O Lutz e a Abrunho tiveram a amabilidade de fazer recentemente referência a um post meu sobre o casamento, escrito já há algum tempo, em que me empenhei um pouco mais.
Na verdade, tomou-me imenso tempo escrever esse post, foi um fim-de-semana quase inteiro que ficou ali. A impossibilidade de duas pessoas do mesmo sexo obterem acesso à celebração do casamento civil é uma situação que me provoca indignação por ver aí uma discriminação injustificada. Confesso, no entanto, que no meu íntimo a este empenho vem atrelada uma certa reserva, ou pelo menos, uma certa circunspecção.
Explico-me: o grande argumento, e é um argumento usado de boa fé, para defender a eliminação do monopólio do acesso ao casamento por pares portadores de sexos de classes diferentes (sim, refiro-me à genitália, que é onde reside o elemento determinante do critério de acesso), é a sustentação de que isso restringe injustificadamente a esses pares o acesso a um pacote de efeitos jurídicos, alguns dos quais não acessíveis por outras vias.
Agora começa a tal circunspecção. É que o motivo pelo qual se justifica que os pares (homossexuais ou outros) possam ter acesso a esses efeitos legais do casamento é a conveniência que esse gadget jurídico pode trazer às pessoas, reforçando a convergência prática dos seus planos de vida, aumentando, digamos assim, a viabilidade e o cimento dessa estrutura, a união. Mas então, isto significa que estamos a dizer que os efeitos legais - o mundo das leis, essa dimensão opressiva e artificial - são bons para a felicidade das pessoas?!
A resposta é sim, os efeitos legais, aqui e acoli, só podem mesmo ser suportados se tiverem esse efeito em vista...!
Reviro-me e incomodo-me com isto, lá no meu íntimo, habituada a pensar que só o amor redime, que existe o lado de dentro e o lado de fora, a cama e a cidade, o lençol e a pátria. Gostava de dizer, quero lá saber da cidade! L'amour, isso sim, isso é que é... Não podemos dizer isso, todavia. Calemo-nos, portanto.
Mas, aproveitando o momento revivalista vivido neste blogue, outrossim exangue, e ciente de que há um traço de enjoativo narcisismo nesse gesto, pelo qual me penalizo, recordo aqui, como quem lambe a pata ferida, um dos textos que mais felicidade a escrever me trouxe, esta pequena história...
2 comentários:
um dia assiteremos a um padre homosexual a celebrar um casamento homosexual sem tabus..mais a sério, nao tenha nada contra, não é a orientação sexual q faz o carácter da pessoa :)
'Bora lá um postzinho: temos saudades ... :-)
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