
O pai disse-lhe "não é o fim do mundo, não é o fim do mundo".
O outro pai disse-lhe "tudo se resolve, tudo se resolve".
A mãe mantinha-se jovem. A mãe disse "que horror".

Predominante a compaixão, lamenta-se o homem que viveu o peso silente de opções que eram naqueles dias tão banalmente prováveis e fáceis e tentadoras quão banal é, quase sempre, o acto leviano, cúpido, maldoso, rapace.
Há dias que não passaram, outros que se degradaram no uso da recordação e se tornaram miragens. Há muitas coisas para fazer sempre, há sempre muitas coisas, os dias são vítima disso. Em alguns dias bem-aventurados, pode-se soltar o tempo de mergulhar, os olhos presos pelos olhos. Quem diz os olhos, diz uma área circunscrita de pele, uma sombra fresca, uma guinada de som, uma ideia cheia e sumarenta. Fazem-se instantes que são infinitos contínuos, nós mesmos enrolados em clausura firme, num tempo que parece para sempre, para sempre, fincados num nó apertado da memória. É daí que depois espreitamos os dias discretos que passam, de onde tantas vezes estamos ausentes.
As fêmeas antílopes cortejam-se entre si e acariciam despudoradamente a genitália das suas preferidas, esteja ou não algum macho túrgido por perto. Os machos golfinhos juntam-se aos pares, podem até admitir fêmeas passageiras, e vivem nessa dupla longos anos de dedicação e meiguices. Os bonobos baralham as regras e acasalam com tudo o que vier à rede: fêmeas, outros machos, sem qualquer atenção à posição hierárquica na comunidade. Os babuínos, ferozes guerreiros, amam-se entre si, como gregos virtuosos. Há carneiros de porte castrense que são bichas impenitentes. E os polvos, até os polvos, querem lá saber da transmissão dos genes e não perdem oportunidade de um one-night-stand nas noites eternas dos mares profundos, com um outro bacano qualquer, ainda que de outra espécie, ainda que quatro vezes maior, que esteja a fim da interacção mais misteriosa da natureza. Nem os patos escapam à barafunda, incluindo em respeitáveis famílias um macho suplente para todo o serviço, inclusivamente o baby-sitting de patinhos satisfeitos e bem-comportados. Isto tudo aprendi eu ontem depois de me ter baralhado entre as folhas repolhosas de um Expresso deslavado, que em boa hora troquei por um programa da dois.