8.12.07

Cúmulo-nímbica desconfortada cimeira

Vanessa Beecroft, Black Madonna with twins (Right).2006

A África desconforta. A África põe-nos à superfície as falhas do discurso e da ideologia. A África desafia-nos a coerência. A África faz-nos esbarrar contra o paroquialismo das nossas teorias universalistas, traveste-nos o cosmopolitismo em pijama azul-cueca.

26.11.07

Blogoscópio

Agora em vez de se ir às fitas, pode-se ir ao cinemascópio da Linha dos Nodos. É uma largueza.

"Esto lo sabe también nuestro poeta"

Lutz, tardando a apresentar-se, essa aí em título é a quinta frase completa da página 161 do livro mais à mão com mais de 161 páginas que posso agarrar a título de leitura inteiramente diletante e facultativa.
Passo o exercício como um ramo de noiva: algum viandante letrado, alguma alma lida que por aqui se aventure e que queira pegar no desafio... até sugeriria que o desafio fosse lançado daqui para outros lugares mas a deliquescente condição deste blogue não augura um bom sucesso... Trata-se de diário digital exangue de arranques e paragens, de volumetria leitoral anémica, embora pujante, tal o viço do olhar de seus leitores e leitoras (exceptuando os brasileiros que ainda vêm aqui dar porque julgam que certa peça de roupa interior se soletra c-a-u-s-i-n-h-a ...).
A frase é do Sigmund Freud, discorrendo na Psicoanálisis del arte, versão castelhana a lembrar-me de Madrid, que já me matou uma vez. Metaforicamente falando, claro (é mais fácil que alguém acredite em mim se disser que o digo dessa maneira; esto lo sabe también un poeta...).

25.11.07

Ciências do natural #4. Procura-se

Spencer Tunick

Um hino, um clube, uma farda, um ícone. Um lado de dentro, um lado de cá. Um connosco que trace finitude suportável ao eu que se espraia até já não se saber.

18.11.07

Descarnar com dentes agudos

Quando o VPV diz que o sarcasmo não o diverte tanto quanto a ironia e a seguir dá conta do alto valor que atribui ao que o diverte, como não lamentá-lo, pelo gáudio do povo exultante da sua mestria sarcástica, como não cumprimentá-lo com reverência, na compaixão da carne viva?

A entrevista ao Expresso pode ser lida, na íntegra, aqui, graças ao Atlântico.

15.11.07

Desordens democráticas

James Lee Byars, Pink silk object. 1969

A tolerância que vamos tendo com as ordens profissionais é um bom exemplo da nossa capacidade de jogar com uma lógica dupla, esquecendo pontualmente aquilo que no geral afirmamos como princípio.

No caso, talvez este fenómeno não esteja apenas baseado nas fascinantes habilidades do nosso cérebro, sobretudo quando se intoxica com o hábito. Talvez o fenómeno conte com um apoio significativo por parte do que estamos dispostos a tomar como "realidade".

É que nenhum outro grupo social - com excepção talvez da classe dos betos - ostenta com tanta inocência essa convicta e convincente atitude de se estar conformado com o facto de se ser portador de um status que conta como poder legítimo. Os bastonários, mesmo os que até poderia achar indivíduos razoáveis e simpáticos, parecem-me sempre falar sob o efeito consagrador de uma coroa simbólica em periclitante equilíbrio no topo do cocuruto.
Em alguns momentos em que a menina que às vezes ainda me habita não está a dormir, não está sedada, julgo até perceber que essa coroa de papel é o seu único atavio.

De guildas a nichos de resistência a uma sociedade que postula como princípio que o status e o poder não hão-de fertilizar-se reciprocamente, as ordens são, talvez mais mesmo que uma desordem, uma falha profunda no solo democrático...
Outra coisa não resulta do pitoresco código deontológico da ordem dos médicos e da sua condenação da IVG.

13.11.07

E agora ao contrário

Nina Katchadourian, Natural Crossdressing. 2002

A segunda esquila mais rápida da pradaria, dentro da classe geral dos esquilos, faz de conta agora que é a esquila mais rápida da pradaria. Deixa para trás os collants, as mini-saias e as protuberâncias bamboleantes. Como se condenada à predação, persegue o penúltimo esquilo, outrora ele, sim, o mais rápido. Agora sou o penúltimo esquilo, o que no início era o mais rápido da classe geral dos esquilos.
Diz, pois, a esquila fazendo de esquilo:
Penso por ofício de o ser que sou liso nos lavores. A ideia simples que faço de mim liberta-me energia que aplico na construção de uma complexa teia dos impulsos. Especializo-os. Toma daqui emoções, pega daqui as sezões. Para aqui isto, para ali aquilo.
Por serem assim especializados e analíticos posso dizer sem artifícios que sou agora uma fórmula lisa. Natural. Enigmático, nada.

10.11.07

How are you today?

Francesco Clemente, Selfportrait as a bengali woman. 2005
Gostava de poder sentir os pensamentos dos homens a propósito do que é sentir-se uma mulher. Não é que esteja à espera de me sentir mais posta em mim por essa via, nem sequer é por esperar revelações sensoriais deslumbrantes. Era mesmo só para saber o que é estar dentro da pele de um homem. Pura curiosidade. Os que me circundam são tão interessantes quanto enigmáticos a este respeito. Talvez seja por isso que me afeiçoo.

