27.8.11
10.1.10
Ai as "instituições"!
Baldessari, Umbrella (Orange): With Figure and Ball (Blue, Green) (from Somewhere Between Almost Right and Not Quite (With Orange)), 2004.
Não há mais vacas na Praça de Espanha, o que é positivo para as vacas e para este sítio sossegado, que não desapareceu apesar de um ano de inactividade.
O parlamento parlamentou na generalidade o casamento para todos os que o queiram. Levantam-se vozes de ai que as instituições tremem e ai que vão cair e ai as crianças, senhores, como explicar-lhes. Deixá-las levantar, deixá-las tremer, deixá-las cair. Digo isto inundada de um amor ao próximo e à humanidade tão verdadeiro como o que julga ter uma verdadeira defensora das "instituições", sobretudo uma defensora das instituições que "são naturais" (apesar de instituídas..., que ironia...). E quanto às crianças, só digo que vejo assim, nessa tonalidade aflita da inexplicabilidade de algo monstruoso às crianças, que as crianças estão a subir de cotação no mercado da retórica política! Bom sinal, mas adiante, deixo as crianças para depois (quero dizer, para outro dia; não para a sobremesa, está bem?!).
Posso (o "eu" aqui na lida insana é tendencialmente impessoal, é bom de ver, e este assim é...) pretender um amor ao próximo e à humanidade mais verdadeiro do que o que julga ter uma verdadeira defensora das "instituições " porque quem defende acima de tudo "as instituições" não defende acima de tudo os indivíduos, que são tudo o que de mais humano existe.
É verdade que a individualidade no sentido humano deve-se às instituições, através das quais se é (Susana ou João ou tio ou deputada ou transeunte amigável). Fora delas é-se alguém tanto como uma tela em branco é um quadro (isto não é contigo, Rothko!). Mas as instituições que nos dão alma, são as que evoluem connosco, as que são modificadas pelos indivíduos e que se (con)fundem neles.
Por outro lado, e falando ainda do amor ao próximo, à humanidade e às instituições (sem aspas), as "instituições" (com aspas) não são as instituições (sem aspas). Quando a palavra "instituições" precisa de aspas, quer dizer que precisa de ser defendida - juro! - e o mesmo acontece quando é necessário encavalitá-la nessa ideia troiana que é a "naturalidade" (da "instituição natural", caso este de dupla defesa...).
E se uma "instituição" precisa de ser defendida isso quer dizer que é uma mera opinião, que relativamente a ela não se forma o consenso surdo e generalizado da verdadeira instituição, que é uma coisa colada ao nosso ser e tão cosida a ele como uma pele.
Ora, defender opiniões é uma actividade legítima e até tendencialmente saudável tanto para quem se solta, exprimindo-se, como para nós todos em conjunto, porque promove esse fenómeno benfazejo que é o dissenso. Mas não é por isso, por nos lembrarmos de chamar a uma opinião uma "instituição", mesmo arredondando por excesso para o oxímoro da "instituição natural", que uma mera opinião sobre os modos de vida aceitáveis passa instituição.
Menos ainda quando a opinião é segregada pelo medo e pelo horror inspirados pela contemplação de uma repugnante deformidade. Ou seja, não é a instituição, é o medo, é o nojo. Chamar-lhe preconceito parece-me pouco.
Ruam, pois, as "instituições"... e vivam as instituições!
Volto já. Espero. Talvez.
24.1.09
A praça do disparate tornou-se finalmente boçal
Passei há dias na Praça de Espanha, em Lisboa, e mais uma vez pasmei com a vocação que lhe conheço desde sempre para o disparate.
A Praça de Espanha é assim. Os teatros mudam de sítio, as tendas das feiras que eram de Lisboa, assentam ali arraiais aparentemente prósperos, tanto quanto o estilo comprimido do certame deixa adivinhar, as estações de Metro continuam plantadas sem nexo pedonal, e, sobretudo, aquela parte central, aquele "oh-pra-mim-sou-um-espaço-verde" onde aterra de vez em quando algum pedregulho evocativo de qualquer ideia toscamente concretizada, adoçando já o juízo quanto ao valor da sua concepção, esse espaço vazio de carros que há no meio, estava adornado com vacas, julgo que em publicidade a um arquipélago em que os golfinhos se divertem em ménages à trois, fazendo fé nos cartazes que semearam por alguns postes da cidade.
