio de sensatez a lembrar-me que não posso passar aqui o resto do dia - e, aliás, vou ter de concluir rapidamente, por isso mesmo.
Concluo, em primeiro lugar, reparada a confiança nos mais novos, que os meus canais de informação habituais são uma bodega.
Refiro-me aos telejornais e aos diários que papaguearam os resultados nacionais de português e de matemática do 9º ano e umas tantas outras sandices futeboleiras e politiquentas, distorcendo pela preguiça, pela impreparação e pela vulgaridade, a imagem do país onde vivo. Cobrindo-o de bolor, o seu bolor. Pensando bem, isto é mais uma confirmação que uma conclusão. (Sim, quero, inter alia, que o telejornal passe imagens dos meninos das escolas de alguidar-do-meio e de caracoletas-de-baixo, o que nem sequer é o caso).
Concluo, em segundo lugar, que tenho de aumentar a percentagem de pessoas com menos de 20 anos no meu quotidiano. Já andava a parecer-me que isto não vai lá só com retinol e muita água.

8.5.07

Recintos fechados

daqui

Diz um amigo meu, ex-fumador, pretendendo com isso conceptualizar o acto de fumar, que um fumador nega sempre qualquer coisa de que não gosta, na sua vida, em si. Inclino-me muito para aí: em todos os meus cigarros, cigarrilhas e charutos de recaída fui atrás de qualquer coisa mais além. Mas o que é que isto tem realmente a ver com a proibição de fumar em recintos públicos? Nada. A não ser o estreitamento do sonho, a desolação de assistir à exiguidade e extinção da espiral de fumo, essa matéria-passaporte para a transcendência, portátil e conveniente.

21.4.07

Um momento, só um momentinho

Shirin Neshat, Soliloquy series (Men with cannons - close up). 1999 [clic!]

Já volto.

Replicação*

Estilhaçado é o nome por que se responde, frouxa a curvatura memética do rabisco com que se firma, mesmo se a caligrafia perpetra uma carta de amor. Do arabesco que remata o post-it a salpicar da ternura mais funda o espelho da barba, nem consigo falar.

19.4.07

Oh boy!

Vão já vacinar a Bilucha, a Nenucha, a Tocas e a Mli!


Uma vacina que previne 70% dos casos de cancro do colo do útero já pode ser tomada - se pretendido, em ambiente hospitalar de alto gabarito tecnológico e hoteleiro - por 480 euros talvez comparticipados e, sem dúvida, susceptíveis de dedução no IRS. P'cébem?!
- Silentes e alinhadas senhoras deputadas do PS-quota-33,3%, excepto duas, esta humilde eleitora gostava de algumas explicações mais convincentes que a invocação de uma análise custo-benefício ensopada em género até ao colarinho...

18.4.07

O espírito da notícia do pai do filho

Gostava de dizer que não percebo se a notícia publicada hoje no Público sobre o pai de Sócrates é:
a) sobre as dificuldades que a administração demonstra ter na observância integral das regras sobre aquisições de serviços;
b) sobre o modo como são fiscalizadas as empreitadas públicas;
c) sobre a construção de quartéis da GNR;
d) sobre Castelo Branco;
e) sobre a actividade profissional de um homem chamado Morais;
f) sobre o mérito profissional de um arquitecto da Covilhã;
g) sobre a história de uma empresa falida.

Mas é escusado, não posso dizer nada disso: a notícia sobre o pai de Sócrates é mesmo sobre Sócrates.
E não é notícia nenhuma, porque informa muito pouco e mal. No contexto, exigia-se um cuidado noticioso que não se encontra na dita. É descaradamente apenas mais uma dose alarve e sonsa para contentar o apetite de "indícios", não esmoreça o fumo que a fogueira já lá vem.
Está visto que o Público já não é o que foi. O Público anda a cansar-nos.

15.4.07

Refresco

Inundada até à náusea pelo déjà vu? Saturada de querubins sem viço, de zunidos baços, de certificados e canudos, de coisinhas empoladas e indignações sem frescura à la portugaise? Desejosa de ... algo que tenha realmente sumo, mesmo que seja agridoce? Clica aqui!

Psst..., Shyznogud, clica também ali.

