31.1.06

Mulherzinhas históricas

Parecem duas irmãs, estamos à espera de as ver criar rabo e duplo queixo, com um ou dois filhos, maridos, cunhados e sogras, vestidos de casamento tipo suspiro de poliéster. Uma olha de frente e é risonha, a outra sorri com ironia. Já deram, aposto, para muitos peditórios de gajas assim ou assado, de pouca-vergonha, de fufas, de cerveja e tremoço. Foram com outros antes mas isso não interessa. Passaram possivelmente por uma bata de serviços de limpeza, conheceram-se talvez na carrinha do aspirador. Agora estão naquela, uma com a outra. Será mais ameno. Acho-as perfeitas na mediania. Querem casar uma com a outra mas os sexos não são diferentes. Vão fazer história.

Enquanto não chega o dia 4 de Abril de 2048

Segundo o link que encontrei no Xicuembo, expira a 4 de Abril de 2048 o meu prazo de validade, se eu ainda andar por aqui.
Reparando na data, ironicamente cheia de números pares, encontro uma razão hipotética para a minha preferência por números ímpares.
Tudo isto recorda-me um velho problema: o que fazer dos meus dias. Dos meus minutos. Das minhas quinzenas. À primeira vista, sobra-me tempo. Basta-me um segundo, este. Este que passou ou o que vem já agora ou logo ou depois. Fico inteira no tempo de um segundo feliz.
Via Xicuembo, dizia eu, onde hoje também se oficia caligraficamente, tomado daqui.

Do mulherio criativo


Martha Graham. Lamentation.

30.1.06

Lamentações oblíquas

Martha Graham, Lamentation ( oblique), 1935

São cerca de cinquenta os dias que faltam para o Inverno terminar e não são os mais fáceis.

Postas literárias de cacaracá*

Todas as que se inspiram no sarcasmo, essa forma de mau hálito.

*ortografia corrigida

Serviço de cicerone*

Estimadas visitas do Quase em Português:


O quadro do precoce rapazinho alemão é o da Madona da pêra. Se Vossas Mercês se interessarem, temos mais alguns aqui em exibição, com excelente fruta, sem sair da mesma variedade. Há cravo e pêra e pêra e canela; também temos sem pêra mas com linhas.


PS: Possuímos ademais excelente serviço de apostas com palpite já formado a propósito da próxima playmate do Lutz, identificado que está o colega de jogos italiano - um rapazinho, com aquela cara de bonzinho, que se tornou num bom atrevido, oh sim..., pela maciota.


* Gratificação não incluída e bem-vinda.

Palavras larvas

Imperdível. A única coisa imperdível que conheço é a sombra, e mais ainda a da morte. Ouvida mais que uma vez por ano, traz más vibrações ao tímpano. Deslarve-se.
Obviedade. Encontro, finalmente, a palavra recenseada em dicionário. Que alívio assim ficar desonerada de suprir - a que seria - tão pesada falha. Posso arrumar no armário a obviosidade que me despontava na língua, à sombra da ignorância. Desfungue-se.

Vitrina


O vestido do Mal. Duplamente aconselhado.

28.1.06

A doçura do espírito e das palavras

DÜRER, Nossa Senhora da pêra. 1512
A pêra foi agora cortada e o menino toma-lhe a lição de doçura. Nunca foi criança tão irrequieta, nem nunca tão crioulo como aqui. Doce na boca, doce nas palavras, o menino aprende a lição da pêra. Uma cinza dourada desce apenas até à fronte de ambos. Doçura de claridade nas mentes. A lição é a da sabedoria. O menino aprende-a.

Manual de instruções #12

É recomendável exercitar a memória. Não confundir com fantasia.

27.1.06

O prato da casa

Não se mostra o que não há que mostrar, pois, ao contrário de outros, este é verdadeiramente um blogue de família, mas eis aqui o momento em que é adicionado o leite à sopa de peixe.

Nas costas do sabayon

Depois de ter gorado a produção de um brioche na semana passada - a massa azedou, pá, o fermento era bera, comecei-o cedo demais, diz ao Alves que talvez sim talvez não e passa-me aí o sal - empreendi um sabayon. Para réussir há aquela manobra de bien fouetter. Pois não é que entre o ir e o vir da vareta dou pelo bombyx mori antecipando a Primavera (afinal, 'tadinho, que valente!, recompôs-se bem dos cansaços...) com toda a sorte de jogos de sociedade e anúncios de damas primeiras?! Não lhe bastavam já as meninas?! Ó sáchavor! Aquilo é mesmo assim ou as folhas de amoreira foram substituídas por outras ainda menos canónicas?! E como é que se faz agora com o respeitinho?!
[Que é como quem diz: que bom o bombyx ter voltado, como anda inspirado e que bela companhia lá se fez!]
(aditados)

Pergunta dietético-prescrutiva

É perrexil?

