Ao elevar-se a questão do estatuto do embrião a elemento central na discussão da legitimidade do aborto faz-se de conta que se esquece, ou esquece-se mesmo, que hoje em dia os embriões humanos ocorrem em dois meios: no corpo humano e em meio laboratorial?
Os laboratórios congelam embriões excedentários, assim adiando o momento da sua inviabilidade. Entre a decisão laboratorial de congelar e a decisão natural do desmancho da gravidez não há diferença de monta do ponto de vista do futuro do embrião - no segundo caso, fica logo inviabilizado; no primeiro caso, é elevadíssima a probabilidade de vir a acontecer-lhe o mesmo.
Por outro lado, descartar embriões - imediatamente ou a prazo, congelando-os - nos laboratórios é uma decisão que tem pouco ou nenhum significado existencial para o seu autor. Ninguém vai preso por isso.
Em contrapartida, permitir, ou não, a continuação da gravidez é uma decisão (visceralmente) existencial. Mas pode-se ir presa por isso.
Centrar a questão ética suscitada pelo aborto numa pretensa defesa da vida humana extensível à protecção dos embriões demonstra claras opções quanto à valia ética desses receptáculos em nada superiores a tubos de ensaio, excepto para efeito de censura, as mulheres férteis.
A pergunta não é "quando está legitimada uma mulher a abortar?"
A pergunta é "é legítimo negar às mulheres a prerrogativa de interromperem uma gravidez indesejada?"
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