22.7.06

Tempo do Mal

Beth Moon, Seen But Not Heard: The Great Clock of Gormenghast
Um rapaz sem flor de acne disse por aí que era sexta (ou sábado), havia anos talvez, e ela não apareceu. Insana. Ou, se não, trocados estariam os relógios...

19.7.06

Post moderno na efeméride

(...)

Amo, insensatamente, os ácidos, os gumes
E os ângulos agudos.

(...)

Em honra dos (glaciais) humores cruéis, frenéticos e exigentes, no aniversário da morte de Cesário Verde.

17.7.06

Ciências do natural #3. O discreto e o contínuo no verbo "estar"

Há dias que não passaram, outros que se degradaram no uso da recordação e se tornaram miragens. Há muitas coisas para fazer sempre, há sempre muitas coisas, os dias são vítima disso. Em alguns dias bem-aventurados, pode-se soltar o tempo de mergulhar, os olhos presos pelos olhos. Quem diz os olhos, diz uma área circunscrita de pele, uma sombra fresca, uma guinada de som, uma ideia cheia e sumarenta. Fazem-se instantes que são infinitos contínuos, nós mesmos enrolados em clausura firme, num tempo que parece para sempre, para sempre, fincados num nó apertado da memória. É daí que depois espreitamos os dias discretos que passam, de onde tantas vezes estamos ausentes.

14.7.06

Check list

Diana Blok, Boy with Birdcage. 2003 [click!]

Basta de candeeiros e beatas, de passadeiras e escadas, de deglutições em magote, de gravatas relativamente recentes e de camisas mal passadas por enfermeiras ucranianas.
Basta de ATM's e de blisters (mas alguém tem de fazer um poema rapidamente com a palavra blister!) e de brushings e de unhas manicuradas que só duram dois dias. De aftershaves a conta também já chega.
Basta de ideias inúteis e de descobridores de fósforos.
Já chega de sabões, detergentes, ratos sem fios e a tralha a acumular-se e de grupos de meninas em três na cervejaria do Chiado, a gordinha a chaperonar a bonitinha, a viborazinha em treinos. Prefiro também não ver pijamas intelectuais pelos locais de estilo. Alguém que me explique também o que se passa em algumas livrarias, onde todas as almas penadas circulam num ritmo amoroso fúnebre.
Ainda não estou a fazer oitenta anos, mas mesmo assim digo que já basta. Não tarda, zarpo para as ilhas, com as vacinas em dia.

10.7.06

Práticas eugénicas

Considerando que as universidades são caldo de endogamias, fica-se a aguardar com grande expectativa o resultado do cruzamento da competência académica de umas com a competência atlética de outros. É este o meu comentário - muito lateral, é certo - ao dossiê do NYTimes sobre assimetrias de género nas universidades americanas. Os rapazes das famílias más andam tramados; por cá também, mas ainda ninguém lhes deitou a mão.

9.7.06

O que se faz #5. Costura-se a voz

Esclarecendo que o poema
é um duelo agudíssimo
quero eu dizer um dedo
agudíssimo claro
apontado ao coração do homem

falo
com uma agulha de sangue
a coser-me todo o corpo
à garganta
e a esta terra imóvel
onde já a minha sombra
é um traço de alarme

("Poema I" da Luiza Neto Jorge)

Contraponto

Também gosto assim.

Foi bonita a festa, pá


Em geral pois, como se diz por aí, não há regra sem excepção(ões).

Even educated flees do it

As fêmeas antílopes cortejam-se entre si e acariciam despudoradamente a genitália das suas preferidas, esteja ou não algum macho túrgido por perto. Os machos golfinhos juntam-se aos pares, podem até admitir fêmeas passageiras, e vivem nessa dupla longos anos de dedicação e meiguices. Os bonobos baralham as regras e acasalam com tudo o que vier à rede: fêmeas, outros machos, sem qualquer atenção à posição hierárquica na comunidade. Os babuínos, ferozes guerreiros, amam-se entre si, como gregos virtuosos. Há carneiros de porte castrense que são bichas impenitentes. E os polvos, até os polvos, querem lá saber da transmissão dos genes e não perdem oportunidade de um one-night-stand nas noites eternas dos mares profundos, com um outro bacano qualquer, ainda que de outra espécie, ainda que quatro vezes maior, que esteja a fim da interacção mais misteriosa da natureza. Nem os patos escapam à barafunda, incluindo em respeitáveis famílias um macho suplente para todo o serviço, inclusivamente o baby-sitting de patinhos satisfeitos e bem-comportados. Isto tudo aprendi eu ontem depois de me ter baralhado entre as folhas repolhosas de um Expresso deslavado, que em boa hora troquei por um programa da dois.

