
28.7.07
Letra z
Um toque chanel e um cheiro equíno, a questão das riscas pretas ou das riscas brancas. Um bicho dócil escoiceante que canta como um pássaro e morde como um cão com dono. Máximo na caminhada solitária mas pleno entre os seus - que arrastam as mesmas incertezas. Exclusão dos elencos elegantes, que discorrem só entre o alfa e o ómega. As riscas do zê são coloridas em cada fissura, como demonstrou Andy Wharol ao incendiar uma zebra. A circunstância de ser circunstante em trânsito de todas as circunstâncias.24.7.07
20.7.07
Um dia assim
Video frame enlargement from Bill Viola's I Do Not Know What it is that I am Like, (1986).Mais que a falta da leitura de jornais, o excesso de práticas da vida dá vontade de receber cartas manuscritas. Daquelas que começam por "Minha Querida" e depois contam como vão andando as coisas numa caligrafia que escorre em ritmo calmo até ao primeiro, ao segundo, ao terceiro post scriptum e acaba nas margens em linhas cada vez mais fininhas e cheias outra vez de saudades.
18.7.07
Palavras com "p"
Quem me ensinou a nadar, quem me ensinou a nadar
Foi, foi marinheiro, foi os peixinhos do mar
Foi, foi marinheiro, foi os peixinhos do mar
Há-os de ouro, os que fazem clique (sem desclique!), os que têm claque. Os que viram à esquerda, à direita ou apenas seguem em frente arrebitados, rombos, cilíndricos ou fusiformes. E se fossem frutos poderiam ser framboesas, ameixas, batido de morango, manga, papaia e figo de banana. Escorregam ou encalham, consoante o jeito. Passam de inocente larva armada em carente de carinhos e cuidados a faíscantes formatos impetuosos. Tudo num instante. Peixinhos nervosos, golfinhos habilidosos e cetáceos majestosos. Langorosos. Insisto no som, como em gulosos, como em bondosos, como em generosos. As meninas, mesmo que lhes troquem o nome, e os queiram amorosos, percebem-nos muitíssimo bem. Quem me ensinou a nadar foi os peixinhos do mar, os peixinhos do mar, os peixinhos do mar...
Post dedicado a uma reflexão inspiradora sobre a diversidade anatómica do pénis. Ora aqui está uma coisa que eu nunca pensei fazer num blogue.
Adenda ou PS: Há mais cinco palavras com "p" para as meninas publicamente educadas. Adeus Klee...
12.7.07
Livro urgente. CINCO. Qualquer um
Esopo viveQualquer livro de fábulas, de Esopo a Millôr Fernandes. Porque nos ajudam a conviver com a nossa própria cauda, porque ensinam a lamber a pata com as boas maneiras de um bicho afinado e não como a besta decadente em que ocasionalmente nos tornámos. Passionalmente sóbrios vamos melhor. Quando digo sóbrios não quero dizer camufláveis mimeticamente. Quero dizer não turvos. Isso e alguns outros bons hábitos são o segredo da duradoura qualidade dos orgasmos. O bicho triste morre. Ensinem isso aos vossos filhos.
10.7.07
Livro urgente. QUATRO
Quem, se eu gritasse, me ouviria dentre as ordens
dos anjos? e mesmo que um me apertasse
de repente contra o coração: eu morreria da sua
existência mais forte. Pois o belo não é senão
o começo do terrível, que nós mal podemos ainda suportar,
e admiramo-lo tanto porque, impassível, desdenha
destruir-nos. Todo o anjo é terrível.
E assim eu me reprimo e engulo o chamamento
dum soluçar escuro. Ai! de quem poderíamos
nós então valer-nos? Nem de anjos, nem de homens,
e os bichos perspicazes repararam já
que nós não estamos muito confiados em casa
neste mundo explicado. Resta-nos talvez
qualquer árvore na encosta, que de novo a vejamos
diariamente; resta-nos a estrada de ontem
e a fidelidade amimada dum costume,
que gostou de estar connosco, e por isso ficou e não se foi.
(...)
dos anjos? e mesmo que um me apertasse
de repente contra o coração: eu morreria da sua
existência mais forte. Pois o belo não é senão
o começo do terrível, que nós mal podemos ainda suportar,
e admiramo-lo tanto porque, impassível, desdenha
destruir-nos. Todo o anjo é terrível.
E assim eu me reprimo e engulo o chamamento
dum soluçar escuro. Ai! de quem poderíamos
nós então valer-nos? Nem de anjos, nem de homens,
e os bichos perspicazes repararam já
que nós não estamos muito confiados em casa
neste mundo explicado. Resta-nos talvez
qualquer árvore na encosta, que de novo a vejamos
diariamente; resta-nos a estrada de ontem
e a fidelidade amimada dum costume,
que gostou de estar connosco, e por isso ficou e não se foi.
