
Se um embrião é, por natureza, uma entidade descartável - e será, assim, se assim se quiser, um caso de vida humana descartável, so is life - profusamente sustentada por tantos óvulos e tantos espermatozóides em constante reboliço, que andam por aí para isso mesmo, a identidade ainda o é muito mais. Com a mínima diferença de que não o é por natureza. Troca-se o objecto amado, deliquesce-se o sujeito, um nome dito outramente - será o meu? soa diferente, quem serei? Descartável esse eu que vive do nome, e já nem falo dos números de cidadanias e pertenças que um dia, dizem-no ministros, serão únicos - o que para o efeito pouco importa. Já nem falo de ruas e andares, de endereços electrónicos, de ícones e santinhos, etiquetas de casacos. Nem do cartão de eleitor, nem do nome, de novo, declamado por um oficial de justiça num claustro que também pode ser de hospital, para receber uma pena ou uma pica. Há quem se tome pela sua identidade, isto é, pelas suas identidades. Descartáveis. Há um país inteiro a boiar nisto. Como se pode desejar bom natal?
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