Diz que a recessão está a aumentar a venda de alimentos mais saudáveis, beneficiando a ingestão de antioxidantes e baixando o consumo de açúcares e gorduras, da mesma maneira que aumenta a venda de batons, esses convenientes elevadores do ego, em detrimento das malas, estes kits da sobrevivência urbana a que o mulherio vive agarrado à custa das espaldas. Talvez a recessão também fomente a criatividade e refresque os costumes, como já tem acontecido. Talvez uma nova nova oportunidade emerja da crescente tensão pré-eleitoral e nos classifique em massa para um upgrade civilizacional, ainda que modesto. Talvez a trajectória do pessimismo seja uma rampa afinal.
26.10.08
13.10.08
Ahh, l'amour...
O Lutz e a Abrunho tiveram a amabilidade de fazer recentemente referência a um post meu sobre o casamento, escrito já há algum tempo, em que me empenhei um pouco mais.
Na verdade, tomou-me imenso tempo escrever esse post, foi um fim-de-semana quase inteiro que ficou ali. A impossibilidade de duas pessoas do mesmo sexo obterem acesso à celebração do casamento civil é uma situação que me provoca indignação por ver aí uma discriminação injustificada. Confesso, no entanto, que no meu íntimo a este empenho vem atrelada uma certa reserva, ou pelo menos, uma certa circunspecção.
Explico-me: o grande argumento, e é um argumento usado de boa fé, para defender a eliminação do monopólio do acesso ao casamento por pares portadores de sexos de classes diferentes (sim, refiro-me à genitália, que é onde reside o elemento determinante do critério de acesso), é a sustentação de que isso restringe injustificadamente a esses pares o acesso a um pacote de efeitos jurídicos, alguns dos quais não acessíveis por outras vias.
Agora começa a tal circunspecção. É que o motivo pelo qual se justifica que os pares (homossexuais ou outros) possam ter acesso a esses efeitos legais do casamento é a conveniência que esse gadget jurídico pode trazer às pessoas, reforçando a convergência prática dos seus planos de vida, aumentando, digamos assim, a viabilidade e o cimento dessa estrutura, a união. Mas então, isto significa que estamos a dizer que os efeitos legais - o mundo das leis, essa dimensão opressiva e artificial - são bons para a felicidade das pessoas?!
A resposta é sim, os efeitos legais, aqui e acoli, só podem mesmo ser suportados se tiverem esse efeito em vista...!
Reviro-me e incomodo-me com isto, lá no meu íntimo, habituada a pensar que só o amor redime, que existe o lado de dentro e o lado de fora, a cama e a cidade, o lençol e a pátria. Gostava de dizer, quero lá saber da cidade! L'amour, isso sim, isso é que é... Não podemos dizer isso, todavia. Calemo-nos, portanto.
Mas, aproveitando o momento revivalista vivido neste blogue, outrossim exangue, e ciente de que há um traço de enjoativo narcisismo nesse gesto, pelo qual me penalizo, recordo aqui, como quem lambe a pata ferida, um dos textos que mais felicidade a escrever me trouxe, esta pequena história...
11.10.08
12.9.08
A grande entrevista e as três pequenas pátrias
Terá a pátria futeboleira reparado que a entrevista de ontem à Maria José Morgado foi realmente uma Grande Entrevista?
Será que a pátria provinciana reparou quem dava a entrevista que a Maria José Morgado dava?
Será que a pátria não-provinciana reparou no que a Maria José Morgado deu à pátria na entrevista?
Eu ensaio respostas. Respectivamente:
Será que a pátria provinciana reparou quem dava a entrevista que a Maria José Morgado dava?
Será que a pátria não-provinciana reparou no que a Maria José Morgado deu à pátria na entrevista?
Eu ensaio respostas. Respectivamente:
Duvido que a pátria futeboleira tenha reparado que a entrevista de ontem à Maria José Morgado foi realmente uma Grande Entrevista.
A entrevista foi futebolística a menos, de várias maneiras. Não se vislumbraram equipas rivais e houve mesmo blasfémias ao desporto-rei (e viva a república!).
A recusa, desde logo lexical, de adoptar uma posição em contendas malformadas deve ser caso para que a entrevista seja colocada definitivamente fora de campo... Cartão vermelho a quem se tresmalha!