12.4.07

Lavores femininos

Ainda aprendi a bordar de bastidor, embora isso fosse mero resultado de uma intenção para me manter ocupada durante as férias escolares, abundantes muitos dias aos das excursões estivais familiares, numa altura em que, conjecturo, terei começado a ostentar aquele olhar ligeiramente lascivo das meninas de dez anos.
Passei, pois, pelo bastidor, que é aquele aro em que se estica o tecido, para realizar o ponto cheio, e antes disso pelo ponto cadeia e pelo ponto pé-de-flor, o primeiro.
A minha mestra foi a primeira vegetariana que conheci. Era vegetariana, idosa e solteira. Falava pouco, mas era gentil e exacta. Uma das primeiras coisas que aprendi com ela foi que qualquer pedaço de pano, olhado bem de perto, é uma teia de fios. Existem poros entre esses fios, que se tornam visíveis com uma observação focada. Podemos então seleccionar os fios que quisermos e, com a agulha, modificar a estrutura do pano.
Isto é um post sobre a porosidade. Qualidade que abrange a política, os indivíduos e até a minha conta bancária.
Yue Minjun, How are you Vermeer?. 2000

11.4.07

A entrevista

Achei Sócrates mais claro, mais natural, mais transparente e mais credível que o pardíssimo - e tendencialmente sinistro - painel da RTPN que a seguir comentou a entrevista (houve um que me pareceu melhorzinho, mas não fixei o nome).
Distraí-me um pouco com os perímetros abdominais dos entrevistadores, sempre que a câmara mudou o ângulo, tentando calcular quanto valeriam no conjunto (estou certa de que perto de 2 metros, mas só menciono o assunto porque dei ultimamente em reparar na epidemia, pela mão dos senhores jornalistas, diga-se), embora simpatize bastante com JAC, que não esteve mal. Não me distraí tanto, contudo, que não reparasse nas qualidades de líder e na genica de Sócrates. Só que a questão era de si tão arredada do que pode ser uma boa e nítida questão, que é muito provável que a entrevista tenho servido para reforçar tudo o que já se pensava, em ambos os lados da trincheira.
Pelo sim, pelo não, vou ver ser recolho pela casa todos os papelinhos que ainda sobram sobre o meu percurso académico, profissional, desportivo, municipal, etc, e passar a registar o tudo que faço num diário (com excepção, claro, daquilo que seja para esquecer).
Fantasio que em Belém se bebe um copito de festejos a esta hora. Nada como o sossego da nossa casinha.

Questões (de) minúsculas e maiúsculas

Gao Brothers, TV n.o 4. 2000

- O estado da Nação.
- O Estado da nação?
- O Estado da Nação.
- O estado da nação? Oh não!!

9.4.07

E agora, José?

Ando para aqui a puxar pela memória a ver se me lembro de algum caso em que um político à proa tenha sido tão escrutinado em público a propósito de aspectos tão corrosivos da sua hombridade. Ocorre-me um caso, o que suscitava profundas dúvidas sobre a fidelidade conjugal num casal altamente ministeriável (e não, não estou a falar de Sá Carneiro).
No caso, essa película de opiniões públicas que envolve os indivíduos e cujos sinais permite assinalar-lhes a correspondente categoria do merecimento social, tem sido desafiada em dois dos pontos mais sensíveis da respeitabilidade lusitana: a lídima masculinidade e o índice de casta. Que é como quem diz - literalmente - o tipo é maricas e nem é dótor (ou o seu Ersatz, ingenheiro).
Curiosamente, em ambas as situações deste caso - será paranóia minha? - andava por aí, disponível para o contraste, um campeão da testosterona e da respeitabilidade académica, a tal ponto que esteve para ser reitor da mesma instituição que passa certidões aos domingos.
O que é becas de giro é que isto passa-se no país em que se trata os subalternos pelo nome próprio, em que não se separa o lixo, em que a malandrice fiscal é um índice de inteligência, em que ninguém quer um preto para neto, em que a curva da barriga faz prova do índice de deriva emocional da casta masculina dominante, em que há putos de cinco anos que não sabem as cores e nunca viram um livro, em que se diz "desculpe" em vez de dizer "lamento", em que as excelentes leis que copiamos da França, da Alemanha e da Itália são sempre gestos de despotismo esclarecido, tanto estão afastadas de exigências clamadas pela sociedade civil, demasiado ocupada com a hombridade do umbigo para levar a sério estas puerilidades.
É bom, claro, submeter os políticos a escrutínio. Mas também se deve escrutinar o critério do escrutínio.

8.4.07

Exibir e expor

Beatriz Milhazes, Maresias. 2002 [clic!]

Em tempos achei que os blogues sem caixa de comentários eram exercícios autistas. Depois, por economia, fechei a minha caixa de comentários e percebi que um blogue sem caixa de comentários não é mais autista que um blogue com caixa de comentários, mas é um exercício irremediavelmente exibicionista, por mais mediana, simplória e corriqueira que seja a exibição.
Embora nada tenha contra o exibicionismo nos outros, desde que não me moleste, afadiguei-me então em colocar um discreto endereço de e-mail, que me permitisse andar convencida de que tinha superado a principal desvantagem do exibicionismo, que consiste em perder a suprema vantagem da exposição, a saber, o feed-back, retorno, contraposição, o que se queira chamar a esse espantoso fenómeno que é o de receber notícia do olhar alheio sobre o que julgamos estar a ver tal como é ou que nos traz mais do que o que alcançamos ver. Ocasionalmente chegam, por essa via, sinais amigáveis da complexidade do mundo.
Ao Amarante.

