dos anjos? e mesmo que um me apertasse
de repente contra o coração: eu morreria da sua
existência mais forte. Pois o belo não é senão
o começo do terrível, que nós mal podemos ainda suportar,
e admiramo-lo tanto porque, impassível, desdenha
destruir-nos. Todo o anjo é terrível.
E assim eu me reprimo e engulo o chamamento
dum soluçar escuro. Ai! de quem poderíamos
nós então valer-nos? Nem de anjos, nem de homens,
e os bichos perspicazes repararam já
que nós não estamos muito confiados em casa
neste mundo explicado. Resta-nos talvez
qualquer árvore na encosta, que de novo a vejamos
diariamente; resta-nos a estrada de ontem
e a fidelidade amimada dum costume,
que gostou de estar connosco, e por isso ficou e não se foi.
(...)
Um livro que se tornou urgente porque da boca de Paulo Quintela as traições a Rilke vêm com um sabor compadecido. Como se dissesse, como o amante irlandês, já que não posso ser fiel, serei leal. Céptica, recapitulo que provavelmente os anjos desimportam-se até desse preciosismo técnico-ético de menino-da-mamã. Sentimental, fungo: a fidelidade amimada dum costume que gostou de estar connosco, e por isso não se foi . Há lá coisa mais séria.
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