19.8.06

Sweet Fifteen, Never Kissed Before (Anymore) - Sweet Sour Fifteen - SS 15

Christoph Schmidberger, Untitled. 2005 Predominante a compaixão, lamenta-se o homem que viveu o peso silente de opções que eram naqueles dias tão banalmente prováveis e fáceis e tentadoras quão banal é, quase sempre, o acto leviano, cúpido, maldoso, rapace.
Predominando a mágoa, predominando a fidelidade, predominante a raiva pelo sofrimento inútil, o homem não tem redenção, nem desculpa.
Lamento o homem. Se tivesse sabido hoje que ele tinha sido o assassino do meu pai, do meu filho, do meu amigo, dos meus, não saberia encontrar apaziguamento para a minha raiva, talvez lhe arrancasse eu própria os olhos. A raiva em que se transforma uma mágoa assim é justa; bem como o nojo, que é uma forma de raiva surda.
A raiva justa, todavia, desculpa-se, compreende-se; em nenhum momento se confunde com um critério racional de agir, de ajuizar. A não ser que se trate de agir ou ajuizar perante a impureza ritual, a da violação da regra sacralizada em tabu, em vez de agir ou ajuizar sobre a violação de um preceito de conduta. A raiva justa compreende-se; a condenação à impureza verifica-se.
Lamento o homem. Pela banalidade, pelo peso do silêncio e, agora, pelo nojo.

3 comentários:

falcao disse...

Susana
O passado, e o lamento está sempre presente assim mesmo, tambem o mal que foi feito está concluído sem remédio.
Qizas o homem encontre no arrependimento (Desespero Humano) a sua salvacao

cbs disse...

"Se tivesse sabido hoje que ele tinha sido o assassino do meu pai, do meu filho, do meu amigo, dos meus"
é pá!...

começo a sentir-me como o Grass.
o que foi a vida dele nessa altura, alguém sabe, antes de o condenar?

a organização era um nojo racista, mas duvido que a maioria dos alemaes a visse como a vemos, até estava na moda...
provávelmente o homem não matou ninguém e quem sabe se não lhe terá moldado a visão oposta da vida, que depois escreveu.

eu não o julgo, Susana
(jágora fui da mocidade portuguesa, mas não matei ninguém :)

Anónimo disse...

Ordinário desaire de tudo o que é muito celebrado antes é não chegar depois ao excesso do que foi concebido. Nunca o verdadeiro pôde alcançar o imaginado, porque fingir perfeições é fácil; difícil é consegui-las. Casa-se a imagi­nação com o desejo e concebe sempre muito mais do que as coisas são. Por maiores que sejam as excelências, não bastam para satisfazer o conceito, e, se o enganam com exorbitante expectação, é mais rápido o desengano que a admiração. A esperança é grande falsificadora da verdade: que a cordura a corrija, fazendo que a fruição seja superior ao desejo. Princípios de crédito servem para despertar a curiosidade, não para empenhar o obje­cto. Melhor resulta quando a realidade excede o conceito e é mais do que se acreditou. Essa regra faltará no que é mau, pois ajuda-o a própria exageração; desmente-a o aplauso, chegando a parecer tolerável o que se temeu ser ruim ao extremo.

Baltasar Gracián y Morales