As homenagens a vítimas podem e devem ser feitas, na minha opinião. Aos indivíduos, não às bandeiras. Embora seja certo que precisamos de um nome para os evocar e esse nome é frequentemente referente do mesmo elemento de identificação que consta de bandeiras, o mesmo que suscitou o ódio ou que alimenta a intolerância. Se as homenagens servirem para revisitar a nunca acabada reflexão sobre as questões da intolerância ou os motivos do ódio e forem uma forma de acção que os contraria, tanto melhor. A memória das vítimas é a nossa. Se somos descendentes das vítimas ou dos carrascos, tanto faz. Não respondo pelos meus antepassados, nem sei se me reconheceria neles, nem sequer sei se seriam ou não meus inimigos, nem quais deles eu escolheria como meus legítimos ascendentes. Sei que se escolher os que foram vítimas, faço a homenagem a mim mesma e se escolher os que foram carrascos assumo uma inútil e sobretudo anuladora culpa. E com isso, em qualquer desses casos, perco o sentido da homenagem às vítimas. Que pode e deve ser feita reforçando a minha memória contra a intolerância e o ódio.
9 comentários:
Do melhor que li, sobre este assunto, até agora.
Obrigada, Susana.
«Sei que se escolher os que foram vítimas, faço a homenagem a mim mesma e se escolher os que foram carrascos assumo uma inútil e sobretudo anuladora culpa.»
Percebo a reserva em relação ao meu "em representação dos perpetradores". Concordo que uma culpabilização é contra-producente. Mas, correndo o risco de parecer algo esotérico: será possivel comemorar um crime colectivo como este só representando as vítimas?
Pois é, mas isso torna o exercício fácil e bastante fútil. Nós os bons, lembramos os crimes do maus, dos outros. O que queria que estivesse presente na comemoração, é que cada um de nós é um potencial assassino, um potencial membro do mob, ou um destes que assistiram calados ao massacre. Só se reconhecemos isto, aquela recordação serve para alguma coisa. Os mortos de então já foram comidos pelos vermes, e se houver um Céu, deve fazer-lhes pouca diferênça lá em cima o que nós fazemos com as nossas velas. Familiares em luto também já não há. (Que ninguém me venha a armar-se nisto.)
Mas sim, no sentido simbólico, que é o único que interessa neste exercício, os assassinos somos nós também.
Muito bem, Susana!
Eu, ao associar-me a esta iniciativa (independentemente da minha presença física no Rossio), faço-o também por mim próprio, faço-o contra as discriminações étnicas, e faço-o, porque não?, em memória de todas e cada uma das vítimas daquele massacre.
É isso Susana!
Tenho tentado descobrir alguma força que me anime a ter uma vela na mão naquele dia, por aquele motivo. Mas é tão lonnnnge! Conseguirão os que forem arranjar a "verdade" e a "força" que um acto destes exige, por forma a que não não resulte num exercício panfletário aproveitado por vítimas ou assassinos.
É estranho que as imagens que me vêm à memória enquanto penso nestas vigías, são aquelas em que me vi à chuva com meia dúzia de Timorenses que arrastava os seus panos de protestos contra os massacres Indonésios muitos anos antes da Independência. Escandalosamente e tristemente só. Mas isso não foi há 500 anos. Aínda hoje me sinto também, vítima.
"Se somos descendentes de...ou...".
Somos todos de tudo. Tribalizar é a verdadeira aposta em que o assado seja hoje.Não se trata de esquecer ou rememoriar, pois acontece todos os dias. Trata-se de exequidade. Agora, nesta hora em que teclo está a acontecer um genocidio.Todos os dias, sem distinção de nacionalidade, raça, religião, sexo, ideias. Fechar este ciclo de ferro e fogo, sim.
"O ASSADO", meu Deus perdoai-me pela involuntária blasfémia: O PASSADO.
A tecla P só a murro!
MC, RAA, Graza, obrigada.
Lutz, quando digo que a memória é a nossa e menciono a intolerância e o ódio estaria a tentar apontar que as homenagens a vítimas de intolerância e de ódio também são exercícios sobre a nossa própria capacidade de intolerância e de ódio. Não se trata de nós, os bons, lembrarmos os coitadinhos e os maus; nisso concordo inteiramente contigo. Não sei se a "representação dos perpetradores" contém mais do que isso que refiro (como eles eu também sou capaz de intolerância e ódio; quero isso? porquê? porque não?). Há um ponto em que faço resistência para não me aproximar dele: a identificação com os "maus", sobretudo com os maus do passado, de um tempo em que eu não podia ter tido quaqlquer espécie de acção, por sermos da mesma "tribo".
Carlos Indico: irresisto: viva a tecla P! A falta dela torna a frase ainda mais interessante."Tribalizar é a verdadeira aposta em que o assado seja hoje". O assado é sempre hoje.
"Fechar este ciclo de ferro e fogo, sim." Este assado de olho por olho, dente por dente. Isso sim, é menos aposta de sentido único.
As teclas P conluiaram-se, Carlos.
Enviar um comentário