Pergunta fora do tempo

Que horas são?

Pergunta género-paisagística e sua amena resposta e é pró menino e é prá menina

E é pró menino:
O que é que um alemão em Portugal faz com a paisagem natural?
Naturezas femininas coleantes.

E é prá menina:
O que é que uma portuguesa na Alemanha faz com a paisagem natural?
Mansas naturezas masculinas.

[E já agora, parabéns Helena, nunca vi uma paisagem tão próxima do corpo masculino! Bem achada!]

Pergunta perguntadeira e sua responsiva resposta

O que é que as comemorações de Mozart têm de bom?
Mozart.

Pergunta de algi-beira e sua cão-petente res-posta

O que é que dói na Beira?
Dói o frio de cão na ovelha.

23.1.06

Romance avant la page

Kandinsky, Composição X. 1930 ['clic'!]

Xisdécimo par sob a indiferença monótona da lua. Os clássicos são sempre os clássicos e uma rosa é uma rosa é uma rosa. None's place. É cedo ainda. Rodopia.

A vida

Pois continua, Lutz. Segue-se o que se segue. Atentemos.

Nem vitória estrondosa, nem chumbo maciço.

Cavaco Silva e os seus apoiantes festejam e têm motivos para isso porque ganharam. A esquerda perdeu. Que a vitória não foi ribombante, já se sabe (hoje no Público consta 50,59%, a taxa de abstenção vai pelos 37,39%). Em qualquer caso, foi uma vitória. Que não foi estrondosa. Tal como o chumbo da esquerda não foi maciço.
Efectivamente, considerando que a candidatura de Cavaco Silva se tratou da única candidatura da oposição (não o eram nem a candidatura de Alegre, pelo berço ideológico, nem as de Jerónimo e Louçã, pela posição no espectro das tendências), que ainda por cima se centrou num candidato de tipo impoluto fazendo promessas ortopolíticas e, com frequência, enfatizadas à esquerda com promessas de prosperidade e honra em tempos marcados por angústia social, aumentos dos preços, descida dos benefícios e algum miserabilismo nacional, considerando também que o espaço político de apoio a essa candidatura foi o da direita toda inteira (una e individida) e que a candidatura beneficiava, desde o início, de um etos triunfante - considerando, pois, tudo isto - sou levada a concluir que Portugal continua a ser um país maioritariamente situado à esquerda.
A não ser, claro, que uma acentuação do discurso de direita na candidatura de Cavaco Silva tivesse conseguido sensibilizar essa faixa escura da abstenção, revelando o verdadeiro sentido das suas inclinações políticas. Não creio, no entanto, pensando nos abstencionistas que conheço (e sobretudo, pensando na natureza dos argumentos que utilizei para os mover e que não produziram qualquer efeito) que nessa faixa abstencionista resida um núcleo puro e duro de um Portugal de direita desconhecido.
No entanto, a conclusão de que Portugal continua a ser um país maioritariamente situado à esquerda é a que conduz a apreciações mais severas para os partidos de esquerda, principalmente para o PS, em particular quanto à capacidade de sensibilizar e de mobilizar a comunidade para desígnios conjuntos.
Mas não relaciono com isto, pelo menos significativamente, os resultados de Manuel Alegre. O voto em Manuel Alegre foi seguramente um teste ao carisma de Sócrates, ao PS de Sócrates, que não correu muito bem, mas foi ainda um voto materialmente socialista - o que mostra que a nupcialidade do PS com o eleitorado não se encontra em fase francamente crítica, já que ela é composta, pelo menos, pela soma das candidaturas de Alegre e Soares (acrescento a taxa negativa da posição no governo).
Por outro lado, a candidatura de Mário Soares era tão intensamente marcada pelo carácter inusitado e desconcertante das suas circunstâncias pessoais, o que requereria, de facto, um tempo de aceitação e adesão superior ao que aconteceu (para além, claro, da eventual dificuldade suscitada pela questão monárquica), que a deslocação do voto para Manuel Alegre tem, a meu ver, muito pouco significado. Quase apetece dizer que bastava estar ali colocado e estender os braços para recolher os votos e que a empenhadíssima campanha teria sido apenas e sobretudo para dizer que estava ali alguém.
Assim, quanto ao PS não creio que tenha havido "um cartão amarelo", nem quanto a Cavaco Silva se pode dizer que o país o recebeu de braços abertos.
Em termos de afirmação individual, entendo que o vencedor, porque o que palmilhou mais espaço, foi Jerónimo de Sousa. O facto de assim ser é um contributo importante para a democracia, que só tem a ganhar com a credibilidade dos seus agentes. Ademais, a direita trauliteira não merece que lhe dêem de borla cromos castiços à esquerda. A aristocracia de Jerónimo é água pura, sombra fresca, pensando nos maneirismos benzocas ou grunhificados da direita corrente.
De Louçã só direi que entendo que fez bem o que tinha a fazer e que me apraz ter visto que conseguiu evitar a grandiosidade do mártir quase até ao fim, até ao discurso terminal.

