10.1.10

Ai as "instituições"!

Baldessari, Umbrella (Orange): With Figure and Ball (Blue, Green)
(from Somewhere Between Almost Right and Not Quite (With Orange)), 2004.


Não há mais vacas na Praça de Espanha, o que é positivo para as vacas e para este sítio sossegado, que não desapareceu apesar de um ano de inactividade.
O parlamento parlamentou na generalidade o casamento para todos os que o queiram. Levantam-se vozes de ai que as instituições tremem e ai que vão cair e ai as crianças, senhores, como explicar-lhes. Deixá-las levantar, deixá-las tremer, deixá-las cair. Digo isto inundada de um amor ao próximo e à humanidade tão verdadeiro como o que julga ter uma verdadeira defensora das "instituições", sobretudo uma defensora das instituições que "são naturais" (apesar de instituídas..., que ironia...). E quanto às crianças, só digo que vejo assim, nessa tonalidade aflita da inexplicabilidade de algo monstruoso às crianças, que as crianças estão a subir de cotação no mercado da retórica política! Bom sinal, mas adiante, deixo as crianças para depois (quero dizer, para outro dia; não para a sobremesa, está bem?!).
Posso (o "eu" aqui na lida insana é tendencialmente impessoal, é bom de ver, e este assim é...) pretender um amor ao próximo e à humanidade mais verdadeiro do que o que julga ter uma verdadeira defensora das "instituições " porque quem defende acima de tudo "as instituições" não defende acima de tudo os indivíduos, que são tudo o que de mais humano existe.
É verdade que a individualidade no sentido humano deve-se às instituições, através das quais se é (Susana ou João ou tio ou deputada ou transeunte amigável). Fora delas é-se alguém tanto como uma tela em branco é um quadro (isto não é contigo, Rothko!). Mas as instituições que nos dão alma, são as que evoluem connosco, as que são modificadas pelos indivíduos e que se (con)fundem neles.
Por outro lado, e falando ainda do amor ao próximo, à humanidade e às instituições (sem aspas), as "instituições" (com aspas) não são as instituições (sem aspas). Quando a palavra "instituições" precisa de aspas, quer dizer que precisa de ser defendida - juro! - e o mesmo acontece quando é necessário encavalitá-la nessa ideia troiana que é a "naturalidade" (da "instituição natural", caso este de dupla defesa...).
E se uma "instituição" precisa de ser defendida isso quer dizer que é uma mera opinião, que relativamente a ela não se forma o consenso surdo e generalizado da verdadeira instituição, que é uma coisa colada ao nosso ser e tão cosida a ele como uma pele.
Ora, defender opiniões é uma actividade legítima e até tendencialmente saudável tanto para quem se solta, exprimindo-se, como para nós todos em conjunto, porque promove esse fenómeno benfazejo que é o dissenso. Mas não é por isso, por nos lembrarmos de chamar a uma opinião uma "instituição", mesmo arredondando por excesso para o oxímoro da "instituição natural", que uma mera opinião sobre os modos de vida aceitáveis passa instituição.
Menos ainda quando a opinião é segregada pelo medo e pelo horror inspirados pela contemplação de uma repugnante deformidade. Ou seja, não é a instituição, é o medo, é o nojo. Chamar-lhe preconceito parece-me pouco.
Ruam, pois, as "instituições"... e vivam as instituições!
Volto já. Espero. Talvez.