Afixação gratuita


Passei pelo Marquês. Só lá estava um cartaz, o do PNR, quase tapado com tinta branca. O cartaz do Gato Fedorento não estava já. Diz que não pagaram à Câmara. As subtilezas da democracia às vezes dão uns resultados com aspecto demente. Cedo este espaço aqui (imagem surripiada ali), de borla.


7.4.07

A woman in trouble

Tenho visto muitas fitas ultimamente. A maior parte delas num sítio que não posso dizer. Só posso dizer ... frio... frio..., ainda que nem sempre isso corresponda à realidade. Faço esta vaga referência, de gosto algo duvidoso - que delícia! -, porque este post é precisamente sobre fitas.
Ontem vi mais uma fita. A do Lynch, sobre uma mulher em sarilhos em Inland Empire, rincão californiano que dá nome à fita.
Não quero comentar a fita. Só quero registar isto: as palavras ditas por uma sem-abrigo anónima a uma mulher em grandes sarilhos, moribunda. Palavras que formam um gesto em conjunto com a carícia leve e acalentadora no cabelo da moribunda.
Palavras calmas, neutras, quase meigas: Don’t worry. You’re just dying, that’s all. Não me importava nada de morrer assim.

Desmentificando

Vincenzo Agnetti, Libro dimenticado a memoria. 1969
Dimenticare, desmentificar. Retirar da mente, esquecer, limpar. Revirginar. Recomeçar. Revigir. Desdementificar. Começar. Desmentificar, desdementificar. Começar. Ir. Recomeçar. Desmedir. Ir.

4.4.07

Desusos e-m uso

Apfelbaum
e-É de persistir numa kaloskagathia catita, mas que seja de tipo e-qualquercoisa, enquanto se e-spalham os trapos primaveris. Deixá-los e-nrolar nas pernas.

3.4.07

Coisas verdadeiramente importantes

Listen very carefully!

Com agradecimentos, pela boleia, ao Pitau Raia. Que vontade eu tinha de voltar a ouvir isto, vezes e vezes sem conta. E quantas mais pensei: 'bora fazer o da Lísbia amada... !


Nos entrementes, vai a Primavera avançada e nicles de paixões assolapadas. Não está certo!

30.3.07

O cartaz do PNR

As imagens do cartaz: um avião sobre uma quantidade larga de azul, o símbolo do partido, um sujeito de barbicha um tanto celta para a minha ideia do verdadeiro português (que terá qualquer coisa mourisca). Um conjunto empilhado como uma sala de estar cheia de bons costumes e caóticas geometrias. Mas inócuo, tanto quanto a falta de beleza o pode ser.
As frases do cartaz: Basta de imigração/Nacionalismo é solução/Façam boa viagem/Portugal aos portugueses.
Discordo por inteiro das frases; o voto de boa viagem, aparentemente a parte mais neutra, é um vão-se embora com luvas. Mas o centro da mensagem é basta de imigração/nacionalismo/portugueses. Discordo, entendo que deve discordar-se disto. Mas não me parece que a expressão deste ponto de vista, reaccionário e trôpego, constitua uma ofensa ou uma incitação ao ódio em termos tais que se justifique uma intervenção repressiva do Estado. É provável que os donos do cartaz se expressem ofensivamente e com ódio quando falam entre si. Não se atreveram a tanto. Por isso o Estado não deve intervir, não tem por onde intervir. A não ser que achássemos que o Estado deve intervir repressivamente perante meras opiniões (isto é, opiniões que, embora injustamente desfavoráveis para certas pessoas ou contrastantes com interesses tidos por legítimos, não passam disso). O Estado não tem de tomar conta do (mero) debate.

Falar verdade à sexta-feira

Ando para aqui a falar de verdade mais por me comover a crença na verdade do que por pretender a verdade; ninguém a vai dizer, não teríamos palavras. Na verdade, quem diz as verdades mais verdadeiras sabe que elas são provisórias e contextuais. Quem declara as verdades imutáveis só pode querer estar a exercer um poder demiurgo disfarçado de declaração. Quem se arrima demais às verdades declaradas perde o dom de se auto-orientar, torna-se um bicho de cativeiro. Quem se desvincula das verdades enlouquece, desnorteia-se e perde-se. Se o problema da verdade fosse verdadeiro, já cá não estávamos para contar esta verdade.

27.3.07

QED. Porque precisamos de histórias

Do estrangeiro perguntam-me pelo tempo e eu digo que o céu está baixo e largo. Há dois dias que, volta e meia, uma ou outra frase me aparece em legenda do que vejo, pense eu o que estiver a pensar. Não é só, e já não seria pouco, por causa do como se diz. É o que se viu, o que se sabe ver que se viu e se voltou para contar. Verdadeiramente, é o que se diz, do que se fala.
Estou a referir-me, claro, à história do Sr. R.