Não me passou despercebida a minúcia de ter sido mais aguada, ou adubada, a relva destinada aos bovinos, que está "ainda mais verde" que a que corre por fora da cerca.
Não sou entendida em psicologia vacal, nem sequer tenho os direitos dos animais entre os meus primeiros amores, embora perceba que qualquer dia próximo teremos de pensar nisso a sério, desafiando a adequação ética de alguns dos nossos pressupostos na matéria, que começam a parecer-se demais com qualquer coisa pré-coperniciana.
Mas as vacas, que não pareciam ainda loucas, pareceram-me deprimidas e brutalizadas, ou então não eram elas, era eu que me sentia brutalizada de ver um espectáculo tão insensível ao sofrimento apresentado boçalmente como um evento cheio de espírito.
Nunca pensei que um bicho de algumas centenas de quilos pudesse parecer tão frágil, preso entre a agressividade dos automóveis que passam quase rentes, com o seu barulho, as suas emissões, a sua trajectória homicida (vaquicida?), mais do que sustido por uma pindérica cerca.
Ando a pensar se a mente onde germinou semelhante eureka publicitário, ou a mente que aprovou acção tão improvavelmente tosca, consideram sequer a possibilidade de comer bifes daqueles animais.
Ando a pensar por que motivo me parece que fazer-lhes essa pergunta, que suscita as emoções da deglutição e da pança, me parece mais agudo que perguntar-lhes se já se puseram no lugar das vacas, se gostariam de estar ali todo o dia em pijama, a ver televisão, enquanto petiscam biscoitos, que é o que as vacas ao fim e ao cabo sabem fazer, mutatis mutandis.
Ao mesmo tempo, tudo isto leva ao clímax a vocação da praça de Espanha para galeria da nossa desorientação. Como se além do mau casamento e do mau vento, também não viesse de Espanha um bom oriente...
21.1.09
That's it
[daqui]Obama não dança muito bem e fuma alguns cigarros por dia, o que faria dele, respectivamente, menos "negro" e menos "americano" e, inversamente, mais "americano" e mais "negro". Uso o condicional na sua intencionalidade úbere de insinuar uma trajectória perfeitamente pretérita. Não há nada que apague agora do rumo do mundo a mensagem de Obama. Falhe ele ou não na sua execução no plano nacional, internacional, social, económico e cultural, ela ficou indelevelmente afirmada. O que torna perene a sua mensagem não é o génio do mensageiro, nem a suprema elegância retórica. É a clareza que a cunha enquanto devolve a cada um de nós a síntese civilizacional que nos atormentava não ouvir. É a consagração do respeito que reclamávamos, que não é um respeito de mero reconhecimento, mas de afirmação do merecimento. Corrigida a óptica da ideia que já tinha germinado: não se trata de chegar lá, trata-se de estar lá, estando e sendo aqui.
26.10.08
Trajectória virtual
Diz que a recessão está a aumentar a venda de alimentos mais saudáveis, beneficiando a ingestão de antioxidantes e baixando o consumo de açúcares e gorduras, da mesma maneira que aumenta a venda de batons, esses convenientes elevadores do ego, em detrimento das malas, estes kits da sobrevivência urbana a que o mulherio vive agarrado à custa das espaldas. Talvez a recessão também fomente a criatividade e refresque os costumes, como já tem acontecido. Talvez uma nova nova oportunidade emerja da crescente tensão pré-eleitoral e nos classifique em massa para um upgrade civilizacional, ainda que modesto. Talvez a trajectória do pessimismo seja uma rampa afinal.
13.10.08
Ahh, l'amour...
O Lutz e a Abrunho tiveram a amabilidade de fazer recentemente referência a um post meu sobre o casamento, escrito já há algum tempo, em que me empenhei um pouco mais.
Na verdade, tomou-me imenso tempo escrever esse post, foi um fim-de-semana quase inteiro que ficou ali. A impossibilidade de duas pessoas do mesmo sexo obterem acesso à celebração do casamento civil é uma situação que me provoca indignação por ver aí uma discriminação injustificada. Confesso, no entanto, que no meu íntimo a este empenho vem atrelada uma certa reserva, ou pelo menos, uma certa circunspecção.
Explico-me: o grande argumento, e é um argumento usado de boa fé, para defender a eliminação do monopólio do acesso ao casamento por pares portadores de sexos de classes diferentes (sim, refiro-me à genitália, que é onde reside o elemento determinante do critério de acesso), é a sustentação de que isso restringe injustificadamente a esses pares o acesso a um pacote de efeitos jurídicos, alguns dos quais não acessíveis por outras vias.