9.11.07

Boas práticas #2

Leio pelos jornais que vêm aí grandes restrições à invocação de pretensos benefícios para a saúde na publicidade a bens alimentares. Da mais remota infância trago comigo a frase an apple a day keeps doctor away, em continuidade com outras do tipo vão lavar as mãos para ir para a mesa, todas materializadas no mesmo tom inspirador de confiança quanto à existência de ordem no universo e de um sentido para a vida.
O passar dos anos tem sido benéfico para a ideia de lavar as mãos. Ultimamente até fiquei a saber que é um modo de evitar a gripe.
A apologia da maçã é que sempre me ficou mal digerida.
Tão antiga quase como a memória da frase é a suspeita, alimentada em pensamentos até hoje inconfessados, de que há qualquer coisa de errado com a apologia da maçã diária, ou então com as maçãs, ou então com a consistência de várias mensagens que andam por aí tecendo as nossas ideias. Tudo isto, aliás, reforça a descoberta que venho fazendo, de que os adultos da minha infância eram uns mestres na batota, ainda que tão sinceramente que chegassem a acreditar nela... you know.... Adiante.
Dizia que há qualquer coisa errada com a apologia da maçã. É que, efectivamente, não se pode pretender em simultâneo - sem quebra da eficácia orientadora do imaginário - que as maçãs são esconjuradoras do mal, como na frase, e que a história do nosso mal tem na sua origem uma maçã. Agora talvez tudo isto esteja a modificar-se.
Talvez no futuro, por remoto efeito da rigorosa acção da Comissão europeia em matéria de alegações de benefícios dos alimentos, as mães deixem de transmitir levianamente às filhas que é preciso comer maçãs todos os dias. Mas ainda ficará o fruto-proibido, afinal permitido.
An apple one day, and Eden went away... , isso sim. Ainda se fossem morangos...

6.11.07

O labor e os meninos

Joe Biel, Whip. 2006

Da mesma maneira que temos para os adultos deste mundo laborioso as (pseudo) virtudes da glorificação do labor, temos para os meninos a quarentena ortopediátrica da escolinha penteada, controlada e geométrica. O que apenas à primeira vista pode ser confundido com uma fantasia sobre a infância perfeita, ou pelo menos, suportável. Não o é, é um programa político sobre o indivíduo, que não é de todo ineficaz.

Se é verdade que, por um lado, nem a mortificação pela via chã consegue manter-nos eficientemente brutos e insomnes, ao ponto de não suspeitarmos, sequer uma vez, que é na libertação das mãos e das penas da existência que se rasga a invenção do ser (esse órgão pelo qual sorrimos ou choramos, mas também criamos, descobrimos e inventamos), por outro lado a ortopedia dos meninos não deixa de apresentar os seus resultados.


É que, para o fim a que se destina, o sistema é adequado para 90% da população.
Descontem-se uns 15% de tresmalho para os que não resistem ao tratamento (contamos já com instituições ou fármacos para lhes acudir, o Luís bem sabe o nome deles todos, fármacos e instituições), e teremos direitinha e alinhada a força necessária para uma labutatividade maioritária sem fricções, capaz mesmo de produzir relevante poupança na dispensa das máquinas de picar ponto e de reproduzir-se quase funcionalmente.


Pontificarão neste caso, claro, os 10% omissos.
Num certo sentido, estão fora do sistema educativo, e nenhum mal haverá em proporcionar-lhes todas as larguezas da skhole, pelo contrário. Tem sido assim, não tem?! Quanto mais diferenças estatutárias entre os indivíduos (ainda que off the record), mais despudorada é a variação na sorte dos meninos.


Moral da história: o homo laborans contemporâneo assenta na educação e começa por ser um pepino pequenino. E assim, cada vez que falamos destas coisas educantes não é, de facto, de meninos que falamos.
Falamos é do indivíduo de referência, de um hipotético indipepino laborans. Ou não.


Já tinha passado aqui duas vezes perto deste assunto. Agora uma passagem pelo bl_g__x_st_ , em diferentes posts (aqui e aqui), com os quais convirjo no essencial, trouxe-me de novo o assunto à baila. Sendo o tema quase tão sério quanto o dogging, a que dedicámos post por genuíno sentido de serviço público, fica aqui o rememorete de ambos os casos a partir de uma citação desse texto.


"A volta que a palavra deu é quase tão perversa como a volta que deu a palavra que hoje denomina essa quarentena ortopediátrica que é a escola, que de actividade liberta das servilidades da sobrevivência, de tempo de expansão do que de melhor houvesse em nós, passou ao seu contrário, com pais e professores desorientados a xingar gente pequena cada vez mais estarrecida... (há aí no fundo do baú, repetindo-a aqui, uma cronologia dessa perversa cambalhota narrada em língua exótica mas suficientemente decifrável para diligentes agnósticos-on-line). "

2.11.07

Coisas minoritárias

Um destes dias dei comigo numa reunião multilingual. Entre a veleidade portuguesinha de perceber, mais ou menos às apalpadelas, o que os diversos intervenientes iam dizendo e a necessidade, própria de quem é oriunda de um país situado no degrau trinta e picos do índice de desenvolvimento humano, de ouvir exactamente o que estavam a dizer, aplicando os auscultadores, ainda tive tempo para reparar que havia à minha volta uma fartura tal de circunstantes masculinos que, à primeira vista, aquilo poderia ser uma fase pós-catarse e muito pré-festiva da revolta na bounty.



Em vez de me alegrar com tamanha largueza, saracoteando um charminho sonhador para aqui e outro para acoli, estremeci com o mais puro e gelado respeitinho a fazer-me a espinha. Devia ser importante, caramba, aquela assembleia!



Não me perguntei - apesar de a pergunta ser uma boa pergunta - onde estavam as mulheres. Comentei só, como disse, que aquilo devia ser, caramba, uma coisa importante.



Três ou quatro semanas antes eu tinha estado numa outra reunião, de uma diferente assembleia. Aí tratava-se de um assunto de mera participação cívica. Havia um homem, que presidia. E o resto eram mulheres. Muitas delas eram daquele tipo muito assustador que se bate contra a exploração sexual da mulher, perante quem começo sempre por sentir-me gravemente acometida de amoralidade (após o desgosto inicial, acabo por confortar-me pensando no trabalho que me dá assim ser). Lembro-me de ter pensado: está visto que isto não é um assunto importante. O assunto, esclareço, não era a exploração sexual da mulher, era uma coisa sem género, coisas de civismo. Não importante.



Ontem ouvi um senhor importante dizer na televisão que, no quadro das negociações entre a Europa e a África, o rapto das crianças do Chade não era uma coisa importante. Com a imagem dos miúdos ainda na retina, achei que a pergunta adequada, perante isto, só poderia ser: onde está o Wally?