Cenas do próximo episódio

Alegre leva tautau do PS depois do PS ter levado tautau do país. Embora Soares seja fixe. Que é.

22.1.06

Isto não começa nada bem

O discurso da vitória foi fracalhote e pardo, não foi o milagre das rosas das ideias. Só o agradecimento final fugiu à platitude. O Carlos Indico quase que lhe apetecia ir para as estranjas...

Queridos dois terços de compatriotas que não elegeram Cavaco


Pensem nos aspectos positivos. Temos muitas maneiras de nos consolar e nem todas são solitárias.

Se eu alguma vez

Se eu alguma vez chegasse a conseguir dizer apenas as sílabas exactas que fundissem a ideia e a coisa numa aguda cintilação discreta - e fosse, assim e por causa disso, capaz de gerar sinais da Máxima Reflexão sobre a Vida - seriam coisas assim que eu poria.

Tempo de encomenda

Parece-me ser isto um factor favorável à acentuação, hoje, da tendência -1%: veja-se onde nubla e onde não. O brioche leveda ainda. Preparai as taças!

Sem cor e sem título

Rui Guerra

21.1.06

Deixa sangrar, caramba!



É assim que os amores para olvido devem ser tratados*: não esquecer envelopar a genitália, o ventre outrora patinável e a zona circundante da glote, por vezes tenra. Não vale a pena o paninho quente.
E agora, vou apanhar ar.

Nitsch ad, ab nichts!

*Rectificação, interrompendo o arejamento: este post é o resultado da minha latente natureza masculina, já que foi produzido sob a influência do chamado espírito play station (Because men, generally, have PlayStations, lembrou a Inês recentemente). Digo que são os "amores" que devem ser tratados dessa maneira, não os "rapazes"! Esses devem ser bem tratados sempre, ainda que não seja porque mais cedo ou mais tarde, se não se desviarem, regressarão aos tratos das nossas sorores, e se não for das nossas sorores será aos dos nossos amigos. Percebo, de acordo com recente lição sobre a natureza feminina, que poderia pensar-se que me referia aos "amados" e não aos "amores". Fica feita a legenda. E agora, vou mas é fazer uma sauna ou qualquer outra coisa delicada, que o brioche continua a levedar e o dia está azul.

Coisas de perfil

Acrescentei uma sílaba ao meu nome, após verificar a exuberante pré-existência de outras blogo-susanas. Ainda passo para Titi. Ou Gudrun. Não gosto, em sede geral, que me confundam com outras. Sem ofensa às susanas que por aí vi, que não desonram o nome.

Da efeméride que 'floréce' e do brioche que 'créce'

No dia 21 de Janeiro de 2006, a véspera, o NYTimes assinalava a morte do Lenine e o nascimento de Balenciaga e de Dior. A palavra efeméride floréce-se-me "au bout des lèvres". Palavra borboleta, tanto mais que aprendo: ephemèron, 'lírio branco, silvestre; animal que nasce e morre no mesmo dia'.
Era a véspera, dizia.
Na melhor técnica, é de véspera que se preparam os brioches.
Ou então, começa-se de manhã cedo e prossegue-se até à hora das vésperas, aí entre as 15h e as 18h. Uma hora mais, para finalizações pouco mais que cosméticas, e temos o brioche pronto.
Mas em qualquer caso, é no silêncio recatado, que se faz a si própria a pujante massa do brioche. Créce e créce e créce.
E vai-se lá e dá-se-lhe o abaixamento.
E ela vai, vai e sossegadinha créce e créce e créce...
Recordo que o brioche, cujo produto final é vagamente aparentado ao pão de leite, é a massa politicamente interessante do cardápio pasteleiro, com uma robustez e com uma substância que fazem do papo-seco um faz de conta* insípido.
Ao contrário do ai de jesus das massas lêvedas, a massa do brioche é posta a levedar, até multiplicar o volume, e sucessivamente abaixada pelo menos duas vezes. Nada de calorzinhos a acalentar a acção tu-cá-tu-lá das moléculas fermentadeiras e fermentativas.
O processo será idealmente todo cumprido ao frio e em sossego, mesmo na adega dizia, se bem me lembro, o grande Escoffier.
Silenciosamente, no recato, no fresco. Na véspera. Créce, créce, ó brioche!