24.3.07

Medo, morte e destruição em Maputo


Foi preciso telefonar para lá para ficar a saber a dimensão dantesca da tragédia. O horror e o medo. A angústia de se saber, e aos seus, e aos seus meninos, abandonado ao destino e tudo o que se pode fazer é manter as crianças em casa e longe das janelas enquanto os projécteis voam, os cadáveres se semeiam, os destroços se acumulam, as explosões continuam. É como se estivéssemos no Iraque.
(In)compreensível a (in)sensibilidade com que o (não) assunto foi tratado nos media* portugueses. Inaceitável.

Como os filhos completam a tarefa dos nossos pais. Ou Crescer.2

(...) nunca fui para longe sem mim; e ele vai.

23.3.07

A casa e o quarto

A Virginia era minimalista, matou-se, mas não era parva. Dá-me que pensar porque dizia tanto que uma mulher precisa de um quarto que seja seu. Porquê essa unidade. É verdade que reduzindo o espaço a um quarto - e não a uma casa - lá se vai a unidade-padrão do poder doméstico, e com ela o mando, a possidência legitimada do visceralmente seu, num eu comprovável à força do tacto, lá se vai o dom da decretação do limiar dos sismos, a manha da fixação do preço no mercado dos favores, a via sacralizante dos sacrifícios, redenção expiadora. É toda uma girândola de suspiros, gemidos, ruídos e luz e fagulhas, a recolocar no sítio a estrela polar, a rectificar o esforço da gravidade, que se vai embora.

14.3.07

9.3.07

A humilhação do dia seguinte



Acredito muito nas impressões do dia seguinte. De ontem sobram duas gerberas num copo de água, hirtas à custa da espiral de arame pela haste acima.

Entraram também ontem na minha memória, devagarinho, duas ou três frases que falavam em humilhação pela (ridícula, diziam) efeméride.

Hoje, com as gerberas de pétalas pendentes, o arame ainda perfeitamente enrolado, a embalagem vazia de iogurte e o creme enriquecido com L-carnitina que alguém me pôs na mão, dou-me conta de que a minha humilhação deste dia seguinte é não me ter forrado de luto ontem por causa da humilhação de a humilhação de todos os dias estar a tornar-se ensejo de um momento festivo.

Em trinta anos, a efeméride transitou de objecto. Mais do que assinalar estatísticas inaceitáveis e acontecimentos funestos, mais do que prestar homenagem à bravura de arriscar a vida, ou pelo menos as seguras compensações de uma respeitabilidade de psyché, na sustentação de despautérios, exageros, inconveniências e outras ridicularias, a efeméride passou a comemorar a graciosa arte de servir cafézinhos.

No próximo 8 de Março, se estiver viva, vou vestir-me de preto.

8.3.07

[Pipilotti Rist]











O almanaque assinala dia d'a m'lher
que bom, obrigada
...viva,
viva...

6.3.07

Bloco de notas. Decidir e escolher.

O livre arbítrio é uma puerilidade. Talvez possamos decidir consciente e livremente algumas raras e privilegiadas vezes. Não podemos decidir permanentemente tudo. Temos hábitos bem formados, enquadramentos sensatos e alternativas racionais pré-seleccionadas nas melhores hipóteses habituais. O melhor que temos a fazer pela liberdade é manter sob controlo os cenários de escolha.
Em notação, Sunstein e Thaler a sustentar que o paternalismo libertário não é uma contradição nos próprios termos.
The false assumption is that almost all people, almost all of the time, make choices that are in their best interest or at the very least are better, by their own lights, than the choices that would be made by third parties. This claim is either tautological, and therefore uninteresting,or testable. We claim that it is testable and false, indeed obviously false. In fact, we do not think that anyone believes it on reflection.
(...)
[I]n many domains, people’s preferences are labile and ill-formed, and hence starting points and default rules are likely to be quite sticky. In these circumstances,the goal should be to avoid random, inadvertent, arbitrary, or harmful effects and to produce a situation that is likely to promote people’s welfare, suitably defined. Indeed, many current social outcomes are, we believe, both random and inadvertent, in the sense that they are a product of default rules whose behavior-shaping effects have never been a product of serious reflection. When the direct welfare inquiry is too hard to handle, libertarian paternalists have a range of alternatives. They might, for example, select an approach that would be sought by the majority, that requires or promotes explicit choices, or that minimizes opt-outs.

5.3.07

Sitiados

Joseph Kosuth, It was it No. 4, 1986
[phototext by Sigmund Freud from "Psychopathologie of Everyday Life" with Neon "Description of the same content twice / It was it"; white neon letters and blue neon-line; size 125 x 267 cm]

Se de palavras ouvidas e pronunciadas se enchem os sonhos, se nos sonhos se veste o casaco e afivela o botim, se no forro do casaco se levam os dizeres, perder as palavras é perder a face e pronunciá-las é rolar na espiral. Não admira que sejamos tão respeitáveis quando fazemos que nos entendemos sobre as coisas da realidade.