Dividimos muito as opiniões e as pessoas consoante o que dizem sobre os assunto; é um erro, nestes tempos de informação tão larga e tão móvel.
É muito mais relevante fazer a distinção com base no critério do por que se pensa isto ou aquilo sobre um assunto. A única desvantagem deste critério - matemáticos, não tentem aqui fazer contas! - é que uma pessoa acaba por concluir vezes demais que está em minoria.
A história do indivíduo que o colectivo oprime é sempre piedosa, na boca do colectivo.

31.10.07

Faz de conta que eu tinha voltado. Um post muito responsavelmente respondente

Danielle Buetti
Nada como brincar com uns bonecos ou às bonecas para manter o frescor facial e o olho brilhante, ou de outras maneiras mais incorpóreas, em quartos de brinquedos de sofisticada traça.
Para já, faz de conta que voltei um bocadinho. Depois de correr mundo, disse eu, mas o mundo era o quintal.
Espero estar a ter um comportamento responsável no sentido do meu desenvolvimento. Respondente não se diz, um comportamento respondente. É pena.
Voilà!

28.7.07

Au revoir



Letra z

Um toque chanel e um cheiro equíno, a questão das riscas pretas ou das riscas brancas. Um bicho dócil escoiceante que canta como um pássaro e morde como um cão com dono. Máximo na caminhada solitária mas pleno entre os seus - que arrastam as mesmas incertezas. Exclusão dos elencos elegantes, que discorrem só entre o alfa e o ómega. As riscas do zê são coloridas em cada fissura, como demonstrou Andy Wharol ao incendiar uma zebra. A circunstância de ser circunstante em trânsito de todas as circunstâncias.

Expectante

Uma dúvida persistente está prestes a ser esclarecida?
Esta.

24.7.07

Nupcialidades

Bruce Nauman. Hanging Heads #2 (Blue Andrew with Plug/White Julie, Mouth Closed). 1989.

- Não acordes os cães que ladram, diz ele.
A boca dela, fechada.
Estão unidos num silêncio específico. Há silêncios assim.

20.7.07

Um dia assim

Video frame enlargement from Bill Viola's I Do Not Know What it is that I am Like, (1986).

Mais que a falta da leitura de jornais, o excesso de práticas da vida dá vontade de receber cartas manuscritas. Daquelas que começam por "Minha Querida" e depois contam como vão andando as coisas numa caligrafia que escorre em ritmo calmo até ao primeiro, ao segundo, ao terceiro post scriptum e acaba nas margens em linhas cada vez mais fininhas e cheias outra vez de saudades.

18.7.07

Palavras com "p"

O belo peixinho doirado, segundo Klee

Quem me ensinou a nadar, quem me ensinou a nadar
Foi, foi marinheiro, foi os peixinhos do mar
Foi, foi marinheiro, foi os peixinhos do mar


Há-os de ouro, os que fazem clique (sem desclique!), os que têm claque. Os que viram à esquerda, à direita ou apenas seguem em frente arrebitados, rombos, cilíndricos ou fusiformes. E se fossem frutos poderiam ser framboesas, ameixas, batido de morango, manga, papaia e figo de banana. Escorregam ou encalham, consoante o jeito. Passam de inocente larva armada em carente de carinhos e cuidados a faíscantes formatos impetuosos. Tudo num instante. Peixinhos nervosos, golfinhos habilidosos e cetáceos majestosos. Langorosos. Insisto no som, como em gulosos, como em bondosos, como em generosos. As meninas, mesmo que lhes troquem o nome, e os queiram amorosos, percebem-nos muitíssimo bem. Quem me ensinou a nadar foi os peixinhos do mar, os peixinhos do mar, os peixinhos do mar...
Post dedicado a uma reflexão inspiradora sobre a diversidade anatómica do pénis. Ora aqui está uma coisa que eu nunca pensei fazer num blogue.
Adenda ou PS: Há mais cinco palavras com "p" para as meninas publicamente educadas. Adeus Klee...

TPC

Sandro Chia, La bugia. 1980

12.7.07

Livro urgente. CINCO. Qualquer um

Esopo vive


Qualquer livro de fábulas, de Esopo a Millôr Fernandes. Porque nos ajudam a conviver com a nossa própria cauda, porque ensinam a lamber a pata com as boas maneiras de um bicho afinado e não como a besta decadente em que ocasionalmente nos tornámos. Passionalmente sóbrios vamos melhor. Quando digo sóbrios não quero dizer camufláveis mimeticamente. Quero dizer não turvos. Isso e alguns outros bons hábitos são o segredo da duradoura qualidade dos orgasmos. O bicho triste morre. Ensinem isso aos vossos filhos.

6.7.07

Livro urgente. TRÊS

Peguei-lhe nas mãos, e enfiamos os olhos um no outro, os meus a tal
ponto que lhe rasgaram a testa, a nuca, o dorso do canapé, a parede e
foram pousar no rosto do meu criado, única pessoa existente no quarto,
onde eu estava na cama. Na rua apregoava a voz de quase todas as manhãs:
“Vai ... vassouras! vai espanadores!”


Estatisticamente enfrentando a aproximação do fim, emerge com urgência deitar fora todo o lixo e preparar um post mortem amável para os que arcam com as maçadas de ficar. Começa a escassear o tempo e isso é uma grande ajuda. Em pé, até ao fim, o desejo. Limpa e acutilante a visão. Mais livre que nunca. Manso o trato.
Lido e percebido como uma laracha sentimental em fase pubescente. Reencontrado, com oportunidade, recentemente. Machado de Assis, O Memorial de Aires.

5.7.07

Livro urgente. DOIS

A Relógio d'água havia de arranjar uma imagem melhor...