19.1.06

Room service

Pós-post com uns diazitos de atraso (mas antes da referência feita pelo Xicuembo não tinha sentido ser caso deste esclarecimento): Este texto, com link embebido, foi bifado do Hotel Sossego. Assim, tipo souvenir...

Manual de instruções #11

Mesmo que não seja prático dizê-las, é conveniente pensar nas frases por inteiro. Particular atenção merecem as frases em que figura o instrumentório conceptual "bem"; o "bem em si" só se for bemol.

18.1.06

Da virtude no casamento

Vamos lá a ver se percebi bem a Educadora. Não era exactamente por esta e por outras que tais que foi botado o sapientíssimo aforismo de David Mourão-Ferreira: uma pessoa casada, só com outra pessoa casada?

Catrapás pás pás!

Luís: mas não é que é mesmo?!

Ca tem nada na ês bida más grande que amor



Pois não, não tem.

Coisas que em português imesclo não soem dizer-se com tanta limpidez. Um rodriguinho vivaz, oxiúro nos largos caudais do saber-que-se-sente, mina de fininho o sentir e faz do impulso, doença. Trôpega tradição. Mas não menos comovente.

O manuscrito é de Eugénio Tavares.

17.1.06

Retrato



Seria assim. Talvez denso mas não compacto. Cheio mas disperso, ampla malha. As cores seriam simples. Seria assim talvez. Estarias flagrante na ausência.

Sol LeWitt. Wall Drawing #65. Lines not short, not straight, crossing and touching, drawn at random using four colors, uniformly dispersed with maximum density, covering the entire surface of the wall. Pormenor.

It's a gal

Com virtude, sim, e ainda simpatia.

15.1.06

Ratinhos presidenciáveis

Nada como uma boa crise, como a das Oitenta Mil Escutas, para fazer dos candidatos presidenciais ratinhos de laboratório.
Cavaco Silva fechou desmesuradamente a boca e pôs a tocar o hit "não me pronuncio porque não sei do que se trata".
E nesse mesmo dia foi ouvido a prometer ao país, se fosse eleito, um sistema judicial digno e íntegro - a leste, noroeste ou sussudoeste da perturbação gerada pela eclosão da notícia, seja ela falsa ou verdadeira. Incapaz de submeter a (ainda que hipotética) crise a uma análise, a uma perspectiva de acção. Incapaz de levar os factos à teoria e vice-versa. Incapaz de oferecer um ponto de vista, uma orientação. Um ratinho inviável.

Excepção de grave urgência feminil. Sou fêmea e estou-me nas tintas para a pátria


Sendo hoje, domingo, dia de contemplação meditativa e não se tendo recebido a graça do arrebatamento indistinto (a Divina Safo que me perdoe e, se assim lhe aprouver, me inspire) haveria de ser aqui entoada loa à condição masculina no seu esplendoroso viço fenomenologicamente surpreeendida.
Mas não.
Hoje terá de ser diferente. Hoje o mulherio não vem aqui por ser douto e audaz (como já vieram a Anscombe, a Hipatia, a Hipparchia, a Teodora, et cetera), nem vem louvada a condição masculina por ser difícil e bela.
Hoje tenho de esclarecer, sob pena de continuar a ver-me de sono perturbado pela incomodidade de me manter silente, o que verdadeiramente acho que é "ser mulher".
Não percebo - ou talvez, discordo de - o que leva mentes atentas e reflexivas a procurar construir, subtraindo-o à largueza do horizonte, o mausoléu complexo, ataviado mesmo, do que é "ser mulher".
Eu digo-o em duas palavras e não podiam ser mais douradas: é "ser fêmea". Ponto.
Uma mulher é uma fêmea. É um indivíduo projectado para assim participar na nobre tarefa da reprodução.
O que é alguém encontrar-se "como mulher" fora da função de fêmea? Eu digo, no amplo espaço do ser, nada. Só o mausoléu da construção do género permite circunscrever na atmosfera o local desse lúgubre encontro.
Sou uma mulher, sou um indivíduo fêmea. Sinonímia.
E se não fosse fêmea, seria macho. De certo modo não sei existencialmente o que isso é. Da mesma maneira que não sei o que é a experiência de ser avó. Ou ser canhota. Ou ser cega. Ou pensar com palavras chinesas.
Tenho a experiência de existir e isto é o que partilho com os outros. Em círculos mais amplos ou menos amplos, enquanto bicho, enquanto humana, enquanto fêmea, enquanto europeia, peninsular, vagabunda.
É por isso que neste blogue a condição masculina receberá loas infinitas, por ser a forma apetecida da única razão pela qual se é fêmea, perdão, mulher.
É por isso também que neste blogue, que não se arrebata pela forma feminina, embora dela tenha orgulho, não se querem divas, não se querem beldades que não se possam degustar.
Exulta-se este domingo, em excepção, a unidade simples da fêmea, a forma e a função em viçosa sintonia. Ali em cima é a Vitória de Paionios. A ter que ter, a minha pátria são os meus seres.

