Paul Klee. Rapariga numa árvore. 19036.5.06
Partida
Os rapazes terminaram as obras. A hora di bai chegou. É esta mesma. Gostei muito de estar nesta insana lida, tentando ideias e palavras sobre lados minúsculos ou grandes da vida, dizendo-as em larga medida como se pela primeira vez. Soube-me bem, fez-me bem. Estou grata a cada um que quis passar por aqui, tenha deixado, ou não, sinais das suas leituras.
Se quiserem saber de mim, encontramo-nos noutro lugar. Para lá também seguem os dilectos rapazes desta miúda com sorte: o Lutz, o Afonso e o Luís.
O tropel das paixões segue por lá. Por isso, na verdade, verdadinha, o que eu queria dizer, rouca, requebrada e mimosa, é isto apenas: Vens?! Parto para o lugar comum.
Bocage e eu, à vista dos fins
Meu ser evaporei na lida insana
Do tropel de paixões, que me arrastava;
Ah!, cego eu cria, ah!, mísero eu sonhava
Em mim quase imortal a essência humana.
De que inúmeros sóis a mente ufana
Existência falaz me não doirava!
Mas eis sucumbe a Natureza escrava
Ao mal que a vida em sua origem dana.
Prazeres, sócios meus e meus tiranos!
Esta alma, que sedenta em si não coube,
No abismo vos sumiu dos desenganos.
Deus, ó Deus!... Quando a morte à luz me roube,
Ganhe um momento o que perderam anos.
Saiba morrer o que viver não soube.
[Manuel Maria Barbosa du Bocage]
Do tropel de paixões, que me arrastava;
Ah!, cego eu cria, ah!, mísero eu sonhava
Em mim quase imortal a essência humana.
De que inúmeros sóis a mente ufana
Existência falaz me não doirava!
Mas eis sucumbe a Natureza escrava
Ao mal que a vida em sua origem dana.
Prazeres, sócios meus e meus tiranos!
Esta alma, que sedenta em si não coube,
No abismo vos sumiu dos desenganos.
Deus, ó Deus!... Quando a morte à luz me roube,
Ganhe um momento o que perderam anos.
Saiba morrer o que viver não soube.
[Manuel Maria Barbosa du Bocage]
Não sou versada em literaturas, e a bem dizer, em nada, a não ser em modo diletante. Mas ando por aqui e isso habilita a falar sobre a vida. Sobre a minha e até sobre a do Bocage, na parte em que ele parece reflectir sobre a sua. A minha ternura por Bocage neste soneto não tem fim. Gostava de lhe poder ter dito que o admiro e sigo, que acho válido comovermo-nos com a infinitude e imortalidade da essência humana. Dizer-lhe assim: "a mim, parece-me que tens razão, sempre tiveste razão; é na alma sedenta que a redenção consegue acontecer e os prazeres tiranos, todos os abismos e desenganos são as sombras dos sóis que nos resgatam".
Por mais amargamente que digam que ele fecha o soneto, gosto de pensar que, chamando-lhe graça divina ou que quiser, ele chega ao fim ainda no viço de crer que, afinal, saberá. Que é possível lá chegar. Que é indo, que se chega. À luz dos fins acode assim.
4.5.06
Work in progress
Frances Benjamin Johnston. Stairway of the Treasurer's Residence, Students at Work, The Hampton Institute, Hampton, Virginia. 1899-1900Tive de mandar selar a entrada para a cave, o que obrigou a revestir de painéis a parede sob as escadas. Com os rapazes, nunca se sabe o que pode encontrar-se numa cave. Jura-me um que nunca lá iria, que para brincar com bonecas prefere os cumes do sótão. Que nem as pendura, nem nada, não as retalha, só lhes diz olá, olá, correndo-as em série como uma mnemónica. O outro finge que não houve nada, que nada ouve. Que está muito ocupado, que a curva do corrimão não está ainda na forma exacta. E assobia, fazendo-se anjinho. Há-de ser anjinho, mas lá na terra dele, que aqui não me engana. O mais daninho de todos faz-se todo maciezas. Que patati, que patatá, o belo varão encaixa aqui, se não dá, grosa acolá. Rapazes de olho brilhante. E a seiva ...!. Penso, pois penso, num certo lugar.
3.5.06
Check up on-line: nécéssaires
Subscrever:
Mensagens (Atom)
