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5.10.11

Viva o Repúblico!








 (daqui)








(e daqui)

Comemorações

O povo circunstante esturricou ao sol do meio-dia, sem toldo, nem abanico, na Praça do Município. Em pé, que o povo tem o pé rijo. Pérgulas ao povo, não, que não há dinheiro. Umas cadeirinhas protocolares e já está.  A bem da verdade, também ao sol. 
Um toque de frescura nas comemorações: não a jovem talentosa que leu um discurso premiado dos 100 anos da República (e não dos 101, nada de improvisos, nada de alegria, nada de um olhar tu-cá-tu-lá a indiciar que a nova geração vai fazer o que lhe compete, que é ultrapassar-nos), mas coisas tão laterais como a presença urbano-cosmopolita da segunda figura do Estado, o empenho resiliente do presidente da câmara e a expressão  amável do primeiro-ministro (ao menos isso!). 
Quanto ao mais, pompa débil e alquebrada. Periferia, heróis prontos para se deitarem ao mar do desespero, nobre povo puído, nação valente-segurem-me-que-o-mato e, e mortal.
Impolida a displicência de alguns que ocupavam as cadeiras laranjas e vermelhas. Amusical o hino cantado, como se não lhe bastasse ser feio e oco e puxasse por glórias fósseis.
Mas correcta e interessante a expressão concentrada do presidente de todos a receber a homenagem da banda, como se encarnasse o seu próprio simbolismo constitucional, numa emocionada "renovação de votos". Talvez seja isso o que há de mais interessante e talvez embrionariamente promissor numa comemoração assim. Que os que, apesar de tudo, se chegaram para a frente na participação das responsabilidades cívicas, revisitem os seus compromissos. Já não é nada mau. Vai ser preciso começar a respeitar o valor existencial e por isso político das emoções para sairmos do buraco em que caímos e permanecemos cativos, cegos pelo "esplendor de Portugal". 

10.1.10

Ai as "instituições"!

Baldessari, Umbrella (Orange): With Figure and Ball (Blue, Green)
(from Somewhere Between Almost Right and Not Quite (With Orange)), 2004.


Não há mais vacas na Praça de Espanha, o que é positivo para as vacas e para este sítio sossegado, que não desapareceu apesar de um ano de inactividade.
O parlamento parlamentou na generalidade o casamento para todos os que o queiram. Levantam-se vozes de ai que as instituições tremem e ai que vão cair e ai as crianças, senhores, como explicar-lhes. Deixá-las levantar, deixá-las tremer, deixá-las cair. Digo isto inundada de um amor ao próximo e à humanidade tão verdadeiro como o que julga ter uma verdadeira defensora das "instituições", sobretudo uma defensora das instituições que "são naturais" (apesar de instituídas..., que ironia...). E quanto às crianças, só digo que vejo assim, nessa tonalidade aflita da inexplicabilidade de algo monstruoso às crianças, que as crianças estão a subir de cotação no mercado da retórica política! Bom sinal, mas adiante, deixo as crianças para depois (quero dizer, para outro dia; não para a sobremesa, está bem?!).
Posso (o "eu" aqui na lida insana é tendencialmente impessoal, é bom de ver, e este assim é...) pretender um amor ao próximo e à humanidade mais verdadeiro do que o que julga ter uma verdadeira defensora das "instituições " porque quem defende acima de tudo "as instituições" não defende acima de tudo os indivíduos, que são tudo o que de mais humano existe.
É verdade que a individualidade no sentido humano deve-se às instituições, através das quais se é (Susana ou João ou tio ou deputada ou transeunte amigável). Fora delas é-se alguém tanto como uma tela em branco é um quadro (isto não é contigo, Rothko!). Mas as instituições que nos dão alma, são as que evoluem connosco, as que são modificadas pelos indivíduos e que se (con)fundem neles.
Por outro lado, e falando ainda do amor ao próximo, à humanidade e às instituições (sem aspas), as "instituições" (com aspas) não são as instituições (sem aspas). Quando a palavra "instituições" precisa de aspas, quer dizer que precisa de ser defendida - juro! - e o mesmo acontece quando é necessário encavalitá-la nessa ideia troiana que é a "naturalidade" (da "instituição natural", caso este de dupla defesa...).
E se uma "instituição" precisa de ser defendida isso quer dizer que é uma mera opinião, que relativamente a ela não se forma o consenso surdo e generalizado da verdadeira instituição, que é uma coisa colada ao nosso ser e tão cosida a ele como uma pele.
Ora, defender opiniões é uma actividade legítima e até tendencialmente saudável tanto para quem se solta, exprimindo-se, como para nós todos em conjunto, porque promove esse fenómeno benfazejo que é o dissenso. Mas não é por isso, por nos lembrarmos de chamar a uma opinião uma "instituição", mesmo arredondando por excesso para o oxímoro da "instituição natural", que uma mera opinião sobre os modos de vida aceitáveis passa instituição.
Menos ainda quando a opinião é segregada pelo medo e pelo horror inspirados pela contemplação de uma repugnante deformidade. Ou seja, não é a instituição, é o medo, é o nojo. Chamar-lhe preconceito parece-me pouco.
Ruam, pois, as "instituições"... e vivam as instituições!
Volto já. Espero. Talvez.

