21.4.07

Um momento, só um momentinho

Shirin Neshat, Soliloquy series (Men with cannons - close up). 1999 [clic!]

Já volto.

Replicação*

Estilhaçado é o nome por que se responde, frouxa a curvatura memética do rabisco com que se firma, mesmo se a caligrafia perpetra uma carta de amor. Do arabesco que remata o post-it a salpicar da ternura mais funda o espelho da barba, nem consigo falar.

19.4.07

Oh boy!

Vão já vacinar a Bilucha, a Nenucha, a Tocas e a Mli!


Uma vacina que previne 70% dos casos de cancro do colo do útero já pode ser tomada - se pretendido, em ambiente hospitalar de alto gabarito tecnológico e hoteleiro - por 480 euros talvez comparticipados e, sem dúvida, susceptíveis de dedução no IRS. P'cébem?!
- Silentes e alinhadas senhoras deputadas do PS-quota-33,3%, excepto duas, esta humilde eleitora gostava de algumas explicações mais convincentes que a invocação de uma análise custo-benefício ensopada em género até ao colarinho...

18.4.07

O espírito da notícia do pai do filho

Gostava de dizer que não percebo se a notícia publicada hoje no Público sobre o pai de Sócrates é:
a) sobre as dificuldades que a administração demonstra ter na observância integral das regras sobre aquisições de serviços;
b) sobre o modo como são fiscalizadas as empreitadas públicas;
c) sobre a construção de quartéis da GNR;
d) sobre Castelo Branco;
e) sobre a actividade profissional de um homem chamado Morais;
f) sobre o mérito profissional de um arquitecto da Covilhã;
g) sobre a história de uma empresa falida.

Mas é escusado, não posso dizer nada disso: a notícia sobre o pai de Sócrates é mesmo sobre Sócrates.
E não é notícia nenhuma, porque informa muito pouco e mal. No contexto, exigia-se um cuidado noticioso que não se encontra na dita. É descaradamente apenas mais uma dose alarve e sonsa para contentar o apetite de "indícios", não esmoreça o fumo que a fogueira já lá vem.
Está visto que o Público já não é o que foi. O Público anda a cansar-nos.

15.4.07

Refresco

Inundada até à náusea pelo déjà vu? Saturada de querubins sem viço, de zunidos baços, de certificados e canudos, de coisinhas empoladas e indignações sem frescura à la portugaise? Desejosa de ... algo que tenha realmente sumo, mesmo que seja agridoce? Clica aqui!

Psst..., Shyznogud, clica também ali.

12.4.07

Lavores femininos

Ainda aprendi a bordar de bastidor, embora isso fosse mero resultado de uma intenção para me manter ocupada durante as férias escolares, abundantes muitos dias aos das excursões estivais familiares, numa altura em que, conjecturo, terei começado a ostentar aquele olhar ligeiramente lascivo das meninas de dez anos.
Passei, pois, pelo bastidor, que é aquele aro em que se estica o tecido, para realizar o ponto cheio, e antes disso pelo ponto cadeia e pelo ponto pé-de-flor, o primeiro.
A minha mestra foi a primeira vegetariana que conheci. Era vegetariana, idosa e solteira. Falava pouco, mas era gentil e exacta. Uma das primeiras coisas que aprendi com ela foi que qualquer pedaço de pano, olhado bem de perto, é uma teia de fios. Existem poros entre esses fios, que se tornam visíveis com uma observação focada. Podemos então seleccionar os fios que quisermos e, com a agulha, modificar a estrutura do pano.
Isto é um post sobre a porosidade. Qualidade que abrange a política, os indivíduos e até a minha conta bancária.
Yue Minjun, How are you Vermeer?. 2000

11.4.07

A entrevista

Achei Sócrates mais claro, mais natural, mais transparente e mais credível que o pardíssimo - e tendencialmente sinistro - painel da RTPN que a seguir comentou a entrevista (houve um que me pareceu melhorzinho, mas não fixei o nome).
Distraí-me um pouco com os perímetros abdominais dos entrevistadores, sempre que a câmara mudou o ângulo, tentando calcular quanto valeriam no conjunto (estou certa de que perto de 2 metros, mas só menciono o assunto porque dei ultimamente em reparar na epidemia, pela mão dos senhores jornalistas, diga-se), embora simpatize bastante com JAC, que não esteve mal. Não me distraí tanto, contudo, que não reparasse nas qualidades de líder e na genica de Sócrates. Só que a questão era de si tão arredada do que pode ser uma boa e nítida questão, que é muito provável que a entrevista tenho servido para reforçar tudo o que já se pensava, em ambos os lados da trincheira.
Pelo sim, pelo não, vou ver ser recolho pela casa todos os papelinhos que ainda sobram sobre o meu percurso académico, profissional, desportivo, municipal, etc, e passar a registar o tudo que faço num diário (com excepção, claro, daquilo que seja para esquecer).
Fantasio que em Belém se bebe um copito de festejos a esta hora. Nada como o sossego da nossa casinha.

Questões (de) minúsculas e maiúsculas

Gao Brothers, TV n.o 4. 2000

- O estado da Nação.
- O Estado da nação?
- O Estado da Nação.
- O estado da nação? Oh não!!