12.1.06

Homens mecânicos e super-heróis


Já não se fazem como nos anos 30. E depois, passaram a chamar-se outras coisas. Robots. E sei lá que mais.

O caminho da democracia é para a frente

Hoje ouvi Jorge Sampaio e percebi mais uma vez quanto aprecio o contributo que ele deu para a maturidade cívica dos portugueses, desde logo pelo seu permanente muito digno respeito pelas pessoas e pelas instituições da democracia.
Mas hoje compreendi que não estou preparada para sentir saudades dele. Isto deste país, é para andar para a frente, não para trás em matéria de aprofundamento da democracia.

O Estado sou eu - também

A frequência com que a palavra "Estado" aparece nos esforços de legitimação de políticas de direita - vulgo, no discurso liberal - é elevadíssima e torna por vezes a leitura pasmacenta. Sugiro, para quebrar a monotonia, que se diga simplesmente, algumas vezes, "o mal".
Ou melhor ainda que, pelo menos de vez em quando, se dê sinal de estar a verbalizar significativamente e se troque a coisa por miúdos. É que "Estado" está longe de ter um só e um inequívoco sentido e não é, em caso algum, "eles". É sempre um "nós". Somos todos accionistas.

O enfado enorme

Por superficialidade e distracção - que mais?! - não me tinha apercebido que os tempos iam de júbilos e, cidadã desleixada e tendencialmente relapsa, estava para aqui apudinada a deixar crescer os pêlos nas pernas, a ferrugem nas juntas e o enfado pela vida na pólis.
Isso já me passou, contudo.
Depois de ver o número de sapateado de JPP a tentar disfarçar o bocejo que é Cavaco Silva com a pretensa hipotonia do povo, logo ali repreendido, recuperei da letargia.
Pela primeira vez associei algo de positivo à hipotética vitória de Cavaco: como é que JPP se colocaria nesse quadro? Especializar-se-ia a dourar-lhe a aridez das ideias ou enveredaria por missão apostólica de educar a populaça impensante?! Coelho e cartola ou malabarismo?
Seria triste enfado para JPP, vendo bem, em qualquer das hipóteses.
Também por este motivo, esperemos que Cavaco Silva continue a perder diariamente o seu 1% higiénico nas intenções de voto, que é um modo tão bom como qualquer outro de (continuar a) perder as eleições. Basta chegar à segunda volta.

10.1.06

Um encontro quase perfeito. Watteau e a Insana


Alô..! Vês-me? Aqui, estou aqui. Isso,

assim

já me vias.

1% a day...

... keeps Cavaco away!

Ao fim de um dia de campanha, menos 1% nas intenções de voto.
Figas insanas para que a tendência se mantenha. Abrenúncio.

Não gostei. Gostei

Não gostei:

- de Manuel Alegre, de comitiva e campanha eleitoral com todos, a passear homenagens no cemitério;

- da explicação (?) que Soares deu para deixar de responder aos jornalistas (embora a título individual tenha toda a minha solidariedade, aquilo deve ser um pitéu).


Gostei:

- de ver o senhor que tinha ido ao jantar do Cavaco Silva, com a mulher e a sogra, dizer que estavam lá todos os militantes do PSD;

- de ser entrevistada para uma sondagem. Por alguns momentos, decidi os resultados eleitorais.


E depois? Morreram as vacas e acabaram-se os bois. Sonhar é bom.

9.1.06

Shaw

Demonstração de que sempre há algumas vantagens numa economia de trocas directas - e com a licença de JG, que levou, na troca, a carta de Schiele abaixo postada - apraz-me muito colocar aqui o retrato deste cavalheiro.
É Bernard Shaw e não sei com certezas se a disse ou não, e se o fez onde e como, esta frase que nunca se evapora deste ser: selvagem é o que confunde as regras da sua tribo com as leis da natureza.
O que eu não sabia era que Bernard Shaw tinha esta cara, esta expressão diabinha de mestre de cerimónias de um corpo muito muito diplomático.