24.1.09

A praça do disparate tornou-se finalmente boçal

Passei há dias na Praça de Espanha, em Lisboa, e mais uma vez pasmei com a vocação que lhe conheço desde sempre para o disparate.

A Praça de Espanha é assim. Os teatros mudam de sítio, as tendas das feiras que eram de Lisboa, assentam ali arraiais aparentemente prósperos, tanto quanto o estilo comprimido do certame deixa adivinhar, as estações de Metro continuam plantadas sem nexo pedonal, e, sobretudo, aquela parte central, aquele "oh-pra-mim-sou-um-espaço-verde" onde aterra de vez em quando algum pedregulho evocativo de qualquer ideia toscamente concretizada, adoçando já o juízo quanto ao valor da sua concepção, esse espaço vazio de carros que há no meio, estava adornado com vacas, julgo que em publicidade a um arquipélago em que os golfinhos se divertem em ménages à trois, fazendo fé nos cartazes que semearam por alguns postes da cidade.

Não me passou despercebida a minúcia de ter sido mais aguada, ou adubada, a relva destinada aos bovinos, que está "ainda mais verde" que a que corre por fora da cerca.

Não sou entendida em psicologia vacal, nem sequer tenho os direitos dos animais entre os meus primeiros amores, embora perceba que qualquer dia próximo teremos de pensar nisso a sério, desafiando a adequação ética de alguns dos nossos pressupostos na matéria, que começam a parecer-se demais com qualquer coisa pré-coperniciana.

Mas as vacas, que não pareciam ainda loucas, pareceram-me deprimidas e brutalizadas, ou então não eram elas, era eu que me sentia brutalizada de ver um espectáculo tão insensível ao sofrimento apresentado boçalmente como um evento cheio de espírito.

Nunca pensei que um bicho de algumas centenas de quilos pudesse parecer tão frágil, preso entre a agressividade dos automóveis que passam quase rentes, com o seu barulho, as suas emissões, a sua trajectória homicida (vaquicida?), mais do que sustido por uma pindérica cerca.

Ando a pensar se a mente onde germinou semelhante eureka publicitário, ou a mente que aprovou acção tão improvavelmente tosca, consideram sequer a possibilidade de comer bifes daqueles animais.

Ando a pensar por que motivo me parece que fazer-lhes essa pergunta, que suscita as emoções da deglutição e da pança, me parece mais agudo que perguntar-lhes se já se puseram no lugar das vacas, se gostariam de estar ali todo o dia em pijama, a ver televisão, enquanto petiscam biscoitos, que é o que as vacas ao fim e ao cabo sabem fazer, mutatis mutandis.

Ao mesmo tempo, tudo isto leva ao clímax a vocação da praça de Espanha para galeria da nossa desorientação. Como se além do mau casamento e do mau vento, também não viesse de Espanha um bom oriente...

26.10.08

Trajectória virtual

Pepe Smit, Museum. 2007

Diz que a recessão está a aumentar a venda de alimentos mais saudáveis, beneficiando a ingestão de antioxidantes e baixando o consumo de açúcares e gorduras, da mesma maneira que aumenta a venda de batons, esses convenientes elevadores do ego, em detrimento das malas, estes kits da sobrevivência urbana a que o mulherio vive agarrado à custa das espaldas. Talvez a recessão também fomente a criatividade e refresque os costumes, como já tem acontecido. Talvez uma nova nova oportunidade emerja da crescente tensão pré-eleitoral e nos classifique em massa para um upgrade civilizacional, ainda que modesto. Talvez a trajectória do pessimismo seja uma rampa afinal.

