11.6.06

Ciências do natural #1

Chegar junto à parede, rodar sem esforço um brilhante objecto, frio mas agradável ao tacto, que existe para a minha mão. Ver, ouvir e cheirar a água que jorra. Ver, ouvir e cheirar a água. Que jorra. Seguir-lhe os trajectos. Submeter-lhe o corpo, receios nenhuns. A água viajou muito para chegar a mim e continua a verter. Não sei exactamente de que leito a tiraram, quantos quilómetros andou, a cor e a textura das vias por onde andou, tratos fiduciários que lhe foram dados. E é tépida. Sai da parede da minha casa, tanta quanta quero. Não a carrego, não a regateio. Posso abrir a boca e engoli-la sem ficar doente. A água continua a jorrar. Estou vários metros acima do solo, a distâncias mensuráveis de Gibraltar, do Mar Negro, da Austrália e de Mercúrio. A água corre ainda abundante e morna. Posso fazer isto todos os dias. Faço-o tantas vezes que já me parece uma coisa natural. Já nem lhe chamo chuveiro. Fico ciente.

2 comentários:

Graza disse...

É, nem nos damos conta disso. Como se passasse a ser a sim, p'ra sempre...

Carlos Indico disse...

Felizmente há gente como tu, que pensa todos os instantes da vida, mesmo os mais rotineiros que por si mesmos repetidos em tempo e fisicamente, no quotidiano aparentemente (!) deixam de existir.
Eu, pessoalmente, enquanto me banho estou a fantasiar noutra vida. Que lugar mais intimo que a casa de banho como tu as descreves? A Urbanidade explicita numa válvula metálica que tocada por nós faz a toda a diferença dos mundos deste planeta!
Parece um milagre.