Da arte epistolar


Carta de Egon Schiele ao irmão.

8.1.06

Entrada de leão ...

O ímpeto de Cavaco Silva neste primeiro dia de campanha é sinal de que ele afinal andou estes anos todos consumido por contas que teria para fazer com o país? País que lhe andou todo o tempo debaixo de olho, enquanto ele digeria a derrota das presidenciais e esperava, amparado pela sua boa Maria em longas horas de azedume, o momento para avançar?
É que foi isso mesmo o que ele me pareceu: alguém que tem contas a fazer com o país e que se manteve à coca e agora salta para mostrar como é que elas são. Nada de supererogatório, portanto, bem pelo contrário. Isto é "muito político" - já não me espanta - muito mais político do que os políticos criticados por o serem por este político que se chegou há semanas de mansinho afirmando que não era político. Confuso? Não, confusa e pouco transparente foi logo essa retórica da negação. Esse expediente de insinuação a que se segue agora, pelos vistos, o atordoamento pelo espalhafato.

Post postal domingueiro


Reconsiderando; há pontos de vista que merecem atenção, apesar de frequentemente negligenciados.

Postal domingueiro


Kouros. Um bom hábito.

Que livro eu levaria para uma ilha deserta?

Obviamente o dicionário.

Será que ...

... um destes dias vai passar a dizer-se: "ó bruno, 'mô, 'tive a ler o título d' um livro mas não te vou dizer qual era pa não t' influenciar"?

Anamnese @anibalística das presidenciais

A ver se passo pelo Solvstäg para apanhar as gotas contra os ACv'S eleitorais.

Campanha eleitoral is in the air

As pessoas estão a encarar esta campanha como uma espécie de reality show. Cavaco faz aqui o papel de José Castelo Branco, sem as afectações.

7.1.06

Intimismo insanoterapêutico com ídolo, prece e tudo


Ontem foi um dia apicado nesta lida. Houve passos de cidadania militante, houve telefonemas, houve, com par e tudo, bens de primeira necessidade, houve o problema dos homens bonitos e até houve o sobrevôo de uma bruxa malvada sobre águas amenas de uma gruta mansinha. Visitas de renome quiseram também trazer-me inusitada animação no opinário.
Extraordinária agitação tão simultaneamente amável e repreensiva cá para certas procrastinações habituées da minha rica caminha, esse território de verdades.
Também eu havia de ir ali e voltar já mas a monotonia (leia-se: muuu nuuu tuuu niii a) é-me anaeróbia, além de que - principalmente - verifico que isto aqui é mais económico que as terapias de estilo. À distância, acendo velas, persigno-me e tento voltar a acreditar em tudo, embora o Padrinho me alerte que talvez não seja assim. Contudo, ele tem a grande qualidade de, ocasionalmente, se enganar um pouco, além de que sabe duvidar como gente grande.
Albrecht, tu também ficas. És agora o meu manipanso.
Às folhas tantas
do livro matemático
um Quociente apaixonou-se
um dia
doidamente
por uma Incógnita.
Olhou-a com seu olhar inumerável
e viu-a do ápice à base
uma figura ímpar;
olhos rombóides, boca trapezóide,
corpo retangular, seios esferóides.
Fez de sua uma vida
paralela à dela
até que se encontraram no infinito.
"Quem és tu?", indagou ele
em ânsia radical.
"Sou a soma do quadrado dos catetos.
Mas pode me chamar de Hipotenusa.
"E de falarem descobriram que eram
(o que em aritmética corresponde
a almas irmãs)
primos entre si.
E assim se amaram
ao quadrado da velocidade da luz
numa sexta potenciação
traçando
ao sabor do momento
e da paixão
retas, curvas, círculos e linhas sinoidais
nos jardins da quarta dimensão.
Escandalizaram os ortodoxos das fórmulas euclidiana
e os exegetas do Universo Finito.
Romperam convenções newtonianas e pitagóricas.
E enfim resolveram se casar
constituir um lar, mais que um lar,
um perpendicular.
Convidaram para padrinhos
o Poliedro e a Bissetriz.
E fizeram planos, equações e diagramas para o futuro
sonhando com uma felicidade integral e diferencial.
E se casaram e tiveram uma secante e três cones
muito engraçadinhos.
E foram felizes
até aquele dia
em que tudo vira afinal
monotonia.
Foi então que surgiu O Máximo Divisor Comum
freqüentador de círculos concêntricos,
viciosos.
Ofereceu-lhe, a ela,
uma grandeza absoluta
e reduziu-a a um denominador comum.
Ele, Quociente, percebeu
que com ela não formava mais um todo,
uma unidade.
Era o triângulo,
tanto chamado amoroso.
Desse problema ela era uma fração, ~
a mais ordinária.
Mas foi então que Einstein descobriu a Relatividade
e tudo que era espúrio passou a ser
moralidade
como aliás em qualquer
sociedade.
E bem-hajam.