12.9.08

A grande entrevista e as três pequenas pátrias

Terá a pátria futeboleira reparado que a entrevista de ontem à Maria José Morgado foi realmente uma Grande Entrevista?

Será que a pátria provinciana reparou quem dava a entrevista que a Maria José Morgado dava?

Será que a pátria não-provinciana reparou no que a Maria José Morgado deu à pátria na entrevista?

Eu ensaio respostas. Respectivamente:
Duvido que a pátria futeboleira tenha reparado que a entrevista de ontem à Maria José Morgado foi realmente uma Grande Entrevista.
A entrevista foi futebolística a menos, de várias maneiras. Não se vislumbraram equipas rivais e houve mesmo blasfémias ao desporto-rei (e viva a república!).
A recusa, desde logo lexical, de adoptar uma posição em contendas malformadas deve ser caso para que a entrevista seja colocada definitivamente fora de campo... Cartão vermelho a quem se tresmalha!

A pátria provinciana, por seu lado, não deve ter dado caracol por quem dava a entrevista que a Maria José Morgado deu.
Houve palavras esdrúxulas a menos, frases simples a camuflar ideias complexas (em vez do contrário habitual) e a ausência dos sinais exteriores de respeitabilidade (entenda-se, de poder social, cuja fórmula mais corrente é aquele trejeito de má digestão de quem se toma por respeitável porque pode). Além disso, realmente, ela é quê?... Procuradora-Geral Adjunta? ah pois, "Adjunta..."
A pátria não-provinciana sabe que a Maria José Morgado está cada vez mais parecida com a Paula Rego, que por sua vez tem sucesso lá fora. E a coisa fica mais ou menos por aí.
O que eu espero é que ontem alguém que se sente impotente perante o seu município, a sua máquina administrativa, o seu governo, o seu assaltante, o seu bruto particular, alguém que sente a fragilidade da existência, alguém que sabe junto aos botões o que está certo e o que está errado, mas que sabe também que não tem a mínima chance de se sair bem se se dispuser a enfrentar as formas de prepotência, marginais ou instituídas, que habitualmente nos esmagam, o que eu realmente espero é que alguém assim tenha assistido, como eu, com espanto silencioso e reverente, à grande entrevista da Maria José Morgado.

4.9.08

Upgrades

O líder em exercício do PPO (Principal Partido da Oposição) propõe uma "boa estratégia de comunicação".
É um upgrade notável na habilidade política até agora demonstrada pelos não-apoiantes de Ferreira Leite. Repisar a crítica ao Silêncio, ou procurar eclipsá-lo por ilusionismos de pendor sazonal é coisa para políticos bricoleurs.
Aqui assiste-se simplesmente ao exercício público, retoricamente poderoso, do dom da Visão (como em visionário...), que é um dom essencial dos políticos a sério. Que é apresentado em registo de quem não vem senão por bem, na confiável e neutra ambiência da dita universidade de Verão, e acaba apontado, na maior compostura, ao patamar mais desconfortável da actual gestão partidária. Obrigando, consequentemente, a comparar a angústia do nada, ícone de Ferreira Leite, com o morno raio de sol da esperança plantado nos nossos corações por um Passos Coelho cívico e educado.
Fino e demolidor este upgrade realizado no discurso partidário pelo um-dia-no-futuro (julgo que ainda terá de estagiar pelo menos uma legislatura) primeiro-ministro.
Com algum sentido de oportunidade, mas, no essencial, só para disfarçar - ou se não é, poderia sê-lo -, propõe também um Estado, sei lá, estás a ver pá, diferente.
Também é um upgrade relativamente às funções do Estado tais como apresentadas por Ferreira Leite. Excluindo os pontos em que se aproximou do PG (Partido no Governo), o único dossiê relativo a funções do Estado, conceda-se, em que a actual líder formal demonstrou possuir conhecimento de tomo e posição definida foi, se bem me lembro, a morigeração dos costumes.
Digo isto tudo com um certo desgosto porque, quanto ao mais, até gostaria de ter aí uma primeira-qualquer-coisa que aparecesse de vez em quando com um neto ao colo, fralda de bolsar pelo ombro. Mas esse upgrade não parece ser para já.

