5.6.07

Dorme

Se eu esmagar a mosca que se prepara para profanar os cabelos do meu amado adormecido, estou a esmagar um animal. Estaria também a esmagar um animal se fizesse por acertar, com os pneus do automóvel, num coelho encadeado pelos faróis que se cruzasse comigo numa estrada à noite, entretém de rapazolas numa terra de que me lembro.
Se disser que acho irrelevante ou legítimo o primeiro esmagamento e cruel o segundo estou a aplicar um duplo critério, disposição tão dissonante nesse momento em que o mundo se desfaz em beleza?
Se disser que sim, perco a perfeição do momento, do amado incólume velado pelo meu olhar pleno do que é bom e bonito. E perco a utilidade da expressão "duplo critério". Porque esse sentido em que utilizaríamos a expressão é, na sua aderência rígida ao mundo, tão formal, tão pouco plástico que deixa de poder de servir de aparelhómetro de bolso para avaliar a correcção de juízos e acções, de que não devo desviar-me para prolongar a perfeição do instante. A mosca e o coelho são "diferentes", "não são iguais", diz-me a minha parte que sabe o que posso ou não fazer sem nojo de mim.
Uma mosca em si não sei o que é, recordo-me a tempo. Afasto a ideia de pequenos mamíferos felpudos e mornos; falo é de embrulhos de quitina automoventes com patas peludas que podem profanar a testa do meu amado adormecido.

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