6.1.06

Colhendo doce educação

Quero lá saber que o chão esteja frio, ou até mesmo lascado. É caso para dizer, chão frio, coração quente.

5.1.06

Zelig, eu e Cavaco Silva

Deixei-me assistir a uma entrevista de semi-bisbilhotices a Cavaco Silva que procuraria apresentá-lo no seu habitat. A entrevista, razoavelmente atrapalhada na parte da produção, foi passeando Cavaco Silva pela entrada da Católica, no gabinete na Católica e pela casa de férias, cercanias incluídas. O homem mostrou-se de fato e depois vestido informalmente, e nestas vestes pareceu-me mirrado e indefeso.
Durante todo o tempo tentei não o olhar desfavoravelmente, tentei vê-lo de uma maneira que fizesse nascer em mim adesão - pelo gosto, talvez perverso, talvez ocioso, de sentir vibrar em mim qualquer coisa nova e estimulante tal como "sentir-me como" uma apoiante de Cavaco. A velha questão "o que é que se vê nele?" é uma coisa que requer a presença de um sujeito vidente, em que eu desejava alojar-me. Faltou-me o pé, ou o jeito, ou a concentração. Desconsegui, o que ficou claro ao fim dos primeiros dez minutos, e declarei-me em falha zeliguiana. Uns minutos mais de entrevista e percebi que até nem teria sido tão mal sucedida. Cavaco Silva não tem mesmo dotes de simpatia; tem uma deficiente capacidade de gerar empatia, nada nele é fácil ou comunicativo ou fluente.
O tom que utiliza para comunicar, com excepção do que foi a vibrante, quase eufórica, referência ao número dos desempregados, não lhe saía nem solto nem natural, mas sempre com o véu de uma cerimónia: esforçado, mastigado, rangente, distanciado.
Isto pode beneficiá-lo quando aborda assuntos que passam bem debaixo do chapéu de "matérias complicadas", fazendo com que pareça profundo e exacto, mas por outro lado resulta muito desfavoravelmente quando o assunto é mais coloquial (tais como que notas dará aos estudantes ou o que leu recentemente) ou de natureza mais genérica (tais como a IGV), ou se refere à classe de questões da vida-em-geral (tais como o papel da mulher na sua vida política) que não são por isso necessariamente questões sem que ou quê. Nestes casos, em todos os casos em que a fluência do verbo e da expressão o beneficiariam, o tom sempre esforçado e circunstancioso tornou irrefragavelmente rasante o conteúdo das suas palavras.
Ora, isto fez-me reparar que se Jerónimo de Sousa não andasse por aí a derramar comunicatividade, frases pensantes e ponderadas que lhe saem em tom calorosamente calmo, seria bem melhor para Cavaco Silva. Sempre haveria ensejo de dizer que se batia no pobrezinho - que ele, Cavaco Silva, por acaso não é. Mas depois de Jerónimo de Sousa a menção da aridez e do desinteresse da paisagem humana de Cavaco Silva deixou de poder levar o labéu de pedante elitismo urbano. Fica mostrado ao país inteiro que aquilo vai da natureza individual.
Perante isto, estou convencida de que a minha falha zeliguiana foi mínima: inclino-me a achar que não há quase nada - para não dizer, nada - em que basear uma empática adesão a Cavaco Silva, excluindo, concerteza, o caso das pessoas que lhe são muito próximas e que naturalmente gostarão dele.
Ele corresponde apaticamente ao desejo de adesão, tantaliza quem queira tomar-se de simpatias por ele, não há sumo, não há cor, não há forma, nem há conteúdo. Isto passa por honestidade mas, embora não tenha motivos para duvidar da sua honestidade, não se trata de semelhante coisa. É vazio, é aridez, é vida de menos.
No fim, senti-me fortemente constrangida ao olhar o futuro. Se este homem ganhar as eleições, para além do que já tenho por magnificamente sustentado por Soares, no que respeita ao perigo que isso representaria para a paz e harmonia no plano institucional e no plano social, andarei cinco ou dez anos em desconforto e aflições, consoante encare o exercício das suas funções interna ou internacionalmente.
Mas se este homem perder as eleições, como acredito que pode vir a acontecer, será um caso pungente de definhamento, de desolada paisagem humana e eu sentirei pena dele.