Agora começa a tal circunspecção. É que o motivo pelo qual se justifica que os pares (homossexuais ou outros) possam ter acesso a esses efeitos legais do casamento é a conveniência que esse gadget jurídico pode trazer às pessoas, reforçando a convergência prática dos seus planos de vida, aumentando, digamos assim, a viabilidade e o cimento dessa estrutura, a união. Mas então, isto significa que estamos a dizer que os efeitos legais - o mundo das leis, essa dimensão opressiva e artificial - são bons para a felicidade das pessoas?!
A resposta é sim, os efeitos legais, aqui e acoli, só podem mesmo ser suportados se tiverem esse efeito em vista...!
Reviro-me e incomodo-me com isto, lá no meu íntimo, habituada a pensar que só o amor redime, que existe o lado de dentro e o lado de fora, a cama e a cidade, o lençol e a pátria. Gostava de dizer, quero lá saber da cidade! L'amour, isso sim, isso é que é... Não podemos dizer isso, todavia. Calemo-nos, portanto.
Mas, aproveitando o momento revivalista vivido neste blogue, outrossim exangue, e ciente de que há um traço de enjoativo narcisismo nesse gesto, pelo qual me penalizo, recordo aqui, como quem lambe a pata ferida, um dos textos que mais felicidade a escrever me trouxe, esta pequena história...
11.10.08
12.9.08
A grande entrevista e as três pequenas pátrias
Terá a pátria futeboleira reparado que a entrevista de ontem à Maria José Morgado foi realmente uma Grande Entrevista?
Será que a pátria provinciana reparou quem dava a entrevista que a Maria José Morgado dava?
Será que a pátria não-provinciana reparou no que a Maria José Morgado deu à pátria na entrevista?
Eu ensaio respostas. Respectivamente:
Será que a pátria provinciana reparou quem dava a entrevista que a Maria José Morgado dava?
Será que a pátria não-provinciana reparou no que a Maria José Morgado deu à pátria na entrevista?
Eu ensaio respostas. Respectivamente:
Duvido que a pátria futeboleira tenha reparado que a entrevista de ontem à Maria José Morgado foi realmente uma Grande Entrevista.
A entrevista foi futebolística a menos, de várias maneiras. Não se vislumbraram equipas rivais e houve mesmo blasfémias ao desporto-rei (e viva a república!).
A recusa, desde logo lexical, de adoptar uma posição em contendas malformadas deve ser caso para que a entrevista seja colocada definitivamente fora de campo... Cartão vermelho a quem se tresmalha!
A pátria provinciana, por seu lado, não deve ter dado caracol por quem dava a entrevista que a Maria José Morgado deu.
Houve palavras esdrúxulas a menos, frases simples a camuflar ideias complexas (em vez do contrário habitual) e a ausência dos sinais exteriores de respeitabilidade (entenda-se, de poder social, cuja fórmula mais corrente é aquele trejeito de má digestão de quem se toma por respeitável porque pode). Além disso, realmente, ela é quê?... Procuradora-Geral Adjunta? ah pois, "Adjunta..."
A pátria não-provinciana sabe que a Maria José Morgado está cada vez mais parecida com a Paula Rego, que por sua vez tem sucesso lá fora. E a coisa fica mais ou menos por aí.
O que eu espero é que ontem alguém que se sente impotente perante o seu município, a sua máquina administrativa, o seu governo, o seu assaltante, o seu bruto particular, alguém que sente a fragilidade da existência, alguém que sabe junto aos botões o que está certo e o que está errado, mas que sabe também que não tem a mínima chance de se sair bem se se dispuser a enfrentar as formas de prepotência, marginais ou instituídas, que habitualmente nos esmagam, o que eu realmente espero é que alguém assim tenha assistido, como eu, com espanto silencioso e reverente, à grande entrevista da Maria José Morgado.
7.9.08
Terapia da fala #2 ou porque hoje é domingo
Terapia da fala,
Terapio do falo.
Terá pio o falo,
Terá ai pio o falo?!
Terapia da fala!
Ter aí! (oh yes, oh my Go-o-o-o-d...!) pia a fala...
Terapio do falo?!
Terapapilo do falo....!
Teraipilo da fada, teraipila do fado...
Terapia da fala, terapio do falo.
E foram felizes para sempre.
Terapio do falo.