4.3.07

Dramatis personae

Tracey Enim, 2005 [clic!]
Ou da irrelevância da futilidade da séria meditatio compositionis generationis futurae, e qua iterum pendent innumerae generationes.

24.2.07

Palavras com "f"




Anda por uma discussão sobre bonecas insufláveis e senhores, no Japão e em geral. Recordo-me, a propósito do Japão, de duas ou três notícias que me prenderam a atenção sobre assuntos afins, que agora não conseguiria precisar melhor. Correndo o risco de grossa inexactidão, passo ao relato do que a minha memória reteve:

- as donas de casa japonesas teriam sido identificadas, enquanto grupo, como o maior consumidor mundial de escovas de dentes eléctricas, sendo certo que o uso dado por elas a estes úteis e versáteis objectos não será exactamente aquele que consta do folheto explicativo;

- o grau de satisfação sexual das japonesas, avaliado pelas próprias, seria o mais baixo numa listagem internacional (isto é, mesmo abaixo das nossas irmãs inglesas);

- a pujança dos senhores japoneses, em termos volumetria estática, seria assaz modesta ao nível planetário.


Repito que não só cito de memória, como cito de uma fonte que já nem recordo qual terá sido.


Destas três recordações apenas a primeira me interessa agora, pelo que anda no ar. As duas últimas frases não vêm muito ao caso: ao último ponto, aplica-se, mutatis mutandis, o que o Miguel diz sobre decotes e tamanhos naturais. A segunda questão gira em torno de si mesma, pois não é muito simples perceber qual é o problema com as japonesas: se os seus parceiros, se elas próprias (com e sem as escovas de dentes, claro), se todos em conjunto ou se o próprio inquiridor do questionário.


À primeira vista, entre insufláveis e escovas de dentes, apetecia-me dizer que o império do sol nascente anda muito distanciado dos modos mais directos e rudimentares de lidar com uma grande questão da humanidade. Mas inibo-me de o fazer: a cultura é isso mesmo a maior parte dos casos. Beber uma pilsener em vez da primeira zurrapa fermentada que nos aparece. Degustar uma criação cordon bleu. Caminhos mais elaborados, sofisticação. Ou o sexo é como as ostras e não resiste ao gratin?


Há ainda a questão da representação da alfaia sensorial, que é aqui a questão central. Os olhos dos homens têm aquela espécie de atalho para os centros do desejo (embora não, ao que consta, para os do prazer - um benefício para todas as que não são o clone da Bündchen, cujo link aqui se deixa numa cortesia aos cavalheiros, e que assim podem ousar obter a preferência do freguês).
[Posso continuar o post? OK, obrigada. Ia na ideia de que os olhos são importantes para os homens]
As mulheres, consta, não serão idênticas. Se isto é assim, de facto tudo bate certo quando os homens japoneses resolvem passar uns momentos em volta de si mesmos com o auxílio de um objecto femiforme, arrancando assim para um lance que os encontrará no final de olhos bem fechados.

As mulheres, pelo contrário, consta que preferem instrumentos que não se pareçam com a natureza. Sem prejuízo de apreciarem profundamente todas as maravilhas naturais, assim como quem não deixa de gostar de ostras ou caviar só porque provou torrão de Alicante.
Um pessimista pode ver nisto mais uma prova de que os homens e as mulheres estão condenados, pela cultura ou pela biologia, a desentender-se em torno daquilo que mais os aproxima, tantas e tão díspares são as inconvergências.

Num dia que só pode ser de optimismo - é possível outra coisa sob o inverno azul de Lisboa? - concluo, todavia, socraticamente: ama-te a ti mesmo e logo amarás o outro. E talvez mesmo o próximo!

The (other) "f" word...

To whom it might concern.

A crise da imprensa diária

Na ronda dos blogues hoje sobressai este post do _bl_g__x_st_ sobre a crise da imprensa diária.
Crise tem, entre outros, o significado de momento que define a evolução de uma doença para a cura ou para a morte. Fico a aguardar a continuação anunciada do post para saber em qual dos sentidos se encaminha, na opinião de JPC, a imprensa diária.
O meu prognóstico é reservado. Dos jornais, a penosidade da leitura: o generalismo ligeiro, o excesso de palavras sem qualquer interesse, o lento ritmo de actualização, o desconforto da sua utilização, a inconveniência prática do acesso e da remoção. A não ser que se trate de algo grande e gordo mas ligeirinho e ágil como o New York Times on line.
Será de averbar uma baixa, no entanto, se deixar de haver um sítio onde, todos os dias, tropeçamos em algo que nos faz pensar ou lançar um novo olhar sobre as coisas e que tem a característica peculiar de se tratar de qualquer coisa que nunca encontraríamos se tivéssemos a oportunidade de ler apenas aquilo que escolhemos.
Definitivamente, será de averbar a baixa se a pluralidade especializada - num sentido que não é o da mera pluralidade dos espaços do quotidiano entre família, profissão e hobby, mas sim o das linhas de interesse dentro ou para além dessas plataformas - nos conduzir ao confinamento de buscar e obter apenas o que reforça, pela convergência com os nossos pontos de vista, aquilo que já pensamos, aquilo que já pensamos que somos e a pertença mais ou menos xenófoba à tribo a que nos confiamos. Para que, com excepções, propendem os blogues.