A cada dia que passa este livro me parece mais urgente, mais cheio e claro. Infelizmente a encadernação é infinitivamente mais perecível que o infinitamente inacreditavelmente lúcido e agudo olhar de Hannah Arendt. Tenho o livro comigo há quatro anos e está desfeito, manchado, marcado, atravessado de marcadores, de flores secas que mancham as páginas, de tiras de chocolates, bilhetes vários, vestígios de amores de todas as cores em e-mails, sms e outros meios telemáticos. Há folhas que estão estragadas por um salpico de água do mar e há estilhaços cortantes por toda a parte. Fora isso as folhas estão virgens. Não há vestígio de traço, sublinhado ou rabisco, coisa rara. A ascensão e queda do homo faber e o labor, em si metabólico, sobrevivencial e confinante, glorificado, promovido à mais alta posição entre as capacidades do homem, (...), fazendo da vida, valor em si mediocremente relegado para o meio do Decálogo, um bem supremo supremamente supremático. E nulo. Estou a falar de A condição humana. Acho que o livro não poderia mesmo ter outro título.

4.7.07

Livro urgente. UM

Respondo à chamada feita pela Sara e, logo pouco depois, pelo Luís.


Um livro que não largo há vários anos e que busco sempre em grave urgência: John Ayto, A Gourmet's Guide. Food & Drink from A to Z. Gosto de ler dicionários. Este quase-dicionário tem uma mistura exótica de erudição, humor e sabores e conseguiu várias vezes fazer-me voltar muito viva ao mundo dos vivos, além de apaziguar várias dúvidas. Útil, também, como todo o livro deve ser, aberto ou fechado. Uma das minhas entradas preferidas sobre um fruto (infrutescência, se bem me lembro) que é caro, ácido e bonito, como um troféu, quando vem das ilhas, ou doce, sumarento e barato, como o amor, quando vem dos trópicos:

Pineapple
When first brought back to Europe from tropical America in the early seventeenth century, pineapples were called ananas, after anãnã, the name for the fruit in the Guarani language of Bolivia and southern Brazil. The term has stuck in most European languages, but English soon abandoned it. In England, people were quick to notice a resemblance between the exotic and delicious ananas and the humble pinecone, which from the fifteenth to the seventeenth centuries was known as pineapple and so the fruit iherited the pinecone's name. Early on it was also known simply as the pine; John Evelyn notes in his Diary for 9 August 1661: The famous Queen Pine brought from Barbados... the first that were ever seen in England were those sent to Cromwell foure years since. Of all exotic fruits, the pineapple is perhaps the one that has captured the British imagination over the years: gentlemen of sufficient means would compete with each other in the eighteenth and nineteenth centuries to grow ripe succulent examples in their hothouses, and stylized some pineapples began to decorate the gateposts of country houses up and down the land. As Jane Grigson explains in her Fruit Book (1982), it was faster sea transportation in the later nineteenth century that put an end to the pineapple as a rare luxury, and the tweentieth century has been the era of the tinned pineapple chunk. In the 1930's to be "on the pineapple" was, in British slang, to be on the dole. And nowadays, pineapple is US military slang for a "hand grenade".

Sublinho: gentlemen of sufficient means would compete with each other in the eighteenth and nineteenth centuries to grow ripe succulent examples in their hothouses. Cavalheiros de meios competindo uns com os outros para fazer crescer nas suas estufas exemplares suculentos e maduros. Não cansa reler.

Outras urgências intercedem. A lista continua já.

3.7.07

Sorriam para mim

As idas ao cabeleireiro são sempre muito instrutivas. Para além de local de leitura de revistas que me ajudam a recordar que há mais mundo que o meu mundo, levo sempre de lá uma quantidade de informação refrescante sobre a vida.
Na última ida, havia um bebé que passava de mão em mão. A menina das unhas e a menina das tintas, nenhuma delas em botão, outra cabeleireira mais velha também, disputavam as gargalhadas de um miúdo de cerca de um ano.
Faziam muito bem, estavam a interagir com a criança criando-lhe uma convicção de amabilidade do mundo, e no retorno dessa via, dele próprio.
Percebo perfeitamente, depois disto, desta demonstração corrente do interesse que se suscita enquanto bebé, que o caminho da vida seja uma progressiva diminuição de expectativas sociais. As caras vão-se fechando com o passar do tempo. A meio da vida este processo nem sempre é evidente. Todas as minúsculas situações de poder, que quase toda a gente detém em maior ou menor extensão dentro dos minúsculos (ou maiúsculos) círculos da vida, desde o império doméstico e familiar à posição laboral ou em qualquer outro conjunto, incluindo os círculos em que as proezas intelectuais contam, podem confundir um indivíduo quanto ao seu real merecimento de olhares dóceis, amigáveis ou festivos.
Mas, ao que parece, há um dia em que só o mero facto de ser cumprimentado passa a contar, em que qualquer gesto de circunstância social medianamente desincumbido provoca uma onda de gratidão.
É aquele sentimentalismo excessivo dos velhos por dá-cá-aquela-palha em que se começa a reparar ainda muito cedo.
O caminho desta desolação começa com as dúvidas da adolescência, passa pelo cepticismo, pela banalíssima decepção do meio da vida e acaba em olhos húmidos por se receber uma atenção. Ao que parece, o passar do tempo diminui progressivamente todas as expectativas sobre o nosso real valor, já nem digo sobre a necessidade da nossa existência.
A verdade quanto ao miúdo do cabeleireiro é que elas, as mulheres sem frescura e cansadas, sabedoras dos artifícios de que dependem, diziam: "nunca ninguém me ama o suficiente, faz-me acreditar que estou aqui para ainda ser feliz, toma o meu melhor mais jocoso e mais alegre cumprimento". E ele, não menos que elas, estava a dizer "vales a pena, fazes-me sorrir, a tua pessoa é única e adorável".

1.7.07

O regresso

Kosuth

Joe Berardo não usa gravata e quando vejo imagens dele dou por mim a procurar o brinco. Joe decide que Mega Ferreira sai, mas Teixeira Pinto fica. É, segundo a Wikipédia, o 10º homem mais rico de Portugal, mas todos sabemos que essa descrição é enganosa. Joe não tem cumplicidades, laços familiares, preitos de gratidão. Portugal é um país pequenino e Joe é um grande e intrépido coleccionador. A casa de Bragança fina-se aqui. O poder mudou de mãos. Segue a III República.