Terá pio o falo,
Terá ai pio o falo?!
Terapia da fala!
Ter aí! (oh yes, oh my Go-o-o-o-d...!) pia a fala...
Terapio do falo?!
Terapapilo do falo....!
Teraipilo da fada, teraipila do fado...
Terapia da fala, terapio do falo.
E foram felizes para sempre.
6.9.08
I'll go to your room ..., but you have to seduce me

Javier Bardem está a tornar-se um caso sério e está tudo à mostra numa entrevista que dá ao NYTimes.
Foi bonito vê-lo no limiar do pudor, ou talvez da auto-defesa, no mínimo esgar que lhe escapa quando se refere à sua relação com o psicopata que interpreta no filme No Country for Oldmen. Eu achei que o compreendia ao milímetro, a esse psicopata, e se isso acontece é porque Javier Bardem o compreendeu ainda melhor. Mas compreendo também que explicar tudo isso com todas as letras seria uma insensatez.
Também achei interessante a maneira como descobriu que queria ser actor (fardado de caqui, em passeio pelo jardim zoológico, com o pai, dá-se conta de que estava a encarnar uma personagem e que isso era tudo o que lhe sabia melhor) ou como passa pelas vantagens de ver o All that Jazz aos seis anos.
Um destes dias há-de chegar cá o último Woody Allen -Vicky Cristina Barcelona, também aqui - e antecipo que o alvoroço vai ser grande. Parece que é a primeira vez que Woody Allen se aventura com uma personagem masculina que não vive angustiada com a sua própria virilidade e não se coíbe de explorar essa linha de sensualidade esplêndida e fluída com a ajuda de muito belos actores (e actrizes), plantados com um grão de loucura em Espanha.
Antes que os rapazes do povoado se passem com as curvas, contra-curvas e viravoltas do filme, e as meninas da aldeia reforcem os sortilégios de poedeiras eternamente ameaçadas, e que se assista mais uma vez à repetição estafada da ideologia do gabiru saltitão como condenação genética de alguns, ou maldição evolutiva de todos-eles; antes que pareça que se quer o que afinal ninguém quer, fica aqui o que o sexy one, himself, tem para dizer: que quando viu o guião só viu a parte dramática - as dificuldades de um homem que é desejado por três mulheres - e não a parte cómica. É por isso que Javier Bardem é grande e um grande actor.
(tudo bem, os homens choram, já se sabia, e até pode ser sempre bom recordar; mas onde fica o quarto, afinal? )
4.9.08
Upgrades
O líder em exercício do PPO (Principal Partido da Oposição) propõe uma "boa estratégia de comunicação".
É um upgrade notável na habilidade política até agora demonstrada pelos não-apoiantes de Ferreira Leite. Repisar a crítica ao Silêncio, ou procurar eclipsá-lo por ilusionismos de pendor sazonal é coisa para políticos bricoleurs.
Aqui assiste-se simplesmente ao exercício público, retoricamente poderoso, do dom da Visão (como em visionário...), que é um dom essencial dos políticos a sério. Que é apresentado em registo de quem não vem senão por bem, na confiável e neutra ambiência da dita universidade de Verão, e acaba apontado, na maior compostura, ao patamar mais desconfortável da actual gestão partidária. Obrigando, consequentemente, a comparar a angústia do nada, ícone de Ferreira Leite, com o morno raio de sol da esperança plantado nos nossos corações por um Passos Coelho cívico e educado.
Fino e demolidor este upgrade realizado no discurso partidário pelo um-dia-no-futuro (julgo que ainda terá de estagiar pelo menos uma legislatura) primeiro-ministro.
Com algum sentido de oportunidade, mas, no essencial, só para disfarçar - ou se não é, poderia sê-lo -, propõe também um Estado, sei lá, estás a ver pá, diferente.
Também é um upgrade relativamente às funções do Estado tais como apresentadas por Ferreira Leite. Excluindo os pontos em que se aproximou do PG (Partido no Governo), o único dossiê relativo a funções do Estado, conceda-se, em que a actual líder formal demonstrou possuir conhecimento de tomo e posição definida foi, se bem me lembro, a morigeração dos costumes.
Digo isto tudo com um certo desgosto porque, quanto ao mais, até gostaria de ter aí uma primeira-qualquer-coisa que aparecesse de vez em quando com um neto ao colo, fralda de bolsar pelo ombro. Mas esse upgrade não parece ser para já.