A pátria provinciana, por seu lado, não deve ter dado caracol por quem dava a entrevista que a Maria José Morgado deu.
Houve palavras esdrúxulas a menos, frases simples a camuflar ideias complexas (em vez do contrário habitual) e a ausência dos sinais exteriores de respeitabilidade (entenda-se, de poder social, cuja fórmula mais corrente é aquele trejeito de má digestão de quem se toma por respeitável porque pode). Além disso, realmente, ela é quê?... Procuradora-Geral Adjunta? ah pois, "Adjunta..."
A pátria não-provinciana sabe que a Maria José Morgado está cada vez mais parecida com a Paula Rego, que por sua vez tem sucesso lá fora. E a coisa fica mais ou menos por aí.
O que eu espero é que ontem alguém que se sente impotente perante o seu município, a sua máquina administrativa, o seu governo, o seu assaltante, o seu bruto particular, alguém que sente a fragilidade da existência, alguém que sabe junto aos botões o que está certo e o que está errado, mas que sabe também que não tem a mínima chance de se sair bem se se dispuser a enfrentar as formas de prepotência, marginais ou instituídas, que habitualmente nos esmagam, o que eu realmente espero é que alguém assim tenha assistido, como eu, com espanto silencioso e reverente, à grande entrevista da Maria José Morgado.
7.9.08
Terapia da fala #2 ou porque hoje é domingo
Terapia da fala,
Terapio do falo.
Terá pio o falo,
Terá ai pio o falo?!
Terapia da fala!
Ter aí! (oh yes, oh my Go-o-o-o-d...!) pia a fala...
Terapio do falo?!
Terapapilo do falo....!
Teraipilo da fada, teraipila do fado...
Terapia da fala, terapio do falo.
E foram felizes para sempre.
Terapio do falo.
Terá pio o falo,
Terá ai pio o falo?!
Terapia da fala!
Ter aí! (oh yes, oh my Go-o-o-o-d...!) pia a fala...
Terapio do falo?!
Terapapilo do falo....!
Teraipilo da fada, teraipila do fado...
Terapia da fala, terapio do falo.
E foram felizes para sempre.
6.9.08
I'll go to your room ..., but you have to seduce me

Javier Bardem está a tornar-se um caso sério e está tudo à mostra numa entrevista que dá ao NYTimes.
Foi bonito vê-lo no limiar do pudor, ou talvez da auto-defesa, no mínimo esgar que lhe escapa quando se refere à sua relação com o psicopata que interpreta no filme No Country for Oldmen. Eu achei que o compreendia ao milímetro, a esse psicopata, e se isso acontece é porque Javier Bardem o compreendeu ainda melhor. Mas compreendo também que explicar tudo isso com todas as letras seria uma insensatez.
Também achei interessante a maneira como descobriu que queria ser actor (fardado de caqui, em passeio pelo jardim zoológico, com o pai, dá-se conta de que estava a encarnar uma personagem e que isso era tudo o que lhe sabia melhor) ou como passa pelas vantagens de ver o All that Jazz aos seis anos.
Um destes dias há-de chegar cá o último Woody Allen -Vicky Cristina Barcelona, também aqui - e antecipo que o alvoroço vai ser grande. Parece que é a primeira vez que Woody Allen se aventura com uma personagem masculina que não vive angustiada com a sua própria virilidade e não se coíbe de explorar essa linha de sensualidade esplêndida e fluída com a ajuda de muito belos actores (e actrizes), plantados com um grão de loucura em Espanha.
Antes que os rapazes do povoado se passem com as curvas, contra-curvas e viravoltas do filme, e as meninas da aldeia reforcem os sortilégios de poedeiras eternamente ameaçadas, e que se assista mais uma vez à repetição estafada da ideologia do gabiru saltitão como condenação genética de alguns, ou maldição evolutiva de todos-eles; antes que pareça que se quer o que afinal ninguém quer, fica aqui o que o sexy one, himself, tem para dizer: que quando viu o guião só viu a parte dramática - as dificuldades de um homem que é desejado por três mulheres - e não a parte cómica. É por isso que Javier Bardem é grande e um grande actor.