18.2.07

Do que diz

Joseph Beuys, Fato de feltro. 1970

Uma semana depois


Circunspecção... uma ova. Isto é muito mais importante que um pindérico golo da selecção nacional ou que a eleição de um partido político. É um assunto sobre o estatuto das cidadãs. Sobre polícia e ginecologia, sobre mutilação e sofrimento. Sobre prestação de contas. Sobre decisões de vida. Sobre o estatuto das mulheres, goste-se ou não da ideia (habituam-se num instantito, não tarda).
À Shyznogud. Reforçando os festejos.

Bloco de notas. Sperm sorting (e canja)


E se fosse possível separar os espermatozóides X dos Y e depois conceber selectivamente, por inseminação, um menino ou uma menina?
Uma menina de cinco anos que dissesse às amigas "quando for grande quero ter uma filha e hei-de chamar-lhe Susana" seria potencialmente uma megera imoral? O mundo desabaria, seria melhor ou ficaria no mesmo?
Na realidade, a técnica já existe e chama-se sperm sorting.
Becker e Posner discorrem com luz seminal sobre o tema. Não vêem basicamente nenhum problema, talvez mesmo nenhuma grande novidade.
Em vez da mocha nota de pânico sottovoce, cominando porrada, degredo ou os infernos, em vez das palavras mitigadas pelo-sim-pelo-não, virtude confundida com canja...

17.2.07

Do diz que disse

Donna Rosenthal, He Said He'd Love Me Forever; She Said She'd Always Belong to Me. 2004

Coisas que valem a pena

If you've found something you really like to do - say write beautiful sentences - not because of the possible benefits to the world of doing it, but because doing it brings you the satisfaction and sense of completeness nothing else can, then do it at the highest level of performance you are capable of, and leave the world and its problems to others. This is a lesson I have preached before in these columns when the subject was teaching, and it is a lesson that can be applied, I believe, to any project that offers as a prime reason for prosecuting it the pleasure, a wholly internal pleasure, of its own accomplishment. And if your project doesn't offer that pleasure (perhaps among others) you might want to think again about your commitment to it.

Objecção certificada

Uma perversão dos tempos que correm quase tão daninha como a universalidade do direito de voto, recentemente revisitada, é aquela leviandade com que se coloca à disposição de qualquer um, numa lógica de igualdades distribuídas à toa, a possibilidade de tomar decisões de natureza pessoal, como se todos os indivíduos dispusessem do background moral, do amadurecimento e da informação necessários para uma decisão ponderada e esclarecida.
Sói lembrar que não. A natureza humana é, infelizmente, assaz imperfeita. Alguns espíritos menos robustos, oh quantos!, claudicam sem rebuço ao primeiro impulso egoísta ou fútil. Outros, outros tantos!, são medularmente incapazes, seja por motivos familiares, seja por herança étnica e cultural, de assimilar de modo responsável qualquer requinte civilizacional. Outros, alguns tantos!, atravessam períodos de turbulência pessoal, como é próprio da vida, que inopidamente comprometem o gozo pleno das capacidades morais.
Acriteriosamente atribuídas e largadas ao desbarato, as liberdades de decisão - precípuos poderes políticos, ainda que prima facie privados - obram para que, enfraquecida já pelo consumo, pelas taxas de divórcio e pela vulgaridade da vida hodierna, a nossa sociedade paulatina e inexoravelmente sucumba às mãos de abortistas, homossexuais, mulheres com buço e objectores de consciência.
A derrocada pode ser prevenida, como testemunha o Lutz, portador de uma objecção de consciência certificada, que quis vir partilhar connosco nesta hora inglória. Atente-se no que ele diz pois não estamos apenas perante uma consciência certificada (como se isso ainda fosse pouco), mas perante uma consciência certificada lá fora!

"Todos os seres humanos nascem livres e iguais em dignidade e em direitos"

Diana Blok [clic!]

Todos?! Apre, que exagero!
Uma achega ao eleitor-pagador, cortesia da casa.

Bloco de notas. Trolley, Thompson, Anscombe outra vez

Um para cinco, cinco para um. E eu no meio.