Atalanta ainda


No século XIV, uma Cristina com assento no mulherio de estimação deste blogue andou também à volta dos pomos. Apesar de dada às letras, consta que é dela esta imagem. Quilos de têxteis amortecem a estória, a impureza vinha abrindo caminho.

4.1.06

Atalanta

Outros viram-na assim. Não interessa quando a viram assim. Interessa que viram-na assim.
Era, nas palavras da época, um tanto arrapazada para rapariga mas um outro tanto demasiado feminil para rapaz.
A pele era branca, isso está assente. Tingia-se ao de leve de carmim quando corria veloz e grácil.
Afrodite é que não achava nada bem que Atalanta não prestasse tributo às graças do amor. Em vez de honrar a seiva dos que a desejavam, Atalanta abria-lhes o caminho para a morte. De se manter sem parceiro dependia, por causa da maldição, a sua própria vida.
E assim, a expressão "ficar eliminado" em prova atlética ia adquirindo sentidos literalmente vitais para os seus candidatos/adversários porque Atalanta só aceitaria quem a vencesse.
Dessas maçãs golden que agora temos nos supermercados havia a rodos no quintal de Afrodite. Três foram colhidas. Urdia-se a derrota de Atalanta.

O que não gosto nele*

É par. Prefiro-os ímpares.

* No ano. Já disse que não sou de desconsiderar a difícil condição masculina.

Causas

E porque não, antes, contra a monogamia?

Ele e ela

Jordaens, Hippomenes et Atalanta. 1630

Apesar do ar roliço e nada tisnado - isenta, pois, dos sinais de elevado metabolismo e longa exposição solar em treinos ao ar livre - ela era a maior atleta. No fim será transformada em leão. Mas não em leoa. Aparentemente para que não possa copular com ele. Por agora o que interessa é que para vê-los competir vieram amores, querubins e anjinhos papudos variados e até os primos de pintores russos e espanhóis mais tardios. As maçãs que ele leva nas mãos não são alimento. São batota. Ela curva-se para apanhar uma outra maçã que ele já fez rolar pelo chão, mas não sabe ainda que coisa é aquela, não compreende o que está a passar-se. É assim que ele (a) ganhará.
Neste blogue a fruta desempenha um papel importante.

Manual de instruções #10

Thou shall not kiss a frog.

3.1.06

2.

an·ti·cli·max (nt-klmks, nt-)
n.
1. A decline viewed in disappointing contrast with a previous rise: the anticlimax of a brilliant career.
2. Something trivial or commonplace that concludes a series of significant events: After a week of dramatic negotiations, all that followed was anticlimax.
3. A sudden descent in speaking or writing from the impressive or significant to the ludicrous or inconsequential, or an instance of it: "Waggish non-Yale men never seem weary of calling 'for God, for Country and for Yale' the outstanding single anticlimax in the English language" Time.

1.1.06

E foram-se as festas...

Off he eventually went

O bombyx mori foi (??)* o mais inteligente, inspirado, inspirador, verbo-amancebado, criativo, culto, bem-humorado, multifacetado, elegante e galante blogue que conheci na blogosfera.
Oxalá esteja apenas temporariamente retirado para práticas de culto impostas por alguma benção bíblica e regresse na Primavera.
Mas o momento é de encómio: os deuses amam quem tem de fazer escolhas assim.
*Plano para sapateado em SOS, na hipótese de isto ser apenas um caso de metamorfose tipo gato-matreiro-a-fingir-que-está-morto: leva, de castigo, o prémio do melhor do ano transacto e é bom que os deuses o amem nesse caso - mas calculo que sim porque, pela minha parte, acabaria por desculpar a malvadez prestidigitadora.
....
aDDenda:
CERCA DE 15 HORAS MAIS TARDE:
*Post post 1. Bom, se calhar não.
*Post post 2. Bem, afinal...
*Post post 3. Talvez sempre...
*Post post 4. Ah, pois, confirma-se.
*Post post 5. Porém não parece.
*Post post ... ... ...
*Post post final - a postadeira foi achada em estado de grande confusão, desgredenhada e com riscos de eye liner na testa, à porta do Museu de História Natural oferecendo a virtude em troca de uns milímetros cúbicos de soro de quiescência. Consta que ficou internada. Primeira baixa do ano.