12.1.08

A (não) censura do cabaz eleitoral

A moção de censura do BE ao Governo pela mudança de posição na questão do referendo ao tratado europeu é o acontecimento mais (desengraçadamente) engraçado das últimas semanas políticas marcadas por mudanças de posição do Governo.
Pondo de parte a questão das pensões (que pode ficar à conta de uma correcção atempada de uma medida prevista) e a questão da localização do aeroporto (que, no fundo, corresponde a uma mudança de pontos de vista nacionais sobre o assunto, tão estável que parecia estar a opção Ota), a questão da mudança de posição quanto ao referendo põe em evidência uma deficiência das nossas práticas eleitorais, que ao BE, paradoxalmente, muito atinge: a insuficiência do debate ideológico nos programas dos partidos, por contraposição ao peso das promessas eleitorais de medidas concretas.
Consta que o velho Bismarck dizia que todos os tratados internacionais deveriam conter nas entrelinhas a cláusula "rebus sic standibus". Isto é, que o concerto que estabeleciam valeria sempre e apenas no caso de as circunstâncias fundamentais se manterem inalteradas.
A língua portuguesa tem uma versão mais rolada da mesma ideia, na forma de uma máxima de sensatez dirigida aos indivíduos, segundo a qual "nunca digas 'desta água não beberei' ". Pois já se sabe, lá virá um dia em que poderemos encontrar um contexto de decisão de tal modo inimaginável no presente que nos convidará a escolher aquilo que pensávamos nunca vir a preferir.
O sentido relevante da máxima não é a sugestão de que somos intrinsecamente pusilânimes e superficiais, e por causa disso disponíveis para mudar de ideias com a maior ligeireza. Pelo contrário, a máxima supõe que a coerência na palavra ou na acção (podemos dizer, para simplificar, ética, ou valorativa, ou mesmo ideológica) é um aspecto importante da nossa qualidade de vida e por isso não devemos ameaçá-la impensadamente. Para isso é sensato recordar sempre que não dispomos antecipadamente de uma visão suficientemente esclarecida de todos os elementos relevantes que estabelecem o contexto concreto de uma acção futura.
É por causa disto que a moção de censura do BE é interessante. Com ela o BE critica o Governo por ter prometido uma coisa e feito outra, mas não questiona verdadeiramente os motivos que o Governo apresenta para a mudança (segundo o Governo, a alteração é apenas aparente, pois tratar-se-ia agora de um outro tratado europeu...sim, claro).
O BE não critica o Governo por ter feito uma promessa eleitoral defeituosa, que prometia uma acção concreta independentemente das circunstâncias futuras da sua execução. O BE não critica o Governo por ter prometido ao eleitorado uma medida concreta, em vez da fidelidade a uma linha programática ou ideológica. O BE não critica a mediocridade do debate eleitoral dos partidos baseado em promessas eleitorais de fontanários e municipalismos.
Critica apenas o desvio num gesto concreto, contra a sabedoria do velho Bismarck e os tesouros populares da língua portuguesa. E, portanto, em conclusão, releva - com grande proveito para si próprio, já que a isso está intrinsecamente condenado, pelo telhado de vidro da sua inexistência ideológica - o pecadilho eleitoralista de prometer actos em vez de discutir políticas.
Havia um motivo de censura: não se deve conquistar o eleitorado com promessas de medidas tão concretas, como quem atira bifes à matilha; as eleições, pelo contrário, servem para discutir política e ideologia; prometer categoricamente medidas concretas é tão destituído de valor como prometer que nunca se beberá de uma água, é apenas música para o elevador eleitoral. Mas o BE, o nosso partido campeão das práticas eleitorais baseadas em cabazes de compras, cheios de designações das águas a beber e a não beber, a isto nada tem a censurar.

5.1.08

Com licença, se faz favor e obrigada. Vá bugiar. Ame muito e volte com elegância

(o bicho do blogger comeu-me o post que eu queria ter posto aqui! não vou voltar a escrevê-lo, mas é inevitável que volte ao assunto. falava sobre a vantagem do amor sobre a reforma do sistema educativo para cidadãs impacientes como eu, que não podem dar-se ao luxo de esperar assistir ao desfile de duas ou três gerações até à visibilidade de resultados em matéria de grunhice nacional urbanita (quer da estirpe afecto-pseudo-educada, quer da estirpe grunho-troglodita. enfim, talvez não fosse assim tão a seco. e tinha, muito a propósito, o link para a bibliocura, esse sucedâneo do amor. aqui)

18.11.07

Descarnar com dentes agudos

Quando o VPV diz que o sarcasmo não o diverte tanto quanto a ironia e a seguir dá conta do alto valor que atribui ao que o diverte, como não lamentá-lo, pelo gáudio do povo exultante da sua mestria sarcástica, como não cumprimentá-lo com reverência, na compaixão da carne viva?