(...)
Um livro que se tornou urgente porque da boca de Paulo Quintela as traições a Rilke vêm com um sabor compadecido. Como se dissesse, como o amante irlandês, já que não posso ser fiel, serei leal. Céptica, recapitulo que provavelmente os anjos desimportam-se até desse preciosismo técnico-ético de menino-da-mamã. Sentimental, fungo: a fidelidade amimada dum costume que gostou de estar connosco, e por isso não se foi . Há lá coisa mais séria.
6.7.07
Livro urgente. TRÊS
Peguei-lhe nas mãos, e enfiamos os olhos um no outro, os meus a tal
ponto que lhe rasgaram a testa, a nuca, o dorso do canapé, a parede e
foram pousar no rosto do meu criado, única pessoa existente no quarto,
onde eu estava na cama. Na rua apregoava a voz de quase todas as manhãs:
“Vai ... vassouras! vai espanadores!”
ponto que lhe rasgaram a testa, a nuca, o dorso do canapé, a parede e
foram pousar no rosto do meu criado, única pessoa existente no quarto,
onde eu estava na cama. Na rua apregoava a voz de quase todas as manhãs:
“Vai ... vassouras! vai espanadores!”
Estatisticamente enfrentando a aproximação do fim, emerge com urgência deitar fora todo o lixo e preparar um post mortem amável para os que arcam com as maçadas de ficar. Começa a escassear o tempo e isso é uma grande ajuda. Em pé, até ao fim, o desejo. Limpa e acutilante a visão. Mais livre que nunca. Manso o trato.
Lido e percebido como uma laracha sentimental em fase pubescente. Reencontrado, com oportunidade, recentemente. Machado de Assis, O Memorial de Aires.
5.7.07
Livro urgente. DOIS
A Relógio d'água havia de arranjar uma imagem melhor...
A cada dia que passa este livro me parece mais urgente, mais cheio e claro. Infelizmente a encadernação é infinitivamente mais perecível que o infinitamente inacreditavelmente lúcido e agudo olhar de Hannah Arendt. Tenho o livro comigo há quatro anos e está desfeito, manchado, marcado, atravessado de marcadores, de flores secas que mancham as páginas, de tiras de chocolates, bilhetes vários, vestígios de amores de todas as cores em e-mails, sms e outros meios telemáticos. Há folhas que estão estragadas por um salpico de água do mar e há estilhaços cortantes por toda a parte. Fora isso as folhas estão virgens. Não há vestígio de traço, sublinhado ou rabisco, coisa rara. A ascensão e queda do homo faber e o labor, em si metabólico, sobrevivencial e confinante, glorificado, promovido à mais alta posição entre as capacidades do homem, (...), fazendo da vida, valor em si mediocremente relegado para o meio do Decálogo, um bem supremo supremamente supremático. E nulo. Estou a falar de A condição humana. Acho que o livro não poderia mesmo ter outro título.
4.7.07
Livro urgente. UM
Respondo à chamada feita pela Sara e, logo pouco depois, pelo Luís.
Um livro que não largo há vários anos e que busco sempre em grave urgência: John Ayto, A Gourmet's Guide. Food & Drink from A to Z. Gosto de ler dicionários. Este quase-dicionário tem uma mistura exótica de erudição, humor e sabores e conseguiu várias vezes fazer-me voltar muito viva ao mundo dos vivos, além de apaziguar várias dúvidas. Útil, também, como todo o livro deve ser, aberto ou fechado. Uma das minhas entradas preferidas sobre um fruto (infrutescência, se bem me lembro) que é caro, ácido e bonito, como um troféu, quando vem das ilhas, ou doce, sumarento e barato, como o amor, quando vem dos trópicos:
Pineapple
When first brought back to Europe from tropical America in the early seventeenth century, pineapples were called ananas, after anãnã, the name for the fruit in the Guarani language of Bolivia and southern Brazil. The term has stuck in most European languages, but English soon abandoned it. In England, people were quick to notice a resemblance between the exotic and delicious ananas and the humble pinecone, which from the fifteenth to the seventeenth centuries was known as pineapple and so the fruit iherited the pinecone's name. Early on it was also known simply as the pine; John Evelyn notes in his Diary for 9 August 1661: The famous Queen Pine brought from Barbados... the first that were ever seen in England were those sent to Cromwell foure years since. Of all exotic fruits, the pineapple is perhaps the one that has captured the British imagination over the years: gentlemen of sufficient means would compete with each other in the eighteenth and nineteenth centuries to grow ripe succulent examples in their hothouses, and stylized some pineapples began to decorate the gateposts of country houses up and down the land. As Jane Grigson explains in her Fruit Book (1982), it was faster sea transportation in the later nineteenth century that put an end to the pineapple as a rare luxury, and the tweentieth century has been the era of the tinned pineapple chunk. In the 1930's to be "on the pineapple" was, in British slang, to be on the dole. And nowadays, pineapple is US military slang for a "hand grenade".