29.6.07

Será pieguice, será leviandade

Sarah Bostwick

É irremediável: se entranho um estranho, estranha fico. Mas se o estranho não se deixa entranhar, muito eu estranho. O que é incompreensível, porém, é que se mesmo assim persisto em entranhar o estranho, logo estranho de novo por não entranhar sem estranho o estranho. Estranho sempre com espanto, mas por aqui não se passa disso.

24.6.07

Não é assim tão fácil de modo geral #2


Diz-se que a prova de fogo da prima é sempre a questão da divisibilidade do candidato a primo. Dizem que é por causa da evolução. Eu acho que é por causa de não se saber muito bem o que fazer com o primo.

Wunderkammer. Efeméride na blogosfera

Reticente apenas no título, o ...bl-g- -x-st- faz quatro anos. Faça a fineza de fazer ainda muitos mais.

O significado histórico do hífen. Efeméride nacional

Seria o filho da mãe um filho-da-mãe? Ela achava que sim. E ele achava que não. Ainda não percebi a história.

16.6.07

Nunca perguntem

Su Xingping, Férias n.º5. 2001

"Se eu gritasse, ouvir-me-ias? E mesmo dando por assente que pudesses tomar-me subitamente o coração, não me diluiria a força do teu ser?"

Traindo Rilke

Apoquentação

Eu também me apoquento com isso. A sério. Ouvi à séria pela primeira vez num momento impecável de blazer azul, botões dourados, sapato brunido e camisa às riscas. Isso só foi assim porque não era ocasião de calças caqui, camisa polo e sapatos de vela. Foi há dezanove anos, mas podia ter sido hoje. Constato que continua a ser necessário usar muito itálico para falar do assunto. Usa-se sempre o itálico quando se diz à séria.

Technè


15.6.07

C'est un homme!

Corta o ar com uma ligeira inclinação do tronco para trás e as pernas avançam controladas, à vez. A coxa, no seu arco convexo, abre a cada passo uma diagonal que anuncia quem lá vai. É necessário puxar o pescoço um pouco para a frente para compensar o peso do tronco e alinhar a posição do queixo, orientando-o para baixo, como se simplesmente de cabeça erguida. O pescoço torna-se então testemunha de que as colunas são ícone e essência. Beneficiam do movimento os peitorais, que se alçam contraídos.
Tudo o mais é têxtil, sinal de casta e acessório.

11.6.07

A condensa pôs-se tensa.

E desaguou, racionalmente estruturada, num horizonte largo que faz progredir a questão da opinião blogo-acaciana versus imprensa (... @le há grandes questõ@s...) :
Uma opiniao é livre, mas para acedermos a algo mais que um monte de palavras que se enfiam em regras gramaticais, com umas ideiazitas por baixo (até o padre da Banheira-de-Cima tem ideiazitas), é preciso mais que somente a capacidade de juntar palavras. Deveriamos poder vislumbrar saber e é esse saber que dá valor a uma opiniao para lá do momentaneo, do conversacional, do social de todos os dias, que antes ficava perdido no ar e que agora fica escrito nos computadores que dao forma 'a internet. Mas ainda que escrito, provavelmente vale menos que nada. Alguém com saber na base da sua opiniao, constrói nao só uma opiniao, mas uma estrutura racional que desagua num horizonte largo em que quem leu progrediu em saber. Saimos do universo das sensibilidades e superficialidades. Os nossos postes sao conversa, a nao ser que haja substancia por baixo. Para sermos verdadeiros á natureza do que é a blogosfera, todos nós deveriamos 99.9999999% fazer exactamente o que o maradona faz: apagar e sermos honestos relativamente 'a efemeridade e banalidade do que escrevemos. Isto é tudo um imenso e divertido cocorococo. Os media deveriam compreender isto, deixar a blogosfera de lado e darem-nos a qualidade de que necessitamos. Senao que anotem que a sua desvalorizaçao nao se deve 'a blogosfera, mas ao facto de serem blogosfera num formato que nao se adequa 'a blogosfera. A tristeza é que acabaremos esmilhafrados num Big-Blog.

10.6.07

Dizer as palavras certas

Mona Hatoum, Pull. 1995

Nada que seja críptico, nenhum som insólito que perturbe o momento performativo. Dizer certo, rápido e limpo, como se ninguém tivesse passado por ali. Também é pelo ínfimo silêncio do segundo que se segue que sabemos como estamos sós, que não dissémos - que não dizemos - as palavras certas.

7.6.07

Jacarandá-mimoso #3

daqui


Acho provável que cada jacarandá tenha os seus próprios adoradores sazonais secretos.

Jacarandá-mimoso #2

jacarandá por um dia
Jacarandá-mimoso tenta impressionar jacarandá-mimosa no rito da feira da folha do livro. Ela salta da badana para a folha 23 em busca de segurança.

Jacarandá-mimoso #1

Há um jacarandá tão raquítico no Largo do Rato, do lado esquerdo de quem sai do partido que sai do lado esquerdo, que me põe sempre em genuflexão como perante um ghandi vegetal. É o mais mimoso e o menos bonito de todos os jacarandás-mimosos de Lisboa inteira. Observo-o há vários anos. Não medra, não morre, não engrossa, não definha, não se estiliza, não se embeleza e nem sequer fica ainda mais feio.