(prá troca)

16.2.07

No era això, companys, no era això

Não se pode ser pragmático (concedendo conveniente sentido ao maltratado termo) e recto, em simultâneo, a maior parte das vezes.
O progresso representado pelo resultado do referendo foi enorme para as mulheres, não me canso de o dizer e de me congratular.
Mas, na senda da lamacenta proposição da questão de consciência, à Guterres, que só serviu para baralhar ainda mais toda a gente (que questão ética não envolve questões de consciência? que questão deve ser ou deixar de ser assunto legal só por envolver a consciência?) o partido socialista voltou a contribuir pouco para o progresso da consciência ética e cívica.
A linha de defesa do SIM, que insisto em chamar táctica, do isto é só despenalização e não é para discutir mais nada, shiu, estejam caladinhos será habilidosa mas foi pouco transparente.
A ideia de que o povo não está em condições de saber a verdade, é um engano de cínicos. Estes é que podem não estar preparados para dizer tudo.
O facto de ser tido por desastroso discutir em aberto o que estava em causa valorativamente mostra como a questão andou totalmente negligenciada deste 1998 - entenda-se, entregue sem qualquer resistência à opus/igreja, ao exercício desse controlo da sexualidade humana como ferramenta insidiosa de influência social. Perante uma classe política esmagadoramente masculina e dominada, sem excepção, por homens, não se consegue sentir grande surpresa com semelhante desleixo.
Não era, pois não, não era, em três ou quatro semanas que se recuperava o atraso.
E houve ainda outros custos: o contributo negativo quanto à disseminação de uma ideia de racionalidade do sistema penal e, por via dele, das instituições da própria sociedade democrática. Se não se discutiu abertamente que na despenalização da IVG iria implicada uma prevalência da autodeterminação da mulher sobre a protecção da vida intra-uterina, se era tudo uma questão de desgraçadas, então esse bom povo que foi poupado à discussão bem pode concluir que todo o catálogo penal, do furto ao infanticídio, todo o sistema da coacção estatal, tudo isso fica candidato a semelhante relativização. Não é disto que andamos a precisar por estas bandas, mas sim do contrário.
Pessoalmente acredito que o bom povo é mais avançado que os cínicos da política. Por uma questão (agora sim) pragmática. Acredito que foi por isso mesmo que o SIM ganhou.

Dos bons serviços

...

- So, how do you like it?
- It looks quite fine to me.
...

Aconselhamento e informação

Alguns dos motivos determinantes para uma decisão de IVG baseiam-se em circunstâncias que são representadas imperfeitamente por quem se decide assim: há mais apoio social ou económico ou institucional do que a pessoa representa, a pessoa está menos só e desprotegida do que pensa que está.
Parece-me oportuno e adequado oferecer esta informação a quem se propõe interromper a gravidez pelo que isso contribui para a formação de uma vontade esclarecida de uma decisão tão irremediável.
Mas, melhor ainda, esta informação devia estar disponível em espaço aberto, entrar na massa da consciência colectiva, circular com a mesma importância com que circula a data para a apresentação de declarações de IRS e a localização das repartições de finanças. Devia ir para as salas de aulas, para a televisão, para os placards das igrejas, juntamente com a informação sobre controlo da fertilidade.

Viva Câncio

Muito, muito bem!

É necessário dizer isso mesmo. Isso é exactamente o que é necessário dizer.
link via Womenagetrois

15.2.07

Querido, estou com o período

O período - digo, o de reflexão - para as situações de fecúndia geral cumpre função. Não é tanto a de mandar pensar melhor - olhe lá, a menina, minha senhora, sua tontinha, volte para caselas e regresse depois, pense lá um pedacinho seu óvulozito guloso com mais olhos que barriga. É claro que não é isso. Um tonto não pensa melhor dois dias do que um, mesmo que comece a pensar só quando lhe sopram o apito. E quem diz um tonto, diz praticamente uma tontinha.
É mais por uma questão de respeito pela boa ordem das coisas, que faz de cada óvulo fecundado e seus anexos logísticos uma possessão de além-mar em regime de protectorado. Oh filha, a levares a tua avante, é porque a gente deixa, é porque a gente condescende. Lá por teres cartão de eleitor, não julgues que decides; e tens sorte, alembra-te bem, por não te mandarmos para a cadeia; 'pera aí primeiro, que as abébias já foram. Um padre-nosso e três avés-marias, duas carimbadelas e uma ficha de espera. A seguinte. A menina é menor, louca ou cidadã relapsa e trouxe o paizinho? Ahh, tem cartão de eleitor?! Pois olha filha, a levares a tua avante é porque a gente condescende, é porque a gente deixa...