9.4.07

E agora, José?

Ando para aqui a puxar pela memória a ver se me lembro de algum caso em que um político à proa tenha sido tão escrutinado em público a propósito de aspectos tão corrosivos da sua hombridade. Ocorre-me um caso, o que suscitava profundas dúvidas sobre a fidelidade conjugal num casal altamente ministeriável (e não, não estou a falar de Sá Carneiro).
No caso, essa película de opiniões públicas que envolve os indivíduos e cujos sinais permite assinalar-lhes a correspondente categoria do merecimento social, tem sido desafiada em dois dos pontos mais sensíveis da respeitabilidade lusitana: a lídima masculinidade e o índice de casta. Que é como quem diz - literalmente - o tipo é maricas e nem é dótor (ou o seu Ersatz, ingenheiro).
Curiosamente, em ambas as situações deste caso - será paranóia minha? - andava por aí, disponível para o contraste, um campeão da testosterona e da respeitabilidade académica, a tal ponto que esteve para ser reitor da mesma instituição que passa certidões aos domingos.
O que é becas de giro é que isto passa-se no país em que se trata os subalternos pelo nome próprio, em que não se separa o lixo, em que a malandrice fiscal é um índice de inteligência, em que ninguém quer um preto para neto, em que a curva da barriga faz prova do índice de deriva emocional da casta masculina dominante, em que há putos de cinco anos que não sabem as cores e nunca viram um livro, em que se diz "desculpe" em vez de dizer "lamento", em que as excelentes leis que copiamos da França, da Alemanha e da Itália são sempre gestos de despotismo esclarecido, tanto estão afastadas de exigências clamadas pela sociedade civil, demasiado ocupada com a hombridade do umbigo para levar a sério estas puerilidades.
É bom, claro, submeter os políticos a escrutínio. Mas também se deve escrutinar o critério do escrutínio.

8.4.07

Exibir e expor

Beatriz Milhazes, Maresias. 2002 [clic!]

Em tempos achei que os blogues sem caixa de comentários eram exercícios autistas. Depois, por economia, fechei a minha caixa de comentários e percebi que um blogue sem caixa de comentários não é mais autista que um blogue com caixa de comentários, mas é um exercício irremediavelmente exibicionista, por mais mediana, simplória e corriqueira que seja a exibição.
Embora nada tenha contra o exibicionismo nos outros, desde que não me moleste, afadiguei-me então em colocar um discreto endereço de e-mail, que me permitisse andar convencida de que tinha superado a principal desvantagem do exibicionismo, que consiste em perder a suprema vantagem da exposição, a saber, o feed-back, retorno, contraposição, o que se queira chamar a esse espantoso fenómeno que é o de receber notícia do olhar alheio sobre o que julgamos estar a ver tal como é ou que nos traz mais do que o que alcançamos ver. Ocasionalmente chegam, por essa via, sinais amigáveis da complexidade do mundo.
Ao Amarante.

Afixação gratuita


Passei pelo Marquês. Só lá estava um cartaz, o do PNR, quase tapado com tinta branca. O cartaz do Gato Fedorento não estava já. Diz que não pagaram à Câmara. As subtilezas da democracia às vezes dão uns resultados com aspecto demente. Cedo este espaço aqui (imagem surripiada ali), de borla.


7.4.07

A woman in trouble

Tenho visto muitas fitas ultimamente. A maior parte delas num sítio que não posso dizer. Só posso dizer ... frio... frio..., ainda que nem sempre isso corresponda à realidade. Faço esta vaga referência, de gosto algo duvidoso - que delícia! -, porque este post é precisamente sobre fitas.
Ontem vi mais uma fita. A do Lynch, sobre uma mulher em sarilhos em Inland Empire, rincão californiano que dá nome à fita.
Não quero comentar a fita. Só quero registar isto: as palavras ditas por uma sem-abrigo anónima a uma mulher em grandes sarilhos, moribunda. Palavras que formam um gesto em conjunto com a carícia leve e acalentadora no cabelo da moribunda.
Palavras calmas, neutras, quase meigas: Don’t worry. You’re just dying, that’s all. Não me importava nada de morrer assim.

Desmentificando

Vincenzo Agnetti, Libro dimenticado a memoria. 1969
Dimenticare, desmentificar. Retirar da mente, esquecer, limpar. Revirginar. Recomeçar. Revigir. Desdementificar. Começar. Desmentificar, desdementificar. Começar. Ir. Recomeçar. Desmedir. Ir.

4.4.07

Desusos e-m uso

Apfelbaum
e-É de persistir numa kaloskagathia catita, mas que seja de tipo e-qualquercoisa, enquanto se e-spalham os trapos primaveris. Deixá-los e-nrolar nas pernas.

3.4.07

Coisas verdadeiramente importantes

Listen very carefully!

Com agradecimentos, pela boleia, ao Pitau Raia. Que vontade eu tinha de voltar a ouvir isto, vezes e vezes sem conta. E quantas mais pensei: 'bora fazer o da Lísbia amada... !


Nos entrementes, vai a Primavera avançada e nicles de paixões assolapadas. Não está certo!