Sublinho: gentlemen of sufficient means would compete with each other in the eighteenth and nineteenth centuries to grow ripe succulent examples in their hothouses. Cavalheiros de meios competindo uns com os outros para fazer crescer nas suas estufas exemplares suculentos e maduros. Não cansa reler.
Outras urgências intercedem. A lista continua já.
3.7.07
Sorriam para mim
As idas ao cabeleireiro são sempre muito instrutivas. Para além de local de leitura de revistas que me ajudam a recordar que há mais mundo que o meu mundo, levo sempre de lá uma quantidade de informação refrescante sobre a vida.
Na última ida, havia um bebé que passava de mão em mão. A menina das unhas e a menina das tintas, nenhuma delas em botão, outra cabeleireira mais velha também, disputavam as gargalhadas de um miúdo de cerca de um ano.
Faziam muito bem, estavam a interagir com a criança criando-lhe uma convicção de amabilidade do mundo, e no retorno dessa via, dele próprio.
Percebo perfeitamente, depois disto, desta demonstração corrente do interesse que se suscita enquanto bebé, que o caminho da vida seja uma progressiva diminuição de expectativas sociais. As caras vão-se fechando com o passar do tempo. A meio da vida este processo nem sempre é evidente. Todas as minúsculas situações de poder, que quase toda a gente detém em maior ou menor extensão dentro dos minúsculos (ou maiúsculos) círculos da vida, desde o império doméstico e familiar à posição laboral ou em qualquer outro conjunto, incluindo os círculos em que as proezas intelectuais contam, podem confundir um indivíduo quanto ao seu real merecimento de olhares dóceis, amigáveis ou festivos.
Mas, ao que parece, há um dia em que só o mero facto de ser cumprimentado passa a contar, em que qualquer gesto de circunstância social medianamente desincumbido provoca uma onda de gratidão.
É aquele sentimentalismo excessivo dos velhos por dá-cá-aquela-palha em que se começa a reparar ainda muito cedo.
O caminho desta desolação começa com as dúvidas da adolescência, passa pelo cepticismo, pela banalíssima decepção do meio da vida e acaba em olhos húmidos por se receber uma atenção. Ao que parece, o passar do tempo diminui progressivamente todas as expectativas sobre o nosso real valor, já nem digo sobre a necessidade da nossa existência.
A verdade quanto ao miúdo do cabeleireiro é que elas, as mulheres sem frescura e cansadas, sabedoras dos artifícios de que dependem, diziam: "nunca ninguém me ama o suficiente, faz-me acreditar que estou aqui para ainda ser feliz, toma o meu melhor mais jocoso e mais alegre cumprimento". E ele, não menos que elas, estava a dizer "vales a pena, fazes-me sorrir, a tua pessoa é única e adorável".
1.7.07
O regresso
KosuthJoe Berardo não usa gravata e quando vejo imagens dele dou por mim a procurar o brinco. Joe decide que Mega Ferreira sai, mas Teixeira Pinto fica. É, segundo a Wikipédia, o 10º homem mais rico de Portugal, mas todos sabemos que essa descrição é enganosa. Joe não tem cumplicidades, laços familiares, preitos de gratidão. Portugal é um país pequenino e Joe é um grande e intrépido coleccionador. A casa de Bragança fina-se aqui. O poder mudou de mãos. Segue a III República.
29.6.07
Será pieguice, será leviandade
É irremediável: se entranho um estranho, estranha fico. Mas se o estranho não se deixa entranhar, muito eu estranho. O que é incompreensível, porém, é que se mesmo assim persisto em entranhar o estranho, logo estranho de novo por não entranhar sem estranho o estranho. Estranho sempre com espanto, mas por aqui não se passa disso.
28.6.07
24.6.07
Não é assim tão fácil de modo geral #2
Wunderkammer. Efeméride na blogosfera
Reticente apenas no título, o ...bl-g- -x-st- faz quatro anos. Faça a fineza de fazer ainda muitos mais.
O significado histórico do hífen. Efeméride nacional
Seria o filho da mãe um filho-da-mãe? Ela achava que sim. E ele achava que não. Ainda não percebi a história.
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