14.2.07

O SIM do dia seguinte

Klee, A disputa. 1929

Não é demais sublinhar que a vitória do SIM no referendo traz um progresso notável; que, seja mesmo cerceadamente, a possibilidade de a IVG deixar de ser considerada crime é de grande importância pelo impacto real nas pessoas concretas directamente atingidas pela proibição penal que até agora existiu, e ainda vigora, entre nós.
Nenhuma divergência fundamental pode razoavelmente ensombrar a visão clara de que a brutalidade da proscrição do sistema de cuidados de saúde, somada à brutalidade da incriminação legal, somada à brutalidade da armadilha biológica da reprodução vivípara do ponto de vista de um indivíduo quanto ao mais feito autonomia, risca no mapa das opções políticas um território de obscenidade cívica e que qualquer centímetro removido desse terreno de horror merece inúmeros sacrifícios e compromissos.
Mas ao ter-se prescindido da discussão ética e valorativa da legitimidade, ou não, da decisão de inviabilizar a gestação - tacticamente anatematizada -, adiou-se, seguramente para um cenário real menos opressivo, o debate sobre o que está verdadeiramente em jogo e que agora e sempre voltará a assomar, enquanto algum aspecto do regime legal se encontrar sob construção: se, sim ou não, cada mulher fecunda integra o património biológico da comunidade, se alguém fértil é objecto, ainda que provisório, de poderes exercidos pela comunidade, de tal modo que as decisões sobre si mesma (e não apenas sobre aquele item curiosa, mas não surpreendentemente, menor que se confina linguisticamente a uma barriga ou um corpo) deixam de se encontrar sob o princípio aplicável à generalidade (?) dos indivíduos, o princípio basilar da construção da nossa identidade, o da livre autodeterminação.
E se sim, como então.
E se não, como assim.

Fiz um trato comigo mesma durante a campanha do referendo: não abandonar o assunto, retomá-lo logo que a minha maladroitesse pragmática (a humildade é falsa e a expressão, irónica, pois acredito que uma boa teoria é o que há de mais prático e económico..., mas reconheço a sagacidade alheia) não provocasse danos a uma causa maior, como a que comecei por referir. É muito provável, por isso, que este espaço venha a ficar mais saturado de apontamentos sobre o que a reprodução vivípara faz realmente à condição humana. Aviso às estimadas visitas, que graciosamente por aí navegam.
Este post absorve a imagem publicada ontem, sem palavras e sem título.

12.2.07

Quase prova de vida no planeta

Alguém passou por aqui e viu isto. Depois levou-o para ali e, por artes, transformou-o nisto. Agradeço, de verosimilhança reforçada.

Resultados do referendo.

Durante os comentários da noite, na RTP1, MRS lépido a pular o fosso da derrota para logo se colocar de novo a cavalo na crista (reparo que a expressão, no contexto, não é feliz mas fica assim mesmo). As faces um pouco mais baças, o número já seria esperado, só não se sabia qual seria.
Ou o quase imperceptível ricto facial de AV, no sorriso que deu a sede (no sentido de locus) da verdadeira vitória da noite: o desenho táctico da campanha e a discreta firmeza com que ele foi executado. Um júbilo como o do patologista forense.
Ribeiro e Castro, pesado na pesada declaração política, de expressão franzida, envolto em manchas cor-de-rosa incongruentes, a dar sinais de que o Portugal profundo do país real ainda está de fora do jogo.
Uma senhora magrinha do SIM cuja fragilidade e palidez me mantêm pensativa quando a imagino ao lado da tónica senhora malva que ralhou pelos resultados, no painel televisivo dos negacionistas - como se o caminho da liberdade tivesse de estar do lado de fora, no que é sombrio e regressivo, mutilado e triste.
A impaciência de esperar pela declaração dos vencidos: a da ICAR, que não vai chegar porque a opus é tão rápida como o Marcelo e já está por aí a tentar apanhar todas as pontas que ameaçam soltar-se.
Os rapazes das bandeiras que regressam da refrega, prontos a assobiar para o lado.
A esperança de se romper o gorduroso âmnio da culpa de si como hino nacional.
O brilho histórico e civilizacional que uma dúzia de pontos percentuais consegue irradiar.

10.2.07

O mundo natural

Eggleston. [clic!]

Falou-se aqui em tempos de joelhos - os amados por Rubens, da (ex-citando à socapa) anatomicamente apetitosa Helena, o do iter da língua sáfica mas filofálica (digo-o da linha de palavra mas não do fio da saliva) de uma Maria. Hoje digo que os joelhos caem por terra e que quando isso acontece não é geralmente bom sinal. Estará alguém a dar-se por vencido ou a implorar; roja-se aproximando-se mais do solo, da terra que o há-de consumir, afasta-se do sol, da altura da colina que avista e do sumamente cénico vento pela face, angulado em contre-plongé, tudo isso renegado para todo o sempre e amén. Ou então os joelhos são areados e postos ao sol, dados à brisa do caminho. Nesse caso não é tão relevante que os objectos empalideçam em volta, multiplicando-se por relicários pardos caóticos, que a maré da terra que nos come vivos e de olhos abertos avance, que as algias venham já por conta do desmanchar dos corpos, a desmantelar, a deglutir. Juro.