6.6.07

5.6.07

Dorme

Se eu esmagar a mosca que se prepara para profanar os cabelos do meu amado adormecido, estou a esmagar um animal. Estaria também a esmagar um animal se fizesse por acertar, com os pneus do automóvel, num coelho encadeado pelos faróis que se cruzasse comigo numa estrada à noite, entretém de rapazolas numa terra de que me lembro.
Se disser que acho irrelevante ou legítimo o primeiro esmagamento e cruel o segundo estou a aplicar um duplo critério, disposição tão dissonante nesse momento em que o mundo se desfaz em beleza?
Se disser que sim, perco a perfeição do momento, do amado incólume velado pelo meu olhar pleno do que é bom e bonito. E perco a utilidade da expressão "duplo critério". Porque esse sentido em que utilizaríamos a expressão é, na sua aderência rígida ao mundo, tão formal, tão pouco plástico que deixa de poder de servir de aparelhómetro de bolso para avaliar a correcção de juízos e acções, de que não devo desviar-me para prolongar a perfeição do instante. A mosca e o coelho são "diferentes", "não são iguais", diz-me a minha parte que sabe o que posso ou não fazer sem nojo de mim.
Uma mosca em si não sei o que é, recordo-me a tempo. Afasto a ideia de pequenos mamíferos felpudos e mornos; falo é de embrulhos de quitina automoventes com patas peludas que podem profanar a testa do meu amado adormecido.

2.6.07

A velha questão

Bruce Nauman. Self-Portrait as a Fountain, c 1966.

Quem sou eu, o que faço aqui. Por que razão faço a pergunta. O que vale um ponto de interrogação.

31.5.07

De novo: Novíssimo Livro da Ensinança de Bem Cavalgar Toda a Sela

Aviso a todas as minhas amigas*

Lee Friedlander. New City, New York. 1997.

Um dia podemos chegar ao espelho e não encontrar a nossa cara, nem a sombra da da nossa mãe, nem a faísca lúbrica do senhor da padaria. Pode só lá estar a impressão digital de uma forma de vida extinta. Um formigueiro salvífico talvez comece então a trepar-nos pelas pernas, numa onda de espuma que pode alastrar desde a loiça sanitária até às portas da cidade, numa enxurrada mole e oca. Nada disso deve ser encarado com naturalidade, nada disso é real.
* E amigos também.

27.5.07

Não é assim tão fácil de modo geral


Com um estado de abandono dele deste calibre, a mão ainda contra a coxa dela, e com a intensidade da expressão de serena necessidade por parte dela, o prego só pode ser metafórico.
E assim sendo, acho que exprime o desejo, que se sente, de fazer-se, de si mesma, coisa aguda - diria esdrúxula, se fosse outra pessoa - que penetra na placidez simples do espírito masculino. Ou, melhor, a placidez simples do princípio masculino.
Considero que lidar com esse desejo é o assunto especificamente feminino que suscita as decisões éticas procedimentalmente mais difíceis, encapsuladas pela minguada propriedade da linguagem, para o efeito, estrangeira.

Estados da Matéria


Sendo certo que este "eu" é impessoal, como na generalidade das frases começadas por tal circunlóquio, diria agora assim:

- Eu condenso-me, e isso leva toda uma vida de acção sobre cicatrizes e colóides;

- Eu liquefaço-me, e alargo-me em gotículas na primeira teia.

(Pois se me evaporei... )

Meu ser solidificado seria coprolito ou relíquia. Ou negro.

19.5.07

Yuki Onodera

Ai jesus que lá vou eu!

Mais do mesmo



Não gosto muito de fazer este tipo de críticas, mas esta crónica do DN é um concentrado de pose, ignorância e generalidades que me desgostou muito ler num dos principais jornais portugueses.

A crónica parece desconhecer que em Portugal ninguém tem de ficar casado contra sua vontade (a não ser que seja uma mulher sem meios para fazer face por si mesma às necessidades suas e dos seus filhos, mas isso já é outra história).

Quem não quiser ficar casado e não tiver motivos de queixa do seu cônjuge apresentáveis a um juiz tem dois caminhos: ou lá convence a sua cara-metade que o melhor que fazem é ir cada um à sua vida, ou pega nas suas tamancas e trouxa e põe-se em separado.

E depois de assim estar, passado um prazo legal, basta-lhe praticamente pedir o divórcio e ele será decretado.

Por isso, divórcio unilateral - que é o nome da desburocratização em causa - de certo modo já cá temos. Já temos o princípio de que não pode impor-se o casamento a quem não queira estar casado.
Tudo o que está envolvido na fracturança do BE é se vai ser necessário esperar muito ou pouco tempo para ver consumada legalmente a situação de facto de ruptura; se é preciso fazer prova de separação, ou se basta a presença daquilo que está na base da separação (a vontade de terminar a vida em comum). Não é séria uma crítica à ideia que não se defronte com estes dados da questão.

Evidentemente que não se trata, com a defesa do divórcio unilateral, de eliminar apenas burocracia desnecessária: essa já foi eliminada substancialmente depois de se ter tornado possível o divórcio nas conservatórias do registo civil, diminuindo para o espaço de uma semana o que antes levava meses.
O que está em causa é se é o indivíduo ou o Estado o dono do destino de cada indivíduo. E quem diz o Estado, diz a comunidade impondo-se ao indivíduo (é uma questão puramente terminológica para o efeito).
A crónica não tenta sequer aproximar-se dessa questão. Pelo contrário, adopta uma posição justificativa da artilharia normativa apontada ao indivíduo:

As propostas do Bloco contribuiriam, pois, para destruir uma instituição milenar, para acabar com uma opção contratual necessária para a estabilidade de um número significativo de famílias e para tornar um certificado reconhecido e respeitado num título sem valor.

Nada disto é convincente ou sustentável.
A instituição milenar de que fala a crónica é uma mistificação. Como já tive oportunidade de referir, o casamento só foi inventado como contrato há menos de meia dúzia de séculos e só passou para o foro público na enxurrada geral da constituição dos Estados-nação, na disputa sobre o poder entre as instituições laicas pós-iluministas e a igreja. Isto se estamos a falar de casamento-matrimónio, aquela ligação entre um homem e uma mulher que imputa a paternidade dos filhos desta mulher ao homem com quem está casada (efeito primeiro e principal do casamento).
Cândida é, contudo, a ideia expressa na crónica de que o casamento tem contribuído para a regulação dos impulsos sexuais, dulcificando assim a definição do interesse do casamento enquanto "remédio para a concupiscência", um dos fins essenciais do casamento estabelecidos pelos teóricos medievais do catolicismo.
Cândida e quase comovente, pois não é isso que vejo em meu redor, antes a instituição da facadinha, em todas as suas dimensões, desde o formato suíço à majestosa catana (assunto a que talvez volte um destes dias).