(tudo bem, os homens choram, já se sabia, e até pode ser sempre bom recordar; mas onde fica o quarto, afinal? )
4.9.08
Upgrades
O líder em exercício do PPO (Principal Partido da Oposição) propõe uma "boa estratégia de comunicação".
É um upgrade notável na habilidade política até agora demonstrada pelos não-apoiantes de Ferreira Leite. Repisar a crítica ao Silêncio, ou procurar eclipsá-lo por ilusionismos de pendor sazonal é coisa para políticos bricoleurs.
Aqui assiste-se simplesmente ao exercício público, retoricamente poderoso, do dom da Visão (como em visionário...), que é um dom essencial dos políticos a sério. Que é apresentado em registo de quem não vem senão por bem, na confiável e neutra ambiência da dita universidade de Verão, e acaba apontado, na maior compostura, ao patamar mais desconfortável da actual gestão partidária. Obrigando, consequentemente, a comparar a angústia do nada, ícone de Ferreira Leite, com o morno raio de sol da esperança plantado nos nossos corações por um Passos Coelho cívico e educado.
Fino e demolidor este upgrade realizado no discurso partidário pelo um-dia-no-futuro (julgo que ainda terá de estagiar pelo menos uma legislatura) primeiro-ministro.
Com algum sentido de oportunidade, mas, no essencial, só para disfarçar - ou se não é, poderia sê-lo -, propõe também um Estado, sei lá, estás a ver pá, diferente.
Também é um upgrade relativamente às funções do Estado tais como apresentadas por Ferreira Leite. Excluindo os pontos em que se aproximou do PG (Partido no Governo), o único dossiê relativo a funções do Estado, conceda-se, em que a actual líder formal demonstrou possuir conhecimento de tomo e posição definida foi, se bem me lembro, a morigeração dos costumes.
Digo isto tudo com um certo desgosto porque, quanto ao mais, até gostaria de ter aí uma primeira-qualquer-coisa que aparecesse de vez em quando com um neto ao colo, fralda de bolsar pelo ombro. Mas esse upgrade não parece ser para já.
31.8.08
Terapia da fala
Não há muitas palavras mais feias na língua portuguesa do que a palavra palavra.
Debruçar-me agora sobre isso entristecer-me-ia para lá do desgosto da contemplação do feio, da gelada hermenêutica dos hiatos, das redundânciazinhas da pequena cidade, ou mesmo das redondezas do conforto que não chega, ano após ano, pela deglutição confiante de hidratos de carbono.
Não havendo tempo de vida para o que não é bom, deixo cair todo o decoro perante as propriedades terapêuticas da fala. Mas não da minha.
Toda a palavra dita é licenciosa, seja o corpo o certo.
25.5.08
17.5.08
22.1.08
12.1.08
A (não) censura do cabaz eleitoral
A moção de censura do BE ao Governo pela mudança de posição na questão do referendo ao tratado europeu é o acontecimento mais (desengraçadamente) engraçado das últimas semanas políticas marcadas por mudanças de posição do Governo.
Pondo de parte a questão das pensões (que pode ficar à conta de uma correcção atempada de uma medida prevista) e a questão da localização do aeroporto (que, no fundo, corresponde a uma mudança de pontos de vista nacionais sobre o assunto, tão estável que parecia estar a opção Ota), a questão da mudança de posição quanto ao referendo põe em evidência uma deficiência das nossas práticas eleitorais, que ao BE, paradoxalmente, muito atinge: a insuficiência do debate ideológico nos programas dos partidos, por contraposição ao peso das promessas eleitorais de medidas concretas.
Consta que o velho Bismarck dizia que todos os tratados internacionais deveriam conter nas entrelinhas a cláusula "rebus sic standibus". Isto é, que o concerto que estabeleciam valeria sempre e apenas no caso de as circunstâncias fundamentais se manterem inalteradas.
A língua portuguesa tem uma versão mais rolada da mesma ideia, na forma de uma máxima de sensatez dirigida aos indivíduos, segundo a qual "nunca digas 'desta água não beberei' ". Pois já se sabe, lá virá um dia em que poderemos encontrar um contexto de decisão de tal modo inimaginável no presente que nos convidará a escolher aquilo que pensávamos nunca vir a preferir.