31.8.08
Terapia da fala
Não há muitas palavras mais feias na língua portuguesa do que a palavra palavra.
Debruçar-me agora sobre isso entristecer-me-ia para lá do desgosto da contemplação do feio, da gelada hermenêutica dos hiatos, das redundânciazinhas da pequena cidade, ou mesmo das redondezas do conforto que não chega, ano após ano, pela deglutição confiante de hidratos de carbono.
Não havendo tempo de vida para o que não é bom, deixo cair todo o decoro perante as propriedades terapêuticas da fala. Mas não da minha.
Toda a palavra dita é licenciosa, seja o corpo o certo.
25.5.08
17.5.08
22.1.08
12.1.08
A (não) censura do cabaz eleitoral
A moção de censura do BE ao Governo pela mudança de posição na questão do referendo ao tratado europeu é o acontecimento mais (desengraçadamente) engraçado das últimas semanas políticas marcadas por mudanças de posição do Governo.
Pondo de parte a questão das pensões (que pode ficar à conta de uma correcção atempada de uma medida prevista) e a questão da localização do aeroporto (que, no fundo, corresponde a uma mudança de pontos de vista nacionais sobre o assunto, tão estável que parecia estar a opção Ota), a questão da mudança de posição quanto ao referendo põe em evidência uma deficiência das nossas práticas eleitorais, que ao BE, paradoxalmente, muito atinge: a insuficiência do debate ideológico nos programas dos partidos, por contraposição ao peso das promessas eleitorais de medidas concretas.
Consta que o velho Bismarck dizia que todos os tratados internacionais deveriam conter nas entrelinhas a cláusula "rebus sic standibus". Isto é, que o concerto que estabeleciam valeria sempre e apenas no caso de as circunstâncias fundamentais se manterem inalteradas.
A língua portuguesa tem uma versão mais rolada da mesma ideia, na forma de uma máxima de sensatez dirigida aos indivíduos, segundo a qual "nunca digas 'desta água não beberei' ". Pois já se sabe, lá virá um dia em que poderemos encontrar um contexto de decisão de tal modo inimaginável no presente que nos convidará a escolher aquilo que pensávamos nunca vir a preferir.
O sentido relevante da máxima não é a sugestão de que somos intrinsecamente pusilânimes e superficiais, e por causa disso disponíveis para mudar de ideias com a maior ligeireza. Pelo contrário, a máxima supõe que a coerência na palavra ou na acção (podemos dizer, para simplificar, ética, ou valorativa, ou mesmo ideológica) é um aspecto importante da nossa qualidade de vida e por isso não devemos ameaçá-la impensadamente. Para isso é sensato recordar sempre que não dispomos antecipadamente de uma visão suficientemente esclarecida de todos os elementos relevantes que estabelecem o contexto concreto de uma acção futura.
É por causa disto que a moção de censura do BE é interessante. Com ela o BE critica o Governo por ter prometido uma coisa e feito outra, mas não questiona verdadeiramente os motivos que o Governo apresenta para a mudança (segundo o Governo, a alteração é apenas aparente, pois tratar-se-ia agora de um outro tratado europeu...sim, claro).
O BE não critica o Governo por ter feito uma promessa eleitoral defeituosa, que prometia uma acção concreta independentemente das circunstâncias futuras da sua execução. O BE não critica o Governo por ter prometido ao eleitorado uma medida concreta, em vez da fidelidade a uma linha programática ou ideológica. O BE não critica a mediocridade do debate eleitoral dos partidos baseado em promessas eleitorais de fontanários e municipalismos.
Critica apenas o desvio num gesto concreto, contra a sabedoria do velho Bismarck e os tesouros populares da língua portuguesa. E, portanto, em conclusão, releva - com grande proveito para si próprio, já que a isso está intrinsecamente condenado, pelo telhado de vidro da sua inexistência ideológica - o pecadilho eleitoralista de prometer actos em vez de discutir políticas.
Havia um motivo de censura: não se deve conquistar o eleitorado com promessas de medidas tão concretas, como quem atira bifes à matilha; as eleições, pelo contrário, servem para discutir política e ideologia; prometer categoricamente medidas concretas é tão destituído de valor como prometer que nunca se beberá de uma água, é apenas música para o elevador eleitoral. Mas o BE, o nosso partido campeão das práticas eleitorais baseadas em cabazes de compras, cheios de designações das águas a beber e a não beber, a isto nada tem a censurar.
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Lullaby