Que a estabilidade das famílias não está baseada, ao contrário do que se passa talvez nas relações de trabalho, numa opção contratual, todos nós sabemos da experiência comum. Se alguém tiver dúvidas, experimente declinar por escrito em três minutos, e sem fazer batota, os termos do "contrato" que faz de si mesma cônjuge de alguém e depois leve o texto a um advogado pedindo-lhe para fazer a correcção, de acordo com o que está nas leis. (Não sugiro um dia de fraca auto-estima para o exercício, pode ser o golpe final!)
A ideia de certificado, que a crónica julga encontrar entre as máximas funções do casamento, provaria perante a comunidade que existe uma relação estável. Ora aqui está uma coisa que não quer dizer rigorosamente nada, sobretudo depois de as uniões de facto terem, perante a comunidade juridicamente organizada, a generalidade dos efeitos que o casamento. A comunidade está disposta a reconhecer uma série de coisas a quem é parte de uma relação estável, seja ela baseada no casamento ou numa união de facto. Certificado, basta o da junta de freguesia.


Embora salpicada de "custo", "benefício", "valor" e outros tokens ao sabor da toada que vai no ar, a crónica resume-se ao que sempre se encontra cada vez que é tocado o tema do casamento, em impressionante afinação com o que já se ouvia nos finais do século XIX, quando se introduziu o casamento estatal - princípio do fim das boas instituições, de que resta como subproduto precioso a prosa de Herculano. São sempre os mesmos argumentos, qualquer que seja o ponto da discussão. Como é nevrálgico e rígido o status quo bias em matéria de nupcialidades!


Há, no entanto, um ponto que considero interessante na crónica, que é o título. Suponho que a expressão "casamenteiros míopes" pretende evocar as posições do BE de defesa do casamento homossexual. E tem toda a razão. É o regime do casamento legal heterossexual que seria necessário eliminar. E depois redefinir todo o sistema normativo em função das tarefas próprias de uma democracia baseada na protecção dos indivíduos nas matérias que estão agrupadas no regime legal do casamento: filiação e questões de conteúdo patrimonial.
O resto, o resto é assunto do foro individual, que cada um deve viver como bem entende. E é para isso mesmo que temos de ter uma casa, ou, enfim, o quarto.
A imagem lá em cima é de Mm de Maintenon. Em lembrança do casamento morganático, que tanta falta nos faz, pela evidência que continha de pluralidade nas fórmulas matrimoniais.

18.5.07

Lengalengas, ratos e um desabamento sentimental



A generosidade da Shy, mesmo que o entusiasmo se justifique antes de mais pelo gosto do Castelo de Chuchurumel, deixou-me desconcertada. De um modo que me transportou a tempos passados, quando andava por aí, exposto à canícula, ao suão e à torreira do sol, o grande Afonso Bivar.
Sabendo-se que lengalengas e trava-línguas não são o mesmo, deixo aqui, encomendando a classificação à prudência do transeunte, este texto que, tendo sido elaborado como addenda a uma indicação minha em matéria de práticas eugénicas, acabou por deixar-me tão sem fôlego como propriamente as ditas, ou antes pelo contrário, nas suas melhores horas (e que sejam por muitos e longos anos ainda). Olhai, pois, esta lindeza, que há casulos que mais parecem baús.

Fica encomendado, gratamente, à Shy.
Andando eu de peso na consciência por manter sem expressão gratas emoções ocasionadas pela amabilidade de alguns links feitos para aqui - e correndo o risco de abusar da bonomia e largueza de espírito dos seus autores, por o fazer nesta espécie de cerimónia colectiva -, lanço daqui um agradecimento ainda:
Ao ANAUEL, com insensatez
Ao jmnk, com deleite
Ao João Tunes, simpático é o menino
À Margarete, porque sim
Ao CLeone, de blog felismino para blog feminista
Ao António P., alucinadamente
À Elisa, que a Primavera vai mais alta ainda e finalmente começa a dar sinais...- espero que aí também!
Ao Pedro, por quem ser escutada é um privilégio
À Helena, tão atenta e serena
Ao João Pinto e Castro, por várias, mas muito em particular por esta
Ao Luís e ao Lutz. Roubando beijos e pedindo a benção.

16.5.07

Porque gosto da política

Vivíamos na maior pasmaceira. Os blogues andavam moles ou embirrentos e dava por mim a limar as unhas ao telefone.
Subitamente: remodelações no Governo, vaga um lugar, como quem lhe cai um dente, no tribunal constitucional porque um juiz foi para ministro, para substituir um ministro que foi para candidato nas eleições de uma câmara, que ficou livre por causa de umas confusões do anterior presidente relacionadas com outras confusões de uma tal braga-qualquer-coisa, que um visionário vereador um dia disse ir "desmascarar".
Começou tudo há uns meses mas acelerou em bola-de-neve e termina, para já, com uma remodelação.
Que ninguém pergunte Qué máis irá acontécê?! com ar sonso. Porque vai. Ó se vai...!

Salvar crianças

Passem a palavra!

As time goes by

Russell Lee, Bulletin Board in Post Office Showing a Large Collection of "Wanted Men" Signs, Ames, Iowa. 1936

14.5.07

Maio insone Maio

Damien Hirst, Cinchonidine. 2004 [clic!]

Se não são as rosas, são os mosquitos. Se não são os mosquitos, é a luz. Se não é a luz, é o dia. Se não é o dia, é a noite. Se não é a noite, são as rosas.

10.5.07

Bolor

No Público de 8 de Maio lia-se, em afinação com os restantes meios informativos:

Em nenhum dos 18 distritos de Portugal continental ou na Madeira os alunos
do 9.º ano conseguiram obter uma média igual ou superior a três valores nos
exames nacionais (numa escala de 1 a 5) de 2006. Nem a Matemática, nem a Língua Portuguesa, ao contrário do que tinha acontecido no ano anterior com esta última disciplina.