O sentido relevante da máxima não é a sugestão de que somos intrinsecamente pusilânimes e superficiais, e por causa disso disponíveis para mudar de ideias com a maior ligeireza. Pelo contrário, a máxima supõe que a coerência na palavra ou na acção (podemos dizer, para simplificar, ética, ou valorativa, ou mesmo ideológica) é um aspecto importante da nossa qualidade de vida e por isso não devemos ameaçá-la impensadamente. Para isso é sensato recordar sempre que não dispomos antecipadamente de uma visão suficientemente esclarecida de todos os elementos relevantes que estabelecem o contexto concreto de uma acção futura.
É por causa disto que a moção de censura do BE é interessante. Com ela o BE critica o Governo por ter prometido uma coisa e feito outra, mas não questiona verdadeiramente os motivos que o Governo apresenta para a mudança (segundo o Governo, a alteração é apenas aparente, pois tratar-se-ia agora de um outro tratado europeu...sim, claro).
O BE não critica o Governo por ter feito uma promessa eleitoral defeituosa, que prometia uma acção concreta independentemente das circunstâncias futuras da sua execução. O BE não critica o Governo por ter prometido ao eleitorado uma medida concreta, em vez da fidelidade a uma linha programática ou ideológica. O BE não critica a mediocridade do debate eleitoral dos partidos baseado em promessas eleitorais de fontanários e municipalismos.
Critica apenas o desvio num gesto concreto, contra a sabedoria do velho Bismarck e os tesouros populares da língua portuguesa. E, portanto, em conclusão, releva - com grande proveito para si próprio, já que a isso está intrinsecamente condenado, pelo telhado de vidro da sua inexistência ideológica - o pecadilho eleitoralista de prometer actos em vez de discutir políticas.
Havia um motivo de censura: não se deve conquistar o eleitorado com promessas de medidas tão concretas, como quem atira bifes à matilha; as eleições, pelo contrário, servem para discutir política e ideologia; prometer categoricamente medidas concretas é tão destituído de valor como prometer que nunca se beberá de uma água, é apenas música para o elevador eleitoral. Mas o BE, o nosso partido campeão das práticas eleitorais baseadas em cabazes de compras, cheios de designações das águas a beber e a não beber, a isto nada tem a censurar.
Reparação de uma injustiça e etc. Três em um
8.1.08
Homenagem ao homem que fuma

Eu beijei um homem que fumava.
Eu beijara um homem que fuma.
Eu beijava um homem que fumou.
Eu não beijo um homem que fuma (em princípio).
Eu não beijaria um homem que fumara.
Eu não beijarei um homem que fumava?!
Eu não beijarei um fomem que humou.
Eu bão neijeirei mumómem re qurama.
Homenagem aos logo-intrépidos cronistas do Público (VPV, AB, MST), combatentes do símbolo libertário e civilizacional do canudinho-de-fogo, com aquele amor ao coiso que só o vício pode conferir, de um ou outro modo outrora charmosos a meus tenros olhos, mas que eu hoje apenas beijaria se, de assistir em tempo real a uma discussão tão patentemente efémera e trivial, irrompesse uma brandura (marloniana) pelo meu coraçãozinho de pomba, inundando-o em maternalidades. O que não está a acontecer, até agora.
E a todas as minhas amigas: os homens que fumam tornar-se-ão em breve muito mais malcheirosos e macilentos do que agora. Recomendo a maior presteza na recolha dos últimos beijos toleráveis. A imagem do Brando fica aí para reflexão nisto mesmo a todas as que no fim dos anos 70 dobravam já os cabos da puberdade (às mais novas que isto, o exercício não é acessível, por falta de memória).
5.1.08
Com licença, se faz favor e obrigada. Vá bugiar. Ame muito e volte com elegância
(o bicho do blogger comeu-me o post que eu queria ter posto aqui! não vou voltar a escrevê-lo, mas é inevitável que volte ao assunto. falava sobre a vantagem do amor sobre a reforma do sistema educativo para cidadãs impacientes como eu, que não podem dar-se ao luxo de esperar assistir ao desfile de duas ou três gerações até à visibilidade de resultados em matéria de grunhice nacional urbanita (quer da estirpe afecto-pseudo-educada, quer da estirpe grunho-troglodita. enfim, talvez não fosse assim tão a seco. e tinha, muito a propósito, o link para a bibliocura, esse sucedâneo do amor. aqui)
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Lullaby