As idas ao cabeleireiro são sempre muito instrutivas. Para além de local de leitura de revistas que me ajudam a recordar que há mais mundo que o meu mundo, levo sempre de lá uma quantidade de informação refrescante sobre a vida.
Na última ida, havia um bebé que passava de mão em mão. A menina das unhas e a menina das tintas, nenhuma delas em botão, outra cabeleireira mais velha também, disputavam as gargalhadas de um miúdo de cerca de um ano.
Faziam muito bem, estavam a interagir com a criança criando-lhe uma convicção de amabilidade do mundo, e no retorno dessa via, dele próprio.
Percebo perfeitamente, depois disto, desta demonstração corrente do interesse que se suscita enquanto bebé, que o caminho da vida seja uma progressiva diminuição de expectativas sociais. As caras vão-se fechando com o passar do tempo. A meio da vida este processo nem sempre é evidente. Todas as minúsculas situações de poder, que quase toda a gente detém em maior ou menor extensão dentro dos minúsculos (ou maiúsculos) círculos da vida, desde o império doméstico e familiar à posição laboral ou em qualquer outro conjunto, incluindo os círculos em que as proezas intelectuais contam, podem confundir um indivíduo quanto ao seu real merecimento de olhares dóceis, amigáveis ou festivos.
Mas, ao que parece, há um dia em que só o mero facto de ser cumprimentado passa a contar, em que qualquer gesto de circunstância social medianamente desincumbido provoca uma onda de gratidão.
É aquele sentimentalismo excessivo dos velhos por dá-cá-aquela-palha em que se começa a reparar ainda muito cedo.
O caminho desta desolação começa com as dúvidas da adolescência, passa pelo cepticismo, pela banalíssima decepção do meio da vida e acaba em olhos húmidos por se receber uma atenção. Ao que parece, o passar do tempo diminui progressivamente todas as expectativas sobre o nosso real valor, já nem digo sobre a necessidade da nossa existência.
A verdade quanto ao miúdo do cabeleireiro é que elas, as mulheres sem frescura e cansadas, sabedoras dos artifícios de que dependem, diziam: "nunca ninguém me ama o suficiente, faz-me acreditar que estou aqui para ainda ser feliz, toma o meu melhor mais jocoso e mais alegre cumprimento". E ele, não menos que elas, estava a dizer "vales a pena, fazes-me sorrir, a tua pessoa é única e adorável".
2 comentários:
Na minha vida não foi assim. Tendo boas memórias do tratamento em casa, encontrei uma certa crueldade fora de casa nas crianças e nos adolescentes. O mundo adulto tem sido para mim mais gentil, talvez seja só verniz mas é mais agradável. Lembro-me também da esperança que me despertou a História, quando ao tomar contacto com o Egipto me apercebi que as convenções sociais abafantes do pré 25 de Abril não teriam que ser eternas poi snão tinham existido desde sempre. Adultos mais gentis, relações sociais mais soltas, tenho tido sorte...
oh, um sorriso!
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