Vejo poucas pessoas do 9º ano no meu dia-a-dia. Dispenso-as, a essas, de feitos escolares em qualquer disciplina.
As palavras "feito" e "disciplina" explicam porquê, embora possa acrescentar, para explicitude total, que há afecto e respeito e confiança nessa isenção particular.
Afecto, porque são pessoas queridas; respeito, porque me chegam como indivíduos inteiros e íntegros e assim me submeto à interacção com eles; confiança, porque descanso a minha velhice, carência ou doença no mundo operado por tais mentes, corações e mãos.
No entanto, quando leio ou escuto informação sobre o estado da nação juvenil, armo-me de rijas expectativas. Espero saber que lavam os dentes, sabem exprimir-se, estão conectados energicamente com qualquer coisa que não seja um huis clos pessoal ou grupal e usam as suas mentes novinhas em folha para pensamentos ousados e refrescantes, sobre o que muito bem se lhes aprouver.
Por isso fiquei preocupada com a dita notícia do Público. Pareceu-me que havia alguma coisa muito errada com a juventude e com o sistema.
Se não dão uso que se veja (traduzido em resultados escolares) à representação facultada pelo jorro caótico e complexo suportado pela linguagem natural, nem à representação expurgada e magrinha da matemática, que anda esta gente a fazer, que será de nós todos?!
Hoje deparei-me, no entanto, com esta outra notícia bastante contrastante, uma contra-informação poderosa da mensagem de mediocridade, de flacidez colectiva, de ameaça involutiva, de absentismo.
Valia a pena fazer um exercício exaustivo de leitura das imagens sob o mediático leitmotiv "somos um país roído pelo ubíquo Déficit Altíssimo e Profundíssimo" e, na mais jocosa ironia, limpar-se da (d)ox(idad)a maligna bebendo os ares dessa juventude tanto mais magnífica quanto anónima. Não me atrevo fazê-lo por me assistir um vestígio de sensatez a lembrar-me que não posso passar aqui o resto do dia - e, aliás, vou ter de concluir rapidamente, por isso mesmo.
Concluo, em primeiro lugar, reparada a confiança nos mais novos, que os meus canais de informação habituais são uma bodega.
Refiro-me aos telejornais e aos diários que papaguearam os resultados nacionais de português e de matemática do 9º ano e umas tantas outras sandices futeboleiras e politiquentas, distorcendo pela preguiça, pela impreparação e pela vulgaridade, a imagem do país onde vivo. Cobrindo-o de bolor, o seu bolor. Pensando bem, isto é mais uma confirmação que uma conclusão. (Sim, quero, inter alia, que o telejornal passe imagens dos meninos das escolas de alguidar-do-meio e de caracoletas-de-baixo, o que nem sequer é o caso).
Concluo, em segundo lugar, que tenho de aumentar a percentagem de pessoas com menos de 20 anos no meu quotidiano. Já andava a parecer-me que isto não vai lá só com retinol e muita água.

8.5.07

Recintos fechados

daqui

Diz um amigo meu, ex-fumador, pretendendo com isso conceptualizar o acto de fumar, que um fumador nega sempre qualquer coisa de que não gosta, na sua vida, em si. Inclino-me muito para aí: em todos os meus cigarros, cigarrilhas e charutos de recaída fui atrás de qualquer coisa mais além. Mas o que é que isto tem realmente a ver com a proibição de fumar em recintos públicos? Nada. A não ser o estreitamento do sonho, a desolação de assistir à exiguidade e extinção da espiral de fumo, essa matéria-passaporte para a transcendência, portátil e conveniente.

21.4.07

Um momento, só um momentinho

Shirin Neshat, Soliloquy series (Men with cannons - close up). 1999 [clic!]

Já volto.

Replicação*

Estilhaçado é o nome por que se responde, frouxa a curvatura memética do rabisco com que se firma, mesmo se a caligrafia perpetra uma carta de amor. Do arabesco que remata o post-it a salpicar da ternura mais funda o espelho da barba, nem consigo falar.

19.4.07

Oh boy!

Vão já vacinar a Bilucha, a Nenucha, a Tocas e a Mli!


Uma vacina que previne 70% dos casos de cancro do colo do útero já pode ser tomada - se pretendido, em ambiente hospitalar de alto gabarito tecnológico e hoteleiro - por 480 euros talvez comparticipados e, sem dúvida, susceptíveis de dedução no IRS. P'cébem?!
- Silentes e alinhadas senhoras deputadas do PS-quota-33,3%, excepto duas, esta humilde eleitora gostava de algumas explicações mais convincentes que a invocação de uma análise custo-benefício ensopada em género até ao colarinho...

18.4.07

O espírito da notícia do pai do filho

Gostava de dizer que não percebo se a notícia publicada hoje no Público sobre o pai de Sócrates é:
a) sobre as dificuldades que a administração demonstra ter na observância integral das regras sobre aquisições de serviços;
b) sobre o modo como são fiscalizadas as empreitadas públicas;
c) sobre a construção de quartéis da GNR;
d) sobre Castelo Branco;
e) sobre a actividade profissional de um homem chamado Morais;
f) sobre o mérito profissional de um arquitecto da Covilhã;
g) sobre a história de uma empresa falida.

Mas é escusado, não posso dizer nada disso: a notícia sobre o pai de Sócrates é mesmo sobre Sócrates.
E não é notícia nenhuma, porque informa muito pouco e mal. No contexto, exigia-se um cuidado noticioso que não se encontra na dita. É descaradamente apenas mais uma dose alarve e sonsa para contentar o apetite de "indícios", não esmoreça o fumo que a fogueira já lá vem.
Está visto que o Público já não é o que foi. O Público anda a cansar-nos.

15.4.07

Refresco

Inundada até à náusea pelo déjà vu? Saturada de querubins sem viço, de zunidos baços, de certificados e canudos, de coisinhas empoladas e indignações sem frescura à la portugaise? Desejosa de ... algo que tenha realmente sumo, mesmo que seja agridoce? Clica aqui!

Psst..., Shyznogud, clica também ali.