6.7.06

Ando batida aos pontos por um bronco

De subtilezas é o que reza a história. Não faz mal que tudo não passe de uma lengalenga, cantilena, ladaínha. A gente entretém-se e acontece entre as dobras, penugem ao vento. Mas um bronco não. O bronco é nesse sentido um tipo glabro, coriáceo. A espinha, creio eu, não se lhe arrepia, pois de tão dúctil se fez víscera suplementar, que malignamente me ocorre servir apenas de trânsito a portentoso bolo fecal. Não é a falta de letras, nem de cromossomas, nem a falta de ocasiões e de oportunidades, o que está na origem do bronco. Não sei como se diz "eu expando-me leve e flexível" nas narrativas do bronco. Até nisto o bronco exerce a sua insidiosa opressão. Nisso, sabotando-me insuperavelmente a possibilidade de enunciação, e também neste encalhamento opressivo que não me deixa sentir o cheiro da aragem, apesar de o dia estar azul e radioso. O bronco sabe que é bronco aos meus olhos e gosta de o ser. Assim ainda lhe sabe melhor levar-me ao tapete. O bronco também converge comigo quanto ao facto de estarmos de lado opostos sobre o que vale a pena. Está criada, pois, a situação laboratorial e o resultado não é muito animador: o bronco vence-me aos pontos, até agora; se ele acabar por vencer, hei-de tornar-me totalmente marginal, periférica, subinstanciada. O chimpanzé da imagem está comigo, é dos meus, acalenta-me.

3.7.06

It's Monday Holy Shit

[ Andy Warhol, The Kick. 1986 click!]

É desta. Começo a gostar do futebol


Sim, isso, as imagens das caras e dos gestos, uma torrente de expressão dos corpos e das faces, dos braços, das mãos. Além disso, as pessoas ficam bonitas. A bola, as regras do jogo e as bandeiras ainda não me cativaram, mas isso começa a parecer-me irrelevante. Não deve haver coreógrafo, por mais genial e bem equipado, que consiga replicar tanta energia e emoção.

2.7.06

Ciências do natural #2

Tracey Emin.

O exercício do poder sobre alguém começa sempre assim. Confia em mim, que quer dizer, confia-te a mim. Eu nunca consigo confiar em quem pede a minha confiança. E se tento, perco-a de vista. E se confio, é porque já confiava. Confiar faz parte dos actos livres e gratuitos, governados por uma vontade que não se deixa modelar pelas ponderações do que é mais adequado fazer. No exercício do poder sobre os outros é preciso ter isso em conta. Na submissão ao poder dos outros sobre nós é escusado omitir a reserva nas conversas com os botões. É uma terrível perda de tempo o tempo de vida que se leva a perceber que se faz sempre o que se quer. Pior ainda é o custo da sabotagem da nossa vontade. Lá para a frente podem receitar-nos uns ansiolíticos para vivermos mais confortáveis com isso.

Pastoreando de táxi

Oggy Ogburn, Ebony Horseman.

Ontem voltou-me a palavra "macambúzio". Estranhando-a, fui procurar a etimologia. Embora apresentada com incerteza, encontrei a tese de Nei Lopes, segundo a qual a palavra terá origem numa fala banta de Moçambique, em que makambuzi significa 'pastor de cabras', palavra que, por sua vez, deriva de mukumbuso, 'memória, lembrança, recordação' (em nianja, m'busa 'pastor', kukumbutsa 'recordar'; em suaíle kukumbuka 'recordar'). E uma frase:

para o cafre da Zambézia, o símbolo da tristeza é o pastor no isolamento da campina distante, vigiando o rebanho

O senhor Sousa pastoreou-me no seu táxi ontem à noite. Eu fui a ovelha desta vez. Tinha umas réstias de Rachmaninov ainda comigo.

1.7.06

Apreensão metafutebolística

Não sigo o futebol, mas sigo com delícia o entusiasmo pelo futebol. Quando acabar o campeonato vai toda a gente voltar ao macambuzismo? Vai, não vai? Não estou a falar da festa lá na Alemanha. Estou a falar daqui, da quantidade de sorrisos e caras desfranzidas que ando a ver nas últimas semanas.

Paixão pelo Mal


Parabéns, Luís. Aliás, obrigada.
Ou melhor: muito obrigada por nos deixares partilhar o que vês.