A entrevista ao Expresso pode ser lida, na íntegra, aqui, graças ao Atlântico.

15.11.07

Desordens democráticas

James Lee Byars, Pink silk object. 1969

A tolerância que vamos tendo com as ordens profissionais é um bom exemplo da nossa capacidade de jogar com uma lógica dupla, esquecendo pontualmente aquilo que no geral afirmamos como princípio.

No caso, talvez este fenómeno não esteja apenas baseado nas fascinantes habilidades do nosso cérebro, sobretudo quando se intoxica com o hábito. Talvez o fenómeno conte com um apoio significativo por parte do que estamos dispostos a tomar como "realidade".

É que nenhum outro grupo social - com excepção talvez da classe dos betos - ostenta com tanta inocência essa convicta e convincente atitude de se estar conformado com o facto de se ser portador de um status que conta como poder legítimo. Os bastonários, mesmo os que até poderia achar indivíduos razoáveis e simpáticos, parecem-me sempre falar sob o efeito consagrador de uma coroa simbólica em periclitante equilíbrio no topo do cocuruto.
Em alguns momentos em que a menina que às vezes ainda me habita não está a dormir, não está sedada, julgo até perceber que essa coroa de papel é o seu único atavio.

De guildas a nichos de resistência a uma sociedade que postula como princípio que o status e o poder não hão-de fertilizar-se reciprocamente, as ordens são, talvez mais mesmo que uma desordem, uma falha profunda no solo democrático...
Outra coisa não resulta do pitoresco código deontológico da ordem dos médicos e da sua condenação da IVG.

2.11.07

Coisas minoritárias

Um destes dias dei comigo numa reunião multilingual. Entre a veleidade portuguesinha de perceber, mais ou menos às apalpadelas, o que os diversos intervenientes iam dizendo e a necessidade, própria de quem é oriunda de um país situado no degrau trinta e picos do índice de desenvolvimento humano, de ouvir exactamente o que estavam a dizer, aplicando os auscultadores, ainda tive tempo para reparar que havia à minha volta uma fartura tal de circunstantes masculinos que, à primeira vista, aquilo poderia ser uma fase pós-catarse e muito pré-festiva da revolta na bounty.



Em vez de me alegrar com tamanha largueza, saracoteando um charminho sonhador para aqui e outro para acoli, estremeci com o mais puro e gelado respeitinho a fazer-me a espinha. Devia ser importante, caramba, aquela assembleia!



Não me perguntei - apesar de a pergunta ser uma boa pergunta - onde estavam as mulheres. Comentei só, como disse, que aquilo devia ser, caramba, uma coisa importante.



Três ou quatro semanas antes eu tinha estado numa outra reunião, de uma diferente assembleia. Aí tratava-se de um assunto de mera participação cívica. Havia um homem, que presidia. E o resto eram mulheres. Muitas delas eram daquele tipo muito assustador que se bate contra a exploração sexual da mulher, perante quem começo sempre por sentir-me gravemente acometida de amoralidade (após o desgosto inicial, acabo por confortar-me pensando no trabalho que me dá assim ser). Lembro-me de ter pensado: está visto que isto não é um assunto importante. O assunto, esclareço, não era a exploração sexual da mulher, era uma coisa sem género, coisas de civismo. Não importante.



Ontem ouvi um senhor importante dizer na televisão que, no quadro das negociações entre a Europa e a África, o rapto das crianças do Chade não era uma coisa importante. Com a imagem dos miúdos ainda na retina, achei que a pergunta adequada, perante isto, só poderia ser: onde está o Wally?


Dividimos muito as opiniões e as pessoas consoante o que dizem sobre os assunto; é um erro, nestes tempos de informação tão larga e tão móvel.
É muito mais relevante fazer a distinção com base no critério do por que se pensa isto ou aquilo sobre um assunto. A única desvantagem deste critério - matemáticos, não tentem aqui fazer contas! - é que uma pessoa acaba por concluir vezes demais que está em minoria.
A história do indivíduo que o colectivo oprime é sempre piedosa, na boca do colectivo.